terça-feira, junho 25, 2019

A Lua na cultura popular
— SOUND + VISION Magazine [ 29 Junho ]

Da música ao cinema, passando pela literatura, a Lua pertence ao imaginário popular: em vésperas de se completarem 50 anos sobre o primeiro desembarque lunar [Apollo 11], propomos uma revisitação multifacetada da história da Lua através de filmes, canções & etc.

* FNAC, Chiado — 29 Junho (18h30).

segunda-feira, junho 24, 2019

Rolling Stones em Chicago

O regresso à normalidade — eis uma frase tele-radiofónica que costuma servir, por exemplo, para esclarecer que os adeptos de duas claques futebolísticas pararam com actos mais violentos e estão apenas a insultar-se... Não será bem a mesma coisa, mas está tudo normal com os Rolling Stones. Que é como quem diz: depois dos problemas cardíacos de Mick Jagger, a banda regressou aos concertos da digressão 'No Filter', apresentando-se no dia 21 no Soldier Field, em Chicago — a avaliar por este video oficial, valeu a pena.


>>> Crónica de Jeff Johnson no Chicago Sun-Times.

domingo, junho 23, 2019

30 anos de Batman

Foi a 23 de Junho de 1989 que Batman, de Tim Burton, teve a sua estreia oficial nos ecrãs dos EUA — faz hoje 30 anos.
Não era a primeira derivação cinematográfica do Homem-Morcego — para além de alguns "serials" de finais dos anos 40, existia um Batman, lançado em 1966, retomando o modelo da série televisiva do começo da década de 60, protagonizada por Adam West e Burt Ward (respectivamente como Batman e Robin). Em qualquer caso, o filme de Burton ficou como um momento decisivo na idade moderna dos super-heróis em cinema, por assim dizer sistematizando as hipóteses de espectáculo abertas pelo Superman (1978), de Richard Donner, com Christopher Reeve no papel central.
Três décadas depois, o mínimo que se pode dizer é que a síndrome Marvel mudou por completo a paisagem do género, quase sempre impondo uma lógica tecnicista em que a ostentação dos efeitos especiais banaliza as singularidades das personagens e, em última instância, menospreza os actores.
Devido a vários problemas conceptuais, em particular nos modos de utilização da música, o próprio Burton nunca se mostrou muito satisfeito com o filme que realizou. Uma coisa é certa: este é uma genuína narrativa de personagens em que o trabalho específico dos seus intérpretes desempenha uma função insubstituível — repare-se, aliás, no pormenor sintomático e delicioso de Jack Nicholson (Joker), então em momento alto de popularidade, ter a primazia nos cartazes, surgindo Michael Keaton, o "actor-herói", em segundo lugar.
Eis o trailer original e Batdance, uma das canções de Prince para a banda sonora.



Ed Sheeran ou a prisão virtual

Cross Me é uma canção do inglês Ed Sheeran que irá integrar o seu quarto álbum de estúdio, No.6 Collaborations Project (lançamento a 12 Julho). O respectivo teledisco, assinado pelo americano Ryan Staake, constitui um esclarecedor exemplo, de uma só vez fascinante e frustrante, de uma cultura de redundante apropriação formal, hoje em dia dominante, que tem em Sheeran um dos seus símbolos mais reveladores.
Por um lado, esta é uma música festiva, nascida da síntese intelectual de "todas" as referências disponíveis em décadas de pop rock, quase sempre fundidas (e simplificadas) através de mecanismos de rap; por outro lado, o seu cruzamento com os mais modernos e sofisticados recursos tecnológicos participa ainda do mesmo impulso festivo, mas acontece através de um metódico esvaziamento temático que, ironicamente ou não, já se libertou até das mais angustiadas perversões niilistas.
Observe-se o surpreendente labor de Staake. Mais do que explorar, uma vez mais, as possibilidades da figuração virtual, o teledisco encena a sua própria produção, de acordo com uma lógica que conhecemos bem desde a modernidade cinematográfica, especialmente através dos mecanismos brechtianos retomados por vários autores das novas vagas (exemplo possível: Uma Mulher É uma Mulher, realizado por Jean-Luc Godard em 1961).
Ao mesmo tempo, semelhante labor decorre apenas da consciência (?) da duplicidade que se coloca em cena — é essa, aliás, a "moral" da sequência final, com a intérprete assombrada pelas imagens do próprio Sheeran. Estranhamente, todo esse dispositivo inverte a noção corrente segundo a qual os aparatos virtuais correspondem — e, de alguma maneira, induzem — uma radiosa liberdade criativa. Em boa verdade, Cross Me parece esgotar-se na descrição de um sistema de aprisionamento técnico e formal em que, porventura de modo incauto, os criadores se encerraram.

sexta-feira, junho 21, 2019

Onde estão os espectadores de cinema?

Vasco Santana e Beatriz Costa
A CANÇÃO DE LISBOA (1933)
Os números oficiais do mercado cinematográfico apontam para uma realidade dramática: a base tradicional de espectadores está em decomposição. Neste contexto, o cinema português é uma parte importante, mas que não pode ser desligada do todo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Junho).

