A apresentar mensagens correspondentes à consulta oakey ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta oakey ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

terça-feira, novembro 18, 2014

Giorgio Moroder diz que os 74
são agora os novos 24...
(e assim regressa aos discos)

O produtor Giorgio Moroder, um dos "pais" do disco (fação eletrónica) e autor de uma mão cheia de parcerias históricas junto de nomes como os de Donna Summer, Blondie, David Bowie, Japan, Freddie Mercury, Philip Oakey ou Limahl, está de regresso aos discos com aquele que será o seu primeiro álbum de originais a solo editado em 30 anos.



Foi em 1985 que pela última vez o vimos neste formato em Innovisions, álbum que lançou no mesmo ano em que editava um outro LP, esse em parceria com Phil Oakey, vocalista dos Human League.

Em 74 is the New 24 deixa claro que, na música de dança, a idade que surge no BI não é questão a merecer preocupações. E ao lado de figuras como Britney Spears, Kylie Minogue, Charlie XCX ou Sia, que convidou a colaborar no disco, regressa em 2015.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

Uma história de solidão

Há um momento em Her (novo filme de Spike Jonze entre nós estreado como Uma História de Amor) no qual, à porta do que parece ser uma estação de metropolitano, o protagonista (num dos melhores papéis de sempre de Joaquin Phoenix), fala para o seu computador pessoal portátil, ao seu lado os demais que sobem e descem escadas não fazendo senão o mesmo. Trocam palavras com uma máquina, riem... Falam com alguém (ele com um programa de inteligência artificial, os outros imaginamos que façam o mesmo). Tentam no fundo iludir a solidão. E é sobre solidão de que afinal se fala quando se fala desta história de “amor” de um homem por um pequeno computador.

Não é a primeira vez que o cinema visita a ideia de amor digital. E basta recordar um Electric Dreams de Steve Barron (clássico dos oitentas de onde emergiu o clássico Together In Electric Dreams de Phil Oakey e Giorgio Moroder) ou a história da mãe que tentava descobrir o amor num filho-robot em A.I. – Inteligência Artificial de Steven Spielberg (sobre um conto de Brian Aldiss que Kubrick projetara adaptar para o grande ecrã) para entendermos que há muito o cinema reflete já sobre esta ideia da eventualidade da projeção do mais humano dos sentimentos sobre o espaço de uma máquina.

Her destaca-se desde logo pelo argumento notável que suporta uma narrativa com o fulgor de um bom romance escrito, daqueles que não nos deixam largar o livro sem o acabar. Junta um Joaquin Phoenix brilhante e o poder sedutor da voz de Scarlett Johansson (que “habita” o seu computador). E uma art direction dominada por tons quentes e confortáveis, num tempo que imaginamos não muito distante e num lugar algures não muito longe.

Joaquin Phoenix veste a pele de um homem recém-separado que ganha a vida numa empresa que escreve cartas para quem não tem tempo para as escrever. Está habituado às palavras e com elas projeta os afetos dos outros, em alguns casos acompanhando vidas e situações quase como se as vivesse e observasse de perto. A entrada no mercado de um novo computador de bolso dotado de inteligência artificial traz-lhe súbita “companhia”, uma nova noção de conforto a dois e, eventualmente, a sugestão de um afeto maior. Poderemos falar mesmo de amor?

Mais que projetar um debate moral, mais que procurar os limites do amor (ou o que os possa transcender), Her explora antes o que é a solidão e como a forma de a tentar iludir pode afinal não ser mais senão uma ilusão. Com o prefixo “des” a espreitar a cada esquine, caso algo deixe eventualmente de... funcionar.

sexta-feira, julho 05, 2013

Novas edições:
Giorgio Moroder, Best of Electronic Disco

Giorgio Moroder 
“Best of Electronic Disco (deluxe edition)” 
Repertoire Records 
4 / 5

Não será certamente estranha à presença (bem evidente) de Giorgio Moroder no alinhamento do mais recente álbum dos Daft Punk o aparecimento de uma nova antologia dedicada à sua música. Porém convém reconhecer também que não se esgota junto dos Daft Punk a carteira de potenciais novos focos de interesse sobre si. Afinal nos últimos meses o veterano alemão (que soma presentemente 73 anos de idade) descobriu através do Sound Cloud uma nova janela de comunicação para com novos públicos. E, convenhamos, a recorrente boa saúde que o disco sound respira (e o recente fenómeno space disco que o dia) assegura que a sua obra continue a ser matéria prima vibrante para sucessivas gerações de músicos e ouvintes. A sua discografia é vasta e naturalmente transcende os espaços do disco sound... Mas foi nesse domínio que se fez referência e visão, não apenas nas célebres e fundamentais parcerias com Donna Summer que ajudaram a definir e projetar o género, mas também num conjunto de discos nos quais levou mais adiante a exploração das potencialidades das eletrónicas ao serviço de ideias neste mesmo terreno. E é por aí mesmo que investem as memórias que recuperam os temas que agora reencontramos em The Best of Electronic Disco, antologia que assenta as bases no álbum (clássico) de 1977 From Here To Eternity (o seu grande disco em nome próprio), que recua mesmo ao anterior Knights In White Satin (1976) e escuta o sucessor E=MC2 (1980), acrescentando depois ao alinhamento alguns temas menores da primeira metade dos oitentas, entre os quais as menos interessantes colaborações que então criou com Paul Engemann e que se aproximam mais de registos de produção pop dos oitentas que do tutano da alma disco... Focado, o alinhamento exclui assim importantes parcerias que por esta altura assinou enquanto produtor junto de nomes como os Japan, Blondie ou David Bowie, assim como não convoca a presença do disco com Phil Oakey que gravou em 1984. Mesmo assim, um belo retrato do melhor de um autor que encarou o disco sempre artilhado de eletrónicas (naquilo a que poderíamos mesmo chamar como ponto de vista alemão sobre uma realidade de berço americano). Quem encontra em Lindstrom, Pet Shop Boys ou Kelley Polar motivos para celebrar o disco no presente tem aqui importantes páginas de história a (re)descobrir.

PS. Sim, a capa é horrenda. Mas quando se fala de música convém também saber ouvir...

quarta-feira, junho 19, 2013

Novas edições:
B.E.F., Music of Quality and Distinction 3 - Dark

B.E.F. 
Music of Quality and Distinction 3 – Dark 
Wall of Sound 
3 / 5

A primeira grande cisão na história da pop eletrónica britânica surgiu na alvorada dos anos 80 quando, depois de editados dois álbuns, os Human League (importantes pioneiros do género) geravam duas bandas separadas. Por um lado, e mantendo o nome, um coletivo liderado pelo vocalista Phil Oakey partia rumo a Dare! e a um inesperado patamar de grande popularidade à escala global. Por outro, Martyn Ware e Ian Craig Marsh fundavam os Heaven 17 (juntamente com o vocalista Glenn Gregory) e uma equipa de produção que se apresentava então sob a designação B.E.F. (ou seja, British Electric Foundation). Em tempo de entrada em cena dos primeiros Walkman, a estreia do coletivo B.F.F. Faz.se em 1981 com a cassete Music For Stowaways e a respetiva versão em vinil (embora com alinhamento diferente) que surgia sob o título Music For Listening To. É contudo com o primeiro volume da série Music of Quality and Distinction, que editam em 1982, que a parceria conhece a merecida visibilidade. Conduzida por um trabalho protagonizado por eletrónicas e contando com versões de canções como Anyone Who Had a Heart por Sandie Shaw ou These Boots Are Made Fot Walkin, por Gary Glitter, o primeiro volume desta série da B.E.F. Conheceu contudo numa leitura de Ball of Confusion, dos Temptations, por Tina Turner, o seu episódio mais importante e consequente. Poucos meses depois, e sob produção de, Ware, o novo single da cantora, Let's Stay Together, abria portas a uma nova etapa da sua carreira, que teria em Private Dancer um disco de referência. Concentrando esforços nos Heaven 17 ao longo dos oitentas, os músicos por detrás do coletivo B.E.F. Só apresentaram novo volume da série Music Of Quality and Destinction em 1991, contando então com nova mão-cheia de versões em vozes como as de Green Gartside (dos Scritti Politti), Billy McKenzie (dos Associates) ou, novamente, Tina Turner. Desta vez o intervalo entre o volume 2 e 3 da série foi ainda mais longo. E agora, 22 anos depois, eis que surge a terceira parte desta aventura encetada em 1981, contudo já sem contar com a presença de Ian Craig Marsh, que deixou o coletivo B.E.F. E os Heaven 17 em 2007. O novo disco segue a lógica dos anteriores (ou seja, parte de clássicos e aborda-os com artilharia eletrónica), mas acrescenta uma lógica transversal à forma como são trabalhadas as versões: uma certa tensão assombrada que, de resto, justificando assim o subtitulo Dark com que se apresenta este volume. Talvez sem a carga de surpresa do volume de estreia, mas com um conjunto de canções, intérpretes e versões mais vitaminado que o que lembramos do segundo, este terceiro Music of Quality and Distintion recupera repetentes como Green Garstide ou Sandie Shaw, mas brilha sobretudo nas leituras de God Only Knows (dos Beach Boys) por Shingai Shoniwa, I Wanna Be Your Dog (Stooges) por Boy George, Party Fears Two d(Associates) por Glenn Gregory ou um fabuloso The Day Before You Came (Abba) por Maxim. Pode não ser uma pérola maior ou uma fonte de revolução na história da pop eletrónica. Mas é uma bela coleção de versões.

