terça-feira, janeiro 22, 2019

Memórias de Don Shirley

Don Shirley (1927-2013) é uma daquelas referências da história do jazz que foi ficando enquistada na noção de "talentoso intérprete"... Dito de outro modo: a sua sofisticada arte de pianista merece ser redescoberta e revalorizada.
E não há dúvida que o filme Green Book, de Peter Farrelly, está a contribuir para que isso aconteça. Nele encontramos memórias de um período muito particular da vida pessoal e artística de Shirley, em digressão pelo Sul profundo dos EUA, na década de 1960, tendo como motorista Tony Lip (1930-2013), um italo-americano que viria a desempenhar alguns papéis emblemáticos em cinema e televisão (com destaque para a série Os Sopranos). O racismo que ambos encontram funciona como motor dramático de uma redescoberta, por parte de Shirley, da sua condição de afro-americano; mais do que isso, desencadeia um processo de mútua revelação dos dois homens — Mahershala Ali e Viggo Mortensen são os intérpretes principais.
Escusado será dizer que as performances musicais de Shirley desempenham um papel importante na dinâmica do filme. Eis dois dos seus registos clássicos: Water Boy, um single de 1961, e uma versão de Bridge over Troubled Water, incluída numa antologia de 1972.




>>> Don Shirley no AllMusic.
>>> Site oficial de Green Book.

Um pintor da Alemanha

Florian Henckle von Donnersmarck, eis um nome a não esquecer: já ganhou um Oscar, em 2007, e está à beira de aparecer entre os nomeados deste ano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Janeiro).

O título do novo filme do alemão Florian Henckle von Donnersmarck, Nunca Deixes de Olhar, condensa uma lição que, na infância, Kurt Barnet recebeu da sua tia, Elisabeth. Nos tempos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, vivendo na Alemanha de Leste, Kurt cresceu num ambiente em que as directrizes oficiais contrariavam qualquer invenção subjectiva na expressão artística — tratava-se de construir o “socialismo real” através da anulação das singularidades humanas. Face a tal conjuntura, Elisabeth ensinou o pequeno Kurt a descobrir os prazeres artísticos: “Nunca deixes de olhar...”


Tudo indica que Nunca Deixes de Olhar vai ganhar outra visibilidade através dos prémios da Academia de Hollywood. De facto, o filme está na lista dos nove títulos da qual sairão os cinco que vão ser nomeados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. E se é verdade que Roma, de Alfonso Cuarón, é 99,9% favorito, não é menos verdade que Nunca Deixes de Olhar corresponde ao mesmo desejo primitivo de cinema. A saber: dramatizar as grandes convulsões históricas através dos destinos individuais.
Donnersmarck, convém lembrar, não é estranho a este tipo de experiências. Foi ele que dirigiu As Vidas dos Outros, também sobre a Alemanha de Leste, curiosamente consagrado com o Oscar de melhor filme estrangeiro atribuído em 2007 (referente à produção do ano anterior). Agora, volta a expor-nos as tensões internas de um país que, afinal, tinha medo das suas próprias imagens.
A personagem de Kurt Barnet é tanto mais interessante quanto se inspira na trajectória pessoal do grande Gerhard Richter (n. 1932), por certo um dos maiores artistas visuais da nossa época. Fascinantes são as cenas em que acompanhamos Kurt na tentativa de encontrar respostas para duas perguntas tão básicas quanto essenciais: “Afinal, o que devo pintar? E como?”
Se o leitor se recorda de um filme como A Bela Impertinente (1991), de Jacques Rivette, poderá antecipar um pouco aquilo que encontra aqui. São filmes bem diferentes, como é óbvio, das personagens aos modos de encenação, mas expõem a mesma verdade interior da pintura — descobrimos esses momentos mágicos em que o quadro deixa de ser uma mera acumulação de formas para se transfigurar numa visão do mundo.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

26 = 3.800.000.000

Oxford Committee for Famine Relief — constituída em 1942, agregando duas dezenas de organizações de cariz humanitário, a Oxfam publicou um relatório em que dá conta das desigualdades globais na distribuição da riqueza. Com uma estatística trágica: 26 multi-milionários concentram tanta riqueza quanto 3.800 milhões de habitantes do planeta Terra (metade da humanidade) — sobre tal indecência, leia-se o dossier hoje publicado pelo Libération; no seu site, a revista Time trata a notícia com um video que inclui um breve depoimento de Winnie Byanyima, directora executiva da Oxfam International. 

Videojogos — vida e morte

Ver ou rever Ready Player One num ecrã televisivo pode ser uma sugestiva descoberta; Steven Spielberg ilustra, ao mesmo tempo que desafia, os valores da cultura dos videojogos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Janeiro).