Segundo os números oficiais do Instituto do Cinema e do Audiovisual, no primeiro fim de semana de exibição (6/9 Junho), o filme X-Men: Fénix Negra foi visto por 32.714 espectadores. No mesmo período, Foxtrot, de Samuel Maoz, estreado na mesma data, atraiu 307 espectadores.
Panorama contraditório: um “blockbuster” rotineiro face a Foxtrot, retrato das nuances da identidade israelita que me parece um dos três ou quatro melhores filmes este ano lançados entre nós. Mas não se trata, aqui, de especular sobre o “gosto” (questão cuja complexidade educacional e política não cabe nestas linhas). Acontece que, na sociedade portuguesa, se instalou a noção pueril segundo a qual as estatísticas nos dão a conhecer as “opções” de fundo dos espectadores de cinema.
Vale a pena um simples exercício aritmético. Assim, X-Men esteve em 78 ecrãs, num total de 1230 sessões — quer isto dizer que conseguiu uma média de 26 espectadores por sessão. Foxtrot estreou-se numa única sala e teve 12 sessões — resultado: 25 espectadores por sessão. Conclusão linear: em termos proporcionais, os dois filmes tiveram um comportamento comercial idêntico.
Os mais poderosos discursos económicos reduzem a cultura cinematográfica à identificação das “escolhas” dos espectadores: onde os números forem mais elevados, aí está o “segredo” do mercado! Seria curioso exibir X-Men num único ecrã e lançar Foxtrot em 78 salas... E depois refazer as contas.
Ironizo, sim, ma non troppo. Resisto a números deslocados de qualquer contexto, ignorando a história cultural e comercial (é a mesma coisa) do cinema em Portugal. Partamos de uma evidência crua: para o desejável bom funcionamento do mercado cinematográfico, os números de X-Men e Foxtrot são fraquíssimos.
Resisto também a qualquer reflexão que pretenda encontrar soluções parcelares. Que soluções? Por exemplo, procurando a “recuperação” de espectadores para os filmes portugueses. Não discuto a boa fé de quem procura tais soluções, mas duvido da respectiva pertinência. A nossa incapacidade para, pelo menos, identificar o que está em jogo tem antecedentes muito antigos, a começar pela ilusão de que houve um período paradisíaco de sucesso do cinema português, marcado pelas “tradicionais” comédias com Vasco Santana, Beatriz Costa e António Silva.
Num livro intitulado O Cinema Português Nunca Existiu (ed. CTT), João Bénard da Costa escalpelizou tal equívoco, recordando que a chamada “idade de ouro” do cinema português (1931-54), “quando os filmes portugueses seriam a árvore das patacas”, não passa de um logro. “Nada mais falso”, escreve ele, analisando em particular a falência das Produções Lopes Ribeiro, lançadas com O Pai Tirano (1941). O livro foi editado em 1996, Bénard da Costa é por todos reconhecido como um pensador nuclear na história do cinema em Portugal, mas a simples inventariação de dados objectivos continua a ser substituída por um utopismo fácil, sem pensamento.
Aos números citados, podemos contrapor exemplos pontuais de performances comerciais de excepção (incluindo de algumas produções portuguesas). Mas nada disso nos garante uma resposta operativa à angústia central: onde estão, para onde vão, os espectadores de cinema?
O frágil mercado português vive, e vive mal, através dos modelos dominantes do comércio americano (o que, entenda-se, não exclui a celebração da excelência de muitas zonas do cinema dos EUA). Um sintoma drástico de tal processo é o desmantelamento da rede de salas tradicionais e o triunfo de uma cultura de multiplexes em que a relação de cada espectador com cada filme já (quase) nada tem a ver com qualquer valor cinéfilo.
Resta saber se, na nossa minúscula escala, podemos e sabemos sobreviver enredados no risco de implosão em que Hollywood passou a existir, promovendo os “blockbusters” a matriz compulsiva de produção, promoção e difusão. E quando escrevo a palavra “implosão” não a utilizo em função de qualquer especificidade crítica. A possibilidade de, a prazo, Hollywood entrar num processo de decomposição estrutural foi tema de uma conversa promovida pela Escola de Cinema da Universidade da Califórnia, já lá vão seis anos (12 de Junho de 2013). Não creio que a actual conjuntura internacional desminta essa possibilidade. Em qualquer caso, registe-se que quem lançou o alerta se chama Steven Spielberg.

A IMAGEM: Alas & Piggott, 2019

MERT ALAS & MARCUS PIGGOTT
Kate Moss
Armani (Outono/Inverno, 2019)

quinta-feira, junho 20, 2019

Na solidão de Sharon Van Etten

Mais um teledisco do álbum Remind Me Tomorrow: Sharon Van Etten expõe, agora, o labor requerido pelo impulso amoroso, num teledisco em que a solidão criativa se diz através da austeridade da arquitectura — é, além do mais, um dos grandes discos de 2019.

Yes there were japes recalling the years of lost paths
As you open the door and told me how you love me so much
The resistence to feelings was something that you've put down before
But keep quiet of it, as you could not face it anymore

Too much has changed, I can't let you walk in in the night
I wish away my love, leave with the dawn
Acting as if all the pain in the world was my fault
Leave me here, my love, don't say goodbye

No one's easy to love
Don't look back, my dear, don't be surprised
No one's easy to love
Don't look back, my dear, just say you tried

There was a question you asked: is your father a man?
No, but I think you should do ask of yourself the same
What is the difference between now and then I'm not sure
Prove me wrong, my dear, don't say I lied

No one's easy to love
[...]

quarta-feira, junho 19, 2019

"West Side Story", 2020

Um cartaz meramente indicativo e uma foto de rodagem — faltam 18 meses para a chegada do novo West Side Story, assinado por Steven Spielberg (em baixo, o trailer do original, uma produção de 1961 realizada por Jerome Robbins e Robert Wise).


terça-feira, junho 18, 2019

Orson Welles ou a arte de desenhar

O autor de O Mundo a Seus Pés deixou um legado impressionante de desenhos e pinturas. O crítico irlandês Mark Cousins teve acesso ao seu espólio, com ele construindo um fascinante retrato que é também um belíssimo exercício cinéfilo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Junho).

Que bom saber que (ainda) há quem cultive um gosto do cinema que não cedeu à vertigem do marketing e, em particular, não esquece que os filmes têm uma história longa, complexa e fascinante. O crítico irlandês Mark Cousins, por exemplo, é um protagonista desse gosto, continuando o seu paciente trabalho de revisitação de filmes e cineastas. Assim acontece no magnífico Os Olhos de Orson Welles (que foi, em 2018, um dos grandes acontecimentos da secção de Clássicos do Festival de Cannes).
Orson Welles
É provável que o leitor conheça a monumental História do Cinema: Uma Odisseia, obra de cerca de 15 horas em que Cousins retraça a evolução da criação cinematográfica, do período mudo às mais recentes convulsões tecnológicas (entre nós disponível em DVD, ed. Midas). Os Olhos de Orson Welles aplica uma estratégia semelhante. Trata-se de revisitar os marcos emblemáticos de um determinado universo — afinal de contas, Welles é autor de clássicos como O Mundo a Seus Pés (1941), A Sede do Mal (1958) ou O Processo (1962) —, ao mesmo tempo mostrando e demonstrando que, num certo sentido, continua tudo por descobrir.
Acontece que, graças à colaboração de Beatrice Welles, filha do cineasta, Cousins teve acesso a uma colecção imensa de desenhos e pinturas que Welles foi produzindo ao longo da sua vida profissional e, em boa verdade, privada. Do simples esboço a lápis aos tratamentos mais elaborados, Welles não só “antecipou” personagens, guarda-roupa e cenários dos seus filmes como foi criando imagens resultantes da observação dos lugares por onde passava e até mesmo dos espectáculos a que assistia.
O resultado é um belíssimo exercício cinéfilo. Dir-se-ia um documentário capaz de integrar as nuances de um ensaio crítico e as perplexidades de uma demanda filosófica. Isto porque, além do mais, Cousins organiza Os Olhos de Orson Welles, não como uma “descrição”, antes em forma de carta dirigida... ao próprio Welles: “Será que os teus esboços, caro Orson, revelam o teu inconsciente?”

