domingo, abril 21, 2019

"Uncle Meat", Zappa — 50 anos

Uncle Meat, duplo álbum, quinto registo gravado por Frank Zappa (1940-1993) com The Mothers of Invention, corresponde a uma banda sonora de um filme de ficção científica (?) que nunca foi concretizado. Ou melhor, existe um filme Uncle Meat (lançado em cassete VHS em 1987) que funciona como uma espécie de documentário do projecto que, de alguma maneira, ficou pelo caminho. Nascido da obstinada vontade de desafiar os modelos dominantes de consumo — mas sem os ignorar, convocando elementos do free jazz às raízes do rock'n'roll, passando por admiráveis derivações orquestrais —, constitui uma peça genial de invenção e celebração, ainda e sempre para além de qualquer tempo, moda ou movimento.
Gravado entre Setembro de 1967 e Setembro de 1968, Uncle Meat foi posto à venda no dia 21 de Abril de 1969 — faz hoje 50 anos.

>>> Dog Breath Variations + Uncle Meat: duas faixas do álbum num concerto com o Ensemble Modern, na Alte Oper de Frankfurt, a 17 de Setembro de 1992, sob a direcção do próprio Frank Zappa — foi a sua derradeira performance pública; o respectivo registo seria editado como The Yellow Shark, álbum lançado em Novembro de 1993, cerca de um mês antes do falecimento de Zappa.

SOUND + VISION Magazine
— imagens e sons da FNAC

O nosso SOUND + VISION Magazine de 20 de Abril, em Lisboa, na FNAC do Chiado, teve como ponto de partida o álbum Voulez-Vous, dos ABBA (40 anos!), daí derivando para várias memórias musicais e cinematográficas do ano de 1979... e não só. Aqui ficam algumas das imagens e sons que partilhámos com os que nos acompanharam.

>>> A canção-título: Voulez-Vous, ABBA.

>>> One Night In Bangkok, Murray Head (do musical Chess).

>>> Manhattan, Woody Allen (banda sonora: Rhapsody in Blue, de George Gershwin).

>>> Television, Baxter (do álbum homónimo).

>>> Natural Skin Deep, Neneh Cherry (do álbum Broken Politics).

SOUND + VISION Magazine
— Maio, Junho e Julho

O SOUND + VISION Magazine, em Lisboa, na FNAC do Chiado, já tem calendário definido para os próximos três meses. Aqui fica uma primeira informação:

* 26 MAIO — balanço de dois festivais: Eurovisão + Cannes.

* 14 JUNHO — Madame X, novo álbum de Madonna.

* 29 JUNHO — A Lua em imagens e sons (a propósito dos 50 anos da missão Apollo 11).

* 27 JULHO — [tema a anunciar].

sábado, abril 20, 2019

Cher, Broadway & etc.

A vida e as canções de Cher — é caso para dizer que dava para fazer um musical da Broadway... E deu mesmo: em cena no Neil Simon Theatre, The Cher Show é um espectáculo de celebração e festa em que Stephanie J. Block, Teal Wicks e Micaela Diamond interpretam diferentes momentos da carreira da personagem. O trio esteve com Jimmy Fallon, em The Tonight Show, para interpretar If I Could Turn Back Time — adivinhem quem também lá estava.

Notre Dame ou os dias da Europa

Perante as imagens de destruição da Notre Dame de Paris, todos evocamos a grandeza histórica da nossa Europa. Será que isso basta para sermos realmente europeus? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Abril), com o título 'A Europa do nosso descontentamento'.

Contemplo as imagens de destruição da Notre Dame de Paris. Nos jornais e televisões, nos noticiários televisivos, o fogo acorda em nós a certeza amarga de uma impotência que importa superar, quanto mais não seja porque sabemos que o fazer da história é um infinito labor de construção e reconstrução, perdição e esperança.
Sinto-me, por isso, próximo de todos os discursos que apontam Notre Dame como símbolo de uma entidade em que, subitamente, para além de todas as crises, todos nos reconhecemos. A saber: esse lugar geográfico e mítico a que damos o nome de Europa.
Ao mesmo tempo, a sensação de comunhão face à vulnerabilidade da Notre Dame acorda em mim um outro sentimento que, mal ou bem, é também uma forma de pensamento. Que acontece (que está a acontecer) quando necessitamos de imagens trágicas como as que nos chegam de Paris para nos afirmarmos europeus?
DN (16-04-19)
Não quero encerrar a questão em generalizações automáticas, dessas que podem funcionar meia dúzia de dias nas manchetes televisivas para depois se desvanecerem numa agonia silenciosa de esquecimento. Ainda assim, pergunto-me se esta comunhão não envolve os valores (ou a falta deles) do mais corrente niilismo. Como se os contrastes, porventura as contradições, que todos sentimos — entre a utopia europeia e a sua vivência política — necessitassem de imagens cruas de destruição ou morte para a Europa reaparecer à tona do nosso oceano de diferenças.
Para nos ficarmos pelas imagens, precisamente, lembremos que vivemos numa Europa cujo espaço televisivo está todos os dias contaminado pela miséria conceptual e moral da “reality TV” e seus derivados. A formatação obscena dos comportamentos humanos promovida pela “reality TV” (com especial evidência para a coisificação sexual de homens e mulheres) transformou-se mesmo num elemento corrente de muitos modelos de comunicação televisiva — ou, como dirão os “especialistas”, um formato.
Não vejo, não escuto os protagonistas da cena política a defender uma ideia primordial de Europa face a essa metódica irrisão dos laços humanos e da mais nobre noção de humanismo. Vejo, isso sim, e escuto-os, a dar conta da tristeza radical com que contemplam as imagens de Notre Dame.
No meu recanto individual, partilho tal tristeza e acredito que os projectos de reconstrução se vão consumar, superando a destruição física e renovando o nosso amor por aquela igreja e o seu tocante simbolismo. Pergunto-me apenas se (e como) é possível termos mais Europa nos outros dias, aqueles em que o fogo não nos alerta para a ancestral excelência da nossa identidade colectiva.