quarta-feira, outubro 24, 2012

Para (re)descobrir Giorgio Moroder


Vá, não se assustem já com as capas dos discos, que falamos de Giorgio Moroder... Mesmo os que não tenham vivido os anos 70 e 80 já certamente se cruzaram com a sua música, seja numa noite de dança ao som do clássico I Feel Love de Donna Summer ou ao som de algumas canções que fizeram história em bandas sonoras dos anos 80, como um Take My Breath Away (dos Berlin), Neverending Story (de Limahl) ou Together in Electric Dreams, que ele mesmo co-assinou e co-interpretou com Phil Oakey... Nascido em 1940 em Itália, fez carreira na Alemanha e mais tarde nos EUA, onde ainda hoje vive e trabalha. Gravou primeiros discos nos anos 60, descobrindo cedo um interesse pelas electrónicas, ferramentas com as quais ajuda a inventar aquilo que podemos designar como electro disco já em meados dos anos 70 numa série de parcerias com Donna Summer que se tornariam referencia e geraram evidente descendência.

De Giorgio Moroder são mais conhecidas as colaborações que a sua música. De um Life in Tokyo, que em 1979 produziu para os Japan a Cat People (Putting Out Fire) que compôs em 1982 para David Bowie, a sua história mais visível é feita de parcerias. Mas é igualmente interessante, senão mesmo mais influente, a sua obra menos mediatizada. Como os discos que editou em finais dos anos 70 ou bandas sonoras dos setentas e oitentas. É este o universo que podemos (re)descobrir agora nas três páginas que o próprio Giorgio Moroder acaba de abrir no Sound Cloud. Ali podemos ouvir algumas das suas colaborações mais célebres, mas também elementos da música que compôs para cinema e single que foi editando a solo ou em parcerias. E numa das páginas há mesmo recuerdos dos anos 60... Para quem gostou da banda sonora de Drive (sim, que o filme era coisa menor), aqui fica uma boa janela por uma das suas mais evidentes fontes de inspiração.

Página 1
Página 2
Página 3 - Oldies

sexta-feira, maio 25, 2012

Reedições:
The Human League, Dare


The Human League 
“Dare” 
Virgin / EMI Music
4 / 5

Sheffield, 1980. A separação chegou com uma agenda de compromissos pela frente, entre os quais uma digressão. E perante a saída de Martyn Ware e Ian Craig Marsh, fundadores da banda e até então forças determinantes na condução dos destinos dos Human League (e que em breve surgiriam a bordo dos Heaven 17), o vocalista Philip Oakey deu por si com a banda em mãos mas sem capacidade para responder por si às solicitações. Partiu em busca de uma vocalista adicional, encontrando Ann Sulley e Joanne Catherall numa pista de dança de uma discoteca no centro da cidade. Não imaginou se poderiam cantar, mas pareceram-lhe as pessoas certas. Começaram a juntar vocalizações, a dançar... E quando Adrian Wright repensou a imagem do grupo e o guitarrista Jo Callis e o teclista Ian Burden se juntaram ao coletivo o grupo renascia, fazendo deste momento um dos episódios mais vezes citados da história dos primeiros momentos da pop electrónica britânica. Força maior na Sheffield de finais de setentas, cidade que representava um invulgar pólo de agitação focada na exploração das potencialidades das emergentes electrónicas, os Human League tinham já editado alguns singles e dois álbuns, a sua música cruzando uma visão pioneira com desejos de experimentação e, ocasionalmente, uma mais clara opção por uma linguagem pop. Na sua nova “vida”, os Human League procuraram outro rumo, optando pela busca de uma visão pop feita de electrónicas como até então ninguém fizera (num tempo em que, recorde-se, as electrónicas estavam ainda longe de ser ferramenta mainstream). Dare Deu ao mundo a matéria prima para mudar a relação do grande público com as novas linguagens e sons. O álbum aproveita as potencialidades das voz de Oakey e das duas novas “recrutas” e propõe um alinhamento de canções irresistíveis das quais nasceram dois clássicos maiores – Open Your Heart e Don’t You Want Me – e uma mão cheia de outros momentos que, com o tempo, criaram escola e descendência inscrevendo este disco entre as cartilhas de referência das expressões da música electrónica em terreno popular. Transformados em estrelas planetárias e nos rostos mais visíveis de uma geração (que conhecia então as contribuições não menos importantes de uns Soft Cell, Depeche Mode, Heaven 17, Cabaret Voltaire ou DAF) , os Human League levaram três anos a criar um sucessor para Dare! Nesse período, onde mais tarde chegaram a reconhecer uma etapa de alguma desorientação, editaram dois novos singles – Mirror Man, a piscar o olho à Motown dos sessentas, e (Keep Feeling) Fascination – que juntaram num EP editado em 1983. Fascination! é assim um ponto intermédio entre Dare e Hysteria (1984), gerando um instante que, apesar do impacte dos dois singles a si associados, acabou esquecido pelo tempo. O EP é agora recuperado em (mais uma ) reedição de Dare que assim não repete a solução de uma outra que, há dez anos, juntava ao álbum de 1981 o disco-companheiro Love and Dancing, de versões instrumentais para pista de dança originalmente lançado em 1982. Ao álbum de 81 e EP de 83 a nova reedição junta, nos dois CD que apresenta numa caixa de cartão, algumas remisturas e lados B. O resultado final denota contudo sinais de alguma desarrumação. Podendo juntar o LP e EP numa mesma edição que parece querer ter um valor histórico, o alinhamento pedia uma mais sistemática do acervo da época. Faltam alguns lados B, faltam versões (como a mistura do single de Fascination!) e uma ordenação mais lógica no CD2. Apesar da boa ideia de incluir miniaturas das capas dos singles da altura em cartão, a caixa peca ainda por um booklet pobre na escrita, um álbum como este merecendo melhor. Perde-se ainda a oportunidade de fazer desta caixa em fazer a integral da etapa Dare ao omitir Love and Dancing... Não era melhor deixar quem conhece a coisa fazer estas edições?

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Noovas edições:
Heaven 17,
Play To Win: The Very Best of Heaven 17


Heaven 17
"Play To Win - The Very Best of Heaven 17"
Music Club Deluxe
3 / 5

Tudo começou em Sheffield, em finais dos anos 70. E quando Glenn Gregory se mostrou indisponível para formar uma banda, os outros dois músicos – Ian Craig Marsh e Martyn Ware – chamaram Phil Oakey... e nasciam os Human League. As visões não eram unânimes entre si e quando a rutura chegou Oakey ficou com o nome (e a banda) e Marsh e Ware formaram, agora com Gregory, um trio para o qual chamaram o nome de uma banda ficcional referida nas páginas de A Laranja Mecânica de Anthony Burgess, ao mesmo tempo formando a companhia de produção British Electric Foundation (B.E.F. nas iniciais que fariam história em vários discos. Juntando as ferramentas electrónicas (a base da sua dieta de trabalho) a uma ideia de canção pop interessada em captar também heranças dos universos da soul e funk, os Heaven 17 apresentaram em inícios dos anos 80 dois álbuns que contribuíram com algumas das grandes canções para a afirmação de uma nova geração de criadores pop, afirmando-se também como uma voz com consciência política claramente afastada do rumo mais conservador que o Reino Unido então tomava. Penthouse and Pavement (1981), dividido entre uma face ritmicamente insistente e uma outra, mais interessada em explorar ambientes e cenografias, é inclusivamente um dos álbuns de referência do seu tempo, tendo dado a conhecer canções como Geisha Boys and Temple Girls, At The Height of The Fighting ou Play To Win. The Luxury Gap (1983) mantém caminhos semelhantes, de linas talvez menos angulosas, incluindo canções como Temptation, We Live So Fast ou Come Live With Me. Porém, e como aconteceu a tantos nomes da sua geração, a vontade em caminhar para lá do sentido de contenção que caracterizara os seus primeiros registos, resultou numa vontade em alargar horizontes, os discos seguintes mostrando passos maiores que a perna e, consequentemente, uma descaracterização do som e progressiva diluição de rumos. Se How Men Are, em 1984, já não sabe bem para onde ir, daí em diante a coisa ainda perde mais sentido e acaba inconsequente. Entram em pausa em finais dos oitentas, regressam a meio dos noventas, afastam-se outra vez e reentram em cena a meio da década dos zeros. Apesar de terem editado álbuns de originais em 1996 e 2005 a sua música passa a viver do apetite de nostalgia dos que recordam, sobretudo, os singles de 1981 a 83... Esta nova antologia recorda a história de fio a pavio (ignorando contudo a etapa Bigger Than America, em meados dos noventas). Na verdade a evocação mostra grandes canções na primeira metade do alinhamento (de 33 temas). Mas a segunda serve apenas a ilustração de um percurso sem Norte, apenas para consumo dos admiradores mais dedicados. Boa capa, de facto. Mas em 2012, e querendo ajudar a contar a história da pop electrónica dos oitentas, fazia mais falta um tratamento com extras e som restaurado (como se fez já para Penthouse and Pavement) para o álbum de 1983 que uma tão extensa antologia (sendo que best ofs é coisa que não falta na discografia dos Heaven 17).