Sempre que ouço alguém com responsabilidades no domínio da pedagogia social dar conta das suas preocupações com o “tempo” que muitos adolescentes gastam com videojogos... pois bem, tenho dificuldade em acreditar que pensaram realmente na complexidade do assunto que estão a encarar. Será mesmo uma mera questão de... tempo?
Entenda-se: não me apresento como iluminado guru dessa complexidade. Devo mesmo confessar o misto de perplexidade, hesitação e insegurança com que observo muitas componentes da nossa idade digital.
Seja como for, considero mera puerilidade “científica” o tratamento da poderosíssima cultura dos videojogos como um banal problema de “ocupação temporal” dos jovens (e adultos, já agora). Até porque semelhante profilaxia só pode atrair outro discurso piedoso — tratar-se-ia de dedicar mais tempo a “outras” actividades — que reduz a nossa existência social a uma aritmética de horários mais ou menos redentores.
Relanço estas dúvidas a propósito da (re)visão do filme Ready Player One, de Steven Spielberg, num canal do cabo (TVCine). Desde logo para sublinhar uma evidência paradoxal, porventura incómoda: a qualidade visual da exibição televisiva é francamente superior à que encontrei na sala escura. O que, aliás, apenas reforça a condição ambígua do fascinante trabalho de Spielberg: por um lado, ao adaptar o romance homónimo de Ernest Cline, o realizador de E.T. (1982) e A Lista de Schindler (1993) construiu uma fábula crítica sobre um futuro próximo em que o poder dos videojogos se tornou absolutamente dominador, ocupando, literalmente, o quotidiano social; por outro lado, o seu filme existe “mais” e “melhor” nesse meio digital que é, de uma só vez, o seu tema e fantasma.
O que Ready Player One coloca em cena não é apenas um tempo próximo (o ano de 2045) dominado pelos videojogos. Spielberg apresenta-nos uma sociedade (em rede, hélas!) que desconhece as relações humanas através do olhar, das palavras, das trocas afectivas e físicas corpo a corpo. Todos passaram a viver por delegação do seu avatar — o virtual não é a “outra” dimensão, mas o mapa compulsivo de todas as trocas entre os seres humanos.
O que, evidentemente, nos remete para o nosso presente: a lógica visual e, no limite, moral dos videojogos funciona muito para além de uma cândida alternativa lúdica. O que Spielberg expõe é o triunfo de um sistema cultural sustentado por um gigantesco aparato tecnológico em que viver e morrer não passam de incidentes audiovisuais que a fase seguinte do jogo irá superar, rasurando-os da memória — em boa verdade, assistimos ao esvaziamento do próprio conceito de memória e dos seus valores existenciais, individuais e colectivos.


De acordo com uma ideologia escapista há muito consagrada, o desafio expressivo de Ready Player One esteve longe de desencadear grandes reflexões políticas: somos, afinal, dominados pela chantagem comercial segundo a qual o espectacular não passa de um “divertimento” sem consequências.
Numa contradição plena de riscos, Spielberg exprime-se no interior da própria matriz de espectáculo de que a sua visão tenta demarcar-se. Trata-se de recomeçar a pensar a partir de uma ideia radical. A saber: nunca o divertimento foi tão poderoso na configuração dos nossos modos de olhar e habitar o mundo.

>>> Google: sobre a "ideologia dos videojogos".

Alan R. Pearlman (1925 - 2019)

Engenheiro americano, especializou-se na fabricação de sintetizadores que desempenharam um papel fundamental na evolução de muitas linguagens musicais: Alan R. Pearlman faleceu no dia 5 de Janeiro, em Newton, Massachusetts — contava 93 anos.
Que há de comum entre os temas The Robots, Chameleon e The Hand that Feeds, respectivamente de Kraftwerk, Herbie Hancock e Nine Inch Nails? Pois bem, todos eles integram sons gerados por sintetizadores concebidos por Pearlman através da sua empresa ARP Instruments, Inc. (fundada em 1969, desmantelada em 1981). Mais ainda: o tema de cinco notas que permite comunicar com os extra-terrestres em Encontros Imediatos do Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg, foi gerado por um ARP 2500, enquanto a voz do robot R2-D2, em A Guerra das Estrelas (1977), de George Lucas, resultou de sons de um ARP 2600 combinados com sons naturais. Num certo sentido, ele foi um músico que, embora não compondo, criou condições para novas formas de composição e interpretação.

>>> Chameleon, do álbum Head Hunters (1973), de Herbie Hancock + cena de comunicação musical em Encontros Imediatos do Terceiro Grau (com François Truffaut no papel do cientista Claude Lacombe).




>>> Obituário no New York Times.

domingo, janeiro 20, 2019

Andrew G. Vajna (1944 - 2019)

De origem húngara, triunfou como produtor no seio da indústria dos EUA: Andrew G. Vajna faleceu no dia 20 de Janeiro, em sua casa, em Budapeste, na sequência de doença prolongada — contava 74 anos.
De seu nome András György Vajna, foi um dos húngaros que, face às convulsões políticas do seu país em meados da década de 50, abandonou o país (com apenas 12 anos) — a Cruz Vermelha garantiu-lhe apoio no Canadá, mais tarde reencontrando os pais, que tinham fugido separadamente, em Los Angeles. Estudou na Universidade da California. O momento decisivo para o seu envolvimento com o cinema ocorreu em 1975, em pleno Festival de Cannes, quando se associou ao libanês Mario Kassar para fundar a Carolco, empresa de produção e distribuição internacional.
A lista de sucessos de Vanja (com a Carolco e, mais tarde, a Cinergi) é, por certo, mais conhecida dos espectadores de todo o mundo do que o seu nome. Tudo começou com First Blood (1982), primeiro título da série 'Rambo', com Sylvester Stallone (entre nós A Fúria do Herói), seguindo-se, entre outros, Total Recall/Desafio Total (1990), com Arnold Schwarzenegger, Nixon (1995), a biografia realizada por Oliver Stone, e Evita (1996), o musical de Alan Parker com Madonna.
De retorno à Hungria em 2011, desempenhou um papel central na reconversão do sistema de financiamento da produção cinematográfica nacional, a par da sua promoção internacional — o maior sucesso desse período foi o Oscar de melhor filme estrangeiro conquistado por O Filho de Saul (2015), de László Nemes.

>>> Lições aprendidas com o financiamento dos filmes: Andrew Vajna responde à série 'Cannes Eco' (edição de 2012).


>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

Para onde vão as séries de televisão?
— SOUND + VISION Magazine [27 Jan.]

As séries mudaram a televisão, recebendo influências do cinema e contaminando também muitos filmes — no nosso Magazine, na FNAC, propomos uma viagem através de uma das zonas mais populares do consumo audiovisual, perguntando também como estão a evoluir os modelos de ficção. Será que ainda faz sentido separar os conceitos de "cinema" e "televisão"?