ABBA: "Voulez-Vous" faz 40 anos
— SOUND + VISION Magazine [ hoje ]

Recordando um álbum emblemático dos ABBA lançado na idade de ouro do "disco sound" — revisitamos as canções da banda sueca, propondo também uma digressão pelas movimentações artísticas do ano de 1979.

* FNAC / Chiado, hoje, 20 Abril (18h30)

sexta-feira, abril 19, 2019

O futebol à maneira de Manoel de Oliveira

RENÉ MAGRITTE
Le Temps Traversé
1938
O actual tratamento do futebol em televisão envolve um interessantíssimo sistema de linguagens, incluindo mesmo componentes de raiz cinematográfica. Por vezes, fala-se sem se mostrar — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Abril).

Não será preciso apresentar grandes investigações estatísticas para afirmar que a actividade social com maior visibilidade televisiva é o futebol. E também não creio que seja abusivo reconhecer que tal visibilidade existe através de um imenso silêncio de pensamento. Ou seja: o futebol tornou-se um elemento dominador na cultura portuguesa, mas quase ninguém o pensa (ou quer pensar) enquanto factor cultural.
HITCHCOCK
Podemos resumir a sua intensidade cultural através de duas simples componentes. Primeiro, a da própria identidade nacional: o jogador de futebol, sobretudo o jogador de futebol com grande sucesso financeiro (a começar pela referência de Cristiano Ronaldo), é frequentemente apresentado como matriz universal do ser português, quase sempre como modelo ideal para os mais jovens. Segundo, o da identidade laboral: da sugestiva arte de fazer fintas ao saber colocar a bola milimetricamente ao segundo poste, o jogador de futebol é, por certo, aquele que desfruta de mais e mais elogiosas considerações sobre o “trabalho” (“trabalhámos muito bem” é mesmo um lema quase universal de jogadores e treinadores).
Nesta interessante conjuntura, temos assistido à consagração de um dispositivo televisivo com curiosas componentes cinematográficas. Assim, vale a pena observar os modos de acompanhamento televisivo de jogos em directo... sem que o jogo nos esteja a ser mostrado. Deparamos com quê? Pois bem, com os comentadores a olharem para fora de campo (conceito eminentemente cinematográfico, vital em autores tão diversos como Alfred Hitchcock ou Andrei Tarkovski), dissertando sobre aquilo que não vemos. Mais do que isso: ocupando o ecrã em longuíssimos planos fixos.
TARKOVSKI
A situação, convenhamos, tem graça. Por um lado, este é o país em que muita gente séria, com assumida seriedade, se gaba de saber (?) que os filmes de Manoel de Oliveira são insuportáveis colecções de planos fixos... Tal proclamação pode mesmo envolver a “certeza” de que é assim mesmo, sem sequer haver necessidade de conhecer os filmes. Por outro lado, a televisão explora durações intermináveis que não encontram qualquer equivalência em nenhum filme de Oliveira... e isso é tratado como coisa “normal”.
A conclusão rudimentar não tem a ver com questões pueris de “verdade” ou “mentira”, muito menos com a dignidade profissional seja de quem for. Acontece apenas que a televisão detém um poder de “normalização” que deixou de ser pensado nas suas implicações culturais. Em boa verdade, o que está em causa é a nossa identidade de espectadores: habituámo-nos a encarar a televisão como coisa “natural”, deixando de a pensar como um complexo, muitas vezes fascinante, sistema de linguagens.
Por mim, fã da tradição burlesca da comédia, tenho estado a redescobrir a sua perversa herança nestas personagens que conversam entre si, dirigindo o olhar para fora de campo. Ou como o futebol serve de veículo para uma forma incauta de experimentalismo.

Memórias chinesas por Wang Bing

Acontecimento de excepção no mercado cinematográfico português: Almas Mortas, de Wang Bing, traça ao longo de oito horas as memórias da Campanha Anti-Direitista desencadeada na China em 1957 — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Abril).

Há filmes capazes de desafiar de forma radical todos os nossos hábitos — não apenas os hábitos cinematográficos, mas as rotinas com que, muitas vezes atendendo apenas às manchetes da paisagem mediática, organizamos a percepção do mundo. Almas Mortas, de Wang Bing, é um desses filmes, singular e prodigioso.
A sua singularidade envolve, como é óbvio, a sua inusitada duração: oito horas (em rigor, 495 minutos). Entenda-se: não é apenas essa duração que o torna excepcional. Mas é um facto que Wang Bing terá sido o primeiro a sentir que a sua temática o compelia a elaborar uma narrativa que não podia ser abreviada, condensada ou arbitrariamente fragmentada.
Estão em jogo as memórias cruéis de um período dramático da história da China. Assim, como consequência da Campanha Anti-Direitista do Partido Comunista Chinês, desencadeada em 1957, muitos dos designados “ultra-direitistas” morreram à fome em campos de reeducação na província de Gansu — foi uma das maiores purgas montadas pelo regime de Mao Tsé-Tung.
Em termos esquemáticos, digamos que Almas Mortas segue uma lógica clássica do olhar documental: Wang Bing visita aquela zona e recolhe testemunhos de sobreviventes e familiares. Trata-se de um verdadeiro resgate dos mortos, num processo em que o cinema se assume como elo frágil, mas essencial, com a verdade primordial da memória. Com uma componente que determina todos os elementos do filme e, por isso mesmo, a sua relação com o espectador: em vez de acumular materiais de arquivo seleccionados de forma mais ou menos “ilustrativa”, Wang Bing escuta pacientemente as palavras dos que recordam e explicam o que aconteceu.
Esta resistência das palavras à violência de um sistema repressivo nada tem a ver com os métodos televisivos que privilegiam a condensação fácil e, por fim, a proliferação de “soundbytes”. Predomina, aqui, um princípio de escuta, misto de pedagogia e ternura — os sobreviventes são transportadores de palavras que resistiram a todas as mortes.
Talvez seja inevitável referir que o método de trabalho de Wang Bing faz lembrar a abordagem do Holocausto por Claude Lanzmann no monumental Shoah (1985), este com uma duração superior a nove horas. Num caso como noutro, a história não é um conjunto de dados adquiridos, garantidos pela frieza dos arquivos. A história tem de passar pela fala: falar, verbalizar são actos de inventariação e persistência da complexidade das convulsões históricas.
Revelado no Festival de Cannes de 2018 (extra-competição), Almas Mortas é mais um momento exemplar na trajectória de Wang Bing — entre os seus filmes, lembremos os casos também admiráveis de A Fossa (2010) e Três Irmãs (2012), ambos estreados no nosso país. Em termos simples, no contexto português, estamos perante um dos acontecimentos maiores deste ano cinematográfico.
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* Almas Mortas está programado o fim de semana do Monumental (Lisboa):