domingo, novembro 20, 2011

Entrevistas de arquivo:
The Human League (2002)


Não foi preciso o somatório de elogios dos artistas associados ao fenómeno electroclash para que muitos reconhecessem nos Human League e, sobretudo, no álbum 'Dare' (de 1981), um dos mais marcantes nomes da história do relacionamento das electrónicas com a música popular. 21 anos depois de ter lançado um álbum que já ganhou o seu peso de marco na história, Phil Oakey falou, em exclusivo, ao DN. A reedição do clássico álbum de 1981 que então acontecia, e o lançamento de uma compilação de temas da pré-história dos Human League permite-nos um reencontro com uma banda fundamentail entre as referências da nova música electrónica. Esta entrevista foi publicada a 7 de Dezembro de 2002 no suplemento DNmais.


20 anos depois Dare ainda tem um certo sabor futurista...

Muitos dos avanços tecnológicos que aconteceram depois dos sinteti-zadores analógicos têm sjdo, de certa forma, coisas com "sabor antigo"... As ferramentas de gravação que apareceram são, sobretudo, máquinas de gravação. Os samp/ers são gravadores que permitem um trabalho muito rápido. No final dos anos 70, os sintetizadores eram, de facto, uma novidade absoluta... Costumo dizer que os samp/ers são como urna máquina fotográfica, ao passo que os sintetizadores analógicos permitem fazer pintura. Partimos de uma tela em branco e temos de a ilustrar., Fazemos o que queremos, mas temos de criar e não apenas dar forma a algo que já existe. Por isso penso que, ainda hoje, os sintetizadores são ainda o instrumento mais moderno que existe.

Anos antes, quando o grupo começou, o trabalho com os sintetizadores, era já uma certeza para os Human League?
Essa era a ideia dos músicos que criaram o grupo percursor dos Human League, que se chamava The Future (e que mais tarde saíram para formar os Heaven 17, mais concretamente o lan Wright e o Martin Ware). Eu também só queria trabalhar com sintetizadores. Ainda hoje sinto que só me sinto bem á lidar com sintetizadores, até porque não domino nenhum outro instrumento. Perco-me... Se um músico entra em estúdio para tocar guitarra é porque eu não posso dar o meu contributo nesse momento. Nem sei mesmo ver, se algo soa mal, o que é que está errado. É um mistério para mim.

Já escutava música electrónica antes de se juntar aos outros músicos e formar, os Human League?
Sim. Éramos, na altura, um grupo muito arty, muito atento às novas expressões... O primeiro artista «electrónico» que nos chamou a atenção foi o Walter Carlos. A banda sonora de A Laranja Mecânica, assim como o filme, foi muito importante naquela altura. Era diferente, inovadora, extraordinária, e tinha sons que nunca
tínhamos escutado.

E que impacte tiveram em vós os pioneiros electrónicos de 70?
Foram referências fundamentais. Não escutávamos muito os Tangerine Dream... Não conhecíamos então os Can que, para ser honesto, só agora estou a aprendera conhecer... Já os Kraftwerk tiveram outro impacte, até porque nos mostraram, claramente, o que podíamos fazer. Havia também outros nomes que nos influenciaram então, como o Jean Michel Jarre, o Daniel Miller e também o Georgio Moroder... De resto,  I Feel Love, de Moroder, foi uma peça fundamental para nós. Queríamos ser uma espécie de novos Donna Summer(s)...

Mas com um clima mais sinistro...
Era verdade, talvez por sermos rapazes do Norte de Inglaterra que tinham visto muitos filmes de ficção científica.

É isso que define o ambiente de Sheffleld, de onde vêm?
Sem dúvida.

Como Justifica o facto de Sheffieid nos ter dado tantas bandas electrónicas na alvorada de 80?
Nunca obtive uma explicação definitiva para esse facto. Éramos uma cidade muito continental... O único lugar onde vou e sinto haver afinidades com Sheffieid é a cidade de Colónia, na Alemanha. Na altura não sofremos a taxa de desemprego de outras cidades inglesas, e podíamos comprar os instrumentos que nem erarn astronomicamente caros. Tínhamos de fazer horas extraordinárias para os pagar, é certo, mas isso ainda não mudou... Sheffieid era, também, uma cidade consideravelmente aríy. A cidade adorava os Roxy Music e David Bowie...

Não havia, também, uma cesta dinâmica punk nas entrelinhas dos primeiros registos dos Human League?
Nunca teríamos conseguido fazer nada se não tivesse acontecido o fenómeno punk. Mudou a forma de encarar a música e o ser-se músico. Gostávamos muito dos Clash, que eram também muito populares em Sheffieid. Mostraram-nos que não tínhamos de ser exemplares nem geniais. Podíamos apenas procurar expressar-nos.

Apesar do clima menos luminoso dos primeiros discos, pontualmente apareciam nos vossos discos frestas de calor pop , como, o Emplre State Human...
Essa semente já lá estava... Era a tal procura de sentido na herança de Giorgio Moroder. Ele foi, de resto, a grande inspiração para essa canção.

Mas algo muda de Travelogue para Dare... E o som ilumina-se.
A equipa envolvida tem muito a ver com o que mudou. Em primeiro lugar há logo que destacar a presença das vozes femininas, que aligeiraram muito a intensidade do som. A luz em vez da sombra... Tínhamos de seguir naquele sentido. Tínhamos uma dívida enorme, na ordem das 50 mil libras, com a editora. Ou fazíamos um disco que nos ajudasse e à nossa carreira, ou acabava tudo e voltávamos a trabalhar em hospitais. Era o momento de avançar...

As "meninas", assim como os penteados, trouxeram também um toque glam ao grupo...
Aí era uma reacção de oposição de época à estética visual do punk e, de certa forma, uma herança dos Roxy Music e de David Bowie. De certa forma assumimos frontalmente uma pose de estrelato, política que muitos grupos antes dos Roxy Music rejeitavam em absoluto. Veja-se o caso dos Pink Floyd, que vendiam milhões de discos... Não era essa a nossa posição. Éramos uma banda muito visual. Gostávamos de cinema e de trabalhar com imagens em geral. De resto, fizemos nós mesmos as capas dos nossos primeiros discos.

Como é que se relacionavam com os outros grupos que, nessa altura assumiram igualmente essa herança do glam, dos Ultravox aos Soft Cell, dos Duran Duran aos Classix Nouveaux?
Alguns desses grupos saltaram para a carruagem da imagem quando esta ia já em andamento. Creio que os Duran Duran usaram muito a nossa linguagem. Os Soft Cell, curiosamente, eram mais um grupo de performance (como agora os Fischerspooner), mas tinham canções muito bem escritas. A banda que sempre me pareceu ter mais afinidades reais connosco foram os Cabaret Voltaire, até porque usavam slides em concertos, como nós... E havia a seriedade... Bom, na realidade não era assim tão sério como parecia, talvez mais irónico. E senti também sempre muitas afinidades com os Devo.

E como se relaciona, hoje, com as novas bandas que são evidentes herdeiras dos Human Leagye, como os Ladytron ou Laptop? Até mesmo os Fischerspooner?...
Algumas dessas bandas até usaram loops e samples de som nosso... Estou a gostar muito do que está a acontecer. Frequento o circuito dos clubes há muitos anos, e creio que as pessoas se estão a cansar das grandes discotecas. E estão a aparecer muitas coisas novas... Estou a gostar muito de alguns novos grupos como, pior exemplo, os Adult, de Detroit. Têm um som muito inteligente e sólido... Gosto também da Dot Allison, e gostaria até de gravar com ela...

Conhece, certamente, o álbum de tributo aos Human League...
Naturalmente! Não conhecia os Ladytron até esse momento.

Todos esses grupos e artistas, têm apontado Dare, sistematicamente, como um disco de referência.
Isso é muito bem de ouvir...É bom saber que trouxemos algo à música de outras pessoas, da mesma forma como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed trouxeram algo que nos estimulou a nós.