* FNAC / Chiado: 27 Janeiro (18h30)

sábado, janeiro 19, 2019

História(s) de violência

O tema da violência ao longo da história do cinema é pretexto para um ciclo no Espaço Nimas (até 29 Janeiro): de clássicos como Scarface, o Homem da Cicatriz ou O Silêncio dos Inocentes até raridades como Cães Danados — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Janeiro).

Convenhamos que não será possível fazer uma história das formas de representação da violência em cinema através de oito filmes... Seja como for, o ciclo “Uma história da violência (no cinema)”, além de ser apresentado com um subtítulo prudente (“alguns exemplos”), possui a virtude de contrariar o consumo passivo, automático e “pipoqueiro”. E se é verdade que os ciclos temáticos estão a regressar a alguns sectores da exibição cinematográfica, tanto melhor!
Os filmes a passar no Espaço Nimas (sempre às 18h15) são suficientemente díspares para que evitemos qualquer generalização temática, descritiva ou interpretativa. O mais recente da selecção — O Capitão (2017), de Robert Schwentke — lembra-nos mesmo que não há uma definição absoluta, muito menos determinista, da violência: afinal de contas, Schwentke filma um soldado alemão que, no final da guerra, se transfigura (violentamente) porque começa a usar uma farda de... capitão.
Alguns títulos transportam o rótulo mítico de “clássicos”, até porque se inscreveram no imaginário popular como exercícios de confronto com as manifestações mais radicais, porventura mais irracionais, da violência. São eles: Massacre no Texas (1974), de Tobe Hooper, O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme, e Cães Danados (1992), de Quentin Tarantino.


No centro do ciclo surge Saló ou os 120 Dias de Sodoma (1975), título final de Pier Paolo Pasolini, deslocando a obra do Marquês de Sade para o contexto da República de Salò, na zona controlada pelos fascistas nos anos finais da Segunda Guerra Mundial. Filme difícil de enfrentar e compreender (falo por mim, antes do mais), trata-se de um dos exemplos mais elaborados, e também mais perturbantes, da capacidade do cinema nos fazer sentir como o exercício do poder envolve sempre alguma forma de hierarquização dos corpos — a sua herança política e pedagógica permanece essencial.
A produção mais antiga a apresentar é Scarface, o Homem da Cicatriz (1932), com Paul Muni sob a direcção de Howard Hawks, por certo um dos momentos mais emblemáticos na história dos gangsters em cinema. Há ainda Brincadeiras Perigosas (1997), de Michael Haneke, autor cuja obra é toda ela um conjunto de variações sobre o(s) desejo(s) de violência, sobrando o momento mais insólito: Cães de Palha (1971), de Sam Peckinpah.
Porquê insólito? Porque, infelizmente, o nome de Peckinpah quase foi rasurado da actualidade cinematográfica — nos canais de televisão, por exemplo, os seus filmes são presença rara. Encenando o sofrimento de um casal (Dustin Hoffman/Susan George) assediado por um bando de malfeitores na sua casa de campo, Cães de Palha talvez não seja um dos melhores filmes de Peckinpah. Não possui, pelo menos, o requinte formal de Os Pistoleiros da Noite (1962) ou A Quadrilha Selvagem (1969). Ainda assim, pode ser uma excelente via de entrada no universo de um dos autores que, ao longo das décadas de 60/70, mais longe levou a releitura crítica do imaginário (bélico) dos EUA — também ele merece um ciclo.

* * * * *
PROGRAMA

17 JAN
FUNNY GAMES / BRINCADEIRAS PERIGOSAS, Michael Haneke (1997)
18 JAN
RESERVOIR DOGS / CÃES DANADOS, Quentin Tarantino (1992)
21 JAN
DER HAUPTMAN / O CAPITÃO, Robert Schwentke (2017)
22 JAN
SALÓ OU OS 120 DIAS DE SODOMA, Pier Paolo Pasolini (1975)
24 JAN
SCARFACE, O HOMEM DA CICATRIZ, Howard Hawks (1932)
25 JAN
THE TEXAS CHAIN SAW MASSACRE / MASSACRE NO TEXAS, Tobe Hooper (1974)
28 JAN
STRAW DOGS / CÃES DE PALHA, Sam Peckinpah (1971)
29 JAN
THE SILENCE OF THE LAMBS / O SILÊNCIO DOS INOCENTES, Jonathan Demme (1991)
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NIMAS / Diariamente às 18h15 / Bilhetes: 6€ / Classificação: M/18

sexta-feira, janeiro 18, 2019

Fúria, empatia e silêncio — jazz

A capa parece ser um fotograma de uma história escabrosa... Ou talvez não... Falamos de Peter Vandenberghe (teclas), Teun Verbruggen (bateria) e Kristof Roseeuw (contrabaixo), trabalhando como uma espécie de derivação da "big band" Flat Earth Society (à qual pertenceram): os Too Noisy Fish são belgas e, para lá do seu delicioso nome, exprimem-se numa linguagem jazzística tecida de muitas e sólidas cumplicidades, oscilando sempre entre a gravidade e a ironia. O seu novo álbum tem um título à altura: Furious Empathic Silence. Eis um teaser, tão breve quanto eloquente, e o tema Can't Stop.



A IMAGEM: Erwin Olaf, 2008

ERWIN OLAF
Fall - Still Life 6
2008

quinta-feira, janeiro 17, 2019

Na expressão "rede social"
o que significa a palavra "social"?

https://www.facebook.com/zuck
Será que o filme A Rede Social (2010), sobre a fundação do Facebook, vai ter uma sequela? Quem adianta tal hipótese é o seu argumentista, Aaron Sorkin — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro).

