sábado, julho 31, 2010

Suso Cecchi D'Amico (1914 - 2010)

"Rainha dos argumentistas", personalidade marcante do cinema italiano do pós-guerra, Suso Cecchi D'Amico faleceu em sua casa, em Roma — contava 96 anos.
O seu envolvimento com o cinema é indissociável do movimento neo-realista e do empenho, ao mesmo tempo artístico e ético, em abordar as histórias de personagens do povo marcadas pela guerra: Roma, Cidade Aberta (1946), de Roberto Rossellini, e Ladrões de Bicicletas (1948), de Vittorio De Sica são alguns dos primeiros títulos a que o seu nome surge ligado. Entre os mais de cem filmes em que trabalhou, as colaborações com Luchino Visconti constituem um capítulo especial, dos mais fecundos de toda a história moderna do cinema italiano — D'Amico escreveu, entre outros, para Senso (1954), Rocco e os Seus Irmãos (1960) e O Leopardo (1963). Em 1994, o Festival de Veneza atribuiu-lhe um Leão de Ouro pela carreira.

>>> Obituário em La Repubblica.
>>> Obituário em
The Washington Post.

Interpol, opus 4

Estará nas lojas a 6 de Setembro — depois de Turn on the Bright Lights (2002), Antics (2004) e Our Love to Admire (2007), o quarto álbum de estúdio dos Interpol chama-se... Interpol. São promessas de um rock enredado nos labirintos do pós-punk, escolhendo a austeridade das formas contra as facilidades da nostalgia. Primeiro e estimulante cartão de visita: Lights, em teledisco de insólito futurismo, com assinatura de Charlie White.


>>> Site oficial dos Interpol.

Gaga Vanity

Como se diz no site da Vanity Fair, por uma vez os rumores que circulam na Net são verdadeiros: Lady Gaga vai mesmo ser capa da revista, na edição com data de Setembro. Para já, temos o objecto em causa, com foto assinada por Nick Knight e um título de fazer inveja a qualquer jornalista que se preze: "Gaga for the Lady".

Julee Cruise, 1989


Num momento em que se assinala a chegada às lojas de discos de Dark Night Of The Soul, parceria entre Danger Mouse, Mark Linkous, David Lynch e uma multidão de colaboradores, andanos hoje 20 anos para trás no tempo para reencontrar uma outra excperiência na música do realizador que aqui, sobretudo, assina as imagens que acompanham o álbum (apesar da intervenção criativa em alguns temas, é certo). Estas são imagens de uma actuação televisiva de Julee Cruise em 1989, por alturas da edição de Floating Into The Night, o seu álbum de estreia composto por David Lynch e Angelo Badalamenti com quem a cantora trabalhou ainda nas bandas sonoras de Blue Velvet e Twin Peaks. Este foi um dos singles extraídos do álbum e tem por título Rockin' Back Inside My Heart.



Julee Cruise
‘Rockin' Back Inside My Heart’ (1989)

sexta-feira, julho 30, 2010

Michael Jackson: álbum de inéditos em Novembro

Janet e Michael
1972

FOTO Rolling Stone
[Getty Images Michael Ochs Archive]

É uma notícia exclusiva da Rolling Stone: no mês de Novembro, será lançado um álbum com 10 temas inéditos de Michael Jackson. Mais do que isso: o novo álbum (ainda sem título) será o primeiro de um projecto de edições de inéditos — Michael deixou mais de uma centena de canções completas —, projecto acordado entre os herdeiros de Jackson e a Sony Music, visando um total de 10 novos álbuns num período de sete anos.

António Feio (1954 - 2010)

Actor muito popular do teatro e da televisão — em particular através da série Conversa da Treta —, António Feio faleceu no dia 29 de Julho, no Hospital da Luz, vitimado por um cancro no pâncreas.
Nascido em Lourenço Marques, Moçambique, onde viveu até aos sete anos, estreou-se muito cedo nos palcos (contava 11 anos), na peça O Mar, de Miguel Torga, sob a direcção de Carlos Avilez — Avilez e o Teatro Experimental de Cascais estão, aliás, profundamente ligados à sua formação e ao primeiro período da sua carreira. Teatro Adoque, ABC, Casa da Comédia, Teatro Aberto, Variedades e D. Maria II são algumas das casas por onde passou, a partir de certa altura, por vezes, assumindo também a tarefa de encenador. Neste campo, em 1994, O Que Diz Molero (D. Maria II, inspirado em Diniz Machado) terá sido um dos sucessos mais marcantes do seu trabalho.
Desde 1995, com Inox-Take 5, manteve uma regular colaboração de trabalho com José Pedro Gomes, sendo Conversa da Treta, no palco (Auditório Carlos Paredes e Teatro Villaret) e na televisão, a sua performance de maior impacto — a dupla Gomes/Feio estreara-se em 1988, na televisão, no programa Clubíssimo, de Joaquim Letria; Conversa da Treta deu origem a Filme da Treta, de José Sacramento, estreado em 2006.
No passado dia 27 de Março, António Feio foi condecorado pelo Presidente da República, Cavaco Silva, com o grau honorífico de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

>>> Obituário no Diário de Notícias.

Grande Janelle no pequeno ecrã


A norte-americana Janelle Monáe passou há algumas semanas pelo programa de David Letterman, onde apresentou, em espantosa interpretação ao vivo, o tema Tightrope, do seu álbum de estreia The Archandroid. Aqui ficam as imagens desse momento.

Sofia Coppola em Veneza

O novo filme de Sofia Coppola, Somewhere, vai ser estreado na edição deste ano do Festival de Veneza, que decorre entre os dias 1 e 11 de Setembro. Com música dos Phoenix e actores como Stephen Dorf e Elle Fanning no elenco, o filme acompanha um momento de mudanças na vida de Jonnhy Marco (interpretado por Dorf), que até aí vivia um dia a dia de excessos no lendário Chateau Marmon (em Hollywood).

