domingo, agosto 18, 2019

Uma comédia sexual feminina?

Beanie Feldstein e Kaitlyn Dever
Foi em 1999 que se estreou American Pie, objecto de desastrosa mediocridade cinematográfica que criou um “estilo” de representação da juventude baseado num único pressuposto dramático: a adolescência seria apenas um acidente sexualmente burlesco que se resume no facto de as respectivas personagens serem ou não serem virgens... Em Portugal, num gesto de sagaz objectividade, o filme foi mesmo lançado com o subtítulo “A Primeira Vez”.
Vinte anos depois, há que reconhecer que a moda não desarma: Booksmart, estreia na realização da actriz Olivia Wilde, é a “enésima” variação sobre o tema. Dito de outro modo: onde antes encontrávamos rapazes a especular sobre o modo de atrair raparigas, agora a acção centra-se em raparigas atraídas por... rapazes e raparigas.
Dir-se-ia que encontramos aqui um sintoma das convulsões do movimento #MeToo, em particular da revalorização de histórias de mulheres concebidas e assinadas por mulheres. Em todo o caso, creio que tal perspectiva tende a gerar um equívoco ainda maior: mesmo não ignorando os seus impasses, contradições e silêncios, o fenómeno #MeToo é demasiado sério, e de inegável importância social, para que o confundamos com as proezas de um filme como Booksmart.
Desgraçadamente, a questão é muito mais simples: estamos apenas perante um exemplo de chocante mediocridade cinematografica. O subtítulo português ajuda à festa, procurando reforçar a “ironia” do original. Assim, “booksmart” designa alguém que cultiva o gosto dos livros, nessa medida “armando-se em esperto(a)”... Daí a adenda que o filme recebeu no nosso mercado: Inteligentes e Rebeldes.
Não estamos, realmente, no reino da subtileza. Assumindo-se como comédia sexual feminina, porventura feminista (?), Booksmart dá-nos conta das atribulações de Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein) em vésperas da cerimónia de encerramento do curso liceal, já vislumbrando a sua vida universitária... Num misto de desilusão e culpa, descobrem que talvez não tenham sabido desfrutar dos prazeres da adolescência em que todos os colegas se especializaram...
O cliché não podia ser mais claro: quem lê livros, coitado(a), não sabe nada dos sabores da vida vivida... O resultado é uma antologia de piadas de sorumbático humor, com a breve excepção de uma sequência onírica, executada, em animação, com duas bonecas Barbie que, ao espelho, avaliam as componentes sexuais da representação do seu próprio corpo... Podia ser uma outra maneira de lidar com a pesada herança de American Pie, mas tal sequência não passa de uma excepção. Em última instância, este é um filme que parece assombrado por aquela incómoda tristeza de nem sequer acreditar no humor que tenta transmitir.

sábado, agosto 17, 2019

Leopardo de Ouro para Pedro Costa

Vitalina Varela e Pedro Costa
— LOCARNO, 17 Agosto 2019
Pedro Costa continua a filmar personagens cujas raízes estão em Cabo Verde. No caso de Vitalina Varela, o título identifica a mulher que protagoniza uma nova aventura de um cinema que, por princípio, se demarca dos modelos dominantes. Ou como diz o próprio cineasta, evocando o trabalho com a sua equipa: "Não ando a fazer documentários ou entrevistas de televisão. Estamos a tentar qualquer coisa um pouco mais épico."
São palavras registadas no final do Festival de Locarno, onde Pedro Costa arrebatou o prémio máximo — Leopardo de Ouro —, cinco anos depois de no mesmo certame ter conquistado o prémio de realização, com Cavalo Dinheiro. Vitalina Varela foi também distinguida, recebendo o prémio de melhor interpretação feminina — esta é a sua entrevista ao site do festival.

Peter Fonda (1940 - 2019)

A sua imagem em Easy Rider há muito transcendeu as peripécias de um filme, pertencendo por direito próprio à iconografia do século XX: o actor americano Peter Fonda faleceu no dia 16 de Agosto, na sua casa de Los Angeles, devido a dificuldades respiratórias provocadas por cancro no pulmão — contava 79 anos.
Num certo sentido, Peter Fonda viveu artisticamente "bloqueado" pelo fulgor do seu próprio clã familiar: o pai, Henry Fonda (1905-1982), impôs-se como um dos símbolos mais fortes do mais depurado classicismo, enquanto a irmã, Jane Fonda (n. 1937), se tornou uma das grandes referências de Hollywood e da sua moderna transfiguração, em especial a partir do primeiro dos seus dois Oscars, ganho com Klute (1972). Nada disso diminui as qualidades das suas proezas, mas é um facto que foi ele próprio a reconhecer tal "secundarização", na autobiografia Don't Tell Dad (="Não contem ao Papá"), publicada em 1998.
Para lá da presença emblemática em Easy Rider, de Dennis Hopper, um dos títulos fulcrais no encerramento simbólico da história e das ilusões dos sixties, importa lembrar que Fonda foi também um dos produtores do filme (rodado com um orçamento minimalista), abrindo caminho para novos entendimentos da independência criativa. O mesmo se poderá dizer do belíssimo The Hired Hand/O Regresso (1971), por ele protagonizado e realizado, título exemplar da reconversão crítica do "western" ao longo dos anos 60/70, explorando um impossível romantismo exemplarmente condensado no prodigioso trabalho de direcção fotográfica assinado por Vilmos Zsigmond.