- 1ª Parte - 20 de Abril (12h00)
- 2ª Parte - 21 de Abril (12h00)

quinta-feira, abril 18, 2019

Billie Eilish — celebração e medo

When We All Fall Asleep, Where Do We Go? — o título pressupõe a possibilidade de encontrar, porventura edificar, paisagens alternativas nascidas no abandono do sono, talvez do sonho, até mesmo do pesadelo. Projecto típico de alguém com uma longa vida e a consequente aptidão para deambulações introspectivas da memória?... Não exactamente: este é o álbum de estreia de Billie Eilish, nascida em Los Angeles a 18 de Dezembro de 2011 — 17 anos, isso mesmo.
You Should See Me in a Crown pode servir de matriz simbólica do seu tom de celebração, cruzando ideias eléctricas de pop e hip hop, para desembocar em regiões de estranhos e inquietantes assombramentos. Visualmente, a canção existe em duas versões: a primeira num video vertical capaz de desafiar a mais rudimentar aracnofobia, a segunda em animação de inspiração japonesa, monstros incluídos — tenham medo.



Terrence Malick na competição de Cannes

A HIDDEN LIFE: Valerie Pachner e August Diehl
Oito anos depois de ter arrebatado a Palma de Ouro, com A Árvore da Vida, o americano Terrence Malick está de regresso à secção competitiva do Festival de Cannes com A Hidden Life [à letra: "Uma vida escondida"]. Inicialmente intitulado Radegund, o filme evoca Franz Jägerstätter (1907-1943), cidadão austríaco, objector de consciência que recusou integrar o exército nazi, vindo a ser condenado e guilhotinado pelo Terceiro Reich. Com August Diehl no papel central, o elenco do filme conta ainda Valerie Pachner, Matthias Schoenaerts, Jürgen Prochnow, Franz Rogowski, Michael Nyqvist e Bruno Ganz (os dois últimos já falecidos).
Malick é um dos habitués a reaparecer na selecção oficial de Cannes, a par do italiano Marco Bellochio (Il Traditore), dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (le Jeune Ahmed), do francês Arnaud Desplechin (Roubaix, une Lumière), do espanhol Pedro Almodóvar (Dolor y Gloria) ou do inglês Ken Loach (Sorry We Missed You); entre os muitos títulos que não concorrem para a Palma de Ouro estão os mais recentes trabalhos do francês Claude Lelouch (Les Plus Belles Années d'une Vie, com Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée) e do americano Abel Ferrara (Tommaso, com Willem Dafoe) — a lista oficial do certame, incluindo competição e extra-competição, e também a secção paralela "Un Certain Regard", está disponível no site oficial do festival.

quarta-feira, abril 17, 2019

A catástrofe do Facebook [citação]

>>> A combinação do capitalismo de mercado livre, mais as plataformas monopolistas, mais a confiança que utilizadores e agentes políticos depositaram na técnica deixou-nos à mercê dos controladores da tecnologia. Os líderes não eleitos das maiores plataformas tecnológicas — em especial Facebook e Google — estão a corroer as fundações da democracia liberal em todo o mundo, e apesar disso entregámos-lhes a segurança da informação nas nossas eleições de 2018 [intercalares nos EUA]. Eles estão a minar a saúde pública, redefinindo os limites da privacidade pessoal e reestruturando a economia global, tudo isso sem darem voz àqueles que são afectados. Todos, mas em especial os optimistas da tecnologia, deveriam investigar o modo como os interesses dos gigantes da internet podem entrar em conflito com os do público.

ROGER McNAMEE
HarperCollins, 2019

Madonna "cha-cha-cha"

O rosto afirmativo, porventura expectante, de quem tem as palavras suspensas?... Esta é a capa da edição standard de Madame X; a anterior pertence à versão DeLuxe. Na sua metódica gestão de imagens e sons, Madonna divulgou hoje a canção Medellín, tema de abertura do seu novo álbum: um depurado "cha-cha-cha" fabricado com a cumplicidade do colombiano Maluma — o respectivo teledisco terá a sua estreia no dia 24, num especial da MTV (Madame X chega às lojas a 14 de Junho).

"Nossa Senhora do Povo"

Libération
(14 - 04 - 2019)

terça-feira, abril 16, 2019

"Madame X" — a capa

Os olhos de uma juventude envelhecida, um desencanto tecido de pragmatismo, enfim, as letras discretamente abaladas por uma tremura de video... Eis a capa do 14º álbum de estúdio de Madonna: Madame X terá como primeiro single a canção Medellín, composta e interpretada com a colaboração do cantar colombiano Maluma [chega a 17 de Abril, com teledisco assinado pela realizadora espanhola Diana Kunst].

segunda-feira, abril 15, 2019

Agnès Varda inspira cartaz de Cannes

A 72ª edição do Festival de Cannes (14-25 Maio) já tem cartaz oficial: Agnès Varda serviu de inspiração à composição e grafismo de Flore Maquin, através de uma fotografia da rodagem de La Pointe Courte, primeira longa-metragem de Varda.
Rodado em 1954 e lançado no ano seguinte, La Pointe Courte encena a crise de um casal (Silvia Monfort e Philippe Noiret), tendo como pano de fundo uma povoação de pescadores da zona de Sète, no sul de França. Frequentemente citado como um objecto premonitório da Nova Vaga, está disponível no mercado português em DVD — eis uma apresentação do filme proveniente do Film Struck.