segunda-feira, junho 17, 2019

"O nosso planeta que se afunda"

Um pouco por toda a parte, as convulsões do clima estão mesmo a provocar a "subida dos mares", a obrigar à "fuga de habitantes", enfim, a contribuir para o "desaparecimento de povoações". Mas a fotografia do Secretário-Geral das Nações Unidas não se esgota na sua espantosa vibração simbólica. Acontece que a imagem de António Guterres, assinada por Christopher Gregory, possui um efeito realista suplementar: foi obtida na costa de Tuvalu, pequeno país da Polinésia, a sentir de forma dramática a alteração dos mais primitivos equilíbrios ecológicos.
Como escreve o jornalista da Time, Justin Worland, "Guterres está a trabalhar no sentido de posicionar as pequenas nações-ilhas não apenas no centro político do debate, mas também como o seu centro moral" — eis uma urgência que, como se prova, o melhor jornalismo sabe assumir no interior do seu trabalho específico.

Sailosi Ramatu (à direita), administrador da povoação de Vunidogoloa,
e o seu filho Simi Botu naquilo que resta da sua antiga casa
[FOTO: Christopher Gregory]

Liceu de "Twin Peaks" vai ser demolido

A notícia foi avançada pelo site da revista Dazed: o liceu da série Twin Peaks (1990-91), criada por David Lynch e Mark Frost, vai ser demolido. O verdadeiro liceu, Mt. Si High School, situado em Snoqualmie, Washington, encerrou no dia 14 de Junho, estando a sua demolição agendada para 5 de Julho.
É bem certo que as lendas não morrem, apenas se vão volatilizando na memória colectiva, atraindo as cicatrizes da mitologia: o desaparecimento do edifício amplia o estado de assombramento em que o liceu nos surgia através das imagens (e sons!) de Lynch — eis a cena em que todos pressentimos que algo estava errado com Laura Palmer.

"Madame X" na FNAC

O nosso SOUND + VISION Magazine de sábado, 15 de Junho, na FNAC Chiado, deu a ver uma série de registos visuais e sonoros habitados por muitas formas musicais — tratou-se de dar a conhecer o novo Madame X, de Madonna, ao mesmo tempo cruzando a nova obra com imagens e sons do passado.
Eis três dos videos que partihamos com os presentes, cuja presença agradecemos, lembrando que a nossa próxima sessão tem lugar no dia 29 de Junho, assinalando — através de filmes, canções e livros — o próximo 50º aniversário da chegada do homem à Lua.

>>> Naïve Song (2000), de Mirwais (produtor em Madame X).


>>> Trailer de W. E. (2001), realização de Madonna.


>>> Die Another Day, canção-tema do filme de James Bond lançado em 2002.

Franco Zeffirelli (1923 - 2019)

Lendário encenador de óperas, foi também uma figura popular como realizador de cinema: o italiano Franco Zeffirelli faleceu em sua casa, em Roma, no dia 15 de Junho — contava 96 anos.
Quando o seu filme A Fera Amansada (1967), com Elizabeth Taylor e Richard Burton, se transformou num sucesso internacional, Zeffirelli era já um nome consolidado no domínio da ópera, em particular através das colaborações com Maria Callas, incluindo uma encenação da Tosca, de Puccini, na Royal Opera House de Londres, em 1964. O sucesso repetir-se-ia com Romeu e Julieta (1968), de algum modo contribuindo para a sua definição como cineasta "shakespeareano". Em qualquer caso, com O Campeão (1979), outro dos seus filmes de maior impacto, experimentou um registo bem diferente, encenando a vida atribulada de um pugilista interpretado por Jon Voight (tratava-se um remake de um clássico de King Vidor, datado de 1931). Em televisão, distinguiu-se, em particular, através da mini-série Jesus de Nazaré (1977).
Romeu e Julieta valeu-lhe uma nomeação para o Oscar de realização. Voltaria a ser nomeado, mas na categoria de cenografia, com La Traviata (1982), segundo Verdi, com Teresa Stratas e Plácido Domingo, título exemplar de um período em o "filme-ópera" foi também um importante fenómeno comercial. Em 2002, o seu reconhecimento em Itália traduziu-se na atribuição de um prémio honorário David di Donatello. Dois anos mais tarde, recebeu o título de Cavaleiro Honorário do Reino Unido.

>>> Trailer de Romeu e Julieta.


>>> Obituário no New York Times.

sábado, junho 15, 2019

Joy Division — 40 anos de memórias

Unknown Pleasures, o primeiro álbum dos Joy Division, peça central na história e no imaginário do post-punk, foi lançado a 15 de Junho de 1979 — faz hoje 40 anos. Para assinalar a efeméride, está a ser produzida uma série de telediscos, Unknown Pleasures: Reimagined, cada um deles para uma das dez faixas do álbum. I Remember Nothing já tem a sua "ilustração", com assinatura de Helgi & Hörður — sem direito a incorporação, está disponível no YouTube. Aqui ficam as palavras e o som original.

We were strangers.
We were strangers, for way too long, for way too long,
We were strangers, for way too long.
Violent, violent,
Were strangers.

Get weak all the time, may just pass the time,
Me in my own world, and you there beside,
The gaps are enormous, we stare from each side,
We were strangers for way too long.

