quarta-feira, julho 31, 2019

Onde vamos poder ver "The Irishman"?

Robert De Niro e Al Pacino
The Irishman, o filme de Martin Scorsese sobre a história de Frank Sheeran e o seu alegado envolvimento na morte do sindicalista Jimmy Hoffa, vai ter estreia mundial a 27 de Setembro, no Festival de Nova Iorque. Depois disso, ninguém sabe muito bem... Ou quem sabe não quer dizer...
Enfim, é mais um daqueles casos em que a Netflix quer proteger (?) os seus produtos, afastando-os das salas. Ou talvez não... Sabe-se apenas que, pouco tempo depois daquela data, The Irishman estará disponível na citada plataforma de streaming.
Perante a ausência de notícias minimamente esclarecedoras, lembremos apenas que, desde o lançamento do projecto, Scorsese foi o primeiro a defender a estreia alargada também nas salas [vale a pena ler o ponto de situação feito pelo Variety]. Lembremos ainda que Robert De Niro e Al Pacino interpretam, respectivamente, Sheeran e Hoffa, acrescentando que o trailer agora divulgado é uma tentação.

Tu be or not tu be

Chega um e-mail que começa assim:

Lisboa, 30 de julho de 2019 - É já esta quinta-feira, dia 1, que estreia o tão esperado nono filme da saga Velocidade Furiosa em todas as tuas salas Cinema City. Os bilhetes já estão à venda, tanto nas bilheteiras físicas como no site, para que não percas a história protagonizada por Dwayne Johnson e Jason Statham, novamente nos papéis de Luke Hobbs e Deckard Shaw.

Quem me trata assim por "tu"?
Em boa verdade, a mensagem não tem nada de pessoal, já que se destina, globalmente, a representantes da comunicação social — aliás, a encimá-la está mesmo esta esplendorosa designação: "comunicado de imprensa".
Comunicado?
Imprensa?
Não estão em causa as salas do Cinema City e o cordial profissionalismo das suas estruturas. O que se discute é este linguajar de "agências", "consultores" e outras entidades, agentes de uma cultura comunicacional (?) que considera que fazer comunicados de imprensa é acumular mensagens deste teor, pueris e informativamente inúteis. Tu?
É certo que o nono filme da saga Velocidade Furiosa é um daqueles objectos de atroz mediocridade, estranhos a qualquer gosto cinematográfico, que nos faz pensar que, algures, há quem esteja mesmo empenhado em matar definitivamente qualquer sensibilidade cinéfila. Mas até podia ser uma obra-prima. Em qualquer caso, não se vislumbra qualquer motivação profissional, ainda menos conceptual, para esta escrita e o seu triunfante desenlace:

De certeza que não vais querer perder a possibilidade de assistir a mais um êxito deste sucesso de bilheteiras e logo no Cinema City!

Sem esquecer a desastrada ironia: a projecção de imprensa deste mesmo filme teve lugar no... Cinema City! Caro leitor, é caso para perguntar: compreendeste?

terça-feira, julho 30, 2019

Angel Olsen, opus 4

Chama-se All Mirrors e chegará às lojas a 4 de Outubro. O quarto álbum de originais da americana Angel Olsen promete prolongar o seu romantismo encantatório e modernista (a classificação é discutível, mas talvez seja sugestiva). Eis o tema-título, num magnífico teledisco a preto e branco dirigido por Ashley Connor.

A IMAGEM: Inge Morath, 1994

INGE MORATH / Magnum
Arthur Miller corrigindo o texto da sua peça Broken Glass
1994

segunda-feira, julho 29, 2019

Brian Eno: música lunar

Título emblemático na discografia de Brian Eno, Apollo: Atmospheres and Soundtracks foi editado em 1983 como banda sonora de um filme de Al Reinert elaborado a partir de materiais de arquivo da NASA sobre as missões Apollo — inicialmente previsto como Apollo, o filme só surgiria em 1989 com o título For All Mankind.
Digamos que se tratou de uma confluência de memórias e criatividade (ainda) enraizada numa visão utópica da conquista do espaço e, em particular, no indizível fascínio de chegar à Lua. Agora que se assinalam os 50 anos dessa chegada — com a Apollo 11, a 20 de Julho de 1969 —, o álbum de Brian Eno reapareceu remasterizado numa extended edition, convocando-nos para a redescoberta daquela que foi também uma extraordinária aventura musical.
Eis dois videos esclarecedores: primeiro, um pequeno filme de Grant Armour sobre a gestação de Apollo: Atmospheres and Soundtracks, com a participação de Brian Eno e os seus dois cúmplices, o irmão Roger Eno e Daniel Lanois; depois, o tema An Ending (Ascent).