Estas linhas servem, sobretudo, para fazer eco de uma notícia veiculada por Aaron Sorkin. Em declarações recentes (reproduzidas por The Hollywood Reporter), o argumentista “oscarizado” pelo seu trabalho em A Rede Social (2010), de David Fincher, veio dizer que poderá haver condições para uma sequela: o tema do filme — a fundação do Facebook por Mark Zuckerberg (interpretado por Jesse Eisenberg) — pode ser retomado tendo em conta o que aconteceu em anos recentes, nomeadamente o escândalo de partilha de dados com a Cambridge Analytica.
Sorkin estreou-se, entretanto, como realizador com o admirável Molly’s Game/Jogo da Alta Roda (2017). Seja como for, não especulou sobre quem poderá dirigir o novo projecto. Em boa verdade, o único nome que citou foi o do produtor de A Rede Social, Scott Rudin, que já lhe enviou vários emails perguntando se “não será altura de uma sequela?”.
A notícia é tanto mais interessante quanto nos leva a (re)valorizar, não apenas a excelência cinematográfica de A Rede Social, mas o seu premonitório sentido crítico. O filme mostrava de forma muito clara que o conceito de “social” da rede criada por Zuckerberg decorria, acima de tudo, da conjugação de determinadas potencialidades tecnológicas (multiplicar ad infinitum os links virtuais) com um apurado sentido de negócio.


O que está em jogo, repare-se, não pode ser reduzido a um qualquer maniqueísmo entre o “bom” e o “mau” Facebook. Trata-se, isso sim, de (re)lançar no espaço mediático uma reflexão que alguns elementos do meio jornalístico nem sempre se têm mostrado disponíveis para fazer. A saber: importa resistir à apropriação da palavra “social” pelos circuitos em rede, perguntando que sociedade estamos a construir quando aceitamos que todas as relações humanas podem ser codificadas, organizadas e, no limite, geridas por máquinas como a que Zuckerberg criou.
Não há, de facto, muitos sinais de disponibilidade para tal reflexão — uma excepção recente foram as palavras pedagógicas e contundentes de Clara Ferreira Alves no programa O Eixo do Mal (SIC Notícias — a partir dos 29m 15s). Acima de tudo, importa superar o lirismo virtual que, na altura do lançamento de A Rede Social, circulava quase sem entraves. Desde logo, por parte do próprio Zuckerberg que considerou o filme de Fincher um objecto recheado de “invenções” e, por isso, “ofensivo”. E acima de tudo através desse discurso vago, mas muito poderoso, segundo o qual se estava a dramatizar desnecessariamente uma invenção (o Facebook) que teria doado à humanidade uma nova era de transparência cognitiva, porventura de redenção moral.
Será tempo, enfim, de ver e pensar o cinema de Hollywood para além do barulho do marketing em torno das aventuras de super-heróis com chancela Marvel ou DC Comics. Filmes como A Rede Social são notáveis objectos políticos — não porque se colem a qualquer força política (longe disso!), mas porque nos ajudam a pensar o mundo à nossa volta.

Objectivo / subjectivo [citação]

>>> (...) e se a subjectividade sem contrapeso é ridícula, um comportamento absolutamente objectivo é, bem entendido, invivível ou mesmo impensável. Assegurar o seu equilíbrio é precisamente um dos problemas maiores da nossa cultura.

ROBERT MUSIL (1880-1942)
(ed. Relógio D'Água, 1994)

The Killers + Spike Lee

Reconhecemos a imagem da Estátua da Liberdade, mas sentimos a sua monumentalidade abalada. Dito de outro modo: nos EUA, face ao turbilhão Trump, muitos protagonistas do mundo da música popular continuam a mobilizar-se para utilizar as suas armas artísticas contra a arbitrariedade social e a irresponsabilidade política.
Agora, a banda The Killers lançou Land of the Free, canção de cristalino espírito panfletário, anti-Trump, exemplarmente encenada num teledisco com assinatura de Spike Lee — podemos mesmo dizer que esta é uma adenda ao seu admirável BlacKkKlansman.

Can't wipe the wind-blown smile from across my face
It's just the old man in me
Washing his truck at the Sinclair station
In the land of the free
His mother Adeline's family came on a ship
Cut coal and planted a seed
Down in them drift mines of Pennsylvania
In the land of the free

Land of the free, land of the free
In the land of the free
[...]
(I'm standing crying)

When I go out in my car, I don't think twice
But if you're the wrong color skin (I'm standing crying)
You grow up looking over both your shoulders
In the land of the free
We got more people locked up than the rest of the world
Right here in red, white and blue
Incarceration's become big business
It's harvest time out on the avenue

Land of the free, land of the free
In the land of the free
Land of the free, land of the free
Move on there's nothing too see
Land of the free, land of the free
In the land of the free

I'm standing crying, I'm standing crying
So how many daughters, tell me how many sons
Do we have to have to put in the ground before we just break down and face it
We got a problem with guns
In the land of the free
Down at the border, they're gonna put up a wall
Concrete and rebar steel beams (I'm standing crying)
High enough to keep all those filthy hands off of our hopes and our dreams (I'm standing crying)
People who just want the same things we do
In the land of the free

Land of the free, land of the free
In the land of the free
[...]
(I'm standing crying)

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Notícias da Gronelândia

Ivalo Olsen [foto] é a única professora a viver e trabalhar na cidade de Oqaatsut, na Gronelândia — tem apenas quatro alunos [em baixo]. O destino dos habitantes de Oqaatsut está cada vez mais marcado pelas alterações e perplexidades geradas pelas alterações climatéricas.
Fotografada por Jonas Bendiksen, Olsen é uma das personagens de uma reportagem sobre as cidades da Gronelândia que estão a desaparecer, para o Pacific Standard Magazine, com a participação da agência Magnum. O resultado é um exemplar trabalho de investigação, texto & imagem — vale a pena ler e descobrir as fotografias de Bendiksen no site da Magnum.