Violent, more violent, his hand cracks the chair,
Moves on reaction, then slumps in despair,
Trapped in a cage and surrendered to soon,
Me in my own world, the one that you knew,
For way too long.
We were strangers for way too long.
We were strangers,
We were strangers for way too long,
For way too long.

"Bleach", Nirvana, faz 30 anos

Melvins/Six Songs, dos Melvins, tinha surgido em 1986. Dry as a Bone, dos Green River, um ano mais tarde. E ainda um ano mais tarde os Soundgarden lançaram Ultramega OK. O grunge assombrava a paisagem do rock, muitas vezes com chancela da editora Sub Pop, refazendo as angústias do punk em exercícios de reencenação barroca — mas como poderia a palavra "barroca" bastar para a perturbação que circulava?
Em qualquer caso, seria com Bleach, dos Nirvana, que o movimento adquiriu uma bandeira, relutante, é certo, mas de inigualável energia e desarmante sofisticação: o primeiro álbum da banda de Kurt Cobain (guitarra, voz), Krist Novoselic (baixo) e Chad Channing (bateria) surgiu no dia 15 de Junho de 1989 — faz hoje 30 anos.
Ei-los interpretando Love Buzz, no Paramount Theatre de Seattle, a 31 de Outubro de 1991 — incluída no alinhamento de Bleach, a canção é um original dos holandeses Schocking Blue, com data de 1969; foi também o primeiro single dos Nirvana, lançado em Novembro de 1988.

Madonna, "Madame X"
— SOUND + VISION Magazine [ hoje ]


Madonna está de volta com Madame X, o seu 14º álbum de estúdio, gerado em Lisboa — assinalamos a nova edição, revisitando outras personagens e momentos emblemáticos da carreira da Material Girl.

* FNAC, Chiado — hoje, 15 Junho (18h30)

sexta-feira, junho 14, 2019

O frio em grande ecrã

Numa temporada Primavera/Verão dominada pelas promoções de super-heróis, Ártico é uma pequena grande descoberta: a saga de um homem perdido na imensidão do gelo resultou de uma coprodução Islândia/EUA — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Junho).

A par da estreia de mais um título rotineiro da saga dos super-heróis da “franchise” X-Men, a verdadeira emoção cinematográfica está onde menos esperaríamos encontrá-la: Ártico, sobre a odisseia de um homem perdido em paisagens geladas, consegue a proeza simples, mas contagiante, de nos reconciliar com o clássico espírito de aventura.
De facto, a câmara do realizador Joe Penna dá-se bem com o frio que ameaça a personagem interpretada pelo dinamarquês Mads Mikkelsen. Penna é um brasileiro, aqui a estrear-se na longa-metragem, depois de se ter tornado conhecido através do seu canal do YouTube (‘Mystery Guitar Man’). Mikkelsen, dinamarquês, ganhou fama internacional a partir da sua participação em 007: Casino Royale (2006), tendo sido distinguido com o prémio de melhor actor, em Cannes, com A Caça (2012), de Thomas Vinterberg. Enfim, Ártico, rodado em paisagens islandesas, resulta de uma coprodução Islândia/EUA.
A história da produção dos filmes ensina-nos que estes cruzamentos de nacionalidades nem sempre geram objectos consistentes: por vezes, a coesão artística é sacrificada para satisfazer apenas as regras dos contratos financeiros. Assim não acontece em Ártico, sobretudo porque Penna tem o bom senso de não sobrecarregar o filme com grandes derivações “simbólicas”. O essencial joga-se, aqui, através da relação da personagem com a paisagem gelada — dir-se-ia que a paisagem é mesmo a personagem central — e, a partir de certa altura, com o facto de o herói ter por companhia uma mulher gravemente ferida (Maria Thelma Smáradóttir).
Acompanhamos a saga do protagonista um pouco como quem segue uma reportagem sobre um exercício de sobrevivência em que todos os gestos contam — da preservação dos escassos alimentos até ao cuidado com que se coloca um pé na ponta de uma rocha que o gelo não cobriu. Enfim, em tempos de novo riquismo tecnológico, incluindo a “santificação” de produções que não sabem utilizar o gigantismo das salas IMAX em que são projectados, Ártico é, afinal, um filme que sabe fazer justiça às potencialidades do grande ecrã.

Prémio Mundial das Artes Leonardo da Vinci
consagra Paulo Branco

O Prémio Mundial das Artes Leonardo da Vinci consagrou o produtor português Paulo Branco, em reconhecimento do seu "envolvimento com novas visões da expressão cinematográfica", a par do empenho nas relações "entre os diferentes campos da cultura, tal como a literatura, as belas artes e a música". Trata-se de uma distinção atribuída pelo World Cultural Council, organização internacional fundada em 1981 que visa a promoção dos valores da cultura, da boa vontade e da filantropia.
O World Cultural Council atribui prémios nos domínios das Artes, Educação e Ciência. Nas Artes, a primeira entidade distinguida foi, em 1985, o Grupo Grego de Preservação da Acrópole de Atenas; o prémio tornou-se bienal a partir de 1995; em 2017, a personalidade consagrada foi o americano Russell Hartenberger pelo seu trabalho como investigador e professor nas áreas da etnomusicologia. As cerimónias relacionadas com os prémios de 2019 decorrerão nos dias 3 e 4 de Outubro na Universidade de Tsukuba, no Japão.