Por um lado, a sua filmografia é imensa (mais de uma centena de títulos, incluindo as produções televisivas); por outro lado, grande parte do seu trabalho pertence a filmes que foram ilustrando a penosa decomposição dos géneros clássicos, sobretudo ao longo das décadas de 80/90. Em qualquer caso, o simbolismo da sua imagem seria mais tarde reconhecido (e integrado) por cineastas como John Carpenter e Steven Soderbergh que o convidaram para participar, respectivamente, em Fuga de Los Angeles (1996) e O Falcão Inglês (1999). A não esquecer: o nome de Peter Fonda está na ficha artística do mais belo filme do mundo: Lilith (1964), de Robert Rossen — ei-lo, contracenando com Jean Seberg e Warren Beatty.


>>> Obituário no Los Angeles Times.
>>> Site oficial de Peter Fonda.

sexta-feira, agosto 16, 2019

Woodstock na Antena 3

Belos momentos de rádio num programa da Antena 3 concebido e apresentado pelo Nuno — eis o que acontece:

>>> Três dias de paz, amor e música… Foi assim Woodstock, em agosto de 1969. Alguns dos maiores nomes da música atuaram para uma inesperada multidão de meio milhão de pessoas. Mas nem só de música viveu a história de um festival que ajudou a mudar a própria sociedade. 50 anos depois, a Antena 3 lembra Woodstock e o seu legado. E para contar esta história e o que mudou depois de Woodstock, o Nuno Galopim chamou os nossos companheiros de trabalho Álvaro Costa e Pedro Costa, o crítico de cinema João Lopes e os músicos Jorge Palma e Tozé Brito (que atuaram em Vilar de Mouros em 1971).

Para ouvir no site da Antena 3.

quinta-feira, agosto 15, 2019

O casal de Woodstock

[Zoomer Radio]
A imagem surgiu pela primeira vez, em 1970, na capa do álbum Woodstock: Music from the Original Soundtrack and More. A fotografia, assinada por Burk Uzzle, consagrava o par formado por Nick e Bobbi Ercoline, celebrando a ternura do seu abraço (e o seu emblemático cobertor) como símbolo do próprio festival. Na verdade, o casal só saberia do facto quando, em 1989, na edição comemorativa dos 20 anos de Woodstock, a revista Life deu a conhecer a sua identidade.
De então para cá, além de figuras incontornáveis de qualquer efeméride, são verdadeiros e muito legítimos embaixadores de um evento que não se repete — há dias, deram uma entrevista à revista Time.


Burk Uzzle foi um dos fotógrafos que acompanhou o Festival de Woodstock. Recentemente, a Time publicou algumas das suas memórias, a par do testemunho de mais quatro desses fotógrafos: Baron Wolman, Ron Frem, Barry Z. Levine e Elliott Landy. Eis algumas das imagens de Uzzle, em Woodstock, publicadas no seu site.

Woodstock, 50 anos

Fascinante aritmética do tempo: 4 x 3 — são 12 LP, a cores, celebrando a invencível nostalgia do vinyl, evocando os "3 dias de paz e música" vividos no Festival de Woodstock a partir de 15 de Agosto de 1969 — faz hoje 50 anos.
Eis um acontecimento tanto mais especial quanto, de facto, transcende a maior parte das edições anteriores, dando a ouvir muitas performances não incluídas nessas edições ou ausentes do filme de Michael Wadleigh, o fabulosos Woodstock (lançado em Março de 1970 nas salas dos EUA e, em Portugal, no Verão de 1975, na extinta sala do Caleidoscópio, no Campo Grande, em Lisboa [blog: 'Restos de colecção']).
Entre os ausentes do filme de Wadleigh, aqui ficam os Creedence Clearwater Revival (Green River); em baixo, o hino dos EUA na lendária performance de Jimi Hendrix.



quarta-feira, agosto 14, 2019

A utopia de Abbey Road

A célebre fotografia dos Beatles a atravessarem uma passadeira da Abbey Road, em Londres, foi registada há meio século: as memórias da imagem e da música continuam a ser vividas como um acontecimento do nosso presente — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Agosto).