"As Sete Vidas do Disco"

Esta imagem é daquelas que possui, realmente, um valor icónico: John Travolta no filme Febre de Sábado à Noite (1977), de John Badham, remete-nos para as muitas ramificações do Disco Sound — ou, para sermos mais fiéis à energia simbólica que a história regista, o Disco. Acontecimento musical, por certo, foi também um fenómeno que contaminou as mais diversas linguagens artísticas e, no limite, muitos comportamentos e valores sociais.
É tudo isso que podemos conhecer e reconhecer neste belo trabalho radiofónico do Nuno, emitido pela Antena 3 — já está disponível no respectivo site e tem o título felino de "As Sete Vidas do Disco".
Para dar o tom, aqui ficam os minutos de abertura de Febre de Sábado à Noite, Travolta, Bee Gees & etc.

MINI com música de Cole Porter

Convenhamos que a maior parte da publicidade a automóveis envolve uma sedutora impostura: o condutor descobre-se sozinho (literalmente, sem trânsito à vista), circulando pelos cenários mais diversos, incluindo zonas emblemáticas de grandes metrópoles. E digamos que este novo anúncio do MINI Countryman não foge à regra, com o cantor inglês Labrinth a atravessar as ruas vazias de Long Beach, na California...
Enfim, cedemos ao fascínio do logro quando começamos a ouvir Labrinth a cantar o clássico Don't Fence Me In, de Cole Porter (mesmo com algumas "adaptações" da letra de Robert Fletcher). Na sua metódica brevidade, o resultado distingue-se por um misto de sobriedade e elegância — e não é todos os dias que a nostalgia é tratada com esta inteligência. 

segunda-feira, janeiro 14, 2019

"Sharp Objects" — cinema, aliás, televisão

Baseado num romance de Gillian Flynn, a série Sharp Objects, protagonizada por Amy Adams, surgiu agora no mercado do DVD: um grande acontecimento televisivo com muitos contactos com a memória do cinema clássico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Janeiro).

A multiplicação delirante de séries televisivas gerou um novo modelo de intelectualismo (curiosamente, fundado na celebração do que é “popular”). Assim, há todo um discurso contemporâneo que gosta de sugerir que é nas séries que está “tudo” o que vale a pena conhecer no audiovisual contemporâneo.
Em boa verdade, a questão é bastante mais básica. A saber: muitas pessoas (legitimamente, como é óbvio) mudaram os seus padrões de consumo e, na prática, afastaram-se da actualidade cinematográfica. Ainda assim, resta lembrar que estamos perante universos cúmplices, alheios a esquematismos desse género. Há mesmo séries que se podem definir através do modo como estão contaminadas pelos mais clássicos valores cinematográficos. Sharp Objects é uma dessas séries, por certo das mais notáveis que foram lançadas ao longo de 2018 (agora disponível entre nós em DVD/Warner).
Dois nomes afiguram-se essenciais para sublinharmos as singularidades de Sharp Objects. Em primeiro lugar, Gillian Flynn, conhecida sobretudo através de Gone Girl/Em Parte Incerta, o seu romance que este na base do prodigioso filme homónimo realizado por David Fincher (em 2014, com Rosamund Pike e Ben Affleck). Sharp Objects (entre nós publicado como Objectos Cortantes, Bertrand) é o primeiro romance de Flynn e centra-se na saga trágica de Camille Preaker, jornalista que é enviada à sua cidade natal para investigar a morte criminosa de duas crianças, acabando por deparar com a herança fantasmática da sua própria infância.
O segundo nome é o canadiano Jean-Marc Vallée, cineasta de filmes como O Clube de Dallas (2013) ou Wild/Livre (2014) que já o ano passado se tinha destacado no modelo de mini-série com Big Little Lies (que irá ter uma segunda temporada). Em boa verdade, com os seus oito episódios, pode dizer-se que Sharp Objects existe como um filme de quase sete horas de duração — nele encontramos um processo subtil de exposição e desmontagem de uma vivência enraizada num passado em que as razões da vida surgem sempre assombradas pelas sombras da morte.
Interpretada pela brilhante Amy Adams, a personagem de Camille surge, assim, como a investigadora (literalmente, uma vez que é essa a sua missão profissional) que vai deparando com uma realidade, de uma só vez familiar e social, que sobrevive através de muitos processos de normalização e ocultação. Daí a importância central da personagem da mãe de Camille, interpretada pela também admirável Patricia Clarkson (distinguida com um Globo de Ouro): ela emerge como símbolo de uma antiga organização matriarcal e, ao mesmo tempo, fantasma vivo da identidade de Camille.
Sharp Objects organiza-se, assim, como um melodrama familiar crescentemente rasgado pelas convulsões de um “thriller” em que, de facto, quase nada é o que parece. Chamemos-lhe televisão ou cinema, série ou filme, o certo é que se trata de uma invulgar proeza artística. Entretanto, registe-se que Vallée está a preparar um filme sobre John Lennon.

Emmanuel Macron escreveu uma carta

Face às convulsões que, nas últimas semanas, têm abalado a França, o Presidente Emmanuel Macron decidiu dirigir-se aos cidadãos do seu país. Através de uma comunicação televisiva? Não. Por uma vez, um dirigente político contorna as regras do óbvio, apresentando antes uma "Carta aos Franceses".
Trata-se de lançar um debate nacional, tendo as câmaras municipais como primeiros cenários, sobre as grandes clivagens sociais — da carga fiscal aos problemas ecológicos, passando pela "organização do Estado e das colectividades públicas".
Claro que não é possível separar o gesto de Macron de todas as perturbantes questões que o movimento dos "coletes amarelos" tem inscrito no quotidiano francês. E haverá até quem, porventura com algum fundamento, argumente que o Presidente tenta, assim, deslocar o espaço de resposta a tal movimento, procurando relançar a energia simbólica do seu mandato (conquistado a 7 de Maio de 2017, com uma maioria de 66,1%), em última instância começando a preparar, desde já, condições para a sua eventual renovação.
São temas do jogo político, tão legítimas quanto especulativas. Em todo o caso, sublinhe-se a singularidade do gesto escrito. Escusado será dizer que, do site do Eliseu ao Twitter do próprio Macron, a carta está a ser divulgada (e, por certo, conhecida) através dos meios deste mundo virtual em que vivemos. O certo é que, por uma vez, insisto, acontece algo que transcende a criação pueril de soundbytes para circulação instantânea e efémera. No limite, o Presidente francês relança, implicitamente, a possibilidade de sermos leitores do nosso presente — à la lettre.
Libération (14-01-19)
Le Monde (15-01-19)