* * * * *

A atribuição do Prémio Leonardo da Vinci a Paulo Branco começa por ser uma bela ilustração de um conceito hoje em dia corrente, embora, creio, poucas vezes considerado, em particular na cena política, em todas as suas dimensões, especificidades e implicações. A saber: a globalização em que vivemos não é um mero dispositivo legal de abertura de canais de comunicação, funcionando antes como um labirinto de circuitos e valores em que, em última instância, se está a questionar e reconfigurar o próprio factor humano.
Daí que seja necessário encararmos — e, a meu ver, valorizarmos com toda a alegria e veemência — esta distinção para além de qualquer lusitana fulanização. Através dos filmes que produziu e continua a produzir, e também dos modos de os dar a ver de que, metodicamente, não desiste, Paulo Branco distingue-se como um verdadeiro cinéfilo.
Mais do que nunca, creio que importa relançar a palavra cinefilia na tão complexa e, por vezes, tão inquietante conjuntura comercial & mediática, para o melhor e para o pior contaminada por muitos factores de raiz televisiva, em que somos espectadores. Aquilo que está em jogo não é, de modo algum, uma banal lamentação nostálgica sobre o que "perdemos". Nada disso: a cinefilia distingue-se pela obstinada crença — no sentido em que a crença se exprime numa prática — nas potencialidades actuais ou pressentidas do cinema como gesto e pensamento.
Nas suas muitas frentes, muito para além dos filmes "melhores" ou "piores", Paulo Branco é alguém que nos ajuda a lidar com essa máxima atribuída a Jean-Luc Godard segundo a qual podemos "aguardar a morte do cinema com optimismo." Aliás, a lenda pode até ser um logro, pertencendo tais palavras a um anónimo espectador capaz de pensar para além dos limites pueris do marketing — seja como for, a mensagem persiste em toda a sua energia vital.  

>>> Biografia e curriculum de Paulo Branco no site da Leopardo Filmes.

"The Late Show" recebeu os Spiritualized

Foi um dos grandes álbuns de 2018: And Nothing Hurt, dos Spiritualized, reconcilia-nos com a ideia simples, mas radical, de um rock que nunca é estranho ao espírito da música de câmara (ou o contrário?). Há dias, a banda de Jason Pierce foi recebida por Stephen Colbert, em The Late Show — eis I'm Your Man, a engrandecer a própria televisão.

quinta-feira, junho 13, 2019

Sylvia Miles (1924 - 2019)

Figura emblemática do universo de Andy Warhol e da noite de Nova Iorque, duas vezes nomeada para o Oscar de melhor actriz secundária, a americana Sylvia Miles faleceu no dia 12 de Junho, em Nova Iorque, na sequência de problemas de saúde agravados ao longo dos últimos anos — contava 94 anos.
Formada no Actors Studio, de seu nome verdadeiro Sylvia Lee, adoptou na esfera profissional o apelido do marido (do primeiro de três casamentos). A sua interpretação em O Cowboy da Meia-Noite (1969), de John Schlesinger, apesar de muito breve — durava seis minutos a cena em que a sua personagem se envolvia, através de uma oferta sexual, com a personagem de Jon Voight —, valeu-lhe uma nomeação para os Oscars. Voltou a ser nomeada, seis anos mais tarde, com O Último dos Duros, adaptação do romance Farewell, My Lovely, de Raymond Chandler, com Robert Mitchum no papel de Philip Marlowe e realização de Dick Richards.
A referência mais lendária da sua filmografia será Heat (1972), título final da trilogia de Paul Morrissey — iniciada com Flesh (1968) e Trash (1970) — produzida por Andy Warhol, com Joe Dallesandro no papel central. Reflectindo um universo afectivo em desagregação, Heat ilustra uma visão céptica, anti-romântica, das relações humanas, afinal transversal à produção made in USA da época, mesmo no interior dos grandes estúdios de Hollywood — o filme chegou a Portugal no pós-25 de Abril, com o título O Cio.
Sylvia Miles trabalhou ainda, por exemplo, sob a direcção de Dennis Hopper (The Last Movie, 1971), Oliver Stone, em Wall Street (1987) e Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (2010), Susan Seidelman, em Demónio de Saias (1989), em que interpretava a mãe de Meryl Streep, e Abel Ferrara, em Histórias de Cabaret (2007).

>>> Imagens de O Cowboy da Meia-Noite, Heat e Demónio de Saias.






>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

quarta-feira, junho 12, 2019

O novo fundamentalismo narrativo

Ursula Andress, DR. NO (1962)
Construir uma narrativa não é fazer uma lista de personagens com “bom comportamento”. A propósito de James Bond ou Martin Luther King, importa perguntar o que é isso de contar uma história — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 Junho), com o título 'Memórias das Caraíbas'.

Para várias gerações de espectadores, Honey Ryder foi um símbolo cândido da beleza feminina. A sua imagem que adquiriu estatuto de ícone universal está no filme Dr. No (1962), o primeiro de James Bond, entre nós intitulado Agente Secreto 007.
Interpretada pela actriz suíça Ursula Andress, Honey Ryder — bikini branco, duas conchas nas mãos, uma faca à cintura — era uma aparição nas águas das Caraíbas. Perante o olhar de Bond (Sean Connery), ela perguntava-lhe: “Que faz aqui? Anda à procura de conchas?” Ao que ele respondia: “Não, estou apenas a olhar”. Sem esquecer que a ironia erótica passa, no inglês original, pelo facto de os verbos “procurar” e “olhar” envolverem a mesma palavra de raiz (“looking for shells”, diz ela; “just looking”, responde ele).
Passado mais de meio século, há sinais de um crescente policiamento moral das relações entre homens e mulheres. Nada a ver, entenda-se, com a defesa intransigente de todas as formas de igualdade social entre géneros, a começar pelo fundamental plano financeiro. Nada que ponha em causa, sublinhe-se também, a veemente condenação de todas as formas de violência contra mulheres e, em particular, a necessidade de denunciar a estupidez machista que se imiscuiu em muitas matrizes narrativas, sobretudo através de modelos enraizados na “reality TV” (dentro e fora do espaço televisivo).
Acontece que continuamos a assistir à instalação de dispositivos de “normalização” figurativa e narrativa. Por vezes, o trabalho da ficção (em especial no cinema) é avaliado como uma ilustração de regras de “bom comportamento”... É provável que os actuais criativos de James Bond evitassem até escrever diálogos de tão festiva ambivalência como os da referida cena de Dr. No.
Tal possibilidade está longe de ser meramente especulativa. Há dias, foi noticiado o facto de a equipa de argumentistas do 25º título oficial do agente secreto 007 (a estrear em Abril de 2020) ter integrado a inglesa Phoebe Waller-Bridge. Ela própria se encarregou de atribuir especial pertinência simbólica à sua contratação, considerando-a “absolutamente relevante agora”, acrescentando que o novo filme deverá “tratar as mulheres adequadamente”, mesmo que o próprio Bond não o faça (declarações ao site Deadline, publicadas a 31 de Maio).
Há neste modelo de pensamento uma pequenez existencial que importa enfrentar. E não porque se trate de um problema “de mulheres”. Para que se compreenda que não é uma questão de géneros que está em causa, recordo um episódio de 2015, sintomático do mesmo simplismo ideológico, protagonizado pelo actor inglês David Oyelowo.
Na sequência do anúncio das nomeações para os Oscars desse ano, Oyelowo comentou o facto de não ter sido nomeado pelo sua interpretação de Martin Luther King no filme Selma (sobre a luta pelo direito de voto dos afro-americanos na América de 1965). Tal ausência foi, para ele, motivo de “incómodo” porque King é “um dos seres humanos mais significativos na vida americana” (The Guardian, 30-01-2015). Oyelowo confundia a eventual consistência artística do seu trabalho com a grandeza humana da sua personagem, sendo incapaz de conceber que se possa ter o mais radical respeito pela personagem e considerar o filme um objecto cinematograficamente banal (é, aliás, a minha opinião).
Triunfa, assim, um determinismo moral que se fundamenta numa triste ignorância das especificidades da narrativa, de qualquer narrativa. No limite, encurrala-se qualquer reflexão sobre as artes narrativas na avaliação da “justeza” das respectivas personagens.
Escusado será dizer que esse medo de lidar com as contradições do factor humano levaria (será que levará?...) a rasurar de qualquer vivência cultural tanto a obra de David Lynch como os escritos de um velho e decadente perverso polimorfo chamado William Shakespeare. A hipótese parece caricatural, mas está a ser formulada, implícita ou explicitamente, pelo novo fundamentalismo narrativo.
Phoebe Waller-Bridge vai ser a segunda mulher a trabalhar em argumentos de James Bond. No meio de tanto barulho por nada, será que ela sabe que a primeira, Johanna Harwood, se estreou, precisamente, em Dr. No? Podemos até supor que Honey Ryder foi uma personagem desenvolvida por ela (a partir do romance de Ian Fleming). Será que isso nos obriga a algum ritual de purificação?