domingo, julho 28, 2019

Piano solo [2/10]


[ Herbie Hancock ]

Compostos em 1827, os oito Impromptus de Franz Schubert — publicados em dois conjuntos de quatro, D899 (Op. 90) e D935 (Op. 142), este em 1839, cerca de onze anos depois da morte do compositor — são símbolos exemplares de uma matriz de composição especialmente popular ao longo do século XIX. A sua ilusória ligeireza, naturalmente associada ao gosto do improviso, não exclui, antes parece intensificar, a sensação de fechamento de cada uma das peças, dir-se-ia abrindo e fechando a possibilidade de uma experiência total, ainda que totalmente em aberto.
Por certo uma das mais brilhantes intérpretes de Schubert, Mitsuko Uchida gravou os oito Impromptus em 1997, numa edição Philips, actualmente disponível no catálogo Decca Classics.
Este registo pertence a um concerto realizado em Tóquio, também em 1997 — dele constam os Impromptus nº 1 (Op. 142) e nº3 (Op. 90).

Miles inédito (ou quase)

É, ou melhor, era uma memória perdida: em 1986, com o álbum Tutu, Miles Davis estreava-se com chancela da Warner Bros., depois de três décadas sob o signo da Columbia. O certo é que, nas convulsões da mudança, foram abandonadas as gravações de um outro álbum, a chamar-se Rubberband.
Até que damos um salto para 6 de Setembro de 2019: nesse dia, Rubberband vai ser finalmente editado, graças aos esforços dos produtores originais, Randy Hall e Zane Giles, com a participação das vozes de Ledisi and Lalah Hathaway — isto porque o gosto experimental de Miles o levava a convocar as mais diferenças inspirações, neste caso os ritmos e cantos caribenhos [Rolling Stone].
Ou seja: uma obra inédita e incompleta, só agora concluída, 28 anos decorridos sobre o desaparecimento de Miles (falecido a 28 de Setembro de 1991, contava 65 anos) — para já, eis o tema Paradise, com a participação de Medina Johnson.

FNAC: memórias de Woodstock

[FOTO: Nuno Campos]
Sábado, dia 27 — fim de tarde na FNAC/Chiado, em torno de memórias de Woodstock... e algumas derivações. Entre as imagens que partilhámos, aqui ficam:
— TEN YEARS AFTER, I'm Going Home (Woodstock, 1969);
— DAVID BOWIE, Heroes (Live Aid, Londres, 1985);
— MADONNA, Borderline (Sticky & Sweet Tour, 2008).

* Miles Davis, jazz & etc.
Próximo SOUND + VISION Magazine
FNAC Chiado — 29 Setembro





sábado, julho 27, 2019

Travis Scott — um sonho a preto e branco

Lançado em 2018, o álbum Astroworld, do rapper americano Travis Scott, celebrava uma dimensão onírica explícita, desde logo, na sua capa (da responsabilidade do fotógrafo David LaChapelle). Agora, essa dimensão prolonga-se no teledisco do tema Wake Up (que conta com a participação de The Weeknd), uma viagem abençoada pelos poderes do digital, com assinatura do actor Jonah Hill — sem esquecer a nostálgica ambivalência das imagens a preto e branco.

Brian De Palma: um americano em Copenhaga

Brian De Palma dirigindo Nikolaj Coster-Waldau e Carice van Houten
O veterano americano Brian De Palma mantém as suas qualidades de narrador: Domino – A Hora da Vingança, produção totalmente europeia, é um “thriller” à moda antiga — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Julho).