Madonna, Madame X

Madame X — assim se vai chamar o 14º álbum de estúdio de Madonna. Da sua relação com Portugal à renovada colaboração de Mirwais, as notícias que vão circulando sobre a respectiva produção são tão sugestivas quanto incertas (incluindo algumas fotografias colocadas no Instagram, tal como a que aqui se reproduz). Seja como for, Madonna achou por bem divulgar aquilo que parece ser uma colagem mais ou menos indecifrável de telediscos das novas canções, protagonizadas por um novo alter ego, uma "agente secreta" que "viaja pelo mundo" — ou apenas a confirmação de que a sua identidade está sempre na próxima máscara. Data de lançamento: X.

domingo, abril 14, 2019

Bibi Andersson (1935 - 2019)

PERSONA (1966)
Notável intérprete, figura indissociável do universo de Ingmar Bergman, a actriz sueca Bibi Andersson faleceu no dia 14 de Abril, em Estocolmo, cerca de dez anos depois de um AVC que condicionou toda a sua existência, incapacitando-a de falar — contava 83 anos.
Foi ela a personagem de Alma, a enfermeira que tratava de Elisabet Vogler (Liv Ullmann), a actriz que perdia o uso da fala em Persona/A Máscara (1966), título central na obra bergmaniana e, mais do que isso, um dos símbolos modelares da modernidade cinematográfica. Sob a direcção de Bergman, surgiu ainda em Sorrisos de uma Noite de Verão (1955), O Sétimo Selo (1957), Morangos Silvestres (1957), No Limiar da Vida (1958), O Rosto (1958), O Olho do Diabo (1960), A Força do Sexo Fraco (1964), Paixão (1969) e O Amante (1971), este em língua inglesa, contracenando com Elliott Gould; integrou também o elenco da mini-série televisiva Cenas da Vida Conjugal (1973), exibida, numa versão mais curta, nas salas de cinema. Com uma importante carreira no teatro, foi dirigida por Bergman em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, em 1962.
Capaz de expor as nuances mais enigmáticas do desejo e do pensamento, Andersson teve também algumas participações exemplares em filmes como A Ilha (1966), de Alf Sjöberg, Minha Irmã, Meu Amor (1966), de Vilgot Sjöman, A Carta do Kremlin (1970), de John Huston, ou Quinteto (1978), de Robert Altman; surgiu num pequeno papel em A Festa de Babette (1987), do dinamarquês Gabriel Axel, porventura o seu trabalho com maior difusão internacional, graças à respectiva consagração com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Publicou a autobiografia Ett ögonblick em 1966.

>>> Com Victor Sjöström — final de Morangos Silvestres.

>>> A narrativa de uma experiência sexual de Alma em Persona.

>>> Cena de O Amante.

>>> Obituário no New York Times.
>>> Bibi Andersson no site oficial de Ingmar Bergman.
>>> Artigo de Peter Cowie na Criterion Collection.

A noite de 1913, por László Nemes

Juli Jakab
O cineasta húngaro László Nemes, autor de O Filho de Saul, revisita as vésperas da Primeira Guerra Mundial em Anoitecer: é, desde já, um dos grandes acontecimentos deste ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Abril).

Cinema histórico? O lugar-comum manda dizer que quando a época é mais ou menos recuada e os actores usam guarda-roupa antigo, então um filme está a “fazer história”... É uma pobre visão cinéfila, viciada na ideia segundo a qual a história se faz por acumulação de adereços. Vale a pena pensar para além do lugar-comum, por exemplo através de Anoitecer, do húngaro László Nemes, por certo um dos dois ou três filmes realmente excepcionais que este ano já chegaram às salas portuguesas.
Não simplifiquemos, claro. Ao evocar a cidade de Budapeste, em 1913, Nemes integra muitos e decisivos elementos de “reconstituição”, essenciais na definição dos ambientes. Acontece que a cenografia não é um fim em si mesmo, até porque os seus elementos surgem sempre filtrados pelo olhar da protagonista, Írisz Leiter (Juli Jakab, incrível actriz), procurando um posto de trabalho na luxuosa loja de chapéus que, noutros tempos, pertenceu à sua família.
A intriga é labiríntica, tornando gratuita qualquer sinopse que se esgote nas peripécias mais ou menos surpreendentes que vão pontuando a acção, até porque Nemes explora diversas sugestões (deixadas em inquietante suspense) sobre as relações dos novos proprietários da loja com a corte do Império Austro-Húngaro. O que mais conta é a própria decomposição da realidade aos olhos de Írisz, de tal modo que Anoitecer se organiza como uma deambulação (apetece dizer: uma reportagem intimista) da redescoberta de Budapeste pela protagonista — o resultado tem tanto de realismo narrativo como de inquietação moral.
Como esclarece o final do filme, através de uma genial ideia de mise en scène, assistimos, assim, à acumulação de sinais premonitórios da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Anoitecer consegue essa proeza rara que consiste em elaborar um retrato “psicológico” de uma mulher, ao mesmo tempo mostrando como as mais brutais convulsões colectivas se ramificam nos mais discretos detalhes do quotidiano.
Nemes, importa recordar, é autor de O Filho de Saul (2015), notável abordagem do interior do horror nazi, isto é, da rede de vida e morte num campo de concentração. Com Anoitecer, a sua segunda-metragem, o mínimo que se pode dizer é que Nemes se confirma como um dos mais ousados e inventivos criadores do actual cinema europeu.