domingo, janeiro 13, 2019

Gary Clark Jr. — à espera do álbum nº 3

O segundo e, até agora, mais recente álbum de Gary Clark Jr., The Story of Sonny Boy Slim, surgiu em 2015, confirmando-o como uma das vozes (e guitarras!) mais talentosas da actual paisagem criativa dos blues. O terceiro álbum está a chegar (1 Março) e tudo indica que, mais do que nunca, vai arriscar para além das matrizes tradicionais [Rolling Stone]. Uma coisa é certa: o novo This Land denunciará de forma veemente o racismo na era Trump, como o prova a canção-título — o teledisco, pleno de invenção narrativa e agilidade simbólica, tem assinatura de Savanah Leaf.

"Uma mulher é..." [citação]

>>> Uma mulher é uma estranha e suave vibração do ar, que avança, inconsciente e ignorada, à procura de uma vibração que lhe responda. Ou então é uma vibração penosa, discordante e desagradável ao ouvido, que avança ferindo todos os que se encontram ao seu alcance. E o homem também.

D. H. LAWRENCE (1885-1930)
(ed. 10/18, 1973)

sábado, janeiro 12, 2019

10 filmes de 2018 [10]

DA VINCI, 1513-16
GODARD, 2018

* O LIVRO DE IMAGEM, de Jean-Luc Godard (França)

Tudo começa com a mão de São João Baptista, pintada por Leonardo da Vinci. Ou melhor, com essa mão retrabalhada por Godard como sinal de trânsito do sistema de circulação das linguagens. Em off, a voz rouca do próprio Godard situa-nos: "A guerra está aqui..." Na sua pose esotérica, O Livro de Imagem é, em boa verdade, o mais simples dos filmes. Prolongando o seu labor de artesão, arquivista e filósofo, sempre empenhado em discutir e reinventar os modos de fazer história(s), Godard arquietcta um objecto que se organiza como um noticiário televisivo cujas imagens (e sons!) se cruzam com os pensamentos de um criador solitário que não desistiu de perguntar que é feito da arte de ser humano. Da presença terrível dos comboios no imaginário do século XX até à nossa percepção do mundo árabe, deparamos com uma dialéctica de singularidades: primeiro, um filme que se define como livro; depois, um universo de infinita proliferação figurativa em que talvez ainda seja possível respeitar uma imagem. Para a história, O Livro de Imagem fica como o filme definidor dos nossos impasses, angústias e esperanças no ano da Graça de 2018 — se não o dissermos, alguém o dirá, daqui a uma década ou um século, talvez amanhã.

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O OUTRO LADO DO VENTO
HAPPY END
BLACKKKLANSMAN - O INFILTRADO
GIRL
GEADA
NO CORAÇÃO DA ESCURIDÃO
ROMA
TULLY
CUSTÓDIA PARTILHADA

Verna Bloom (1938 - 2019)

A Última Tentação de Cristo (1988)
Pouco conhecida do grande público, o certo é que marcou presença em alguns títulos emblemáticos do cinema americano da segunda metade do século XX: a actriz Verna Bloom faleceu no dia 11 de Janeiro, em Bar Harbor, devido a complicações de demência — contava 80 anos.
Nunca foi nomeada para um Oscar ou um Globo de Ouro e, em boa verdade, o filme mais frequentemente citado nos seus perfis, A República dos Cucos (1978), de John Landis, apesar da sua energia de comédia surreal, está longe de ser um dos mais importantes. Começou em diversas séries televisivas de finais da década de 60, tendo-se estreado em cinema com Medium Cool/América, América Para Onde Vais? (1969), de Haskell Wexler, sobre a atribulada Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago, objecto exemplar na combinação do drama com componentes de natureza documental.
Na sua filmografia encontramos também:
O Regresso (1971), de e com Peter Fonda, por certo um dos exemplos mais belos e desconcertantes do chamado "western" crítico.
O Pistoleiro do Diabo (1973), outro exemplo da mesma tendência do "western", neste caso de e com Clint Eastwood.
A Última Canção (1982), de novo de e com Clint Eastwood, retrato da Grande Depressão através da figura de um cantor "country".
Alternando a sua actividade entre cinema e televisão, Verna Bloom concluiu a sua carreira cinematográfica com dois títulos assinados por Martin Scorsese: Nova Iorque Fora de Horas (1985) e A Última Tentação de Cristo (1988), neste assumindo a personagem de Maria, mãe de Cristo.

>>> Trailers de América, América Para Onde Vais? e O Regresso.