Subitamente, eis um filme protagonizado por dois actores popularizados pela sua participação na série A Guerra dos Tronos: o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau e a holandesa Carice van Houten. O certo é que, ao descobrirem Domino – A Hora da Vingança, os cinéfilos não poderão deixar de celebrar o nome de quem assina a sua realização: o veterano americano Brian De Palma (78 anos).
Na verdade, o cineasta de títulos tão admiráveis como Carrie (1976), Blow Out – Explosão (1981), Os Intocáveis (1987), Missão Impossível (1996) ou Os Olhos da Serpente (1998) já não ocupa a linha da frente de Hollywood. Parece mesmo um daqueles artistas assombrados pela cegueira da indústria, “desaparecido em combate”... Depois do insucesso de Missão a Marte (2000), deixou mesmo de contar com o apoio dos grandes estúdios.
Seja como for, Domino é mais uma obstinada demonstração da energia criativa de De Palma, já há alguns anos a apoiar-se em financiamentos europeus. O seu título anterior, Paixão, com Rachel McAdams e Noomi Rapace, surgira em 2012, resultando de uma co-produção França/Alemanha. Domino tem a Dinamarca como país organizador, contando com contribuições de França, Itália, Bélgica e Holanda.
Enfim, não deixa de ser surpreendente que De Palma não se perca nesse labirinto de produção, afinal de meios relativamente escassos. A disciplina inerente à sua visão consegue mesmo recuperar um certo espírito de “série B” que se adequa às mil maravilhas ao barroquismo da realização, tansfigurando situações convencionais em pequenas proezas de mise en scène.
O argumento explora um velho cliché do “thriller” urbano: dois polícias mantêm as rotinas de vigilância na sua cidade (Copenhaga), um deles é morto logo nos primeiros minutos do filme, empenhando-se o sobrevivente em desmontar a teia de relações e cumplicidades que levou ao fim do seu companheiro... Isto num drama em que vão emergindo as mais sinistras marcas do terrorismo do Daesh, aliás expostas com gélido realismo pelas imagens de De Palma, inclusive na sua forma de ocupação dos circuitos da Internet.
Num tempo cinematográfico contaminado por tantas banalidades ligadas à crescente formatação de aventuras de super-heróis, há qualquer coisa de salutar (cinefilamente salutar, entenda-se) neste reencontro com um cineasta que não esqueceu as lições mais básicas do património dramatúrgico de Hollywood. De Palma não precisa de efeitos especiais mais ou menos estereotipados para contar uma história vibrante, conseguindo mesmo algumas cenas (veja-se a perseguição nos telhados, logo após a morte do polícia) em que vislumbramos os sinais de uma genuína elegância clássica.

Woodstock, 50 anos
— SOUND + VISION Magazine [ hoje ]

Agosto de 1969, acontecia o festival dos "Três dias de paz e amor" — passado meio século, revisitamos as memórias de Woodstock, percorrendo também um pouco da história dos grandes concertos de rock.

* FNAC, Chiado — hoje, 27 Julho (18h30).

sexta-feira, julho 26, 2019

Piano solo [1/10]

Maiden Voyage é o tema-título do quinto álbum de estúdio de Herbie Hancock, lançado pela Blue Note em 1965. Faz parte da lista de gravações do lendário Rudy Van Gelder, com Hancock, cerca de um mês antes de completar 25 anos, a liderar um ensemble de notáveis: Freddie Hubbard (trompete), George Coleman (saxofone), Ron Carter (contrabaixo) e Tony Williams (bateria).
A vibração lírica da composição e, em boa verdade, de todo o álbum testemunha uma sofisticada evolução do hard bop do registo de estreia (Takin' Off, 1962), evolução que muitos analistas reconhecem pontuada pelo convívio com Miles Davis, cujo quinteto Hancock integrava desde 1963.
Muitos vezes retomado a solo, recriado na fascinante austeridade do piano, Maiden Voyage surge, aqui, num concerto de Hancock, em 1989, no Festival de Salzburgo.

Buñuel, inocência e pecado

O ciclo de filmes de Luis Buñuel continua a ser um dos destaques do Verão cinematográfico: Viridiana, Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1961, é um dos títulos a redescobrir.