Pode ver o trailer do filme aqui.

Reedições:
Propaganda, A Secret Wish


Propaganda
“A Secret Wish – 25th anniversary deluxe edition”
Salvo
4 / 5

Nas últimas semanas temos assistido a uma sucessão de reedições de títulos que evocam etapas (umas mais bem sucedidas, outras algo esquecidas) da carreira de Trevor Horn, quer como músico quer no seu visionário papel como editor, nos dias em que fez da ZTT Records uma das mais inovadoras e cativantes entre as editoras que então construiam a banda sonora dos oitentas. Mais um título regressa aos escaparates, este recordando um dos álbuns centrais na definição do som que então caracterizava a atitude pop luxuriante que era imagem de marca da ZTT Records. Trata-se de A Secret Wish, álbum que em finais de 1985 fazia dos Propaganda um nome essencial no mapa pop do momento. O quarteto alemão já tinha chamado atenções em 1984 com um épico de alma sinfonista em Dr. Mabuse, single de estreia que recebia um dos primeiros telediscos assinados por Anton Corbijn. Nascidos em 1982 em Düsseldorf, juntando entre outros um elemento do colectivo industrial Die Krupps e um músico com formação clássica, os Propaganda chegaram à ZTT pelas mãos de Paul Morley, acabando o seu álbum por ser contudo produzido por Steve Lipson, um dos engenheiros de som da equipa de Trevor Horn que, então, tinha em mãos a gravação do álbum de estreua dos Frankie Goes To Hollywood, a banda de maior sucesso da editora. Lipson seguiu contudo as regras da casa e assegurou que, em A Secret Wish, os Propaganda criassem um monumento pop feito de sintetizadores e elaborada visão sinfonista. Entre peças que desafiavam a forma da canção (como Dr. Mabuse ou Dream Within A Dream, este usando as palavras do poema homónimo de Edgar Allan Poe), flirts mais evidentes com a pop (em Duel ou P-Machinery) e uma versão de Sorry For Laughing, dos Jospeph K, A Secret Wish revelava uma visão característica de um tempo em que as novas possibilidades do estúdio (daí o relativo protagonismo do produtor no todo) se materializavam numa ideia nova de sofisticação na pop. O álbum acabaria por representar um final de ciclo para a banda (com epílogo em Wishful Thinking, disco de remisturas lançado pouco depios). A banda separou-se pouco depois. Caudia Brüken gravou primeiro um disco com Thomas Leer no duo Act, depois editou a solo. Com nova formação, os Propaganda lançaram um segundo (e inconsequente) álbum em 1990… 25 anos depois de A Secret Wish (disco que já conheceu várias reedições), uma edição comemorativa do álbum junta, num CD duplo, os temas editados nos máxis da época, assim como remisturas e mesmo inéditos, entre os quais uma suite de 20 minutos nascida em volta de Duel… Para coleccionadores, é certo. Mas também uma janela para (re)descobrir uma ideia pop que traduz (com bons resultados, o que nem sempre aconteceu naqueles dias) um tempo de procura de novas formas no sentido oposto ao do culto da simplicidade que, dez anos antes, havia feito a revolução punk.

Um diamante negro


Chamam-lhe o “Diamante Negro” alberga a Det Kongelige Bibliotek (ou seja, a biblioteca real dinamarquesa). Situada num cais, em pleno centro da cidade (junto ao enorme complexo em torno do palácio Christianborg Slot), em Chrystians Brygge, a biblioteca é um dos grandes exemplos da face mais moderna de Copenhaga. Na verdade a biblioteca ocupa tanto estas instalações como as de um outro edifício mais antigo, que lhe é contíguo, a harmonia da relação entre o antigo e o contemporâneo traduzindo uma relação de resto presente por toda a cidade.

O projecto do “diamante negro” foi assinado pelo grupo dinamarquês Schmidt hammer lassen e inaugurado em 1999. O edifício apresenta um átrio central de oito pisos envolto por varandas interiores com forma ondulada. Há pontes internas de circulação, uma delas atravessando inclusivamente uma rua a grande altura.


Três olhares de pormenor pelo “diamante negro”, o primeiro justapondo um candeeiro de iluminação urbana a um dos vértices do edifício. A imagem do meio espreita o átrio central no interior do edifício (visto do canal em frente). A terceira olha de perto a ponte que une este edifício a outra estrutura, do outro lado da rua.

quinta-feira, julho 29, 2010

Ansel Adams redescoberto

Ansel Adams, fotografado por YOUSUF KARSH

É uma história quase mágica: no ano 2000, o pintor norte-americano Rick Norsigian comprou duas caixas com 65 negativos em placas de acrílico. Pagou 45 dólares (cerca de 35 euros, nos valores actuais). Agora, tendo-se provado que se trata, de facto, da lendária colecção "perdida" de Ansel Adams, os negativos estão avaliados em 200 milhões de dólares (contas redondas: 153 milhões de euros). Retratista de uma americanidade radical, quase abstracta, Adams é, além do mais, um dos maiores paisagistas da história da fotografia. Escusado será dizer que esta (re)descoberta vai relançar o valor estético e patrimonial da sua obra.

>>> Site oficial de Ansel Adams.

Lágrimas em Nova Iorque


O vocalista dos Bloc Party, que agora se apresenta apenas como Kele, acaba de apresentar um segundo single extraído do alinhamento do seu álbum de estreia a solo. Aqui fica o teledisco que acompanha Everything You Wanted, rodado nas ruas de Nova Iorque.