sábado, abril 13, 2019

Prémio FIAF para Godard

Jean-Luc Godard foi distinguido com o Prémio FIAF 2019, em cerimónia realizada na Cinemateca Suíça, no dia 11 de Abril, no âmbito do 75º Congresso da entidade que congrega as cinematecas de todo o mundo — a Federação Internacional dos Arquivos de Filmes foi criada em 1938 (integrando a Cinemateca Portuguesa desde 1956).
Este prémio é atribuído desde 2001, tendo sido Martin Scorsese o primeiro galardoado. Com ele, a FIAF consagra personalidades que, através da sua criatividade, contribuem para a evolução da história do cinema e, em particular, para a defesa e preservação do respectivo património — entre essas personalidades incluem-se Ingmar Bergman (2003), Mike Leigh (2005), Hou Hsiao-hsien (2006), Peter Bogdanovich (2007), Agnès Varda (2013), Jean-Pierre e Luc Dardenne (2016) e Christopher Nolan (2017).
No discurso de apresentação do premiado, o presidente da FIAF, Frédéric Maire, também director da Cinemateca Suíça, sublinhou o facto de o labor godardiano estar "profundamente enraizado num vasto conhecimento da história do cinema e nos seus anos como crítico de cinema nos Cahiers du Cinéma", citando também o seu empenho na evolução das técnicas cinematográficas, "das câmaras ligeiras até ao mais sofisticado equipamento digital" — o génio do seu pensamento sobre e sob o cinema atravessa toda uma obra imensa, tendo encontrado uma fascinante condensação em História(s) do Cinema (1989-1999), ensaio sobre uma linguagem ameaçada cujo prolongamento mais recente é o prodigioso O Livro de Imagem (2018).
Maire lembrou ainda a longa amizade entre Godard e Freddy Buache, crítico e historiador de cinema, além de lendário director da Cinemateca Suíça (entre 1951 e 1996) — presente na cerimónia, Buache foi eleito em 2018 membro honorário da FIAF.

Jean-Luc Godard
à entrada da Cinemateca Suíça (11-04-19)

© Carine Roth / Cinémathèque suisse
>>> Prémio FIAF 2019 — registo da cerimónia de 11 de Abril de 2019.

sexta-feira, abril 12, 2019

No país de Diamantino

Consagrado no Festival de Cannes de 2018, o filme “Diamantino” merece ser descoberto. Mesmo que possamos recebê-lo com desencanto, vale a pena pensar a sua visão de um país chamado Portugal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Abril).

Que dizer sobre o filme Diamantino, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, que chegou às salas portuguesas, quase um ano depois de ter arrebatado, em Cannes, o prémio principal da Semana da Crítica?
Talvez possa ser pedagógico referir que esse prémio serve também de sintoma das clivagens que marcam o universo da crítica de cinema — de facto, não posso deixar de dar conta do meu desencanto face a Diamantino. Dito de outro modo: não há nada que justifique falar de uma entidade unificada, muito menos unívoca, a que daríamos o nome de “crítica”. Interessante é, justamente, a coexistência das diferenças que a intervenção crítica pode envolver.
Entenda-se: o reconhecimento de tais diferenças não arrasta qualquer dúvida sobre o enorme valor simbólico daquele prémio, não apenas para o filme (e toda a sua posterior difusão, em particular no circuito internacional dos festivais), mas para o cinema português em geral.
Trata-se, aliás, de um tema antigo que convém não toldar com a estupidez do preconceito. Em termos meramente pessoais (e não sou o único, como é evidente), sempre sublinhei a importância do impacto internacional da obra de Manoel de Oliveira, sobretudo a partir de Amor de Perdição (1979), recordando-me das vozes que proclamavam que tal impacto era um detalhe sem importância apenas celebrado pela “crítica”. É bem verdade que, depois da morte de Oliveira, tais vozes se exilaram, numa patética demonstração de pequenez ideológica. Mas o tema persiste: com Gabriel Abrantes, ou seja com que cineasta for, exemplos de consagração como o citado são elementos preciosos para qualquer estratégia de política cultural. Podemos, talvez, perguntar se a classe política (de todos os quadrantes) tem sabido reconhecer e exponenciar tais elementos... mas isso é outra questão.
Que me faz, então, resistir a Diamantino? Algo que está para além da sua condição de objecto de cinema e que, a meu ver, tem vindo a contaminar todos os quadrantes da cultura dominante. Dar-lhe-ei um nome que o leitor talvez encare como irónico, mas que apresento como puro elemento descritivo. A saber: o triunfo da irrisão contra qualquer forma de pensamento.
Como é sabido, o filme encena as atribulações de um futebolista português, Diamantino, que falha um lance decisivo numa final de um campeonato do mundo, entrando numa crise que o leva a interessar-se pela possibilidade de encontrar a sua redenção através do acolhimento de um refugiado...
Em termos estritamente narrativos (se é possível separar a construção narrativa das referências, temas ou símbolos que se convocam), o filme parece-me francamente esquemático. A opção dominante consiste em criar “acontecimentos” mais ou menos pitorescos (como os cães que Diamantino visualiza durante os jogos), mais próximos de algumas matrizes publicitárias — valorizando o efémero de detalhes mais ou menos “surreais” — do que da paciente construção de espaço/tempo que um filme requer.
Ainda assim, essa minha avaliação está longe de ser a motivação essencial destas linhas. Gostaria, aliás, de pensar que o valor polémico do filme vai atrair muitos espectadores que, naturalmente, podem não se reconhecer nessa mesma avaliação. Vejo no filme a consagração dessa deriva para a irrisão, e pela irrisão, que está a contaminar todo o nosso universo cultural.
Quando escrevo o “nosso” universo cultural, estou a pensar no contexto português? Sim, sem dúvida, mas também muito para além dele. A banalização das relações que o novo “social” impôs é um fenómeno que transcende fronteiras, sobretudo as tradicionais fronteiras culturais. Há mesmo, em rede, uma pulsão dominante que leva a celebrar o irrisório como linguagem comum que todos somos convidados a partilhar — nem que seja para escrever um insulto mais ou menos obsceno contra um qualquer “outro” encarado como descartável destino virtual do gesto pueril de quem escreve.
Diamantino, o filme, não é, por certo, uma expressão desse tipo de miséria “comunicacional”. Acredito até que se trata de uma narrativa enraizada num misto de amor e compaixão pelas grandezas e misérias do nosso país. Acontece que o esquematismo e, a partir de certa altura, a redundância da sua visão caricatural acaba por reflectir um drama interior a muito cinema que se faz em Portugal. A saber: a extrema dificuldade em construir ficções (realistas ou não, não é essa a questão) que consigam apropriar-se de sinais, personagens ou situações que possam gerar o reconhecimento identitário dos próprios espectadores.
Não tenho dúvidas que esse trabalho de convocação dos olhares e sensibilidades dos espectadores não depende apenas do talento ou boa vontade dos criadores cinematográficos. Dito de outro modo: a existência de um pano de fundo industrial com um mínimo de solidez (financeira) é também um importante elemento cultural. Como sugestivo contraponto, observe-se o caso recente do novo filme do americano Jordan Peele, sugestivamente intitulado Nós. Podemos gostar mais ou gostar menos do filme (eu sou fã, confesso), mas nada disso nos impede de reconhecer na sua dinâmica de tradicional conto de terror as marcas mais ou menos ambíguas de uma conjuntura (cultural, política, ideológica) que nos remete, ponto por ponto, para a América de Donald Trump.
Vivemos um tempo em que os discursos mais miseráveis, ou melhor, de maior miséria criativa conseguem adquirir tribunas “sociais” de eco imediato e avassalador. Observe-se, por exemplo, o modo como a provocação fútil, a ignorância estética e o menosprezo por qualquer relação humana são todos os dias consagrados como elementos definidores da “juventude”. Há mesmo casos em que o falar mal (no sentido de não saber construir uma simples frase em língua portuguesa) é celebrado como sinal triunfante do ser “jovem”.
Nesta encruzilhada, o filme Diamantino não passa de um acontecimento singular, cuja singularidade, mesmo nas suas limitações cinematográficas, não pode ser confundida com as tragédias culturais que nos assombram. Em defesa do filme, acrescentarei que vejo também nele um pretexto para pensarmos a cultura dominante na nossa sociedade. Ou seja: o futebol.