A “ceia dos pobres” é uma das imagens mais célebres da obra de Luis Buñuel (1900-1983). Os mendigos protegidos pela noviça Viridiana (Silvia Pinal) aproveitam a sua ausência para penetrar na casa que ela herdou do tio, transformando-se numa turba indisciplinada e devoradora. A certa altura, fazem pose na longa mesa da sala de jantar, “reproduzindo” o quadro A Última Ceia, de Leonardo da Vinci [pintado na última década do século XV — ambas as imagens aqui em cima].
Pois bem, o filme Viridiana está de volta às salas portuguesas, integrado no ciclo de 25 títulos de Buñuel (a decorrer em Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal, chegando a Braga no dia 5 de Agosto). É, muito simplesmente, um dos momentos fulcrais da obra do cineasta espanhol, e também um dos mais célebres, quanto mais não seja porque a sua revelação, em 1961, envolveu derivações mais ou menos escandalosas.
De facto, a apresentação de Viridiana na competição do Festival de Cannes suscitou uma condenação, por “blasfémia”, de L’Osservatore Romano (jornal oficial do Vaticano) e, logo a seguir, a sua proibição nas salas de Espanha (onde só seria exibido depois da morte de Franco, em 1977). Tudo isto não impediu que o júri do certame da Côte d’Azur, presidido pelo escritor francês Jean Giono, o distinguisse com a Palma de Ouro (“ex-aequo” com Une Aussi Longue Absence, de Henri Colpi).
Seja como for, seria simplista reduzir a singular energia de Viridiana às atribulações do seu lançamento. Quase seis décadas depois, o trabalho de Buñuel persiste como um prodigioso exercício de prospecção da fronteira instável entre o bem e o mal, a inocência e o pecado. Talvez se possa dizer até que se trata do filme que faz uma síntese dos trabalhos do período mexicano (dominante nesta primeira fase do ciclo Buñuel), abrindo para uma nova etapa que desembocaria nas produções finais (incluindo Belle de Jour e O Charme Discreto da Burguesia, respectivamente de 1967 e 1972) rodadas em França.
Com uma candura filosófica que coabita com as convulsões de um desafio moral, Buñuel expõe-nos as ambivalências da natureza humana. Ou talvez, melhor: alerta-nos para o facto de as contradições da dimensão humana não poderem ser conhecidas (ainda menos pensadas) a partir de qualquer noção redentora de Natureza.
Na altura do lançamento de Viridiana nos EUA, um cartaz [aqui ao lado] apresentava o filme através de um pedagógico aviso: “Você pode não gostar de Viridiana... Pode até odiá-lo. Pode achá-lo demasiado chocante. Mas uma coisa podemos garantir: Viridiana vai abalar os seus sentidos como nada que já tenha visto numa sala de cinema.” Enfim, por uma vez, mesmo considerando que o nosso tempo é bem diferente da conjuntura de 1961, talvez seja útil reconhecer que há publicidade que pensou seriamente no produto a promover.

Jean Seberg & Kristen Stewart

Em cima, Jean Seberg (1938-1979), a actriz de Bom Dia, Tristeza (Otto Preminger, 1958), O Acossado (Jean-Luc Godard, 1959) e Lilith e o seu Destino (Robert Rossen, 1964).
Em baixo, Kristen Stewart no papel de Jean Seberg — o filme chama-se Seberg, tem assinatura de Benedict Andrews e chancela dos estúdios Amazon.
Ou como entrámos numa nova era de reciclagem de memórias. Resta saber, não exactamente quais as "qualidades" do trabalho de Stewart (actriz de talento sofisticado, muitas vezes mal aplicado), mas qual a reconfiguração histórica a que estamos a assistir. Isto porque tudo acontece em paralelo com uma sistemática decomposição do imaginário clássico da cinefilia — e não parece que os espectadores envolvidos no consumo maciço de super-heróis estejam a gerar um imaginário alternativo, muito menos alguma derivação filosófica fundada no amor pelo cinema.

quinta-feira, julho 25, 2019

"Space Oddity" — 50 anos de memórias

O cinquentenário de Space Oddity (o single foi lançado a 11 de Julho de 1969) motivou o aparecimento de um novo teledisco que, em boa verdade, é menos uma encenação da canção e mais uma encruzilhada de memórias.
Por um lado, vemos David Bowie, interpretando Space Oddity, no Madison Square Garden, Nova Iorque, no concerto de celebração do seu 50º aniversário, a 7 de Janeiro de 1997; por outro lado, essas imagens surgem numa (re)mistura que inclui outras, provenientes dos ecrãs de fundo da 'Sound + Vision Tour', em 1990 — estas foram concebidas por Édouard Lock, coreógrafo canadiano, fundador do grupo de dança La La La Human Steps; a realização pertence a Tim Pope. Além do mais, a canção surge numa 2019 mix, da responsabilidade de Tony Visconti.
O video não está disponível para incorporação — pode ser visto no YouTube.