Jon Stewart ou a precisão das palavras

Que não haja confusões típicas da cultura mediática "cor de rosa": o facto de alguém, anónimo ou figura pública, surgir em imagens de evidente comoção, eventualmente em lágrimas, nada tem a ver com uma qualquer compulsiva prova de verdade — e só por chantagem afectiva pode ser tratado como um fim em sim mesmo.
O certo é que as emoções que podemos ver no rosto e na pose de Jon Stewart, dirigindo-se a elementos do Congresso dos EUA, não pertencem ao domínio do gratuito informativo nem da manipulação cognitiva. O ex-apresentador de The Daily Show falava em defesa das pessoas envolvidas nas acções de salvamento no World Trade Centre de Nova Iorque, na sequência do atentado de 11 de Setembro, voltando a criticar com veemência a inacção dos legisladores no sentido de garantir as devidas condições de tratamento e apoio médico a essas pessoas. São momentos em que, também na televisão, voltamos a acreditar no valor primordial das palavras e na precisão que o seu uso pode envolver — eis a intervenção de Jon Stewart em registo da CNN.

terça-feira, junho 11, 2019

Os mutantes mudam muito pouco

A saga dos super-heróis vai-se instalando na temporada Primavera/Verão do nosso mercado cinematográfico. X-Men: Fénix Negra prolonga uma BD da Marvel, encenando as aventuras de um grupo de mutantes envolvidos na meritória tarefa de sempre: salvar a humanidade do apocalipse — texto publicado no Diário de Notícias (6 Junho).

A actual ordem das coisas assim o impõe: quando a Primavera começa a vestir-se com os adereços do Verão, os super-heróis chegam às salas de cinema. Não é uma tradição narrativa, muito menos o resultado de qualquer política cultural. Apenas a recriação de um modelo de mercado, de tal modo poderoso e global que nas últimas décadas nos levou a deixar de pensar (pelo menos pensar...) em modelos alternativos.
Dark Phoenix
Dito de outro modo: aí está o 12º título da “franchise” produzida em torno do grupo de super-heróis que responde pelo nome de X-Men. Chama-se X-Men: Fénix Negra e pode resumir-se numa sinopse válida para quase todos os filmes do género que surgiram nos últimos anos. A saber: ameaçado por uma entidade extra-terrestre, o mundo está à beira do apocalipse e os nossos heróis, felizmente, lutam por garantir a sobrevivência da raça humana...
Para o melhor ou para o pior, há que reconhecer que este tipo de filmes virou do avesso essa “fábrica de sonhos” que foi Hollywood. A grande aventura já não se faz com heróis em que ousadia rima com ironia, à maneira do saudoso Indiana Jones, muito menos através de figuras arrancadas às páginas da história ou do romance, da dimensão épica de Lawrence da Arábia ou Doutor Jivago (heróis de duas super-produções da década de 1960, ambas assinadas por David Lean).
O poder narrativo passou, quase por inteiro, para as companhias que transformaram as suas personagens da banda desenhada em rentáveis “franchises” cinematográficas. Assim, X-Men: Fénix Negra é mais um título com chancela Marvel, neste caso produzido pela 20th Century Fox, estúdio que, em 1994, comprou os direitos de adaptação da BD de Stan Lee e Jack Kirby (lançada em Setembro de 1963), tendo estreado o primeiro filme da série, intitulado apenas X-Men, no ano 2000.
Entretanto, na prática, o filme agora em estreia pertence já à Walt Disney Company (depois da aquisição da Fox pela Disney, consumada em Março deste ano). Será, em princípio, o derradeiro da série, estando prevista uma derivação (“spin-off”) para 2020, com o título The New Mutants.
Mesmo quando os resultados não superam a rotina industrial, um aspecto curioso na evolução destas sagas é o facto de nelas se explorarem modelos de heroísmo que estão muito para além das mais clássicas personagens solitárias, cada uma delas transportando os seus traumas e utopias. Nesta perspectiva, o novo filme aposta numa aventura colectiva algo semelhante ao recente Vingadores: Endgame (2019), outro produto Marvel/Disney.
O que lança a história de X-Men: Fénix Negra é mesmo a possibilidade de uma súbita desagregação do grupo. Lá encontramos as emblemáticas figuras do pacifista Professor X (James McAvoy), o poderoso Magneto (Michael Fassbender) ou essa mutante com permanente capacidade de transfiguração física que é Mystique (Jennifer Lawrence)... Aliás, são todos mutantes, tal como Jean Grey, dotada de poderes telepáticos e telecinéticos — ela é, para todos os efeitos, a personagem central, sendo a respectiva intérprete, a inglesa Sophie Turner, um dos trunfos promocionais do filme, depois da sua consagração internacional como Sansa Stark na série televisiva A Guerra dos Tronos.
Sophie Turner
Quando Jean Grey é tocada por uma misteriosa força cósmica, os seus poderes são ampliados de forma dantesca, para além da sua própria vontade... assim nascendo a Fénix Negra. Mais do que isso: o seu carácter maligno apresenta-se perversamente ampliado pela figura de Vuk (Jessica Chastain), uma “alien” proveniente de uma civilização apostada em ajustar contas com os humanos e, mais do que isso, capaz de manipular o comportamento de Jean, virando-a contra os outros elementos dos X-Men. Para esses elementos, o drama instalado decorre da ameaça que ela passou a representar: salvar Jean significará perder o mundo?
Claro que um objecto como X-Men: Fénix Negra é gerado por um sofisticado sistema de produção. O realizador estreante, Simon Kinberg (inglês, 45 anos), é um profissional especializado neste domínios, com várias contribuições para a série “X-Men”, quer como argumentista, quer como produtor. É mesmo detentor de uma nomeação para melhor filme do ano, enquanto coprodutor de Perdido em Marte (2015), de Ridley Scott.
Mas neste universo de mutantes, o risco de alguma mudança não é moeda corrente... Francamente desconcertante é o esbanjamento dos elementos dramáticos que, apesar de tudo, o filme tenta colocar em jogo. Assim, o capítulo da infância de Jean, com o trauma da morte dos pais e o seu acolhimento pela “escola de heróis” dirigida por Charles Xavier, o Professor X, parece lançar X-Men: Fénix Negra no sentido, pelo menos, de alguma vibração emocional...
O certo é que vai prevalecendo a sensação de que objectos como este resultam, em última instância, das rotinas dos departamentos de efeitos especiais. De tal modo que, a partir de certo momento, parece que aos actores apenas foi pedido que façam uma pose espantada (?) perante o “barulho das luzes” em que surgem digitalmente envolvidos... Quando entre esses actores está gente tão talentosa como Michael Fassbender ou Jessica Chastain, é caso para perguntar se alguém reaparou no desperdício humano e artístico que tudo isto envolve.