Dare teve um fortíssimo impacte junto ao público, mas certamente também dentro do grupo. Foi difícil pensar o que fazer depois?
De facto...Esse disco foi a materialização exacta daquilo que queríamos fazer, isto sem querer dizer que não me orgulhe de discos que tínhamos feito antes ou dos que gravámos depois. Mas na altura queríamos mesmo continuar a fazer música pop as nossas finanças eram até então tremidas, pelo que também nesse sentido o disco foi positivo. Tal como foi positivo trabalhar com aquele grupo de pessoas... O mais interessante em Dare foi o resultado do esforço colectivo de nove pessoas, que não teriam atingido aqueles resultados sozinhos.

Porque levararm tanto tempo a conceber um sucessor (na época era hábito editar-se um álbum por ano)?
Toda a gente ficou meio afectada, meio doida! Para ser honesto, o grupo nem era quem estava mais insano. O Martin Rushent, que era o produtor, perdeu toda a confiança no que estávamos a fazer depois. Se o Martin não se tivesse sentido daquela forma, o sucessor teria aparecido mais cedo... Ele afastou-se, tínhamos o Mirror Man e o Fascination, que não podíamos depois juntar a mais nada... Essas duas canções iriam fazer parte de um álbum que não pudemos completar sem o Martin. Vistas as coisas à distância, reconheço que talvez tenha sido lesivo o volume de sucesso que então vivemos. Foi prematuro... E não tínhamos talento para responder à altura...

Curiosamente, na altura eram sistematicamente sovados peta imprensa britânica. No ano passado, quando lançaram Secrets, passaram de “bestas” a bestiais...
É um facto! As críticas que tivemos com Secrets foram as melhores que alguma vez obtivemos. E o mesmo voltou a acontecer, agora, com , este disco de material mais antigo, dos inícios de vida do grupo... Penso que tudo isso também se deve ao facto de sermos hoje um grupo discreto, que está algures no cenário. Não temos um protagonismo actual evidente. E as pessoas falam de nós como alguém que usa instrumentos interessantes e faz boas canções.

Secrets saiu numa pequeníssima independente. É talvez por isso não conheceu a exposição que poderia ter vivido...
Mesmo assim estou muito satisfeito com o disco, indepententemente das vendas.

Metade do álbum eram instrumentais. Sempre tiveram um fraquinho por instrumentais...
Na verdade somos uma banda instrumental (risos). Impomos a nós mesmos a obrigação de fazer canções. Começamos sempre por ter a parte instrumental e só depois esta evolui para o formato de canção. Nunca partimos das vozes... Há 20 anos era difícil fazer carreira com instrumentais... Um Oxygene (Jean Michel Jarre) é uma rara excepção... Desde que a música de dança mudou os hábitos, tornou-se mais fácil...

Entre meados de 80 e o recente Secrets, os Human League não deixaram nunca de, ocasionalmente, surpreender-nos. Com Crash, em 1986, ensaiaram uma linguagem assumidamente americana...
Foi uma experiência interessante. Não era bem um álbum de Human League, mas mais um ensaio sobre como é que os americanos fazem discos. O Jimmy Jam e o Terry Louis não só são extremamente talentosos como foram verdadeiros gentlemen. Ajudaram-nos, abrirarn-nos os olhos... E deram-nos um número um, sem o qual talvez não estivéssemos aqui hoje. E creio que o mesmo se voltou a passar, mais tarde, com o Tell Me When. São pequenas histórias e momentos de sucesso que nos fazem sentir porque fazemos música há tantos anos.

Romantc e Octopus foram tentativas de reencontrar a alma perdida de Dare?
Não creio que houvesse uma ideia definida do que poderíamos fazer quando gravámos o Romantic... Nessa altura estávamos até perdidos. Deixámos de usar sintetizadores e adoptámos os samplers, que toda a gente então usava, não por acreditarmos nesses instrumentos, mas porque pensávamos que nos fariam novamente famosos. Foram dias difíceis. Creio que só nos reencontrámos apenas em Secrets... Agora estou sentado no estúdio, a olhar para os instrumentos que sei que quero explorar e como os explorar.

Quer isso dizer que vamos esperar menos tempo até ao próximo álbum?
Isso já não sei (risos)... Hoje é muito difícil obter o apoio de uma editora. E nós sempre dependemos, também, do apoio de um produtor. É mais uma questão de confiança... Será que vamos, finalmente, fazer um disco completamente sós?

Ainda tocam ao vivo...
Sim, tocamos muito ao vivo. Hoje somos talvez menos artistas e mais "fornecedores", na medida em que damos ao público o que, inevitavelmente, quer. Quando se começa uma carreira, subimos ao palco para dar coisas novas a descobrir. Quando se envelhece temos de ter a consciência da lista de canções que as pessoas querem ouvir.

Tem canções especiais que goste de recordar ao vivo?
Não tenho canções preferidas em particular. Tenho mais temas de que não gosto como, por exemplo, o Together In Electric Dreams, de que as plateias tanto gostam. E tocamo-la, claro! Em casa não escuto as nossas velhas canções. Tento concentrar a minha atenção nas coisas novas que vão aparecendo. Nunca se fez música tão boa e tão aberta a novos espaços como hoje.

Compra muitos discos?
Sim, dois ou três todas as segundas feiras.

Comprou Shoot The Dog, de George Michael, que usa um sample de Love Action, dos Human League?
Não. Creio que o disco tem muito a ver com a sua maneira de agir. Ele não queria que se soubesse da sua sexualidade. E perdeu o rumo da sua carreira desde então... Se conseguir ultrapassar este problema, talvez reencontre a sua capacidade de fazer grandes canções. Mas eu não tenho estado muito atento a discos de canções. Compro mais dance music. Estou muito atento ao electroclash, e por acaso têm aparecido aí algumas belíssimas canções. Comprei, todavia, o último álbum do David Bowie, mesmo não querendo... (risos). Gostei dos últimos dos Alpinestars, de Dot Allison... Ainda não sei se gosto muito do novo dos Ladytron... Mas há muitas coisas belas por aí...

Vem aí o repackage dos Human League, reunindo Dare com Love And Dancing. Como nasceu este outro projecto?
As pessoas talvez não se lembrem, mas nós tornámos viáveis as produções de remisturas na música pop . Já havia máxi-singles. A Lene Lovich ou os Spandau Ballet já tinham máxis, mas não eram particularmente criativos. Eram mais uma versão alongada com adição do instrumental. O Martin Rushent, que estava muito ligado à cena de Nova Iorque e conhecia o que se estava a passar com nomes como o Grandmaster Flash e resolveu aplicar as mesmas ideias à nossa música. Pareceu-nos natural juntar, depois, essas experiências num só álbum... Mas foi um momento de excepção. Ainda hoje sinto alguma dificuldade em lidar com a ideia de remistura... Há singles com cinco remisturas, e duvido que as pessoas as escutem todas.

terça-feira, setembro 21, 2010

Em conversa: OMD (2)


Continuamos a publicação de uma entrevista com Andy McCluskey, dos OMD, que serviu de base ao artigo “Hoje é cool sar a Orchestral Manouvres In The Dark”, publicada no DN a 9 de Setembro.

Recuemos a Liverpool, em finais dos anos 70. Quão diferentes eram os OMD das outras bandas que então ali surgiam?
Éramos os outsiders. Por várias razões. Por um lado vinhamos do lado errado do rio... (risos). Não viviamos nos bairros mais pobres de Liverpool, mas com as nossas mães na Wirral Peninsula, que é o lado chique do rio... Mas devíamos ser os rapazes mais pobres onde vivíamos... E obiviamente, éramos diferentes porque tocávamos com sintetizadores em vez de guitarras. Éramos os outsiders que tocavam no Eric’s Club.

Tal como o fora o Cavern, na Liverpool dos sessentas, o Eric’s era, em finais de 70, um local influente?
Era o nosso catalisador. Senão houvesse o Eric’s não havia os OMD. Inventámos a banda para tocar nos concertos gratuitos das terças feiras. Pensámos que nos deixariam tocar à nossa maneira.

E como reagiram então as pessoas à diferença?
Havia aí umas 30 pessoas a ver-nos. A maioria eram amigos e família. E os aplausos eram quase nenhuns... Até os nossos amigos não entendiam o que estávamos a fazer. Estavam todos a ouvir bandas de rock progressivo, não acreditavam que o que estávamos a fazer tivesse qualquer interesse.



Entre 1978 e 79 algo a acontecer no Reino Unido, observando-se pelo país fora o surgimento pontual de bandas de música electrónica. Por Sheffield, por Londres... A chegar à rádio e com Gary Numan a atingir o nº 1 com Are Friends Electric? O que fez a diferença?
O que é interessante é que não havia um movimento. E por isso não houve um clic! O Paul [Humphries, dos OMD] teve longas conversas com o Phil Oakey [dos Human League] sobre isto... Em 1978 os Human League ficaram tão surpreendidos ao descobrir os OMD como nós ficámos ao descobri-los a eles. Surpreendidos e nada felizes! (risos) Acho que todos estávamos a trabalhar nas nossas bolhas. Envoltos no que pensávamos que era um vácuo... Estávamos todos a ouvir discos de importação alemães, mas achávamos que seríamos as únicas pessoas em Inglaterra a ouvir aqueles discos. Ficámos surpreendidos quando ouvimos os Human leage, os Cabaret Voltaire. Mas quando ouvimos o Warm Leatherette, dos The Normal, no Eric’s, esse foi o momento em que o Paul e eu olhámos um para o outro pensámos: “há alguém em Inglaterra a fazer o que queríamos fazer!” Então decidimos sair da sala de arrumações da casa da mãe do Paul e subir ao palco...