Rutger Hauer (1944 - 2019)

A condição de replicante em Blade Runner, a certa altura na companhia de um emblemático pombo, impôs-se como símbolo universal de toda a sua carreira: o actor holandês Rutger Hauer faleceu no dia 19 de Julho, na sua casa de Beetsterzwaag, Holanda — contava 75 anos.
A projecção internacional Hauer é indissociável do impacto de Delícias Turcas (1973), do também holandês Paul Verhoeven, um dos títulos que ilustraram uma certa visão "libertária" da sexualidade, de algum modo impulsionada pelo fenómeno construído em torno de O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci. Depois de Mulher Entre Cão e Lobo (1979), de André Delvaux, a sua entrada na produção americana aconteceu na companhia de Sylvester Stallone, em Os Falcões da Noite (1981), de Bruce Malmuth, um ano antes de Blade Runner, sob a direcção de Ridley Scott.
Mais ou menos tipificado em personagens de "vilão", trabalhou sob a direcção de Nicolas Roeg (Eureka, 1983), Sam Peckinpah (O Fim-de-Semana de Osterman, 1983) e Richard Donner (A Mulher Falcão, 1985). Entre os seus filmes mais atípicos, e também mais interessantes, incluem-se o assombroso e muito pouco conhecido "thriller" Terror na Auto-Estrada (1986), de Robert Harmon, e a belíssima parábola moral A Lenda do Santo Bebedor (1988), de Ermanno Olmi.
A partir dos anos 90, a sua carreira foi ficando cada vez mais marcada por rotinas televisivas. Já no século XXI, os seus trabalhos mais significativos aconteceram sob a direcção de George Clooney (Confissões de Uma Mente Perigosa , 2002), Frank Miller (Sin City: Cidade do Pecado, 2005), Christopher Nolan (Batman - O Início, 2005) ou Jacques Audiard (Os Irmãos Sisters, 2018). A autobiografia All Those Moments: Stories of Heroes, Villains, Replicants, and Blade Runners, escrita com a colaboração de Patrick Quinland, foi editada em 2007.

>>> Trailer de Terror na Auto-Estrada [The Hitcher].


>>> Obituário na revista Rolling Stone.

quarta-feira, julho 24, 2019

Jil Sander — uma viagem na Escócia

Jil Sander, colecção Outono/Inverno — Nigel Shafran propõe momentos efémeros de uma viagem à Escócia, celebrando uma tocante ligeireza física, porventura espiritual. Um belo portfolio, inventariando a energia da abstracção a partir do concreto de corpos e objectos.

terça-feira, julho 23, 2019

O helicóptero de Donald Trump

Quando vemos Donald Trump a falar aos jornalistas nos jardins da Casa Branca, nem sempre é fácil ouvir o que ele diz. Porquê? Porque lá ao fundo está um helicóptero a rugir — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Julho), com o título 'Porque grita Trump'.

A imagem possui um valor icónico. No sentido figurativo que António Houaiss estabelece no seu dicionário: “pessoa ou coisa emblemática do seu tempo, do seu grupo, de um modo de agir ou pensar, etc.”
Creio que esse valor começa num básico efeito de reconhecimento. Aí está o contorno do corpo de Donald Trump, a coloração do seu cabelo e o gesto de desenhar um arco com as mãos, reiterando algo que considera evidente. Tudo isso pressupõe a ocupação de um lugar concreto, os jardins da Casa Branca, em que as figuras dos seguranças e os microfones dos jornalistas são elementos correntes da cenografia da informação presidencial.
Trata-se, curiosamente, de uma imagem oficial: um fotograma — ou “frame”, para aplicarmos a terminologia que o digital impôs — retirado de um vídeo da Casa Branca (repare-se no emblema colocado no topo direito com o endereço abreviado: WH.GOV). O certo é que tão cândida descrição está longe de ser suficiente para compreendermos o funcionamento da imagem e do fluxo de imagens em que está integrada.