>>> Obituário no New York Times.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

10 álbuns de 2018 [10]

* THE FINAL TOUR: THE BOOTLEG SERIES, VOL. 6, Miles Davis & John Coltrane

Noblesse oblige... Em 1960, ao partir para a sua digressão europeia, o quinteto de Miles Davis era um colectivo que a história viria a consagrar, não apenas como fenómeno artístico, mas também entidade mitológica: Miles coabitava com John Coltrane (saxofone), Wynton Kelly (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria). O certo é que, rezam as crónicas, era também um grupo em irreversível processo de desagregação. Dito de forma necessariamente esquemática, o génio de Miles ia por caminhos que o génio de Coltrane não estava disposto a seguir. E vice-versa: o primeiro lançara Kind of Blue no ano anterior, o segundo Soultrane em 1958. Daí que estes cinco concertos — dois em Paris, um em Copenhaga, dois em Estocolmo — estejam pontuados por capítulos de evidentes dissonâncias, por assim dizer entre a aritmética intimista do trompete e a vertigem galáctica do saxofone. Pois bem, tal conflito ficou como um dos mais belos capítulos da história do jazz, com todos os músicos (ouçam-se, por exemplo, as sofisticadas deambulações de Kelly) a desafiarem os seus próprios limites técnicos e criativos, expondo às suas atónitas audiências a beleza de uma liberdade tão material quanto espiritual. Depois do também fundamental Freedom Jazz Dance, editado em 2016, com o "outro" quinteto de Miles (Wayne Shorter, Herbie Hancock, etc.), este é o prodigioso Vol. 6 da série de "bootlegs" do trompetista — eis o som de So What (tema de abertura de Kind of Blue), registado no segundo concerto da noite de 22 de Março de 1960, no Konserthuset, de Estocolmo.

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Bruce Springsteen
Keith Jarrett
Spiritualized
boygenius
Shemekia Copeland
Jorja Smith
Danish String Quartet
Neil Young
SOPHIE

quinta-feira, janeiro 10, 2019

Lars von Trier ou
o escândalo já não é o que era

Ao contrário de outros títulos que realizou, o novo filme de Lars von Trier, A Casa de Jack, não tem gerado grandes confrontos de ideias. Tanto pior para as ideias — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Janeiro).

Creio que todos os interessados em cinema têm alguma memória do escândalo protagonizado por Lars von Trier, na edição de 2011 do Festival de Cannes, durante a conferência de imprensa do seu filme Melancolia (que, aliás, valeria a Kirsten Dunst um prémio de interpretação). Referindo-se ao nazismo, o cineasta teceu algumas considerações francamente infelizes, confundindo a ligeireza do humor individual com a banalização das tragédias históricas colectivas. Mesmo considerando que terá sido um momento de pura precipitação (o que podemos admitir), o certo é que o festival reagiu, considerando-o “persona non grata” e solicitando a sua saída de Cannes (posição institucional que me pareceu correcta).
Menos noticiado foi o facto de, oito anos mais tarde (em Maio de 2018), o certame ter perdoado Lars von Trier, acolhendo-o de novo na sua selecção oficial: a sua longa-metragem The House That Jack Built, com Matt Dillon e Bruno Ganz, passou, extra-competição, em ante-estreia mundial. Perante uma quase geral indiferença mediática, o filme chegou esta semana aos ecrãs portugueses, com o título A Casa de Jack.
Como se prova, as atitudes de tolerância (neste caso do maior festival de cinema do mundo face a um artista que, objectivamente, tinha posto em causa os seus valores democráticos) quase nunca recebem a evidência noticiosa que é conferida a tudo o que envolva algum tipo de tensão, conflito ou violência — é uma lei das imagens televisivas em que vivemos. Mas há um paradoxo inerente a esta indiferença que parece ter-se instalado em relação a Lars von Trier. De facto, se ele é alguém cujos filmes provocam o espectador, no sentido de o levar a enfrentar as componentes mais violentas dos seres humanos (lembremos apenas Dogville ou Anti-Cristo, respectivamente de 2003 e 2009), então não creio que haja na sua filmografia algo tão radical e perturbante como A Casa de Jack.
Em termos esquemáticos, digamos que A Casa de Jack é o retrato íntimo de um “serial killer” (interpretado por Dillon com a frieza aparente de um autómato). A sua colecção de assassinatos surge como uma antologia de cenas em que se cumpre o misto de repetição e revelação que uma fábula moral pode envolver — o título original remete, aliás, para uma tradicional canção infantil de origem britânica. No limite, esta é mais uma narrativa de Lars von Trier sobre a fragilidade do Bem e a omnipresença do Mal.
Seria tudo mais interessante se, em Cannes, o escândalo se tivesse “renovado”? Não creio que a questão seja essa. Acontece apenas que o burburinho que acompanha alguns objectos artísticos, muitas vezes induzido pelas chamadas “redes sociais”, não corresponde a nenhum interesse consistente pelo que tais objectos envolvem ou podem envolver.
Repare-se: não se trata de sugerir que devêssemos estar todos agora, em festiva multidão, a celebrar A Casa de Jack e o seu autor. Há mais modos de viver e, sobretudo, de pensar para além das multidões ululantes que são sempre notícia... Só mesmo por indiferença emocional se poderá pensar que admirar este filme (como eu admiro) é o mesmo que esperar que dele nasçam radiosos consensos. Bem pelo contrário, estamos perante um gerador de dramáticas e, creio, insuperáveis clivagens. Acontece que tais clivagens já não se traduzem em enriquecimento do espaço das ideias — o ruído global está a triunfar sobre a nossa inteligência.

3 séries de 2018

* SHARP OBJECTS, Jean-Marc Vallée

Será que chegámos ao ponto em que se começa a construir uma galeria de autores-de-séries? A pergunta não é exactamente conceptual, mas industrial. Isto porque figuras como o canadiano Jean-Marc Vallée — dirigindo esta fabulosa adaptação do romance homónimo de Gillian Flynn (em oito episódios), um ano depois de ter assinado Big Little Lies (sete) — estão a provar que há uma linguagem televisiva que, afinal, nasce de sofisticadas sínteses de vários géneros do cinema clássico, do melodrama ao noir. A história da jornalista (admirável Amy Adams) que regressa à sua cidadezinha para investigar o assassinato de duas meninas, acabando por encontrar a energia muito viva dos seus próprios fantasmas familiares, constitui um exemplo modelar de narrativa em permanente oscilação entre a intensidade do visível e a perturbação do invisível. Mais um sinal, enfim, do modo como o carácter adulto das histórias com imagens e sons, vilipendiado pelo infantilismo de super-heróis e afins, se transferiu, em parte significativa, para o pequeno ecrã. Pequeno?