A IMAGEM: John Moore, 2018

JOHN MOORE / Getty Images
Yanela Sanchez chora quando ela e a mãe, Sandra Sanchez,
são detidas pela polícia de fronteiras dos EUA
McAllen, Texas, 12 Junho 2018
WORLD PRESS PHOTO — fotografia do ano

quinta-feira, abril 11, 2019

The National, a preto e branco

Já sabíamos que o novo álbum de The National, I Am Easy to Find, será acompanhado por um filme a preto e branco, protagonizado por Alicia Vikander e realizado por Mike Mills. Entretanto, surgiu um primeiro teledisco cujas imagens pertencerão, por certo, a esse filme — eis Light Years, pequena pérola visual e melodramática.

You were waiting outside for me in the sun
Laying down to soak it all in before we had to run
I was always ten feet behind you from the start
Didn't know you were gone 'til we were in the car

Oh, the glory of it all was lost on me
'Til I saw how hard it'd be to reach you
And I would always be light years, light years away from you
Light years, light years away from you

I thought I saw your mother last weekend in the park
It could've been anybody, it was after dark
Everyone was lighting up in the shadows alone
You could've been right there next to me, and I'd have never known

Oh, the glory of it all was lost on me
'Til I saw how hard it'd be to reach you
And I would always be light years, light years away from you
Light years, light years away from you


quarta-feira, abril 10, 2019

Bruno Lage, uma criança e o futebol

PABLO PICASSO
Criança com pomba, 1901
No final de um jogo de futebol, o treinador Bruno Lage achou por bem convocar a referência de uma criança — que lhe ofereceu um desenho de apoio ao seu clube —, desse modo celebrando aquilo que apresentou como o espírito abnegado, porventura obsessivo, dos respectivos adeptos [video].
Eis uma bizarra evolução de costumes. Repare-se: para estas linhas, é indiferente qual o clube que o protagonista representa; não se trata também, como é óbvio, de duvidar de todos os factos que ele relata. Trata-se, isso sim, de registar a reconversão cultural a que temos vindo a assistir (com a participação dos clubes, dos seus profissionais, de muitos protagonistas da cena política e também de diversas formas do discurso jornalístico).
Dito de outro modo: no imaginário futebolístico dominante, pertencer a um clube é apresentado como uma questão "familiar". Mais do que isso: a dinâmica emocional de tal pertença já passou a ter as crianças como protagonistas sociais e, no limite, símbolos incautos do próprio clube.
Assistimos, assim, ao triunfo de um aparato ideológico em que todas as tradicionais definições do espaço infantil, desde o prazer primitivo da brincadeira à descoberta da expressão artística, foram de tal modo afuniladas que já só o futebol emerge como elemento identitário. No limite, ser criança é pertencer a um clube — e, por amor desse clube, alienar a singularidade de ser criança.

>>> Video de 'Visão de Mercado'.

Cannes acolhe os zombies de Jim Jarmusch

Uma parada de estrelas, uma celebração paródica do gosto popular e zombies... Nada disso irá faltar, por certo, na abertura oficial da 72ª edição do Festival de Cannes, a 14 de Maio — o filme chama-se The Dead Don't Die e tem assinatura de Jim Jarmusch.