Falta-nos algo que quase sempre esquecemos quando proclamamos esse lugar-comum, tão cómodo e tão preguiçoso, segundo o qual “vivemos num mundo de imagens”. Falta o som do ambiente em que a imagem foi gerada. Dito de outro modo: precisamos de olhar para o fundo e sublinhar a presença do Marine One, o helicóptero presidencial. No vídeo, o ruído do helicóptero domina a cena, levando Trump a gritar para que as suas palavras possam ser ouvidas.
Como espectador interessado na quotidiana convivência de políticos e televisões, ou melhor, nas narrativas geradas através dessa convivência, fui-me apercebendo desse dado insólito: na Casa Branca, a esmagadora maioria das declarações de Trump aos jornalistas passou a ser feita antes das suas saídas em helicóptero, com o Presidente dos EUA a “integrar” o ruído no seu espaço comunicacional.
Em boa verdade, a situação já tinha sido considerada por alguma informação americana. Assim, em Março do corrente ano, o jornal The Washington Post publicou um pequeno vídeo (um minuto e meio) em que inventariava as suas variações dramáticas. É fascinante, com o seu quê de assustador, observar como Trump, consciente das dificuldades de comunicação originadas pelo ruído do helicóptero, promove esse ruído a contraponto do seu discurso. Quando um jornalista lhe coloca uma questão que ele próprio não terá entendido, diz: “Você está a competir com o helicóptero...” Ou dá conta das suas dificuldades de audição: “Peço desculpa, mas tenho um helicóptero a rugir ali ao fundo...” Ou ainda: “Não consigo ouvi-lo, tenho ali um helicóptero...”


Ainda em 2018, numa edição de Dezembro do programa The David Pakman Show (disponível em televisão, rádio e Internet), o próprio Pakman tinha perguntado se faria sentido acusar Trump de organizar este tipo de situações para evitar enfrentar as perguntas mais difíceis dos jornalistas. Com louvável prudência, Pakman evitava cair nesse género de especulação “policial”, chamando antes a atenção para o essencial: na prática, aquela conjuntura “informativa” favorece a fuga sistemática de Trump a qualquer diálogo sério.


Falta recordar o mais perturbante, eventualmente o mais incómodo. A saber: a possibilidade de os próprios jornalistas recusarem “dialogar” naquele aparato ruidoso em que, objectivamente, apenas é possível registar um ou outro “soundbyte”.
Será tal possibilidade uma via pertinente para afirmar a identidade do jornalismo? Não tenho qualquer certeza sobre isso, mas é um facto que os “soundbytes” assim obtidos são regularmente lançados (e reproduzidos ad infinitum) nos circuitos internacionais de televisão. Sobra, por isso, uma interrogação cruel: de que modo o exercício do poder político passou a conter muitos elementos induzidos, sustentados e, por vezes, inconscientemente potenciados pelos dispositivos “naturais” da televisão?

A luz de "O Rei Leão"

Eis um video exemplarmente didáctico. Jon Favreau, realizador de O Rei Leão, analisa os princípios gerais de encenação do filme, por um lado, comparando-o com a versão de 1994, por outro, sublinhando as especificidades do seu tratamento da imagem e, muito em particular, da luz — sem esquecer a contribuição do veterano Caleb Deschanel na direcção fotográfica. Está incluído na série 'Notes on a scene', da Vanity Fair.

segunda-feira, julho 22, 2019

Isabel Wolmar (1933 - 2019)

[RTP]
Figura emblemática dos primeiros anos da televisão em Portugal, a locutora e apresentadora Isabel Wolmar faleceu no dia 21 de Julho — contava 86 anos.
De seu nome Maria Isabel Marques Silva, adoptou o apelido Wolmar, do pai, Norberto Wolmar Silva, pianista e maestro, nascido em Portugal, de nacionalidade britânica. A par de Maria Helena Fialho Gouveia, foi uma das primeiras locutoras de continuidade da RTP, mais tarde enveredando pelo domínio jornalístico, em particular pela reportagem. Trabalhou também como actriz, locutora de rádio e cantora, tendo participado nas duas primeiras edições (1958 e 1960) do Festival da Canção Portuguesa, da Emissora Nacional, evento que "antecipou" o Festival RTP da Canção; apresentou a respectiva edição em 1967 (ano da vitória de O Vento Mudou, por Eduardo Nascimento) e foi produtora do mesmo evento em 1980.
Manteve uma actividade regular até à década de 90, tendo apresentado A Minha Vida Dava um Filme, em 1995, muitas vezes citado como o primeiro "talk-show" português. Dedicou-se também a recitais de poesia e à escrita de livros para crianças. Em 2011, com assinatura de Patrícia Costa Dias, surgiu A Vida com um Sorriso, livro de memórias com o subtítulo 'Histórias, experiências, gargalhadas e reflexões de Isabel Wolmar'.