Mais uma reunião a caminho...

E parece que está na agenda mais uma reunião. Segundo avança o NME, os The Cars acabam de colocar na sua página no Facebook uma nova foto com os membros da banda reunidos no seu estúdio em Boston… Figuras de referência da new wave norte-americana, ficaram sobretudo conhecidos pelo tema Drive, que apresentaram no Live Aid (em 1985) como banda sonora a um filme sobre imagens de fome em África. A sua discografia e obra vai bem além deste single. Entre os seus feitos conta-se, por exemplo, um desafio (aceite) a Andy Warhol para que este realizasse e surgisse no teledisco de Hello Again (onde interpretou a figura de um barman).

Uma magnífica colecção


Fica na zona norte do centro de Copenhaga, numa área de jardins que albergam outros museus e palácios. O Statens Museum fur Kunst é a casa de uma magnífica colecção, sobretudo de pintura e escultura que, apesar de centrada na história das artes dinamarquesas, não exclui a presença de outros artistas de outras nacionalidades. Pela colecção permanente estão representados tos velhos mestres como Brueghel ou Rubens, figuras-chave da arte do século XX como Matisse ou Picasso, acolhendo depois os grandes nomes da chamada “idade de ouro” dinamarquesa. A estrutura do museu divide as exposições em duas alas, a colecção permanente residindo nos andares superiores, o piso térreo de ambas acolhendo as mostras temporárias. Há ainda uma loja com boa oferta de livros e jogos, contudo com reduzida produção do próprio museu.


Começamos a visita pelas salas onde está exposta a colecção de pintura anterior ao século XX e que dedica grande parte do espaço a artistas escandinavos, em particular dinamarqueses. A maioria das obras representadas datam do século XIX e primórdios do século XX. As três imagens que aqui mostramos referem, por ordem, um olhar sobre pessoas à porta de uma igreja, num óleo de 1906 de Niels Bjerre, uma paisagem urbana parisiense, em Monmartre, em 1889, por J. F. Willmunsen e um pequeno estudo de Christen Kobke (1810-1848) sobre a luz nas margens de um canal.


A “rua das esculturas” é uma das grandes atracções do museu. Fica situada no piso térreo da nova ala. Uma segunda rua, com outras obras de outros escultores (na imagem) ocupa parte do espaço da varanda do átrio central, ao nível do primeiro piso.


Uma significativa sucessão de salas no primeito piso do museu expõe uma colecção de arte contemporânea na qual às obras de artistas dinamarqueses se juntam pinturas de nomes como Picasso, Braque ou Matisse.

Mais informação sobre o museu aqui.

Novas edições:
The Magic Numbers, The Runaway


The Magic Numbers
“The Runaway”
Heavenly / Nuevos Medios
3 / 5

Banda feita de dois pares de irmãos ingleses, os Magic Numbers chamaram justificadas atenções quando, há cinco anos se apresentavam com um álbum de estreia homónimo que cruzava as genéticas de escolas folk rock britânicas com uma luminosidade evocativa da pop da costa Leste norte-americana de finais dos sessentas. Quatro anos depois de um segundo álbum que seguiu por trilhos algo semelhantes, regressam com The Runaway, um terceiro disco no qual afirmam, uma vez mais, que esse é o seu caminho e que não parece morar na sua agenda uma qualquer vontade em procurar rumos substancialmente diferentes. O disco foi antecedido por um primeiro single – The Pulse – que elevou as expectativas, uma balada de alma sinfonista, contando com belíssimos arranjos para cordas assinados por Roger Kirby (o mesmo que colaborou no histórico Five Leaves Left de Nick Drake). O álbum, agora, revela que esse cartão de visita corresponde afinal a apenas uma das faces de um disco que, sem se afastar da região demarcada de escolas que habitam na base da música dos Magic Numbers, procura revelar alguma diversidade nas formas finais. De facto, as baladas como a que antecedeu a edição do álbum dispersam-se num alinhamento onde não faltam episódios ritmicamente mais intensos, todavia nunca procurando escapar a um universo de formas clássicas (com os Beach Boys e Fleetwood Mac entre as referências). O disco peca contudo ao propor um alinhamento que ultrapassa uma hora de música. E convenhamos, numa altura em que os Fleet Foxes levantaram a fasquia dos acontecimentos nos departamentos da folk e periferias, The Runaway mais não faz senão o garantir, sóbrio é certo, da continuidade a uma história que, sem surpresas de maior, continua tranquilamente a seguir o seu caminho.

É já este sábado

Mais uma sessão Pop Fora do Armário, desta vez apenas em formato de festa e já a pensar nas férias.
É já este sábado, uma vez mais no Centro LGBT, em Lisboa, na Rua de São Lázaro, 88.
A música fica por conta de Nuno Galopim e João Moço.

quarta-feira, julho 28, 2010

Ishiguro filmado por Romanek

Never Let Me Ago, originalmente publicado em 2005, é um notável romance de Kazuo Ishiguro em que o retrato de uma escola privada, situada numa zona rural inglesa, se transfigura em fábula trágica sobre a juventude, a convulsão do amor e a verdade dos corpos. É um daqueles livros que parecem "impossíveis" para o cinema... até que alguém arrisca.
E quem arriscou foi Mark Romanek, realizador de One Hour Photo/Câmara Indiscreta (2002) e também brilhante director de telediscos (Madonna, David Bowie, R.E.M., Nine Inch Nails, Fiona Apple, etc.). A adaptação foi escrita pelo próprio Ishiguro, com a colaboração de Alex Garland, autor de A Praia (que deu origem ao filme homónimo de Danny Boyle, com Leonardo DiCaprio), surgindo no elenco os nomes de Keira Knightley, Carey Mulligan, Andrew Garfield, Sally Hawkins e Charlotte Rampling.
Com estreia americana agendada para Setembro, não será arriscado prever que Never Let Me Go vai ter um lugar importante na corrida para os Oscars — para já, surgiu o primeiro cartaz e também o trailer.