Foi a 8 de Agosto de 1969 que o fotógrafo escocês Iain Macmillan (1938-2006) registou uma das imagens mais célebres da história da música popular do século XX: nela vemos George Harrison, Paul McCartney, Ringo Starr e John Lennon a atravessarem uma passadeira da Abbey Road, em Londres. A 26 de Setembro do mesmo ano, a fotografia surgiria nas lojas de discos como capa do penúltimo álbum de estúdio dos Beatles: Abbey Road, precisamente.
Iain Macmillan
Na quinta-feira, a imprensa de todo o mundo deu conta do 50º aniversário da imagem e, em particular, das celebrações in loco. Algumas centenas de pessoas (segundo a Time), porventura alguns milhares (garantia a BBC), estiveram no local, junto dos estúdios em que Abbey Road foi gravado, para evocar tão emblemática imagem, fazer as suas próprias fotografias e até, no caso de um “sósia” de McCartney, propor casamento à namorada...
O evento envolve um curioso sintoma do modo como passámos a viver muitas celebrações colectivas e, em particular, as efemérides. Não se trata, de modo algum, de reduzir os protagonistas anónimos a qualquer caricatura. Aliás, consigo imaginar-me, sem relutância, a fazer a mesma peregrinação a tão mítico lugar.
Mas vale a pena registar a contradição: o festivo “regresso” à capa de Abbey Road não envolveu quaisquer impulsos “sociais” (decididamente, as “redes” são preguiçosas...) no sentido de uma metódica e apaixonada revisitação dos 17 títulos do álbum. E não faltariam motivações para o fazer: começando no prodigioso Come Together (que durante algum tempo não passou na rádio da BBC, já que a sua referência à Coca-Cola contrariava as regras internas no sentido de não difundir canções que contivessem alusões a produtos comerciais) e terminando no delicioso e minimalista Her Majesty (em que Paul refere a Rainha como “a pretty nice girl” [audio]). Sem esquecer Something e Here Comes the Sun, duas obras-primas assinadas por Harrison, quase sempre o mais “ausente” dos quatro.


Não estamos perante um fenómeno isolado que se possa “explicar” pelas peculiaridades de alguns fãs dos Beatles. Para compreendermos a sua lógica (ou a falta dela), podemos, e devemos, superar a ditadura simbólica que decorre do actual tribalismo mediático: segundo o grosseirismo de tal conceito, qualquer relação com um determinado evento — musical, cinematográfico, futebolístico, etc. — só poderia existir se enquadrada pela “razão” compulsiva de uma multidão mais ou menos ululante.
De um ponto de vista geracional (da minha geração, entenda-se), vale a pena lembrar que o aparecimento de Abbey Road foi vivido numa encruzilhada de fascínio, perplexidade e, se é que consigo aplicar a palavra num sentido visceralmente cultural, angústia.
Desde logo, porque estávamos perante um objecto de vertiginosa criatividade, porventura ainda mais radical que o “Álbum Branco” (publicado dez meses antes), oscilando da candura pop até às mais enigmáticas ousadias experimentais; depois, porque o seu lançamento foi enquadrado pelas notícias de uma ruptura iminente dos quatro de Liverpool; enfim, porque essa ruptura aconteceu mesmo passado pouco tempo, de tal modo que o álbum final, Let It Be, editado em Maio de 1970, foi já escutado como um ritual de despedida (ironicamente, a maior parte do seu material tinha sido registada antes das sessões de Abbey Road).
A herança dos Beatles não pode ser dissociada dessa sensação, de um só vez racional e anímica, que faz com que a música exista como uma aventura da própria identidade de quem a escuta. Não é, evidentemente, um exclusivo de qualquer passado (musical ou não). É mesmo um misto de energia e mistério que as décadas vão reforçando e que, em última análise, não necessita da caução de qualquer efeméride.
Talvez encontremos aí os restos de um impulso utópico que, mesmo quando se exprime através do ruído mediático, não se esgota na nostalgia. A saber: tudo é presente, a nossa casa fica numa esquina de Abbey Road.

ABBEY ROAD STUDIOS

Malick — o trailer

Depois da sua passagem em Cannes, e tal como se esperava, o filme de Terrence Malick, A Hidden Life, irá tentar a sua sorte na próxima temporada de prémios, com estreia americana agendada para Dezembro (chegando aos ecrãs portugueses em Janeiro de 2020). Baseado na história verídica de Franz Jägerstätter (1907-1943), que recusou integrar o exército nazi, esta prodigiosa saga humana já tem o seu primeiro trailer.

terça-feira, agosto 13, 2019

Billie Eilish por Petra Collins

O artigo de Josh Eells sobre Billie Eilish é, de facto, uma notável peça jornalística: vale a pena ler na Rolling Stone essa viagem pela impossível fronteira entre candura e medo, adolescência e idade adulta. Sem esquecer o complemento fundamental das fotografias assinadas por Petra Collins — eis aqui o portfolio completo.

DVD: Renoir, Ophüls & etc.

Mel Ferrer e Ingrid Bergman
HELENA E OS HOMENS (1956)
De Renoir a Ophüls, os clássicos do cinema francês voltam a ser um acontecimento no mercado do DVD: onze filmes para redescobrirmos os mestres que inspiraram os cineastas da Nova Vaga — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Agosto).
  