>>> Festival da Canção 1967 — com Henrique Mendes, apresentando o Duo Ouro Negro.


>>> Obituário no Diário de Notícias.
>>> Biografia na Wikipedia.

A mão direita de Philippe Sollers

O Novo, diz ele. Entenda-se: um barco chamado 'Le Nouveau', comandado por Henri (1850-1930), bisavô do autor. Mas também o novo, não apenas como contraponto dialéctico do velho, antes equivocamente consagrado como bandeira desta nova idade digital em que a relação com a escrita é cada vez mais ténue, para não dizer repelida. Ou como resume o próprio Sollers: "O novo é, assim, o desaparecimento da leitura, logo do treino desse músculo que é a memória."
Breve e fascinante, imenso como um continente à espera de ser descoberto, Le Nouveau oscila entre os labirintos da memória familiar e a formulação de uma estratégia de (sobre)vivência que redescobre em Shakespeare o seu guia, porventura a nossa derradeira utopia. Começa a ler-se como um diário confessional, vai-se impondo como bíblia de uma nova religião que não abdica do labor ancestral da escrita.

>>> Deixo os meus mortos tranquilos e dedico-me inteiramente ao deus que alegra a minha juventude. O seu altar é uma folha de papel branco, o seu óleo sagrado a tinta azul, a sua cerimónia clandestina o sopro. Confio na minha mão direita, ela conhece a sua navegação.

[pág. 108]

>>> Philippe Sollers / Le Nouveau / roman, um film de G.K. Galabov e Sophie Zhang.

domingo, julho 21, 2019

Jogo de espelhos no Teatro Aberto

GOLPADA
de Dea Loher

VERSÃO João Lourenço | Vera San Payo de Lemos
DRAMATURGIA Vera San Payo de Lemos
ENCENAÇÃO E CENÁRIO João Lourenço
DIRECÇÃO MUSICAL Renato Júnior
FIGURINOS Ana Paula Rocha
VÍDEO Nuno Neves
INTERPRETAÇÃO Ana Guiomar | Carlos Malvarez | Cristóvão Campos | Rui Melo | Tomás Alves
MÚSICOS Giordanno Barbieri | Mariana Rosa

De que falamos quando falamos de uma relação humana?
Em cena no Teatro Aberto (até 28 Julho), a peça Golpada, da alemã Dea Loher, integra, ecoa e transfigura esta interrogação, fazendo-a circular do mais estrito realismo social até terrenos de inusitada estranheza em que pressentimos o resto sedutor de alguma utopia.
A encenação de João Lourenço contempla tal multiplicidade, emprestando-lhe um palco de contínuas mutações em que qualquer evidência atrai os elementos que, de imediato, a podem colocar em causa (os cenários são também da responsabilidade de João Lourenço). A história dos dois gémeos que se envolvem numa "golpada" (o roubo de uma ourivesaria) possui, assim, o apelo tradicional de um típico enigma policial. Mas o seu desenvolvimento é tudo menos tradicional.
Dir-se-ia que assistimos a uma metódico jogo de espelhos. Exponenciando os elementos do texto, a encenação coloca os actores numa permanente corda bamba dramática, tão difícil de sustentar como envolvente nos seus efeitos informativos e emocionais. A saber: cada personagem é aquilo que é e também o narrador da sua própria condição. O que faz com que cada frase possa conter o discurso directo ("eu sou assim") e uma espécie de suplemento de angústia e ironia ("ele está a dizer que eu sou assim").
Daí a sensação de um baile de máscaras, afinal transparente e puramente humano, que o espectáculo vai adquirindo. Quando falamos de uma relação humana é, talvez, esse ziguezague que importa focar — entre a crueza do realismo e a insensatez dos desejos que atravessam tudo e todos.
Daí também que sejamos envolvidos num belo paradoxo: tudo acontece num espaço que denuncia o seu artificialismo e, ao mesmo tempo, através da vulnerabilidade dos corpos, sentimos tudo aquilo como uma crónica sobre muitas ilusões e impasses do nosso presente.
Sem esquecer a musicalidade interior desta Golpada. Desde logo, claro, porque os músicos/actores ocupam a cena, citando, ainda que com serena contenção, um certo espírito de cabaret. Depois porque, em última instância, assistimos ao desenvolvimento de um tema e variações. Tema: as singularidades do factor humano. Variações: as suas ancestrais tristezas e efémeras alegrias.