>>> Página da Faber and Faber sobre Kazuo Ishiguro.
>>> Site oficial de
Mark Romanek.

A propósito da Comic-Con

A Comic-Con de San Diego serve de pretexto para pensarmos questões quentes dos mercados cinematográficos, incluindo algum cepticismo em torno do 3D... e também para recordarmos Lawrence da Arábia (recentemente reeditado em DVD) — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 de Julho), com o título 'Ainda restam actores na época do 3D?'.

A Comic-Con de San Diego, Califórnia, é um misto de mercado e celebração que, embora com raízes na banda desenhada, acabou por integrar o cinema, em particular nas suas expressões mais espectaculares. Na prática, por lá passam os protagonistas de algumas estreias dos meses seguintes, centrais na estratégia comercial de Hollywood. A edição deste ano (22-25 Julho) fica marcada pela presença de muitos actores veteranos, de algum modo contrariando as tendências da cultura “adolescente” que prevalece nas salas de cinema, em particular durante o Verão.
Num curioso artigo publicado no New York Times (dia 23), Michael Cieply e Brooke Barnes descrevem mesmo a presença de tais veteranos (Bruce Willis, Sylvester Stallone, Helen Mirren, etc.) como um sinal revelador de resistência a alguns vectores do actual mercado, em particular o incremento do 3D: a vaga digital que o cinema está a viver (sendo o 3D a sua mais agressiva imagem de marca) não excluiu, antes parece poder revalorizar, o estatuto dos actores e, em particular, o valor comercial e simbólico das estrelas.
Não vale a pena alimentar ilusões sobre tudo isso, nem favorecer qualquer nostalgia de sentido único. O digital está longe de ser um fenómeno uniforme, contribuindo também para criar condições cada vez mais diversificadas para os circuitos “alternativos” e, em particular, para as produções de pequeno orçamento. Uma coisa é certa: todos parecem começar a ter consciência do paradoxo cultural em que pode estar a formar-se uma nova geração de espectadores. Que paradoxo é esse? O de associar as proezas tecnológicas e espectaculares do cinema a filmes dos últimos dois ou três anos, ignorando toda uma imensa (e riquíssima) história com mais de um século.
O problema não é simples nem novo. E é de natureza eminentemente educacional. Em boa verdade, nas últimas duas décadas agudizou-se com os espectadores cuja formação audiovisual passou a ser dominada pelos ecrãs televisivos e de computador. Podemos pressentir a sua complexidade face ao relançamento, em DVD, de Lawrence da Arábia (1962), a obra-prima de David Lean sobre T. E. Lawrence, protagonizada por Peter O’Toole.
O drama não é apenas que possa haver espectadores, de olhar “viciado” no digital, que se limitem a encolher os ombros face à sofisticação narrativa e riqueza humana do cinema de Lean... O drama nasce da eventual redução de Lawrence da Arábia à superfície do ecrã caseiro (seja ele qual for), desconhecendo em absoluto a sua pertença a uma idade de ouro do grande espectáculo cinematográfico. De facto, quando Lawrence da Arábia estreou, o cinema era um fenómeno muito mais central na dinâmica social do que é hoje em dia. E não se trata de estabelecer hierarquias de “melhor” e “pior”. Acontece que a ignorância de tudo isso limita a nossa disponibilidade, e também a nossa inteligência, enquanto espectadores.

E fez-se luz...


Caribou tem um segundo single extraído do brilhante Swim, editado já este ano. Aqui fica hoje o teledisco que agora acompanha Sun, realizado por Michael Owens.

E ainda o novo álbum dos Duran Duran

Mais notícias do novo álbum dos Duran Duran, cuja data de edição ainda não é conhecida. Esta semana Ana Matronic, dos Scissor Sisters, esteve no estúdio londrino da banda para gravar voz num tema que tem por título Safe. Entretanto, Mark Ronson, que produz o disco, fez a estreia oficial dos primeiros segundos de música do álbum dos Duran Duran no seu programa de rádio na East Village Radio. Aqui podem escutar esse momento, no qual se dá a conhecer um breve excreto do tema Blame The Machine… Pelo som nota-se um reencontro com o som do grupo nos inícios dos oitentas. Será de facto, e como Ronson afirmou recentemente numa entrevista que antecedeu a sua actuação no Lovebox, o sucessor de Rio que nunca chegou a ser criado?...