AJR: a irmandade digital

"A" de Adam, "J" de Jack, "R" de Ryan: AJR é a banda dos irmãos Met, de Manhattan. Rezam as crónicas que o seu gosto pela pop, electrónicas & etc. se exprime através de um trabalho caseiro e artesanal que, além do mais, já gerou três álbuns de música realmente ligeira, combinando a simplicidade das estruturas com o requinte da produção. O terceiro álbum, Neotheater (belo e sugestivo título!) está a chegar, tendo como cartão de visita a canção 100 Bad Days e a sua deliciosa recriação digital — o teledisco tem assinatura de Tim Nackashi.

terça-feira, abril 09, 2019

Seymour Cassel (1935 - 2019)

Versátil actor secundário, presença emblemática da obra de John Cassavetes, o americano Seymour Cassel faleceu no dia 7 de Abril, em Los Angeles — contava 84 anos.
Começou com Cassavetes em Faces/Rostos (1968), título emblemático da "nova vaga" novaiorquina que lhe valeu uma nomeação para o Oscar de melhor actor secundário . Sob a sua direcção trabalhou ainda em A Morte de um Apostador Chinês (1976), Noite de Estreia (1977) e Amantes (1984). Vimo-lo também, por exemplo, em A Pele de um Malandro (1968), de Don Siegel, O Grande Magnate (1976), de Elia Kazan, O Comboio dos Duros (1978), de Sam Peckinpah, Los Angeles a Ferro e Fogo (1988), de Dennis Hopper, ou Dick Tracy (1990), de Warren Beatty. Nele, e através dele, encontramos, afinal, esse know how, de uma só vez narrativo e simbólico, que sabe emprestar vida a uma personagem de um filme, mesmo quando a sua presença no ecrã é muito breve.

>>> Trailers: Rostos + Amantes.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

segunda-feira, abril 08, 2019

Nova canção de Courtney Barnett

Quase um ano depois de Tell Me How You Really Feel, o magnífico segundo álbum de Courtney Barnett, a cantora australiana tem um novo tema — fiel às suas raízes alternativas (ou serão "apenas" clássicas?), aí está Everybody Here Hates You.

domingo, abril 07, 2019

Elise LeGrow / TED Talk

Porque cantar é também uma forma de falar, Elise LeGrow já participou nas TED Talks. Respeitando a brevidade que o modelo impõe, interpretou três temas do seu admirável álbum Playing Chess, através do qual nos fez redescobrir o património da Chess Records. Eis You Never Can Tell, Over the Mountain, Across the Sea e Rescue Me — 10 minutos de puro encantamento.

Populismo vs. politicamente correcto [citação]

>>> O populismo e o politicamente correcto são (...) duas formas complementares de mentira que correspondem à clássica distinção entre histeria e neurose obsessiva: um histérico diz a verdade disfarçada de mentira (o que é dito não é literalmente verdade, mas a mentira exprime através de uma forma falsa uma queixa autêntica), enquanto que aquilo que o neurótico obsessivo proclama é literalmente verdade, mas é uma verdade que serve uma mentira.

(Penguin, 2018)

sábado, abril 06, 2019

Marvin Gaye: o álbum que esperou 47 anos

Digamos que se trata de um novo álbum de Marvin Gaye (1939-1984). Ou melhor, um velho álbum de Marvin Gaye. Ou ainda: um álbum que nunca existiu. Aliás, que só existe agora, 47 anos passados sobre a sua gravação.
Foi em 1972. Depois do sucesso de What's Going On (1971), Gaye iniciou gravações para um novo álbum, apostado que estava em prolongar as experiências sonoras do registo anterior, lendárias na história da soul, reforçando também a expressão do seu desencanto político face à guerra do Vietname. O lançamento do single da canção-título não correu bem e divergências no interior da própria Motown, sobre o sentido do projecto, conduziram a um impasse... A história regista que um outro clássico, Let's Get It On, surgiria em 1973.
Quase meios século depois, You're the Man é uma colecção de canções que não se distingue pela novidade, já que a maioria foi sendo conhecida através de diversas compilações; isto sem esquecer que o alinhamento surge alargado com algumas remisturas e até mesmo uma canção de Natal (I Want to Come Home for Christmas). Enfim, não vos vamos queixar de tantas "imperfeições" e só podemos saudar o reencontro com a magia de Marvin Gaye — eis o álbum completo, disponibilizado no YouTube.

Wang Bing — rostos e memórias da China

Há a regra e há a excepção. Almas Mortas, de Wang Bing, é a excepção absoluta. Desde logo pela sua duração: 495 minutos, ou seja, um pouco mais de oito horas (exibidas em dois dias consecutivos). Quanto mais não seja por causa dessa monumentalidade, o documentário sobre a purga desencadeada por Mao Tsé-Tung em 1957, enviando milhares de "ultra-direitistas" para campos de reeducação na província de Gansu, pertence ao modelo de film-fleuve em que podemos encontrar objectos tão radicais como Shoah (1985), de Claude Lanzmann (sobre o Holocausto; mais de nove horas), ou Near Death (1989), de Frederick Wiseman (sobre o tratamento de doentes terminais num hospital de Boston; quase seis horas).
Importa, obviamente, ultrapassar qualquer visão "quantitativa" de tal duração, sublinhando o essencial. A saber: o cineasta de títulos igualmente admiráveis como A Fossa (2010) ou Três Irmãs (2012) prossegue o seu trabalho de obstinado realismo, expondo as nuances com que se tece a complexidade do real — e, mais do que isso, o poder anímico e político da evocação crítica da história humana, das histórias dos homens.
Neste caso, a antologia de rostos e memórias permite-nos conhecer um capítulo trágico da história da China (atingindo mais de meio milhão de pessoas), numa narrativa tanto mais envolvente quanto se vai cimentando através das palavras dos sobreviventes e familiares que dão o seu testemunho. Velha lição de Almas Mortas: o cinema é uma arte que nasce do cruzamento do olhar com a capacidade de escuta.