E em dois anos tinham êxitos...
Sim, foi uma loucura. E ninguém ficou mais surpreendido que nós mesmos. Começámos na sala de arrumações da mãe do Paul, com o que era o pequeno hobbie de dois adolescentes sem dinheiro. Tinhamos uma guitarra baixo. E o Paul construia umas coisas que faziam barulhos, a que nem chamaria de sintetizadores (risos). E não tinhamos sequer teclado. Era um hobbie de sábado à tarde. E veja-se o que aconteceu. Escrevemos o Electricity quando tinhamos 16 anos.
(continua)

segunda-feira, setembro 14, 2009

Pop electrónica em documentário

A BBC está a preparar um documentário sobre a primeira geração pop electrónica britânica. Com o título ‘Synth Britannia’, o documentário inclui entrevistas com Gary Numan, Neil Tennant, Vince Clarke, Martin Gore, Phil Oakey e Bernard Sumner. O documentário é uma das apostas da estação para a sua grelha de Outono /Inverno.

quinta-feira, julho 02, 2009

Discos da semana, 29 de Junho

Sabe bem, de vez em quando, encontrar um disco que se saboreie pelo simples prazer de se ouvir uma mão cheia de canções pop. E, se não der muito trabalho, que uma ou outra puxem o pezinho para a dança… É o que acontece quando escutamos True Romance, o refrescante e bem agradável álbum de estreia dos Golden Silvers. São ingleses (lembrando assim que nem toda a boa nova pop chega apenas do lado de lá do Atlântico), mais concretamente londrinos e mostram neste contagiante álbum de estreia como a soma inteligente de uma série de referências pop estival podem sublinhar o presente e não representar, necessariamente, uma proposta de baralha e volta a dar para satisfazer nostalgias de outros Verões. Por aqui passa o sentido festivo de um Fantastic Day Haircut 100, a luminosidade de um Club Tropicana dos Wham, a festa de um Felicity dos Orange Juice. Mas também o requinte de uns Roxy Music ou o apelo irresistível de uns Beach Boys… As canções são magníficas, espantosamente versáteis nas formas, seja quando nos fazem sonhar com uma pista de dança mesmo à luz do dia (como sucede ao som de True No. 9 Blues), quer quando pedem copo na mão, em fim de festa, ao som do espantoso Here Comes The King. A voz, de tom familiar, de Gwilym Gold transpira memórias de uma pop elegante, sem efeitos especiais, que protagoniza uma música que contudo não deixa de nos lembrar que vivemos num presente onde uns LCD Soundsystem, entre outros, redefinem códigos e linguagens no campeonato da produção. True Romance é perfeita banda sonora para escutar no carro, a caminho de um pedaço de areia junto ao mar. Exala aquele sabor a fuga do quotidiano que chega com o tempo quente. A escolher um álbum para o Verão de 2009, aqui está um claro primeiro candidato ao título.
Golden Silvers
“True Romance”

XL Recordings / Popstock
4 / 5
Para ouvir: MySpace


Não é exactamente um álbum convencional, mas antes o que se anuncia como primeira mostra de canções, personagens e trama de um filme a rodar, diz-se, em 2010. Não é um disco dos Belle & Sebastian, mas conta com canções do timoneiro da banda escocesa, assim como a colaboração de elementos do grupo a até mesmo duas versões de Funny Little Frog e Act Of The Apostle, temas do álbum The Life Pursuit. God Help The Girl é, sim, uma construção narrativa criada por Stuart Murdoch, seguindo contudo uma linha pop pastoral, com tempero de nostalgia (anos 60) quanto baste e arranjos elegantes, seguindo claramente a linha que tem caracterizado a evolução do som dos Belle & Sebastian. O disco é apresentado como a primeira parte de um díptico com as sessões de uma história que se conta por canções, tomando uma personagem feminina (Eve) como protagonista. Apesar de ter primeiros pontos de inspiração em musicais de palco, a música segue os preceitos pop que têm definido o percurso de Stuart Murdoch desde a sua estreia no projecto universitário que acabou sob a forma do álbum Tigermilk, em 1996. Para esta nova aventura ouviu e escolheu novas vozes, desde as até aqui ilustre desconhecida Catherine Ireton às já rodadas presenças de Asya (Smoosh) e Neil Hannon (Divine Comedy). Centrou as canções na voz e personalidade das personagens da ficção que construiu. Todavia, escutado de fio a pavio, o disco do projecto God Help The Girl revela (além da estrutura narrativa) uma colecção de canções delicadas, bem arrumadas, pelas quais se expressa a força de uma personalidade criativa impossível de dissociar do seu restante trabalho nos Belle & Sebastian. Sombria, sedutora, murmurante e desencantada, uma pop requintada que, sem trazer qualquer grande surpresa, garante plena satisfação aos admiradores do trabalho de Stuart Murdoch.
God Help The Girl
“God Help The Girl”
Rough Trade / Popstock
4 / 5
Para ouvir: MySpace


Chama-se Victoria Hesketh, já passou pelo concurso Pop Idol, pela formação dos Death Disco e correu pela Europa a bordo de um trio de jazz. Há menos de dois anos resolveu seguir caminho em nome próprio, adoptando como nome a mesma designação pela qual a guarda pretortiana designou o jovem que um dia seria o imperador Calígula: Little Boots. Em finais do ano passado foi um dos nomes de quem mais se falou como promessa para 2009, sobretudo depois de dominar uma votação de grandes esperanças para o ano seguinte na BBC. Hands, agora editado, confirma as expectativas de quem, em Little Boots, viu um potencial a desenvolver num segmento da pop claramente apontado a destinos mainstream, mas com capacidade em não alienar outras franjas do gosto. Apesar de alguma familiaridade com os terrenos que hoje definem a identidade de uma Kylie Minogue ou Girls Aloud (de quem assinou versões em primeiras apresentações a solo como Little Boots), a nova personalidade musical de Victoria Hesketh mostra-se mais próxima da pop atenta e ágil de uma Robyn. Hands é, de resto, um belo programa de intenções, que abre o leque de propostas desde as visões mais inventivas de um Meddle à festa pop para multidões dançantes de um Remedy. Isto sem esquecer a bênção de Phil Oakey (dos Human League), que colabora em Symmetry. Uma estreia promissora, potrtanto.
Little Boots
“Hands”

679 / Warner
3 / 5
Para ouvir: MySpace


Rodrigo Leão teve a iniciativa (e a coragem, sublinhe-se) de deixar os Madredeus no auge da sua popularidade e criatividade. Apostou na reinvenção da sua obra num jogo de diálogos com espaços herdeiros de alguma música contemporânea (com os minimalistas europeus não muito distantes), progressivamente redescobrindo as linguagens da pop que em tempos desenvolvera como elemento da Sétima Legião. Depois de interessantes ensaios nos anos 90, encontrou o seu espaço na música em 2000, no álbum Alma Mater. Ali afirmou uma personalidade que depurava as referências várias nas quais crescera como músico, partilhando um gosto antigo pela canção com um lirismo muito próximo da escrita para o cinema (área onde, num possível futuro, o seu trabalho ainda tem muito para nos dar). Cinema deu continuidade à aventura, inscrevendo-se o novo álbum A Mãe numa mesma linha de acontecimentos. O disco mostra como, nove anos depois de Alma Mater, a música de Rodrigo Leão atingiu um requinte formal que partilha a fragilidade intuitiva da canção pop com a elegância de espaços onde o trabalho de orquestra define seguro cenário. O cartaz de vozes é novamente impressionante, envolvendo figuras de além-fronteiras como Neil Hannon (Divine Comedy), Stuart Staples (Tindersticks) ou Melingo. Há por aqui belíssimas canções. A de Neil Hannon é a cereja sobre o bolo. Vida Tão Estranha mostra para onde poderia ter evoluído a linguagem de uns Madredeus… Contudo, terminada a audição, o disco pouco mais mostra que uma segura gestão de conquistas já feitas. Falta o pequeno desafio, a surpresa ocasional. Ou seja, garante a continuidade, mas não parece, para já, querer ir muito além dos caminhos que Alma Mater e Cinema desbravaram.
Rodrigo Leão & Cinema Ensemble
“A Mãe”