segunda-feira, junho 10, 2019

Sesame Street na NPR

Marretas em concerto!... Ou seja: o programa de televisão Sesame Street está a comemorar 50 anos de existência e algumas das suas personagens passaram pelos estúdios da NPR para uma especialíssima edição dos 'Tiny Desk Concerts', com produção de Bob Boilen — o resultado são 15 preciosos minutos de alegria e inteligência, numa palavra, entertainment.

O cérebro, verdades e mentiras

Albert Moukheiber
Psicólogo, especialista em neuro-ciência, professor, Albert Moukheiber estuda o cérebro humano e, em particular, o modo como as nossas percepções podem oscilar do conhecimento à crença, da informação ao preconceito — não por acaso, a questão crítica das "fake news" tem sido uma zona particular do seu trabalho, bem como do colectivo neuro-científico Chiasma (de que foi um dos fundadores). O seu livro Votre Cerveau Vous Joue des Tours (à letra: "O vosso cérebro prega-vos partidas") explora, justamente, essa dinâmica cerebral que nos permite reconhecer que "face a um real múltiplo e complexo, estamos sujeitos à aproximação, à ilusão e ao erro."
Num delicioso video do jornal Le Monde, Moukheiber expõe alguns mecanismos básicos de funcionamento do cérebro — ou como as relações verdade/mentira acontecem numa paisagem em permanente, inquietante e fascinante movimento.  

A IMAGEM: Gérard Castello-Lopes, 1957

GÉRARD CASTELLO-LOPES
Lisboa, 1957

domingo, junho 09, 2019

3 memórias de Dr. John

Falecido a 6 de Junho, contava 77 anos, Dr. John deixou uma herança plural em que a carreira em nome pessoal se cruza com inúmeras alianças artísticas, numa dinâmica criativa em que o património de blues e da sua cidade natal (Nova Orleães) se cruza com matrizes de pop, rock e jazz. Da sua estreia discográfica, com o álbum Gris-Gris (1968), até colaborações exemplares com nomes como Van Morrison (A Period of Transition, 1977), Ringo Starr (Ringo Starr and His All-Starr Band, 1990) ou Spiritualized (Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space, 1997), a sua arte, mesmo nas nuances mais dramáticas, é sempre indissociável de uma contagiante alegria da performance. De seu nome verdadeiro Malcolm John Rebennack, deixa uma herança de genuína versatilidade, de humilde grandiosidade — eis três momentos da sua trajectória.

>>> Such a Night, concerto de despedida de The Band — A Última Valsa (1976), de Martin Scorsese.

>>> Iko, Iko — Festival de Montreux, 1995.

>>> Revolution, álbum Locked Down (2012).

>>> Obituário na Rolling Stone.

sábado, junho 08, 2019

Multidões do cinema e do futebol

Richard Vuu — O ÚLTIMO IMPERADOR
Como olhamos as imagens do presente da nossa sociedade? De que modo, e porquê, as imagens do futebol são tão poderosas no nosso quotidiano? Que outras imagens falta contemplar? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Junho), com o título 'O imperador, a sua multidão e o nosso futebol'.