Observando o modo como o makerting cinematográfico investe o essencial dos seus recursos nas produções de “super-heróis” e afins, somos forçados a reconhecer que os clássicos, mais do que marginalizados, passaram a ocupar um pequeno território de resistência. Nas salas e também no DVD, como agora se prova pela edição (em alguns casos, reedição) de títulos de grandes autores do cinema francês, produzidos, em particular, durante a década de 50.
Trata-se de uma “Colecção Cinema Francês – Os Grandes Mestres” com chancela da Leopardo Filmes. Dos três volumes já editados, só o primeiro é dedicado apenas a um realizador, Jean Renoir (1894-1979), com três títulos: O Crime do Sr. Lange (1936), French Cancan (1954) e Helena e os Homens (1956). Os dois outros volumes apresentam, cada um deles, quatro filmes de dois cineastas: Marcel Pagnol (1895-1974) e Sacha Guitry (1885-1957), no segundo; Jacques Becker (1906-1960) e Max Ophüls (1902-1957), no terceiro.
Tendo em conta que predominam produções da década de 50, vale a pena recordar que a revolução estética — de temas, sensibilidades e linguagens — protagonizada ao longo da década seguinte pela geração da “Nouvelle Vague” não pode ser compreendida como se os respectivos autores tivessem partido do zero. Bem pelo contrário, foi em criadores como Renoir, Ophüls ou o muito esquecido Guitry que eles reconheceram as marcas de uma singularidade (francesa, antes do mais) cuja herança importava estudar, assumir e transfigurar. De alguma maneira, Jean-Luc Godard, François Truffaut ou Eric Rohmer foram modernos através da sua relação com o património legado por esses clássicos.
Aqui encontramos, por isso, toda uma pluralidade artística que vai do “impressionismo” de Renoir ao gosto teatral de Guitry, sem esquecer o “romantismo” de Becker, em particular no mítico Casque d’Or/Aquela Loira (1952), com Simone Signoret no seu papel mais emblemático [trailer original].


Enfim, são onze filmes capazes de nos ajudar a relativizar e, mais do que isso, superar qualquer visão pitoresca do passado cinematográfico. Como bons cinéfilos, podemos e devemos reconhecer a espantosa actualidade destes mestres. Entre os títulos editados, eis três exemplos modelares:

* HELENA E OS HOMENS (1956), de Jean Renoir — É o filme que conclui a “trilogia da felicidade” de Renoir, depois de A Comédia e a Vida (1952), celebrando as ambivalências existenciais do teatro, e French Cancan (1955), evocando a fundação do Moulin Rouge, em Paris, em finais do século XIX. Também situado no apoteótico e colorido “fin de siècle”, Helena e os Homens possui a dimensão de uma fábula romântica sobre os enigmas do masculino/feminino, com Ingrid Bergman, numa das suas composições mais delicadas e etéreas, contracenando com Jean Marais e Mel Ferrer.

* VENENO (1951), de Sacha Guitry — Quando vemos agora o genérico de abertura deste filme, com o próprio Guitry a apresentar, com carinho e pompa, os elementos da sua equipa (actores e técnicos), sentimos que estamos perante um espírito realmente livre. Ou seja: Guitry é alguém que assume uma descomplexada teatralidade para, a partir daí, construir um discurso cinematográfico que envolve sempre uma visão sarcástica dos limites da moral humana. Com o brilhante Michel Simon no papel central, esta é uma desconcertante parábola sobre a “lógica” de um acto criminoso e, nessa medida, a infinita ambivalência das relações sociais.

* MADAME DE... (1953), de Max Ophüls — Antes do seu lendário e derradeiro filme, Lola Montès (1955), Ophüls realizou O Prazer (1952) e Madame De... (1953), ambos incluidos nesta edição. Com Danielle Darrieux num dos mais requintados papéis da sua carreira, Madame De... encena as atribulações de uma dama da Belle Époque cuja reputação se enreda no circuito insólito de uns brincos que podem revelar mais do que as conveniências exigem... Através dos encontros e desencontros amorosos, num misto de cepticismo e ironia, Ophüls filma sempre a insensatez dos desejos humanos [trailer espanhol].

domingo, agosto 11, 2019

EUA: violência com armas x 253

A urgência das imagens conduz-nos, por vezes, através da contundência dos números. Apresentando a edição desta semana da revista Time (com data de 19 Agosto), o editor-chefe Edward Felsenthal escreve, justamente, sobre essa trágica dialéctica face aos episódios de violência com armas de fogo nos EUA e a renovada razão para utilizar como título a palavra 'Basta' (enough).
Registados pelo Gun Violence Archive — organização não lucrativa que recebe e organiza informação sobre incidentes com armas de fogo nos EUA —, verificaram-se 253 desses episódios ao longo de 2019. Em cada um deles pelo menos quatro pessoas (não incluindo os agressores) foram feridas ou mortas — o artista John Mavroudis concebeu a capa da Time a partir da listagem dos 253 locais em que tudo aconteceu. Ou como a palavra pode ser a mais forte das imagens.

sábado, agosto 10, 2019

Síndrome de Estocolmo — as origens

Com Ethan Hawke no papel central, Síndrome de Estocolmo evoca o assalto que deu origem à própria expressão usada no título: ou como se pode estabelecer alguma cumplicidade entre raptores e reféns — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 Agosto).

O filme Síndrome de Estocolmo abre com uma legenda que explica a própria expressão do título: “tendência psicológica de um refém se ligar ao seu raptor.” Mas não se trata apenas de encenar uma situação simbólica, capaz de reflectir essa inusitada relação afectiva (refém/raptor). Porquê? Porque o filme realizado pelo canadiano Robert Budreau evoca a própria situação verídica que deu origem à expressão.
Estamos, de facto, perante um drama inspirado no assalto a um banco de Estocolmo, perpetrado pelo sueco Jan-Erik Olsson, a 23 de Agosto de 1973 — a evolução dos acontecimentos foi sendo contaminada por essa inesperada “simpatia” entre Olsson e os seus reféns, funcionários do banco. Em qualquer caso, não há no filme de Budreau qualquer tentativa de “reconstituição”, até porque os nomes das personagens são fictícios, a começar pelo líder dos assaltantes, Kaj Hansson, interpretado por Ethan Hawke.
Também não se trata, entenda-se, de explicar “cientificamente” a lógica (ou a falta de lógica) que, numa conjuntura de profundo dramatismo, pode gerar inesperados laços emocionais entre agressor e agredido. O maior mérito cinematográfico do trabalho de Budreau será mesmo esse: evitar qualquer efeito de “tese”, optando antes pela encenação de um labirinto humano que, em última instância, se rege pelas regras clássicas do “thriller”.