Sony Music
3 / 5
Para ouvir: MySpace


Nada contra o jazz, fique desde já claro. Mas quando músicos de outras rotas e destinos mergulham nessas águas ou suas periferias, parece que o fazem na tentativa de abrir uma porta que revitalize eventuais percursos descendentes. Há muito que Iggy Pop não edita um álbum claramente marcante. Apesar da boa forma em palco (e de algumas revisões recentes ao seu passado mais remoto) os últimos títulos seus realmente significativos - Brick By Brick (1990) e American Caesar (1993) - datam de inícios dos anos 90… Em Préliminaries não apresenta propriamente um disco de jazz, mas antes um piscar de olho a terrenos jazzy, com elegância e sentido gourmet na selecção que inclui alguns standards da canção francesa, nomeadamente o ultra-clássico Les Feuilles Mortes, citando figuras como Yves Montand e Edith Piaf… Convenhamos que se mostra aqui com um sentido de elegância (que a sua voz profunda permite gerir com segurança). Na verdade, o que falha em Prèliminaires não é uma qualquer sensação de termos perante nós um peixe fora de água. Convocar heranças de Paris e de New Orleans é jogo que até faz sentido numa obra mais versátil que o que muitos possam conhecer. O que falta ao disco é, além de um corpo de canções realmente convincente, o sentido de entusiasmo que supostamente se espera em território de aventura fora das fronteiras habituais… Missão cumprida, é certo. Mas mais ao jeito de picar ao ponto que com real encanto.
Iggy Pop
“Prèliminaires”
Virgin / EMI
2 / 5
Para ouvir: MySpace


Também esta semana:
Tortoise, Duran Duran (reedições + DVD), Jeff Buckley, Frankmuzik, Peter Hammil, Gossip, Dirty Projectors, Moby

Brevemente:
6 de Julho: Bombay Bycicle Club, Nick Lowe, Florence and The Machine, David Bowie (VH-1), The Marvelettes
13 de Julho: Dan Black, Paul Weller, VV Brown, Thomas Dolby (reedições)
20 de Julho: Riceboy Sleeps, Stephen Sondheim, Bill Frisell, Fiery Furnaces,

Julho: Chris Garneau, Cass McCombs, A-ha
Agosto: Arctic Monkeys, Julian Plenti, Dolores O’Riordan, Stone Roses (Collectors Edition), Modest Mouse

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Pet Shop Boys com Phil Oakey

Os Pet Shop Boys editam, a 23 de Março, o seu novo álbum de originais Yes, que tem como cartão de visita o single Love, Etc. O disco surgirá em duas versões, uma delas com um CD adicional com remisturas e uma faixa adicional, This Used To Be The Future, na qual colabora Phil Oakey, dos Human Leaghe. Entretanto a dupla Tennant/Lowe está a trabalhar em música para um espectáculo de dança, baseado num conto de Hans Christian Andersen, a estrear em 2010.

sábado, agosto 11, 2007

Em conversa: Human League (4)

Terminamos hoje a publicação de uma entrevista com Phil Oakey, vocalista dos Human League. Hoje fala-nos de memórias na primeira pessoa e revela que entrou no grupo porque era... alto. Avança ainda notícias sobre um novo álbum de originais. As perguntas e respostas foram registadas há perto de duas semanaa, antes do concertro lisboeta do grupo. Algumas surgiram, em forma editada, no DN de dia 4 de Agosto.

Teve outros empregos depois do sucesso com os Human League?
Não. Tenho aprendido este ofício de fazer música, sem outras distracções, há já mais de 20 anos.

Mas teve outros empregos antes…
Fui porteiro de um hospital. E de um teatro… E trabalhei numa livraria universitária.

E como é que a música o roubou a esses empregos?
Conhecia o Martin Ware e o Ian Marsh, que tinham um grupo. Desentenderam-se com um outro tipo que trabalhava com eles. E juntei-me a eles. Creio que me chamaram porque era alto… Acho que foi a única razão…

Já tinha aquele penteado bizarro que depois fez escola?
Já o tinha antes. Já o tinha quando trabalhava no hospital e no teatro. Era mais comprido de um lado que do outro.

E como é que a música o cativou?
Aí a “culpa” é dos Roxy Music e do David Bowie! Eles mudaram as nossas vidas! E por causa deles quisemos ser diferentes. Por isso os Human League sempre foram uma alternativa. Há muitas bandas iguais. Além disso rejeitamos o rock. Somos mais teatro que rock. Preferimos ser mais Laranja Mecânica que Motorhead…

O vosso palco ideal seria o Korowa Milk Bar?
Sim, mas menos sexista.

Já compunha canções antes de se juntar aos Human League?
Não, de modo algum... De resto, nessa altura estava casado e a minha mulher dizia que eu não sabia cantar! Foi com graças ao Martin e do Ian [hoje nos Heaven 17] que consegui aprender a fazer música. Quando pequei na letra do Being Bolied, por exemplo, não consegui encontrar o ritmo à primeira. Os amigos ajudaram-me muito.

Que canção dos Human League gostaria de ver reconhecida daqui a 100 anos?
Diria que a melhor que compus foi o Mirror Man. Estou a falar da letra. Tentei fazer uma coisa ao jeito da parceria Holland Dozier Holland.

Não se cansa de ter de cantar, recorrentemente, canções como Don’t You Want Me e Together In Electric Dreams?
Nem por isso, porque sei que tenho a sorte de o poder fazer. Sou um tipo normal, e foi um privilégio ter podido fazer esta vida. Por isso não me aborreço.

Neste momento está a trabalhar no novo álbum. O que nos pode avançar?
Tenho estado a trabalhar com um novo percussionista. Pensamos ter as maquetes terminadas quando a digressão chegar ao fim, o que deverá acontecer em Dezembro. Já temos publisher... Depois terei de escrever as letras... Mas as canções são as que soam mais a Human League que as que fizemos de há muito para cá...

E o que é soar a Human League?
O fundo deve ser inteiramente sintético. A única gravação possível com um microfone é a voz. Usamos gravação digital, mas estamos a trabalhar com sintetizadores analógicos. Queremos pequenas imprecisões... Rejeitamos a perfeição dos instrumentos digitais.

Porque são os Human League vistos hoje como referência?
Creio que tivemos a sorte de estar no lugar certo na altura certa. Apenas isso. Mas não somos melhores que os Kraftwerk nem que os Pet Shop Boys. Somos apenas um degrau no processo.

Como sobreviveram numa indústria que exige a novidade e a visibilidade permanentes?
Felizmente nunca saímos da nossa cidade: Sheffield. Nunca entrámos na cena das festas de Londres. Ainda vivemos perto dos pais da Suzan e Joanne. Nunca perdemos o contacto com a familia. E sempre fomos um pouco cínicos e suspeitámos sempre de toda a gente. Muita gente em bandas pop é ingénua. Nunca o fomos. Se um tipo nos entra porta dentro, de fato e gravata, a dizer que nos vai fazer ganhar um milhão, dizemos-lhe “boa sorte”! Só acreditamos se o provar… Se nos desafiarem para irmos a um programa de televisão com regras bizarras não vamos. De resto, boicotámos até presentas em alguns programas.

Como por exemplo?
O Solid Gold, na América. Era o único de música programa transmitido à escala nacional, nos EUA, quando lá fomos pela primeira vez [em 1981]. Tinham sempre dançarinos… Dissémos-lhes que não trabalhávamos com dançarinos. Tinhamos a Suzanne e a Joanne e não queríamos que os espectadores confundissem que era com quem não era da banda. Disseram que não podiam tirar os dançarinos. Os profissionais de televisão são sempre arrogantes… E nós cancelámos a presença no programa. Responderam-nos que a decisão nos ia custar o sucesso na América. Mas três semanas depois éramos número um.

Essa foi uma boa decisão. Mas há outras que lamente?
Deveríamos ter trabalhado mais…

Como assim…
Deveríamos ter feito mais discos. E guardado o dinheiro num banco. Fazemos isto porque gostamos de música. Mas as nossas vidas evoluem, temos de comprar uma casa para viver... E a mobília...

sexta-feira, agosto 10, 2007

Em conversa: Human League (3)

Continuamos hoje a publicar uma entrevista com Phil Oakey, dos Human League. Neste post recorda-se o álbum Dare!, de 1981 e faz-se um balanço dos altos e baixos da carreira posterior do grupo. As preguntas e respostas são de uma entrevista publicada no DNmais em 2002. A imagem do post corresponde a uma das fotos promocionais usadas na imprensa à altura do lançamento de Dare!, revelando a formação dos Human League após a cisão de 1980.

20 anos depois Dare! ainda tem um certo sabor futurista...
Muitos dos avanços tecnológicos que aconteceram depois dos sintetizadores analógicos têm sido, de certa forma, coisas com "sabor antigo"... As ferramentas de gravação que apareceram são, sobretudo, máquinas de gravação. Os samplers são gravadores que permitem um trabalho muito rápido. No final dos anos 70, os sintetizadores eram, de facto, uma novidade absoluta... Costumo dizer que os samplers são como uma máquina fotográfica, ao passo que os sintetizadores analógicos permitem fazer pintura. Partimos de uma tela em branco e temos de a ilustrar. Fazemos o que queremos, mas temos de criar e não apenas dar forma a algo que já existe. Por isso penso que, ainda hoje, os sintetizadores são ainda o instrumento mais moderno que existe.