A história dos filmes quase sempre omite o seu nome: chama-se Richard Vuu e representou o lendário Pu Yi, aos 3 anos de idade, em O Último Imperador (1988), de Bernardo Bertolucci. Esta é uma daquelas imagens que, creio, há muito superou a condição de simples ilustração do filme a que pertence. Porquê?
Lembrei-me recentemente da imagem, não exactamente, confesso, pela comoção que perpassa pela figurinha de Pu Yi, suportando, incauto, o peso de gerir um império a partir da Cidade Proibida. Antes porque a vulnerabilidade do protagonista só adquire o seu sentido pleno através da presença de uma entidade que lhe confere uma vocação simbólica, investindo-o de uma significação política. Essa entidade é a multidão dos seus servos — conhecedor sofisticado dos valores do espaço, Bertolucci faz com que a sintamos tanto mais quanto mais a sua câmara se aproxima do rosto cristalino do pequeno Vuu.
Lembrei-me da imagem como contraponto às nossas multidões do futebol. De facto, não me basta a sua descrição, e também a sua exaltação, como espelho de uma celebração meramente desportiva. Aliás, só mesmo por voluntária cegueira existencial poderemos considerar que ainda há algo de “meramente desportivo” na nossa sociedade. O futebol, em particular, passou a ser vivido e encenado (e não há qualquer diferença entre uma coisa e outra) como um palco, de uma só vez físico e simbólico, a que somos convocados para resgatar os limites da nossa identidade.
Tendo em conta que, de norte a sul do país, as celebrações futebolísticas se cruzam muitas vezes com os lugares e os protagonistas da cena política, faz mesmo sentido dizer que a participação nos movimentos colectivos do futebol passou a ser concebida como um dado compulsivo de inscrição do indivíduo na colectividade.
É por isso, também, que me fascina a solidão radical de Pu Yi, tal como filmado por Bertolucci. O seu olhar fixo, a tensão da testa, a nobreza primordial da pose, enfim, a resistência anímica ao esquematismo teatral da multidão, tudo nos diz que aquilo que faz dele uma personagem histórica é, paradoxalmente ou não, a sua exterioridade aos desígnios colectivos da própria história.
Lembrei-me da imagem de O Último Imperador porque, de uma maneira ou de outra, as imagens das multidões adquiriram um valor fortíssimo na nossa definição enquanto colectividade. Mas será que não há outras imagens que seja útil contemplar? Por exemplo, quantas imagens vimos da escassa afluência dos cidadãos às assembleias de voto no mais recente acto eleitoral? Terá havido algum momento em que alguém, por serena profilaxia pedagógica, tenha colocado uma imagem de uma qualquer praça pública cheia de adeptos do futebol ao lado de uma imagem de uma assembleia de voto vazia?
Faz-nos falta contemplar tal contraste. E não tenho ilusões sobre o imediato mal entendido gerado por esta última pergunta. Porquê? Porque sei que qualquer interrogação do papel social do futebol tende a ser recebida por muitas pessoas como uma “condenação” automática de “todo” o futebol.
Na verdade, se falo em pedagogia é apenas no sentido “godardiano” que ela pode envolver. Através da sua admirável filmografia, incluindo esse monumento de celebração cinéfila que é História(s) do Cinema (1989-1999), Jean-Luc Godard ensina-nos que, perante duas imagens, não se trata de escolher uma “ou” outra, mas sim de olhar para uma “e” outra como expressão de um mesmo presente (neste caso, de um só país). Exemplo revelador: na sua obra, há um filme sobre uma família palestiniana cujo retrato nasce do contraponto com uma família francesa — tem data de 1976 e chama-se “Aqui e Algures” (Ici et Ailleurs).

O "et" de ICI ET AILLEURS
Fazem-nos falta imagens do que somos, e como somos, para perguntarmos se sabemos o que somos. Colocar lado a lado a abstenção política e as multidões ululantes do futebol não significa que uma coisa “explique” a outra. Acontece que aquilo que ganha evidência (e, mais do que isso, poder) de evento social define os valores e, no limite, a vida cultural de uma comunidade. Agora ou em 1908, quando Pu Yi virou as costas aos seus servos.

sexta-feira, junho 07, 2019

Madonna, Mirwais & etc.

Simplifiquemos. Digamos, apenas, que ficará para a história como uma das grandes canções de 2019: Dark Ballet é o quinto tema divulgado do novo álbum de Madonna, Madame X (depois de Medellín, I Rise, Crave e Future), a chegar às lojas a 14 de Junho.
Apropriando-se da referência história e mitológica de Joana d'Arc — já citada em Joan of Arc, tema de Rebel Heart (2015) —, Madonna elabora uma celebração da diferença, cruzada com um discurso de resistência física e mental que o teledisco realizado por Emmanuel Adjei corporiza na presença de Mikky Bianco, figura emblemática do hip hop queer.
O resultado envolve um labirinto de sucessivas derivações formais, obviamente indissociável da produção de Mirwais Ahmadzaï, o brilhantíssimo criador francês, já associado a vários álbuns de Madonna, incluindo o fundamental, quase sempre sub-avaliado, American Life (2003), por certo o objecto mais confessional de toda a discografia da Material Girl. Sendo Mirwais um dos produtores de Madame X, vale a pena referir que a própria Madonna já reconheceu que este é o seu trabalho mais próximo de... American Life.

It’s a beautiful life
But I’m not concerned
It’s a beautiful dream
But a dream is earned
I can dress like a boy
I can dress like a girl
Keep your beautiful words

‘Cause I’m not concerned
‘Cause your world is such a shame
‘Cause your world’s obsessed with fame
‘Cause your world’s in so much pain
‘Cause your world is
‘Cause your world is
Up in flames

It’s a beautiful plan
But I’m not concerned (Oh yeah)
It’s a beautiful game
That I never learned
People tell me to shut my mouth (Shut your mouth)
That I might get burned
Keep your beautiful lies

‘Cause I’m not concerned
‘Cause your world is such a shame
‘Cause your world’s obsessed with fame
‘Cause your world’s in so much pain
‘Cause your world is
‘Cause your world is

I will not denounce the things that I have said
I will not renounce my faith in my sweet Lord
He has chosen me to fight against the English
I am not afraid at all to die 'cause I believe you
God is on my side and I'll be fine
I am not afraid 'cause I have faith in him
You can cut my hair and throw me in a jail cell
Say that I'm a witch and burn me at the stake
It's all a big mistake
Don't you know to doubt him is a sin?
I won't give in

They are so naive
They think we’re not aware of their crimes
We know
But we’re just not ready to act
The storm isn’t in the air
It’s inside of us
I want to tell you about love and loneliness
But it’s getting late now
Can’t you hear outside of your Supreme hoodie
The wind that’s beginning to howl?

It’s a beautiful life