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* ALMAS MORTAS, cinema Monumental (Lisboa):

> 1ª Parte - 6 de Abril (12h00)
> 2ª Parte - 7 de Abril (12h00)

> 1ª Parte - 20 de Abril (12h00)
> 2ª Parte - 21 de Abril (12h00)

Sleeper, 22 anos depois

Pleased to Meet You, assim se chamava o terceiro álbum dos britânicos Sleeper — foi em 1997. Pois bem, 22 anos depois aí está o nº 4: chama-se The Modern Age (!) e tudo se passa como se nada tivesse acontecido para além das delícias mais básicas da Britpop... O que, entenda-se, é saborosamente irresistível: Louise Wener e companheiros estão muito bem onde estavam e não sentem necessidade de justificar o seu modo de estar. Eis dois exemplos do seu futurismo nostálgico: Sleeper e The Sun Also Rises.



quinta-feira, abril 04, 2019

O cinema sem cinefilia

Buster Keaton / THE CAMERAMAN (1928)
Para onde vai o mercado cinematográfico? Quando os filmes são tratados como acontecimentos nas chamadas redes sociais, será que ainda prevalecem alguns valores da clássica cinefilia? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Março).

As convulsões por que está a passar o mercado cinematográfico manifestam-se através dos sinais mais paradoxais, por vezes simplesmente absurdos. Por exemplo: passou a ser “normal” o lançamento em sala de uma dezena de filmes por semana (por vezes, mais). Tendo em conta que muitos dos títulos estreados estão apenas a cumprir um trajecto “obrigatório” para, com mais ou menos rapidez, surgirem na televisão por cabo, nos respectivos videoclubes ou nas plataformas de streaming, isso significa que o essencial do negócio passou a acontecer, precisamente, depois das salas.
Não adianta encarar tal transformação em termos moralistas. Há muito que todos nós (dos produtores de cinema aos consumidores, passando pelos jornalistas) sabemos da escalada dessa transformação, de uma só vez técnica e cultural. E se é verdade que passou a haver espectadores que julgam que ganharam alguma coisa por poderem ter a grandiosidade física de filmes como Lawrence da Arábia (1962) na triste pequenez do seu telemóvel, não é menos verdade que também não adianta transformar tais espectadores em bodes expiatórios seja do que for. No seu desconhecimento, eles são apenas peões incautos de um processo que pode vir a desembocar na morte da clássica cultura cinéfila.
Em certos momentos, parece haver alguns agentes do mercado de distribuição/exibição que acreditam (ou querem fazer acreditar) que tudo estaria melhor se os espaços jornalísticos dessem outra (isto é, mais) evidência aos seus produtos. A questão é sempre perversa, quanto mais não seja porque tais espaços são naturalmente (e salutarmente) diferentes. No caso particular da crítica de cinema, hoje, mais do que nunca, importa recordar uma antiquíssima verdade: a crítica não é um rebanho e está marcada por muitas clivagens, não poucas vezes decorrentes de modos de ver inconciliáveis.
O assunto tem tanto de complexo como de preocupante, aconselhando a não cedermos a quaisquer generalizações fáceis. No caso particular das relações dos referidos agentes do mercado com a comunicação social, importa referir uma mudança sensível. A saber: muitos desses agentes passaram a confundir essa comunicação social com as (chamadas) redes sociais — em sentido figurado ou não, mudaram a sua concepção de sociedade.
O esvaziamento da cinefilia acontece, assim, semana após semana, através de modos de difusão em que encontramos os mais inusitados valores promocionais: associações dos filmes a outros produtos de consumo, concursos com plataformas da Net, ante-estreias com “famosos” das telenovelas”, etc.
Não está em causa a legitimidade de as empresas trabalharem dessa maneira (muito menos se trata de daí deduzir qualquer forma de antipatia ou menor disponibilidade dos profissionais envolvidos). Trata-se apenas de formular uma cândida observação: muitas formas de promoção deixaram de se enraizar em valores cinéfilos, procurando antes o ruído efémero ou anedótico do novo “social”.
Do meu ponto de vista, certamente discutível, tenho sérias dúvidas sobre a capacidade de tal estratégia conseguir, a prazo, sustentar a viabilidade comercial das salas. E sou o primeiro a não esquecer que, felizmente, com maior ou menor visibilidade promocional, não nos faltam filmes magníficos, das mais diversas origens, para continuarmos a amar o cinema.

Natalie Prass na NPR

Americana, 33 anos, Natalie Prass pratica uma pop nostálgica tingida de muitas nuances. Há nela um à vontade genuíno, sem provocação nem fingimento, que a demarca de qualquer "tendência" corrente. E com uma sofisticada capacidade de lidar com as exigências teatrais de uma performance ao vivo. Em ambiente radiofónico, neste caso: ei-la num 'Tiny Desk Concert' da NPR, interpretando três temas de The Future and the Past, o seu segundo álbum de originais, lançado em Junho de 2018.

Varda por Teller

Terá sido, por certo, um dos derradeiros retratos de Agnès Varda: tem data de finais de 2018 e foi publicada na revista de moda Puss Puss — a assinatura é de Juergen Teller.

quarta-feira, abril 03, 2019

#UnravelHate

Uma marca de roupas canadiana, Peace Collective, pôs em marcha uma campanha sobre as formas de acolhimento dos estrangeiros, demarcando-se do slogan 'Make America great again', de Donald Trump. O princípio de acção é: #UnravelHate. E o resultado é este magnífico spot, da responsabilidade da agência Zulu Alpha Kilo.

terça-feira, abril 02, 2019

7 noites de Joshua Redman

Há vinte anos que o saxofonista Joshua Redman não lançava qualquer registo do seu quarteto. A espera valeu a pena: aí está Come What May, reencontro sereno e fulgurante de Redman, Aaron Goldberg (piano), Reuben Rogers (contrabaixo) e Gregory Hutchinson (bateria). Através de uma cumplicidade tecida de muitas nuances sonoras, aqui encontramos sete temas seduzidos pelas ambiências de muitas noites (anunciadas na belíssima capa) com tanto de misterioso como de acolhedor — assim se apresenta, por exemplo, o tema How We Do.