Dare! teve um fortíssimo impacte junto ao público, mas certamente também dentro do grupo. Foi difícil pensar o que fazer depois?
De facto...Esse disco foi a materialização exacta daquilo que queríamos fazer, isto sem querer dizer que não me orgulhe de discos que tínhamos feito antes ou dos que gravámos depois. Mas na altura queríamos mesmo continuar a fazer música pop as nossas finanças eram até então tremidas, pelo que também nesse sentido o disco foi positivo. Tal como foi positivo trabalhar com aquele grupo de pessoas... O mais interessante em Dare! foi o resultado do esforço colectivo de nove pessoas, que não teriam atingido aqueles resultados sozinhos.

Porque levaram tanto tempo a conceber um sucessor (na época era hábito editar-se um álbum por ano)?
Toda a gente ficou meio afectada, meio doida! Para ser honesto, o grupo nem era quem estava mais insano. O Martin Rushent, que era o produtor, perdeu toda a confiança no que estávamos a fazer depois. Se o Martin não se tivesse sentido daquela forma, o sucessor teria aparecido mais cedo... Ele afastou-se, tínhamos o Mirror Man e o Fascination, que não podíamos depois juntar a mais nada... Essas duas canções iriam fazer parte de um álbum que não pudemos completar sem o Martin. Vistas as coisas à distância, reconheço que talvez tenha sido lesivo o volume de sucesso que então vivemos.Foi prematuro... E não tínhamos talento para responder à altura...

Curiosamente, na altura eram sistematicamente sovados pela imprensa britânica. Há poucos anos, quando lançaram Secrets, passaram de bestas a bestiais...
É um facto! As críticas que tivemos com Secrets foram as melhores que alguma vez obtivemos. E o mesmo voltou a acontecer, depois, com um disco de material mais antigo, dos inícios de vida do grupo [The Golden Hour Of The Future, de 2002]... Penso que tudo isso também se deve ao facto de sermos hoje um grupo discreto, que está algures no cenário. Não temos um protagonismo actual evidente. E as pessoas falam de nós como alguém que usa instrumentos interessantes e faz boas canções.

Entre meados de 80 e o recente Secrets, os Human League não deixaram nunca de, ocasionalmente, surpreender-nos. Com Crash, em 1986, ensaiaram uma linguagem assumidamente americana...
Foi uma experiência interessante. Não era bem um álbum de Human League , mas mais um ensaio sobre como é que os americanos fazem discos. O Jimmy Jam e o Terry Louis não só são extremamente talentosos como foram verdadeiros gentlemen. Ajudaram-nos, abriram-nos os olhos... E deram-nos um número um, sem o qual talvez não estivéssemos aqui hoje. E creio que o mesmo se voltou a passar, mais tarde, com o Tell Me When. São pequenas histórias e momentos de sucesso que nos fazem sentir porque fazemos música há tantos anos.

Os dois álbuns dos anos 90, Romantic e Octopus, foram tentativas de reencontrar a alma perdida de Dare?
Não creio que houvesse uma ideia definida do que poderíamos fazer quando gravámos o Romantic... Nessa altura estávamos até perdidos. Deixámos de usar sintetizadores e adoptámos os samplers, que toda a gente então usava, não por acreditarmos nesses instrumentos, mas porque pensávamos que nos fariam novamente famosos. Foram dias difíceis. Creio que só nos reencontrámos apenas em Secrets... Agora estou sentado no estúdio, a olhar para os instrumentos que sei que quero explorar e como os explorar.
(continua)

quarta-feira, agosto 08, 2007

Em conversa: Human League (2)

Continuamos hoje a publicar uma entrevista com Philip Oakey. As perguntas e respostas do post de hoje correspondem a uma entrevista publicada no DNmais em 2002. Fala-se, hoje, dos primeiros dias dos Human League, em finais dos anos 70, antes do sucesso que só chegou em 1981 com Dare! A foto que ilustra o post é imagem promocional usada nessa altura e mostra a formação original do grupo.

Que impacte tiveram em vós os pioneiros electrónicos de 70?
Foram referências fundamentais. Não escutávamos muito os Tangerine Dream... Não conhecíamos então os Can que, para ser honesto, só agora estou a aprender a conhecer... Já os Kraftwerk tiveram outro impacte, até porque nos mostraram, claramente, o que podíamos fazer. Havia também outros nomes que nos influenciaram então, como o Jean Michel Jarre, o Daniel Miller e também o Georgio Moroder... De resto, I Feel Love, de Moroder, foi uma peça fundamental para nós. Queríamos ser uma espécie de novos Donna Summer(s)...

Mas com um clima mais sinistro...
Era verdade, talvez por sermos rapazes do Norte de Inglaterra que tinham visto muitos filmes de ficção científica.

É isso que define o "ambiente" de Sheffield, de onde vêm?
Sem dúvida.

Como justifica o facto de Sheffield nos ter dado tantas bandas electrónicas na alvorada de 80?
Nunca obtive uma explicação definitiva para esse facto. Éramos uma cidade muito continental... O único lugar onde vou e sinto haver afinidades com Sheffield é a cidade de Colónia, na Alemanha.Na altura não sofremos a taxa de desemprego de outras cidades inglesas, e podíamos comprar os instrumentos que nem eram astronomicamente caros. Tínhamos de fazer horas extraordinárias para os pagar, é certo, mas isso ainda não mudou... Sheffield era, também, uma cidade consideravelmente arty. A cidade adorava os Roxy Music e David Bowie...

Não havia, também, uma certa dinâmica punk nas entrelinhas dos primeiros registos dos Human League?
Nunca teríamos conseguido fazer nada se não tivesse acontecido o fenómeno punk. Mudou a forma de encarar a música e o ser-se músico. Gostávamos muito dos Clash, que eram também muito populares em Sheffield. Mostraram-nos que não tínhamos de ser exemplares nem geniais. Podíamos apenas procurar expressar-nos.

Apesar do clima menos luminoso dos primeiros discos, pontualmente apareciam nos vossos discos frestas de calor pop, como o Empire State Human . Essa semente já lá estava...
Era a tal procura de sentido na herança de Giorgio Moroder. Ele foi, de resto, a grande inspiração para essa canção.

Mas algo muda de Travelogue para Dare... E o som ilumina-se.
A equipa envolvida tem muito a ver com o que mudou. Em primeiro lugar há logo que destacar a presença das vozes femininas, que aligeiraram muito a intensidade do som. A luz em vez da sombra...Tínhamos de seguir naquele sentido. Tínhamos uma dívida enorme, na ordem das 50 mil libras, com a editora. Ou fazíamos um disco que nos ajudasse e à nossa carreira, ou acabava tudo e voltávamos a trabalhar em hospitais. Era o momento de avançar...

As "meninas", assim como os penteados, trouxeram também um toque glam ao grupo...
Aí era uma reacção de oposição de época à estética visual do punk e, de certa forma, uma herança dos Roxy Music e de David Bowie. De certa forma assumimos frontalmente uma pose de estrelato, política que muitos grupos rejeitavam em absoluto. Veja-se o caso dos Pink Floyd, que vendiam milhões de discos... Não era essa a nossa posição. Éramos uma banda muito visual. Gostávamos de cinema e de trabalhar com imagens em geral.De resto, fizemos nós mesmos as capas dos nossos primeiros discos
(continua amanhã)

terça-feira, agosto 07, 2007

Em conversa: Human League (1)

Iniciamos hoje a publicação da versão integral de uma entrevista com Phil Oakey, vocalista dos Human League. A sua versão editada surgiu no passado sábado no DN.

Qual o segredo que mantém uma banda por quase 30 anos?
Talvez o facto de sermos únicos. Não no sentido de sermos geniais, mas por não termos concorrência. A maior parte das bandas são um pouco parecidas com outras bandas. E nós tentámos sempre ser diferentes. Há bandas que soam a Ramones, a Motorhead, a Kraftwerk… Nós temos uma identidade.

A nostalgia explica as plateias que ainda hoje reúnem à vossa frente?
Creio que a base que justifica o nosso público é a nostalgia, sim… Apenas porque estamos aí, e a tocar na rádio, há mais de 25 anos. Temos quase 30 anos como banda, mas as pessoas só nos descobriram em 1981. Mas também tivémos muita sorte de ter participado na criação de um novo som. Antes de nós não havia nada igual…

Antes de vós a pop fazia-se esencialmente com guitarras. O que vos levou a imaginar que a pop seria também possível só com sintetizadores?
Em primeiro lugar éramos admiradores da música pop. Gostávamos de algum rock progresivo, como os Van der Graaf Generador. E um de nós, o Martin Ware, confessou que gostava dos Slade. Então resolvemos não ser pretenciosos, não ser arty. Não íamos fazer música de vanguarda. Íamos fazer pop. Adorávamos Donna Summer e os Abba. Eu trabalhava como porteiro e tinha acesso livre a telefones. E havia uma linha para a qual podíamos ligar e ouvir álbuns pop inteiros. Cada vez que saía um disco novo dos Abba ouvia-o inteiro. Cada um era melhor que o anterior! Além dos discos, houve a influência do filme A Laranja Mecânica, que também nos marcou bastante.