Budreau é, antes do mais, um rigoroso director de actores. Foi ele, aliás, que também dirigiu Hawke num belo filme sobre uma lenda do jazz, Chet Baker: chama-se Born to Be Blue (2015) e, infelizmente, nunca chegou às salas portuguesas. Agora, para além de Hawke, compondo um ladrão fascinado pelas canções de Bob Dylan (!), Noomi Rapace e Mark Strong são também exemplares: ela como a empregada do banco que, na condição de refém, vai desenvolvendo uma peculiar cumplicidade com o assaltante; ele no papel do cúmplice, inicialmente na prisão, cuja libertação é exigida por Hansson.
O filme sabe manter um equilíbrio simples, mas eficaz, entre os momentos de pura acção física e as situações em que, dentro e fora do banco, a inquietação aumenta (ponto fraco: a caracterização dramática dos polícias obedece a uma banalidade esquemática, quase sempre previsível). Particularmente subtis são os momentos em que, através da interpretação de Hawke e Rapace, vamos percebendo que algo está a acontecer, transcendendo e, até certo ponto, anulando o conflito inerente às suas identidades.
Do ponto de vista histórico, Síndrome de Estocolmo contém ainda os curiosos sinais de um fenómeno mediático que, no assalto ao banco de Estocolmo, terá tido um dos seus momentos fundadores: esta é, na verdade, uma das primeiras situações em que a presença da televisão contribuiu para que os cidadãos experimentassem a sensação ambígua de acompanhar os acontecimentos “em tempo real”. Podemos perguntar se tal método de reportagem serviu, realmente, para enriquecer a própria linguagem televisiva... Mas como diria uma personagem de Billy Wilder [video: Irma la Douce, 1963], isso é outra história...

Tom Ford + Steven Klein

Portfolio de Steven Klein para a colecção Outono/Inverno de Tom Ford — cenários de um tempo cujas coordenadas acederam a uma dimensão paradoxal, porque intemporal. Ou a pura abstracção dos gestos gerada através do concreto de corpos e objectos.

sexta-feira, agosto 09, 2019

Jean-Pierre Mocky (1929 - 2019)

Actor, produtor, argumentista, realizador e, por fim, distribuidor/exibidor, foi um eterno marginal do cinema francês: Jean-Pierre Mocky faleceu no dia 8 de Agosto, em Paris — contava 90 anos.
O cognome de "franco-atirador" acompanhou-o desde que, já uma carreira de actor, começou a realizar os seus filmes, estreando-se em 1959 com o drama Les Dragueurs, protagonizado por Charles Aznavour. Aliás, Aznavour seria um dos seus intérpretes de eleição, a par de Bourvil (que dirigiu, por exemplo, em La Grande Lessive, uma comédia de 1968 contra os estereótipos televisivos) ou Michel Serrault (actor em doze dos seus filmes, incluindo Le Miraculé, farsa de 1987 denunciando a mercantilização das peregrinações religiosas a Lourdes).
Coabitou com a Nova Vaga e todas as transformações posteriores da produção francesa, embora mantendo-se como um obstinado individualista; em meados dos anos 90, tentando contrariar as dificuldades de difusão do seu trabalho, adquiriu mesmo uma sala de Paris, especialmente vocacionada para a exibição dos seus próprios filmes. Em qualquer caso, a sua solidão criativa, muitas vezes expressa através de contundentes críticas sociais, não o impediu de dirigir algumas grandes estrelas do cinema francês, incluindo Fernandel (em 1967, na comédia policial La Bourse et la Vie), Jacques Dutronc (em 1982, na sátira política Y a-t-il un Français dans la Salle?), Jeanne Moreau (no citado Le Miraculé) e Catherine Deneuve (em 1987, no "thriller" Agent Trouble).
De uma versatilidade incrível, da escrita de argumentos à interpretação — integra o elenco de uma boa metade dos seus filmes, incluindo o emblemático Solo (1970), drama policial do pós-Maio 68 —, Mocky trabalhou também regularmente na televisão, de tal modo que a sua filmografia global contém mais de uma centena de títulos. Em 2016, Charles Schnaebele e Virgile Tyrode dedicaram-lhe o documentário La Loi de l'Albatros; no mesmo ano, publicou a auto-biografia Mocky soit qui mal y pense.


>>> Trailer de Y a-t-il un Français dans la Salle? + trailer do documentário La Loi de l'Albatros + entrevista ao jornal Le Figaro (por ocasião da morte de Charles Aznavour, Outubro 2018).






>>> Obituário no canal Arte.

Os dólares contra a cinefilia

Clark Gable e Vivien Leigh
Que significa dizer que um determinado filme acumulou centenas de milhões de dólares de receitas? Mais do que nunca, importa lembrar que o amor do cinema não é um assunto das secções de contabilidade — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Agosto).