Novas edições:
Janelle Monáe, The Archandroid


Janelle Monáe
“The Archandroid"
Bad Boy Records / Warner
5 / 5

38 anos depois de Ziggy Stardust, o mundo acolhe outra visita. Não vem de outro mundo, antes de um outro tempo (em concreto, como o booklet deixa claro, do ano 2719). Foi enviada a um outro tempo (o nosso) e agora (no futuro), uma andróide vive com material genético clonado da figura de quem se fala… Chama-se Janelle Monáe e estes são ecos da sua história… Com evidentes temperos de ficção científica, juntando por um lado a figura referencial do Ziggy Styardust de David Bowie e, por outro, tomando como motor maior de inspiração no clássico Metropolis, de Fritz Lang, Janelle Monáe acaba de apresentar no seu álbum de estreia não apenas o mais sólido herdeiro recente da antiga tradição dos discos conceptuais, como nele projecta uma imensa variedade de ideias e formas musicais, conseguindo da diversidade encontrar uma espantosa unidade. Apresentado como reunindo as partes II e III de uma suite que teve primeira parte no EP The Metropolis Suite, de 2007, o álbum The Archandroid é uma monumental visão de 70 minutos em duas partes (cada qual com uma introdução orquestral de tez sinfonista) onde se cruzam heranças tão distintas quanto as da pop animada a viço funk de um Michael Jackson, a simplicidade de uma trova folk, a libertação sonhadora do psicadelismo, o charme das bandas sonoras clássicas de James Bond ou a elegância melodista de um Debussy. De resto, e ciente de que a cultura pop vive essencialmente da assimilação de experiências com as quais contactámos, Janelle Monáe faz questão de deixar claras (no booklet) quais as fontes de inspiração de cada canção, referindo aí personagens de ficção como a Princesa Leia ou o Golem, figuras reais como Salvador Dali ou Arthur Lee, imagens de filmes como Purple Rain ou Mary Poppins ou a música de Stevie Wonder ou Rachmaninov. Factos ou ficções, estas citações fazem parte do código genético de uma obra pop que reflectem, afinal, toda uma vivência e, no fundo, uma identidade. Uma ideia, e podemos dizer mesmo uma narrativa, evolui ao longo de canções que vincam o carácter cinematográfico de um álbum que toma o Metropolis de Friz Lang como código genético primordial (a própira imagem que acompanha o disco sublinhando essas referências). Com colaboradores como Big Boi (que partilha o protagonismo no irresistível Tightrope), Saul Williams ou Kevin Barnes (dos Of Montreal, que brilha em Make The Bus), Janelle Monáe apresenta em The Archandroid uma das mais surpreendentes visões que a música popular nos tem dado a conhecer, num alinhamento capaz dessa rara proeza que é a de somar ousadia na definição da visão do que é a música a um alinhamento onde não faltam potenciais êxitos pop. Sem dúvida, um daqueles discos a registar na história do nosso tempo.

Num cais com história


É um dos “postalinhos” mais incontornáveis de Copenhaga. O Nyhavn não é mais que um estreito e longo canal, com cerca de 300 metros, que surgiu com as funções de doca (criada no século XVIII para permitir a ligação do centro da cidade às rotas dos navios chegados do mar que, assim, descarregavam directamente a carga na Kongens Nytorv, no seu topo). Hoje ainda por ali há barcos, mas sem funções mercantis, ali habitando apenas embarcações históricas (sobretudo velhos veleiros), alguns barcos de recreio e as barcaças de algumas companhias que fazem passeios pelos canais de Copenhaga. Em terra, em volta da doca, há restaurantes e bares quase porta sim, porta sim… Todos têm esplanadas que são mais disputadas que os espaços interiores até mesmo quando não faz calor, cada cadeira apresentando a quem nela se senta uma manta para tapar as pernas nos dias mais frios.


Uma sequência de olhares de pormenor das janelas, estruturas dos tectos e paredes pintadas de casas na face Norte de Nyhavn (a mais fotografada e hoje em dia mais habitada por bares e restaurantes).


A cor faz de Nyhavn uma das mais visitadas áreas da cidade. Os edifícios que ali vemos são sobretudo dos séculos XVII e XVIII. Entre os moradores históricos deste lugar conta-se Hans Christian Andersen, que viveu no nº 18 de Nyhavn durante 18 anos. A casa mais antiga é o nº 9, cuja construção data de 1661. A mais nobre das construções em volta de Nyhavn é o Charlottenborg Slot, palácio do século XVIII que hoje alberga a Academia Real das Belas Artes (e em cujo pátio interior há uma pequena e verdejante esplanada, claramente mais tranquila que as que ladeiam o canal). Um outro museu mora ainda por estes lados. É o Robenhavns Ravmuseet, dedicado ao âmbar.

terça-feira, julho 27, 2010

Kelli Scarr: depois de Moby, o primeiro álbum

O nome de Kelli Scarr começou a ganhar alguma evidência através da sua participação no álbum Wait for Me (2009), de Moby. Ela e Moby aceitaram mesmo o desafio da rádio nacional americana, NPR, de compor e gravar uma canção em 48 horas [Project Song], dessa experiência resultando o tema Gone to Sleep.
Agora, depois de uma lenta maturação/gravação, surge o primeiro registo a solo de Scarr, intitulado Piece — são sinais de uma intimidade tecida de muitos contrastes entre serenidade e perturbação, sustentada por uma voz e um piano plenos de nuances (melo)dramáticas. No site da NPR, o álbum pode ser escutado, na íntegra, até 10 de Agosto. Aqui fica um registo audiovisual de Gone to Spleep, versão acústica, com Moby e Scarr nos estúdios da NPR.


>>> Site oficial de Kelli Scarr.

Estrada fora


A sueca Robyn, que tem sido presença assídua aqui no Sound + Vision, tem já um teledisco para acompanhar o seu novo single, no qual apresenta uma versão pop dançável de uma canção que, na forma de balada, descobrimos recentemente em Body Talk Pt. 1. Hang With Me surge agora acompanhada por um teledisco realizado por Max Vitalin, que junta instantes captados na estrada, em digressão para criar um olhar pelos bastidores da presente digressão de Robyn.



Elvis, para o século XXI

Um “novo” disco de Elvis Presley vai ser editado brevemente, assinalando a celebração do que seria o seu 75º aniversário (assinalado este ano). Viva Elvis apresentará, segundo avança o NME, versões de temas seus mostrando como Elvis soaria hoje se estivesse ainda a gravar discos. O disco tem como ponto de partida o musical, com o mesmo título, que este ano estreou em Las Vegas.