Quando o grupo começou, o trabalho com os sintetizadores era já uma certeza para os Human League?
Essa era a ideia dos músicos que criaram o grupo percursor dos Human League, que se chamava The Future [e que mais tarde saíram para formar os Heaven 17, mais concretamente Ian Wright e Martin Ware]. Eu também só queria trabalhar com sintetizadores. Ainda hoje sinto que só me sinto bem a lidar com sintetizadores, até porque não domino nenhum outro instrumento. Perco-me... Se um músico entra em estúdio para tocar guitarra é porque eu não posso dar o meu contributo nesse momento. Nem sei mesmo ver, se algo soa mal, o que é que está errado. É um mistério para mim.

Antes de vós, Gary Numan teve um, número um com Are Friends Electric? Esperavam que a pop feita com electrónica alcançasse o êxito que de facto veio a ter?
Todos o sabíamos. A única questão em aberto era ver quem seria o primeiro. Creio que começámos bem, com bons concertos e um par de álbuns interessantes, mas no início havia gente a fazer música mais comercial e, devo dizer, bem melhor que a nossa. Veja-se o Electricity dos Orchesltral Manouevers in the Dark… Pensávamos que íamos falhar…

Os Human League são uma banda da grande familia pós-punk britânica. Porque foi esse período tão creativo?
Foi muito creativo sim. E uma das razões foi o facto de termos tentado afastar de nós uma ideia de elitismo. Mas para mim o período mais creativo de sempre foi o do disco. O nascimento do disco, a sua capacidade para optar por sintetizadores, cordas ou mesmo xilofones… Não havia limites! E acima de tudo havia sempre um protagonismo na abordagem à voz.
(continua amanhã)

sábado, agosto 04, 2007

Human League hoje em Lisboa

É hoje! Ao fim de 29 anos de carreira, os Human League finalmente dão um concerto em Lisboa. Encontro marcado para a Praça do Comércio, depois das dez e meia da noite... É verdade que há poucas semanas passaram, em registo voz sobre fita, por uma festa privada em Cascais. Mas hoje, para todos os efeitos, é dia de estreia para uma banda veterana com papel fulcral na génese da pop electrónica. A partir de amanhã vamos aqui apresentar uma entrevista longa com Phil Oakey, cuja versão editada pode hoje ser lida nas páginas do DN. Antes das palavras (e do concerto), um aperitivo com Open Your Heart, do álbum Dare! de 1981, precisamente o single que deles fez um fenómeno de popularidade em Portugal nesse ano (curiosamente, na época, este tema era mais badalado que o internacionalmente célebre Don't You Want Me).

sexta-feira, junho 22, 2007

Ousadia integral

A moda parece que pegou. Depois de Lou Reed o ter começado a fazer com Berlin e, mais recentemente, os OMD com Architecture & Morality, agora é a vez dos Human League anunciarem que a sua próxima digressão, a agendar no fim do ano, os vai colocar em palco para apresentar na íntegra, de fio a pavio, o clássico Dare!. O primeiro dos concertos, em Londresm assinala o 30º aniversário da banda. Entretanto, poderemos vê-los, num alinhamento mais variado, em concerto no dia 30 deste mês, no Cocunuts, em Cascais.

Em 1981 Dare! foi o álbum que definitivamente colocou a pop electrónica na ordem do dia e ao alcance do grande público, vencendo assim uma primeira etapa de vida underground. A banda, com pré-história electrónica experimentalista em Sheffield, quando assinava como The Future, foi das primeiras a ensaiar modelos de aproximação à canção pop, curiosamente no mesmo ano em que os "mestres" Kraftewerk lançavam o álbum The Man Machine. Being Boliled (de 1978) era o início de um percurso de ensaios, sobretudo registados nos álbuns Reproduction (1980) e Travelogue (1980). Ensaios e visões que dividiram o núcleo criativo da banda em dois, Martyn Ware e Ian Craig Marsh afastando-se para criar a British Electric Foundation (de onde emergeriam os Heaven 17), Phil Oakey recrutando nova companhia para seguir rota mais luminosa, mais acessível. Dare! surge desta opção. Um álbum visionário no seu tempo, onde todavia não se perde de todo a face mais sombria dos velhos Human League, bem presente em temas como Seconds, I Am The Law ou Things That Dreams Are Made Of, esta última já a seguir recordada em recente actuação ao vivo...

quinta-feira, janeiro 19, 2006

SINGLES: Heaven 17, 1983

De uma cisão dos Human League, em 1980, nasceram duas facções que divergiram claramente entre si. Por seu lado, Phil Oakey conduziu o mais importante grupo pioneiro da história pós punk de Sheffield rumo a uma pop electrónica mais luminosa e acessível, com resultados logo evidentes no histórico álbum Dare!, de 1981. Ao mesmo tempo, os dissidentes Martyn Ware e Ian Craig Marsh juntavam-se a Glenn Gregory para, no âmbito da por si criada B.E.F. (British Electric Foundation), fazer nascer uma banda que cruzasse a sua linguagem estrutural electrónica com paixões pessoais bem evidentes pelas músicas negras. Surgiram assim os Heaven 17, com depoimento de afirmação de personalidade revelado no álbum de estreia Penthouse And Pavement, de 1981. Ali juntavam, precisamente, lógicas de construção de uma pop electrónica firme numa identidade rítmica metronómica e puslante, sobre ela lançando linhas vocais ricas em vitaminas negras. Porém, só no segundo álbum encontraram o híbrido perfeito entre os dois mundos que se propunham cruzar. Sob uma atmosfera de alguma pompa sinfónica, elaboraram em The Luxury Gap um álbum de continuidade no qual, apesar de um alinhamento menos poderoso que o do disco anterior, fizeram nascer um dos hinos de referência da sua carreira. Bissectriz perfeita entre pop electrónica e a canção soul, Temptation é um dos mais bem nascidos frutos da revolução pop que as bandas herdeiras da revolução kraftwerkiana lançaram na Inglaterra de finais de 70 e inícios de 80. O cuzamento da voz grave e possante de Glenn Gregory com a pujança soul da cantora convidada Karol Kenyon, e a sobreposição das electrónicas de Ware e Marsh com a força carnal de uma orquestra sinfónica geraram aqui um clássico.

HEAVEN 17 “Temptation” (Virgin, 1983)
Lado A: Temptation (Gregory/Marsh/Ware)
Lado B: We Live So Fast (Gregory/Marsh/Ware)
Produção: B.E.F./Greg Walsh
Posição mais alta no Reino Unido: 2
Editado em Portugal pela Edisom


MAIL

sábado, dezembro 10, 2005

Vida pós-punk de Sheffield em DVD

Num momento em que uma série de bandas aceitam como incontornável a herança de uns Human League e os Heaven 17 se preparam para regressar aos discos, surge em cena um documentário sobre a agitação musical que a cidade de Sheffield viveu em finais de 70. A cidade protagonizou uma história pós-punk distinta das demais congéneres inglesas, ao tomar como protagonistas as electrónicas, a influência dos Kraftwerk e uma política de construção de sintetizadores “do it yourself” que respiravam o mesmo sentido de rebeldia que, noutros lados, se materializava ao som de uns Clash, Buzzcocks ou Damned. O filme, Made In Sheffield, com o subtítulo The Birth Of Electronic Pop, é assinado por Eve Wood e inclui, além de muitas imagens de actuações na época (de nomes esquecidos como Vive Versa ou Artery) e entrevistas recentes com Phil Oakey, Joanne Catherall e Susan Sully (Human League), Matyn Ware e Ian Craig Marsh (The Future, Human League e Heaven 17), Jarvis Cocker (Pulp), Stephen Singleton (ABC), Chris Watson (Cabaret Voltaire) ou John Peel, entre outros. É um documento simples e incisivo sobre uma manifestação de criatividade e de vontade em contrariar um destino quase inevitável nas fábricas de aço da uma Sheffield mergulhada nos dias de angústia que caracterizaram a Inglaterra de finais de 70. E, claro, uma janela para uma materialização diferente do ideário punk, que gerou heranças que ainda hoje se projectam na música que se faz.
Este documentário vai ser distribuído em DVD entre nós em Janeiro pela Ananana que, de resto, assegurou a representação entre nós do catálogo da Plexifilm no qual, além deste documentário, encontramos filmes sobre Robert Moog, os Low, a editora Saddle Creek e um olhar de David Byrne sobre rituais musicais e religiosos do Brasil crioulo actual.

MAIL