Ciclicamente, deparamos com notícias sobre o gigantismo das receitas de determinados filmes provenientes dos EUA. São sempre muitos milhões de dólares envolvendo os mais variados recordes...
Desconcertante é o facto de a esmagadora maioria dessas notícias omitir qualquer informação sobre o custo dos filmes e respectivas campanhas promocionais. Mesmo quando emanadas de secções especializadas em economia e finanças, raramente procuram contextualizar e, nessa medida, relativizar os valores em jogo. Não poucas vezes, tal omissão favorece a noção simplista, para não dizer demagógica, segundo a qual a importância cinematográfica de um determinado objecto decorre, automaticamente, da felicidade vivida pela contabilidade de quem o produziu.
Há dias, no site da CNN (na secção “Business”), deparei com um artigo a dar conta, precisamente, de alguns desses valores astronómicos. A saber: com O Rei Leão, os estúdios Disney têm um filme a ultrapassar, pela quarta vez em 2019, mil milhões de dólares de receitas globais (os outros são Vingadores: Endgame, Capitão Marvel e Aladdin). Quer isso dizer que a frequência das salas de cinema está num patamar de absoluta euforia?
Escusado será dizer que ninguém desmente as espantosas performances comerciais. Ainda menos se pretende atrair essa forma tradicional de estupidez segundo a qual os críticos de cinema estariam sempre dispostos a minimizar os filmes com invulgar impacto no mercado. Não creio que isso seja relevante para estas considerações, mas permito-me repetir que considero O Rei Leão uma belíssima e muito inteligente forma de recriar o título homónimo, também um enorme sucesso, lançado em 1994. O ponto é outro: fosse qualquer fosse o juízo de valor sobre o filme, a pertinência destas considerações seria idêntica.
Acontece que um milhão de dólares em 2019 não corresponde a um milhão de dólares de 1939. Mesmo quem não tenha qualquer especialização em temas económicos e financeiros (é o meu caso) compreenderá que o valor da moeda é relativo, quer dizer, decorre do contexto em que circula.
Citei, aliás, a data de 1939 porque é desse ano o filme americano que, de acordo com valores “ajustados à inflação”, continua a ser o mais rentável de sempre nas salas dos EUA. Chama-se E Tudo o Vento Levou e, contas redondas, teve receitas 4,7 vezes superiores às de O Rei Leão: 1.822 milhões contra 385 [Box Office Mojo]. Tendo em conta que a receita planetária de O Rei Leão é, no momento em que escrevo, de 1.023 milhões, isso significa que, apenas no interior dos EUA, E Tudo o Vento Levou conseguiu perto de 1,8 vezes mais.
O interesse destes números não envolve, insisto, qualquer interpretação temática ou leitura estética dos filmes. Trata-se, isso sim, de resistir a uma visão do fenómeno cinematográfico como um esquemático jogo de “deve” e “haver”, lembrando que as performances de muitos filmes mais antigos nos confrontam com um fenómeno tão básico quanto perturbante: há cada vez menos espectadores nas salas escuras. Pensar a cinefilia, aqui e agora, começa por aí.
Para nos ficarmos pelo Top 10 da citada lista dos mais rentáveis (“ajustados à inflação”), verificamos que o mais recente, Titanic, em 5º lugar, tem 22 anos; além disso, metade da lista é feita com títulos com mais de meio século, incluindo, em 10º lugar, um ainda mais antigo que E Tudo o Vento Levou, ou seja, Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937 (com receitas 2,5 superiores às de O Rei Leão).
Tudo isto devia sensibilizar-nos para a grande encruzilhada económica, logo eminentemente cultural, em que vive o cinema no tempo do triunfo das plataformas digitais. O seu dramatismo envolve dois desafios: em primeiro lugar, manter a defesa do património de conhecimento e sociabilidade ligado às salas escuras; segundo, mostrar aos espectadores mais jovens que os amores de Clark Gable e Viven Leigh não foram encenados para serem vistos no ecrã dos seus telemóveis.

quinta-feira, agosto 08, 2019

Abbey Road, 8 Agosto 1969

Seis fotografias. Dez minutos de trabalho.
Tanto bastou para que o fotógrafo escocês Ian Macmillan (1938-2006) obtivesse aquela que é, por certo, uma das imagens mais célebres no universo da música popular ao longo (e para lá) do século XX: George Harrison, Paul McCartney, Ringo Starr e John Lennon atravessam uma passadeira da Abbey Road, em Londres, junto aos estúdios da EMI.
Foi no dia 8 de Agosto de 1969 — faz hoje 50 anos.
Cerca de um mês e meio mais tarde, a 26 de Setembro, a fotografia nº 5 da série de seis [ao centro, na linha de baixo] entrava na história como capa de Abbey Road, penúltimo álbum dos Beatles, apesar de, em boa verdade, ter sido o derradeiro a ser gravado (os registos de Let It Be, lançado a 8 de Maio do ano seguinte, eram anteriores).


Em 1970, os estúdios da EMI mudavam de nome para Abbey Road Studios.
Entretanto, para assinalar o cinquentenário do lançamento de Abbey Road está prevista para o dia 27 de Setembro uma especialíssima edição comemorativa (com remisturas e material inédito das gravações). Eis o video promocional dessa edição e, em baixo, o novo/velho som de Something, uma das composições assinadas por George Harrison.