Novas edições:
Danger Mouse + Sparklehorse,
Dark Night Of The Soul


Danger Mouse + Sparklehorse
“Dark Night Of The Soul”
Parlophone / EMI Music
3 / 5

Depois de uma primeira vida na forma de disco (com capa mas sem música), eis que conhece finalmente edição (agora na forma mais “clássica” com capa e com música) o álbum que, com imagens (e alguma mais participação criativa) de David Lynch e o protagonismo na composição dividido entre Mark Linkous (Sparklehorse) e Danger Mouse se apresenta sob o assombrado título Dark Night Of The Soul. Resolvida a disputa legal que fez com que os autores optassem por lançar o disco naquela bizarra forma original (juntando-lhe um CD-R onde se recomendava a quem o comprasse que usasse como entendesse), eis que finalmente encontramos as canções que são, afinal (e apesar do relativo peso das imagens de David Lynch) a “alma” do disco onde surge uma multidão de colaboradores como Julian Casablancas, Suzanne Vega, Iggy Pop, James Mercer (dos The Shins e parceiro de Danger Mouse nos Broken Bells), o ex-Grandaddy Jason Lytle, Black Francis (dos Pixies) ou os Flaming Lips. A imagem da capa é logo sugestiva… E remete claramente para os universos visuais de David Lynch. Porém, para quem espera num disco que o tem entre a equipa criativa como protagonista um reencontro com a pop planante e texturalmente eloquente dos dois álbuns que, com Angelo Badalamenti, o realizador criou para a voz de Julee Cruise em finais de oitenta e inícios dos noventas, Dark Night Of The Soul é uma surpresa, o tema Everytime I'm With You, com a voz Jason Lytle sendo aqui o único instante capaz de estabeler essa ponte. Já o sombrio epílogo ao som da faixa que dá título ao álbum caberia na banda sonora de qualquer filme do realizador… Na essência Dark Night of the Soul é um a colecção de canções que seguem por alguns dos caminhos do panorama indie actual, a presença de características do som dos Sparklehorse sendo a mais presente das marcas autorais, a “assinatura” de Danger Mouse sendo porém clara em momentos como, por exemplo, os que se escutam em Insane Lullaby (que poderia ser uma canção dos Broken Bells em dia de neura). Como em qualquer disco cheio de convidados (e onde as suas presenças definem os trilhos que as respectivas canções tomam), Dark Night Of The Soul é um disco onde os grandes momentos alternam com outros menos arrebatadores. Certa, apenas, é a colecção de sombras, personagens intrigantes e males de alma que cruza estas canções… Como num filme de David Lynch…

Pelo reino da Dinamarca (1)


A partir de hoje, e ao longo dos próximos dias, o Sound + Vision apresenta uma série de olhares sobre lugares de Copenhaga, a capital da Dinamarca.

Antes de descer ao pormenor, visitando ruas, museus, palácios, lojas ou caminhando entre os canais, três “momentos” de rua. O primeiro na Vindebrogade, em pleno centro da cidade (com a inevitável presença de ciclistas). O segundo no sempre concorrido Nyhavn. O terceiro, um dos canais em volta de Christiansborg, o Frederiks Holmes Kanal.

Novo 'trailer' de 'Tron Legacy'


Acaba de ser divulgado um segundo trailer do filme Tron Legacy, a sequela de um clássico da ficção científica dos oitentas. Mais revelador do que possa ser a narrativa, deixa claras as pontes com a história do filme original, uma aventura entre o mundo “real” e o mundo dos computadores… Jeff Bridges retoma o papel de Flynn, cabendo todavia o protagonismo deste novo filme ao seu filho (interpretado por Garrett Hedlund). As imagens mostram um requinte na criação do universo digital em que a acção decorre, conferindo-lhes todavia um look talvez menos surpreendente que o que, sem a tecnologia do século XXI, imaginou o mundo virtual do Tron original em 1982. Com banda sonora dos Daft Punk, um dos mais aguardados filmes do momento tem a chegada a Portugal agendada para Janeiro de 2011.


Imagens do novo trailer de Tron Legacy

O apocalipse segundo Eminem

O primeiro single de Recovery, sétimo álbum de estúdio de Eminem, chama-se Not Afraid: como o título sugere, trata-se de um exercício de introspecção, mobilizando memórias e fantasmas numa espécie de apocalipse privado que adquire uma espectacular dimensão urbana — assim é, aliás, o magnífico teledisco, dirigido por Rich Lee. Vale a pena ver, escutar e ler.


I'm not afraid to take a stand
Everybody come take my hand
We'll walk this road together, through the storm
Whatever weather, cold or warm
Just let you know that, you're not alone
Holla if you feel that you've been down the same road


[Yeah, It's been a ride...
I guess I had to go to that place to get to this one
Now some of you might still be in that place
If you're trying to get out, just follow me
I'll get you there]

You can try and read my lyrics off of this paper before I lay 'em
But you won't take this thing out these words before I say 'em
Cause ain't no way I'm let you stop me from causing mayhem
When I say 'em or do something I do it, I don't give a damn
What you think, I'm doing this for me, so fuck the world
Feed it beans, it's gassed up, if a thing's stopping me
I'mma be what I set out to be, without a doubt undoubtedly
And all those who look down on me I'm tearing down your balcony
No if ands or buts don't try to ask him why or how can he
From Infinite down to the last Relapse album he's still shit'n
Whether he's on salary, paid hourly
Until he bows out or he shit's his bowels out of him
Whichever comes first, for better or worse
He's married to the game, like a fuck you for christmas
His gift is a curse, forget the earth he's got the urge
To pull his dick from the dirt and fuck the universe

I'm not afraid to take a stand
...