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* HOUSE OF CARDS [oito realizadores]

Na sequência de várias acusações de assédio sexual, Kevin Spacey foi despedido de House of Cards no final da quinta temporada. Tendo esse dado em conta, podemos encarar a sexta e última temporada como a cândida conclusão de uma história que perdeu a sua personagem central, o Presidente dos EUA Frank Underwood... Pura ilusão: em boa verdade, os oito episódios finais constituem um angustiado e sedutor esforço narrativo e simbólico para lidar com uma entidade que, de personagem política, passou a existir como fantasma do Mal absoluto. Coisa que, por certo, o fictício Underwood não desdenharia, mas que a série trabalha com um requinte de malvadez (perdoe-se a redundância) que, como seria de esperar, não mereceu grande atenção mediática. Dito de outro modo (evitando spoilers): Claire Underwood revela-se uma consumada herdeira do marido, obrigando-nos a rever, por defeito, as nossas visões mais cépticas sobre o exercício do poder político e, além do mais, oferecendo a Robin Wright (realizadora do episódio nº 8) um dos momentos mais altos da sua carreira.

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* SARA, Marco Martins

Não será a coisa mais simpática de referir, mas convenhamos que há uma derrota inerente ao projecto de Sara — partilhada, aliás, por todos aqueles que defenderam a brilhante série de Marco Martins. Como se prova, nem mesmo um objecto interior aos dispositivos televisivos, apostado em discutir a medíocre "telenovelização" de muitos desses dispositivos, consegue desencadear algum tipo de reflexão colectiva, eventualmente de suave auto-crítica. Em Portugal, é cada vez mais difícil abrir espaços de pensamento sobre as componentes populistas que contaminam o espaço televisivo, infinitamente mais difícil do que transformar em tragédia colectiva a queda de um qualquer treinador de futebol... O que prova, além do mais, que o problema da formatação telenovelesca passou a exceder, e muito, os espaços específicos das narrativas audiovisuais — tal formatação é, no arranque de 2019, o mais poderoso factor cultural do nosso viver material e espiritual.

quarta-feira, janeiro 09, 2019

Kevin Hart — ser ou não ser um monstro

1. Um dos efeitos mais perversos de muitas polémicas dos nossos dias é o seu determinismo compulsivo, sem alternativa. Dir-se-ia que não se trata de conhecer a complexidade do que está em jogo, mas apenas de dividir o mundo em "puros" e "impuros" (além do mais, demonizando os segundos).

2. Kevin Hart foi convidado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para apresentar os Oscars (24 Fev.). Aceitou. Dias depois, a revelação de algumas frases suas, provenientes de contextos de comunicação ou representação [Billboard], foram denunciadas por muitas personalidades, em particular membros da comunidade LGBT, como anti-gay. Hart acabou por desistir da função para que tinha sido convidado [Variety].

3. Entretanto, os sinais polémicos não deixaram de proliferar, até que, cerca de um mês depois da sua desistência, Hart veio declarar publicamente que não voltará a falar do assunto. Porquê? Por não reconhecer legitimidade a quem o criticou de forma mais severa? Não. Antes porque se identificou como (ou foi conduzido à condição de) peça móvel e, no limite, descartável de um processo de compulsiva "purificação".

4. É a explicitação disso mesmo que encontramos na conversa de Hart com Michael Strahan, tão invulgar quanto corajosa, no programa Good Morning America (ABC). A ponto de a questão desembocar numa pergunta que, regra geral, os espaços mediáticos — e, em particular, os dispositivos televisivos — não enfrentam. A saber: por que é que, para além das considerações específicas que possam sustentar uma polémica, alguém deve ser tratado como um réu obrigado a demonstrar que não é um monstro?

5. Não está, em jogo, entenda-se, a maior ou menor simpatia que a figura pública de Kevin Hart possa suscitar. Trata-se antes de saber o que acontece quando o "social" se reduz a um tribunal que criou o seu próprio sistema de leis — eis 10 minutos, de uma só vez fascinantes e perturbantes, de diálogo televisivo.

10 álbuns de 2018 [9]

* SPRINGSTEEN ON BROADWAY, Bruce Springsteen

Ironia reveladora destes tempos de muitos cruzamentos técnicos, artísticos e conceptuais: antes de ser um álbum, Springsteen on Broadway foi, obviamente, um espectáculo de palco e também um especial da Netflix. Dito de outro modo: aos 69 anos, durante mais de um ano (Out. 2017/Dez. 2018), o criador de Born to Run esteve no palco do Walter Kerr Theatre, em Nova Iorque, para interpretar um espectáculo em que a colagem das suas canções, aliás exponenciando muitas das suas componentes históricas e poéticas, gerava uma narrativa autobiográfica. Daí que este álbum se escute, não como um vulgar "best of" (longe, muito longe disso), antes como uma foram teatral de exposição em que a dimensão individual remete sempre para os fulgores e contradições do imaginário made in USA. Springsteen narra Springsteen com um misto de paixão e didactismo que, no limite, se traduz na simples utilização da guitarra acústica. Se dúvidas ainda houvesse, este álbum serviria para o confirmar como um dos mais admiráveis contadores de histórias da América contemporânea.

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Keith Jarrett
Spiritualized
boygenius
Shemekia Copeland
Jorja Smith
Danish String Quartet
Neil Young
SOPHIE

Dior x 3

Sem outra assinatura que não seja o nome da designer (Maria Grazia Chiuri), eis três imagens da colecção Primavera/Verão da Dior — ou como a sombra se faz personagem, baralhando a verdade física do corpo.