A IMAGEM: Bruno Barbey, 1980

BRUNO BARBEY [Magnum]
Templo budista, Loshan, China
1980

Rui Rechena (1966 - 2019)

[FOTO: Amor Electro]
Músico dos Amor Electro, Rui Rechena, hospitalizado há cerca de dois meses, faleceu no dia 7 de Agosto — contava 53 anos.
Era o baixista da banda fundada em 2010 — com Marisa Liz (voz), Ricardo Vasconcelos (teclas), Tiago Pais Dias (guitarra) e Mauro Ramos (bateria). No passado dia 13 de Junho, a própria banda divulgara a notícia do internamento hospitalar de Rui Rechena: "O nosso 'REI' [os amigos tratavam-no por Rex] tem estado a passar uma fase complicada e necessitará dos próximos meses para procurar restabelecer-se, o que faz com que tenha de estar ausente dos palcos por tempo indeterminado."
Com os Amor Electro, gravou os álbuns Cai o Carmo e a Trindade (2011), Revolução (2013) e #4 (2018) — este é o teledisco de Procura por Mim, do último desses álbuns.


>>> Obituário no Blitz.

David Berman (1967 - 2019)

Personalidade emblemática do indie-rock, poeta de muitas formas de angústia, o americano David Berman faleceu no dia 7 de Agosto, sem que tenham sido divulgadas oficialmente as causas da morte — contava 52 anos.
Com Stephen Malkmus e Bob Nastanovich, dois colegas da Universidade da Virginia, Berman fundou os Silver Jews em 1989. Na prática, a visibilidade da banda foi sendo contrariada pelo facto de, pela mesma altura, Malkmus e Nastanovich lançarem um outro projecto, os Pavement, com muito mais impacto comercial. Seja como for, dos Silver Jews ficou uma colecção de seis álbuns exemplares do som indie, sendo American Water (1998) normalmente apontado como o momento mais importante da sua discografia.
A sua existência foi marcada por episódios de depressão e dependência de drogas, tendo tentado suicidar-se em 2003. Directa ou indirectamente, ele próprio associou as suas crises identitárias ao pai, Richard Berman, figura pública dos "lobbies" das indústrias das armas e do álcool. Segundo um tweet do músico Joe Pernice, Berman ter-se-á suicidado.
A notícia da sua morte foi tanto mais chocante quanto, depois de um hiato musical de mais de uma década (o álbum final dos Silver Jews, Lookout Mountain, Lookout Sea, surgira em 2008), Berman tinha relançado a sua actividade, com a designação artística de Purple Mountains, contando com a colaboração de músicos da folk como Jeremy Earl e Jarvis Taveniere — o álbum homónimo está nas lojas desde o dia 12 de Julho; a primeira digressão dos Purple Mountains deveria começar a 10 de Agosto em Kingston, Nova Iorque.

>>> Random Rules (álbum: American Water) + All My Happiness is Gone (Purple Mountains).




>>> Obituário na Rolling Stone.

quarta-feira, agosto 07, 2019

Björk, eroticamente, naturalmente

Björk continua a trabalhar com o realizador Tobias Gremmler, ilustrando, recriando e (apetece dizer) delirando os cenários do seu álbum Utopia (2017). Depois de Tabula Rasa, aí está, agora, o teledisco da canção Losss, prolongando um gosto de transfiguração fundado na mesma dialéctica — reconversão utópica da Natureza, erotização de todas as formas.

We all are struggling, just doing our best
We've gone through the grinder, suffered loss
Lost to, to which everything flows, an absence which
Attracts floral blooming softly

Soft is my chest, I didn't allow loss
Loss make me hate, didn't harden from pain
This pain we have will always be there
But the sense of full satisfaction too

I opened my heart for you
Your lower lip so heavy on you
My spine curved erotically
We're finally vulnerable

Loss of love, we all have suffered
How we make up for it defines who we, who we are
It defines us, how we overcome it
Recover, repair from loss

Loss of faith just ignites survivors
They stare doubt straight into the eye
I forgive, the past is bondage
Freedom aphrodisiac (aphrodisiac)

I've opened my heart for you
Tied ribbons on my ankles for you
Drew orchids on my thighs for you
Your lower lip so heavy on you
My spine curved erotically
Tied ribbons on my ankles for you
Drew orchids on my thighs for you
Your lower lip so heavy on you
My spine curved erotically
We're finally vulnerable

terça-feira, agosto 06, 2019

Toni Morrison (1931 - 2019)

[FOTO: Timothy Greenfield-Sanders]
Foi a primeira mulher afro-americana a receber o Prémio Nobel da Literatura: a escritora americana Toni Morrison faleceu no dia 5 de Agosto, no Montefiore Medical Center, em Nova Iorque, na sequência de uma pneumonia — contava 88 anos.
De seu nome Chloe Ardelia Wofford, é autora de uma obra imensa, desde o primeiro romance, The Bluest Eye (1970), focada na história dos negros no interior da história mais geral dos EUA, em particular nos processos de afirmação identitária face às manifestações do racismo. Entre os seus títulos mais conhecidos incluem-se Song of Solomon (1977), Beloved (1987), Jazz (1992), Love (2003) e Home (2012).
Distinguido com o Pulitzer, Beloved inspira-se na história de Margaret Garner, uma mulher negra que fugiu à escravatura, em 1856, no estado do Kentucky — seria adaptado ao cinema em 1998, por Jonathan Demme, com Oprah Winfrey como produtora e intérprete principal (o filme não teve distribuição comercial nas salas portuguesas).
Já em 2019, o fotógrafo e cineasta Timothy Greenfield-Sanders apresentou no Festival de Sundance o seu documentário Toni Morrison: The Pieces I Am. No mês de Fevereiro, Toni Morrison publicara The Source of Self-Regard, uma antologia de "ensaios, discursos e meditações".