Ok quit playin' with the scissors and shit, and cut the crap
I shouldn't have to rhyme these words in the rhythm for you to know it's a rap
You said you was king, you lied through your teeth
For that fuck your feelings, instead of getting crowned you're getting capped
And to the fans, I'll never let you down again, I'm back
I promise to never go back on that promise, in fact
Let's be honest, that last Relapse CD was "ehhhh"
Perhaps I ran them accents into the ground

Relax, I ain't going back to that now
All I'm tryna say is get back, click-clack
Cause I ain't playin' around
There's a game called circle and I don't know how
I'm way too up to back down
But I think I'm still tryna figure this crap out
Thought I had it mapped out but I guess I didn't
This fucking black cloud still follow's me around
But it's time to exercise these demons
These motherfuckers are doing jumping jacks now!

I'm not afraid to take a stand
...


And I just can't keep living this way
So starting today, I'm breaking out of this cage
I'm standing up, Imma face my demons
I'm manning up, Imma hold my ground
I've had enough, now I'm so fed up
Time to put my life back together right now

It was my decision to get clean, I did it for me
Admittedly I probably did it subliminally for you
So I could come back a brand new me, you helped see me through
And don't even realise what you did, believe me you
I been through the ringer, but they can do little to the middle finger
I think I got a tear in my eye, I feel like the king of
My world, haters can make like bees with no stingers, and drop dead
No more beef flingers, no more drama from now on, I promise
To focus soley on handling my responsibility's as a father
So I solemnly swear to always treat this roof like my daughters and raise it
You couldn't lift a single shingle on it
Cause the way I feel, I'm strong enough to go to the club
Or the corner pub and lift the whole liquor counter up
Cause I'm raising the bar, I shoot for the moon
But I'm too busy gazing at stars, I feel amazing and

I'm not afraid to take a stand
...

segunda-feira, julho 26, 2010

Você disse... Carlos Queiroz?

FOTO: FPF

Qual é a situação do seleccionador português de futebol?
Procuramos no site do Diário de Notícias e ficamos a saber que 'Federação discute esta semana despedimento de Queiroz'. Vamos até ao Público online e deparamos com um destaque para o envolvimento da classe política: 'Laurentino Dias reconhece que processo a Carlos Queiroz contém “factos graves”'. Dito de outro modo: a situação que envolveu o seleccionador e uma brigada enviada pela Autoridade Antidopagem de Portugal ao estágio da selecção na Covilhã (com alegados insultos do primeiro aos elementos da segunda) é tudo menos simples ou linear. E as suas consequências podem ser dramáticas, incluindo a demissão de Queiroz.
Procuramos, então, saber o que nos dizem os diários desportivos (A Bola, O Jogo, Record) sobre este facto, na suposição de que será a sua manchete obrigatória. Nada disso: os temas dominantes são "grandes esperanças" (da equipa do Sporting), o Porto que "joga mais alto" (no jogo de apresentação aos sócios) e "leão à chilena" (outra vez sobre o Sporting). Admito que não tenha procurado bem... mas não encontrei nem um discreto link para a grave situação em torno de Queiroz — nem que fosse para lembrar a presunção de inocência que lhe é devida.
Moral da história: a imprensa desportiva alimenta um desconcertante conceito de actualidade.

domingo, julho 25, 2010

Marlon Brando, 1952 [inédito]

MARGARET BOURKE-WHITE
Marlon Brando [fragmento]
1952

Em 1952, Marlon Brando era o esplendoroso símbolo de uma genuína revolução artística — e, em particular, dos modos de representação dos actores — que iria abalar todos os níveis da indústria de Hollywood. Depois de uma fulgurante revelação teatral, nomeadamente sob a direcção de Elia Kazan, três filmes tinham bastado para impor o seu nome, o seu estilo e também a sua iconografia: foram eles The Men/Desesperado (1950), de Fred Zinnemann, Um Eléctrico Chamado Desejo (1951) e Viva Zapata! (1952), ambos de Kazan.
Por isso, nesse mesmo ano, a revista Life decidiu fazer uma capa com Brando, convocando Margaret Bourke-White para a tarefa de fotografar a estrela em ascensão. O certo é que o projecto foi adiado — Brando surgiria na capa da edição de 20 de Abril de 1953, numa imagem do filme Júlio César, de Joseph L. Mankiewicz — e o portfolio de Bourke-White permaneceu inédito. Até agora, 58 anos depois.

>>> Margaret Bourke-White na Gallery M.

Cinema 3D: luz e sombra

Face à convulsão do 3D, importa insistir no mais básico relativismo: o processo de "reconversão" dos filmes para as três dimensões não é linear em termos artísticos, muito menos no plano económico. Exemplo esclarecedor o deste gráfico [publicado em The Wrap], referente à "ascensão e queda" do 3D no mercado de exibição dos EUA: no fim de semana de estreia de Avatar, a percentagem de receitas acumuladas nas salas com 3D foi de 71%; apenas nove meses mais tarde, com o filme Despicable Me [animação com voz de Steve Carell], o mesmo índice de consumo baixou para 45%.
Aliás, ainda no mesmo site, num magnífico e bem fundamentado artigo, 'The dark flaw in 3D's bright future', Steve Pond lembra que estão longe de estar resolvidos os problemas que decorrem de uma significativa perda de luminosidade nas projecções em 3D — por um lado, há cada vez mais espectadores a queixarem-se dessa limitação; por outro lado, cineastas como o autor de Inception, Christopher Nolan [foto], consideram tal perda como uma limitação expressiva que confere às imagens um carácter "sombrio" alheio a qualquer opção técnica ou formal.
Nada disto exclui a possibilidade de ainda virmos a encontrar muitas e fascinantes maravilhas no cinema 3D. Trata-se apenas de não dar por adquirida uma evolução que, da tecnologia à economia, nunca será linear nem automática.