* * * * *

>>> The systematic looting of language can be recognized by the tendency of its users to forgo its nuanced, complex, mid-wifery properties for menace and subjugation. Oppressive language does more than represent violence; it is violence; does more than represent the limits of knowledge; it limits knowledge. Whether it is obscuring state language or the faux-language of mindless media; whether it is the proud but calcified language of the academy or the commodity driven language of science; whether it is the malign language of law-without-ethics, or language designed for the estrangement of minorities, hiding its racist plunder in its literary cheek – it must be rejected, altered and exposed. It is the language that drinks blood, laps vulnerabilities, tucks its fascist boots under crinolines of respectability and patriotism as it moves relentlessly toward the bottom line and the bottomed-out mind. Sexist language, racist language, theistic language – all are typical of the policing languages of mastery, and cannot, do not permit new knowledge or encourage the mutual exchange of ideas.

TONI MORRISON
Discurso na cerimónia do Nobel
7 Dezembro 1993

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>>> Obituário por The Washington Post.


>>> Entrevista por Charlayne Hunter-Gault, na PBS, em 1987 (sobre o lançamento de Beloved).


>>> Trailers dos filmes Beloved (1998), de Jonathan Demme, e Toni Morrison: The Pieces I Am (2019) (2019), de Timothy Greenfield-Sanders.




>>> Toni Morrison Remembers (2015), documentário da BBC realizado por Jill Nicholls; entrevistador: Alan Yentob.


Billie Eilish — elogio da estranheza

O álbum de estreia de Billie Eilish, When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, já nos tinha alertado para a singularidade, fascínio e inquietação dos seus 17 anos. Estamos, afinal, perante uma pessoa cuja identificação poderá ser resumida assim: "Ela é tão Gen Z que faz com que os de vinte e poucos anos pareçam antigos. Nunca comprou um CD. Diz coisas como 'Nunca vou ter 27 anos — é demasiado velho.' É também, provavelmente, a única estrela pop que ainda consulta um pediatra."
As palavras são de Josh Eells e pertencem ao seu magnífico artigo publicado na edição de Agosto da Rolling Stone'Billie Eilish e o triunfo da estranheza' (ou do "estranho", já que a palavra utilizada é weird e não weirdness) —, dando conta do seu dia a dia, entre o espaço familiar e as performances públicas.
Assumindo a nobre tradição do jornalismo americano dedicado às convulsões da cultura popular (de que a Rolling Stone continua a ser uma referência incontornável), a escrits de Eells encontra uma correspondência essencial no portfolio assinado por Petra Collins. As imagens de Eilish expõe, assim, as ambivalências, porventura as contradições, de um modo de ser artista em que a intensidade da comunicação coexiste com a estranheza (a palavra regressa...) de uma nova arqueologia da adolescência e da idade adulta.
Que vemos, por exemplo, na espantosa fotografia da capa? A pose nonchalante da estrela ou o símbolo de uma juventude à procura de um sentido para a sua história mirabolante? A tristeza vulnerável do olhar vale mais, ou vale menos, que o marketing dos ténis? E as mãos? Escondem o sexo ou proclamam que já não há nada para descobrir? — a ler, sem dúvida, até porque sentimos no encontro de Eells e Eilish (incluindo a sua espantosa família) um raro fluxo de ternura.

>>> Dois videos da Rolling Stone: sobre a sessão fotográfica da capa e respondendo ao questionário 'The First Time'.




>>> You Should See Me in a Crown — performance ao vivo.


>>> Billie Eilish no arquivo da Rolling Stone.

"The Walking Dead" regressa a 6 de Outubro

A 10ª temporada da série The Walking Dead chega no dia 6 de Outubro. E com uma série de "abandonos", já que, de acordo com dados divulgados pela AMC, há personagens que vão mesmo desaparecer (inclusive em eventuais flashbacks). Entre essas personagens estão Rick Grimes, Maggie Greene e "Jesus" — interpretados, respectivamente, por Andrew Lincoln, Lauren Cohan e Thomas Payne. No caso de Lincoln, sabe-se que o seu "xerife" Grimes irá reaparecer em filme (eventualmente uma trilogia) a estrear nas salas escuras.
Entretanto, tudo indica que a tribo rival, The Whisperers, liderada por Alpha, interpretada por Samantha Morton, ganhará um ainda maior peso dramático no desenvolvimento da série. Novidade no papel de Gamma, figura muito próxima de Alpha, será Thora Birch (em cuja filmografia encontramos, por exemplo, Beleza Americana e Ghost World, respectivamente de 1999 e 2001).
Eis a apresentação oficial da nova temporada de The Walking Dead.