"Big Brother": o regresso da obscenidade televisiva

Estas duas imagens não foram coladas aqui — surgem assim mesmo, lado a lado, na base da página de entrada do site da TVI [25 Julho, 20h00]. A sua coexistência, nestes termos, acaba por ser um revelador efeito dos poderes clássicos de um princípio vital de muitas formas de expressão visual, em particular o cinema — esse princípio é a montagem e o modo como nela, por definição, se começam por aproximar dois elementos, gerando uma narrativa em que ambos estão implicados.
O que aqui podemos ler está, por isso, para além do inquietante anúncio de uma nova edição dessa chaga social e cultural que dá pelo nome de Big Brother. Está, de facto, em marcha a produção de uma nova edição desse reality show — e a provocação social e política é de tal ordem que a promoção oficial se atreve a usar como frase promocional a expressão "A revolução começa agora!":


O nível do envolvimento público que o empreendimento solicita aos concorrentes está bem expresso na agressiva obscenidade do 'Questionário reality' a que são obrigados a responder. Alguns exemplos de perguntas formuladas:

* Quais foram as coisas mais estúpidas que fez na adolescência?
* Conte-nos a sua primeira história de amor.
* Teve muitos relacionamentos/affairs? Amizades coloridas?
* Qual é o seu segredo de sedução?
* Que tipo de relacionamento tem com os seus familiares mais próximos (pais, irmãos, avós, tios, primos...). Tem alguma história engraçada com eles?

Mesmo passando à frente das sugestões mais torpes (o que são "amizades coloridas"?...), fica a lógica invasora de um entendimento do ser humano que não respeita nenhuma fronteira — porquê e para quê expor assim a vida familiar seja de quem for? E os familiares são apenas caricaturas que podem ser evocados para contar alguma "história engraçada"?

* * * * *
Ora, o que é extraordinário não é que o comentador político da TVI (ex-RTP) adopte, ou venha a adoptar, um culpado silêncio face a este horror triunfante que invadiu a televisão "popular". O que é extraordinário, e profundamente chocante, é que, apesar de algumas honrosas excepções, a esmagadora maioria da classe política — envolvendo todos os partidos, quadrantes e sensibilidades — assista há décadas à quotidiana degradação do mais poderoso bem público da comunicação contemporânea — as televisões, hélas! — e não diga uma palavra que seja sobre a miséria humana que tudo isto implica.
Pensava eu, como cidadão eleitor, que fazer política começava por aí — e que, por isso mesmo, as intrigas mais ou menos fulanizadas das máquinas partidárias, mesmo quando envolvem "histórias engraçadas", não passariam de detalhes secundários.

"Inception": cine-video-jogo

Não tem sido fácil encontrar espaços para pensar as relações entre cinema e videojogos. Porquê? Porque cada vez que se chama a atenção para o simplismo de muitas dessas relações — será que filmar muitos corredores com grandes angulares e câmara à mão constitui, por si só, uma recriação interessante dos jogos? — surgem de todo o lado (em especial nos blogs) os discursos mais pueris a proclamar a "pureza" dos videojogos e a dignidade da "juventude" que os utiliza...
Acreditemos que, para além dos seus méritos cinematográficos, o novo filme de Christopher Nolan — Inception/A Origem — vai contribuir para limpar o ambiente e enriquecer as reflexões sobre tais temáticas. Porquê? Porque as aventuras oníricas e virtuais de Leonardo DiCaprio são também filmadas como algo que não é estranho a algumas das mais interessantes potencialidades do universo dos videojogos. A saber:
1 - a reconversão das coordenadas clássicas da percepção do espaço;
2 - a reavaliação do tempo como elemento de qualquer narrativa;
3 - a problematização da identidade humana como "coisa" que se decide, não apenas num interior mais ou menos secreto e indizível, mas também num espaço/tempo cujas coordenadas são, historicamente e simbolicamente, susceptíveis de permanente interrogação.
De forma interessante, porque culturalmente ágil, esta última hipótese relança, não apenas a força simbólica dos sonhos no pensamento da nossa existência, mas também o discurso mais revolucionário que sobre eles trabalha: a psicanálise. Freud teria um sorriso feliz face a Inception.

Videojogos: consumo ou vício?

Ilustração DN / André Carrilho

Vale a pena ler o artigo de Catarina Cristão, publicado no Diário de Notícias (25 Julho) com o título 'Videojogos levam à alienação de adolescentes na escola'. E tanto mais quanto a discussão dos problemas em causa quase sempre descamba nas dicotomias mais estúpidas, como se se tratasse de lançar a inteligência dos "adultos" contra a alienação dos "jovens"...
No fundo, o que aqui se aborda é um princípio muito básico: o de não simplificar, nem banalizar, o facto de a proliferação dos videojogos estar a configurar um novo paradigma de atenção — e também de distração — que não pode deixar de ser pensado em termos de consumo e relações humanas, quer dizer, como factor cultural. Em boa verdade, são questões há muito referidas por muitas pessoas que trabalham com as imagens (e os sons), considerando que a imposição unilateral de um qualquer padrão de visão/percepção traduz uma trágica perda civilizacional.
Infelizmente (ou felizmente...), terá sido necessário algum tipo de caução científica para que o assunto seja enquadrado com a seriedade que implica. Dito de outro modo: a abordagem dos videojogos como hipotéticos geradores de vício e dependência tem, agora, um trabalho de investigação que, por certo, vai ficar como referência essencial de conhecimento e pensamento. Assim, para além de dar conta de um caso verificado com uma turma do Liceu Francês, em Lisboa, o artigo do DN refere o artigo 'Television and Video Game Exposure and the Development of Attention' — trata-se de um estudo publicado pela Pediatrics (revista da Academia Americana de Pediatria) e encontra-se disponível online, em formato PDF.