Thor, Natalie Portman e o novo feminismo

A igualdade entre os géneros está longe de ser um universo de linguagens uniforme ou unívoco. Dito de outro modo: a defesa intransigente dessa igualdade não implica que nos tornemos cegos, surdos e mudos face às estratégias de "igualização" que as ideologias e o marketing, por vezes em inusitadas alianças, vão produzindo.
Observe-se esta curiosa imagem de Natalie Portman na Comic Con de San Diego (precisamente um desses eventos de celebração de uma visão do espectáculo cinematográfico regido, apenas e só, pelos valores do marketing).
Com chancela das produções Marvel, Portman vai voltar a interpretar a personagem de Jane Foster, companheira de acção de Thor, desta vez pertencendo-lhe o poder do martelo (de Thor). Semelhante promoção não será estranha à inspiração enraizada na BD. Mas não é uma banal colecção de peripécias que está em jogo: há, de facto, um novo feminismo figurativo empenhado em promover a apropriação de símbolos masculinos pelas personagens femininas. Objectivo genuinamente ideológico: estabelecer algum modelo de coincidência (?) entre a igualdade de géneros e a igualdade dos símbolos de poder usados pelos géneros.
Assim se reduz a complexidade das relações homens/mulheres a um divertimento infantil organizado a partir de trocas de artefactos carregados de uma simbologia simplista — seríamos mais felizes trocando de martelos... Habitualmente, são as crianças que se divertem com esta circulação de máscaras; agora, em casos como este, os adultos (mulheres e homens) satisfazem-se com a possibilidade de se comportarem como crianças.

sábado, julho 20, 2019

A IMAGEM: Stephanie Galea, 2019

STEPHANIE GALEA
'Noiva' / Aida Blue
Vivienne Westwood, 2019

John Cassavetes & Fernando Lopes

SHADOWS (1959)
BELARMINO (1964)
Como dar a conhecer às gerações mais jovens os grandes clássicos do cinema? As possibilidades são muitas e variadas, mas vale a pena não desvalorizar o método mais primitivo. A saber: a comparação, ou melhor, o paralelismo entre filmes capazes de reflectir as transformações temáticas e estéticas de um mesmo período.
É o que acontece hoje na Cinemateca (15h30) em mais uma das suas “sessões duplas”, promovidas com a designação dos velhos tempos de Hollywood (e não só). Ou seja: “double bill”. Assim, será possível ver duas obras clássicas que correspondem a estreias fulgurantes na longa-metragem: Shadows/Sombras (1959), de John Cassavetes, e Belarmino (1964), de Fernando Lopes.
A simples junção dos filmes numa mesma sessão recorda-nos que a noção de “nova vaga” está muito longe de se aplicar apenas ao movimento que, através de Jean-Luc Godard, François Truffaut e Eric Rohmer, entre outros, transfigurou a paisagem do cinema francês, ao mesmo tempo abrindo inusitados caminhos da modernidade. De facto, esse espírito de inovação estava presente nos mais diversos contextos.
Nos EUA, Cassavetes, na altura já com uma carreira diversificada como actor (sobretudo em televisão), surgia como símbolo de um espírito de experimentação em grande parte ligado a uma sensibilidade novaiorquina em que o gosto do jazz surge como peculiar elemento definidor. Shadows é um retrato seco e desencantado desse mundo em transformação, além do mais apostando num registo realista muito marcado pela improvisação dos actores.
Belarmino entrou na história, a par de Dom Roberto (1962), de Ernesto de Sousa, e Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, como um dos títulos fundadores do Cinema Novo português. Ao fazer o retrato do pugilista Belarmino Fragoso, Fernando Lopes não se limita a cruzar a crueza do documentário com uma assumida teatralidade. A condição anímica do protagonista, celebrando a utopia perdida do seu próprio destino, adquire a intensidade de uma parábola eminentemente nacional.
Reencontrar estes dois filmes, ambos fotografados em admirável preto e branco, é sentir um pouco das convulsões de um tempo (décadas de 1950/60) que, em boa verdade, transfigurou toda a herança clássica do cinema. A modernidade que emergia procurava também novas linguagens para lidar com a teia de histórias das cidades em transformação — Shadows e Belarmino são também dois poemas, sobre Nova Iorque e Lisboa, respectivamente.

sexta-feira, julho 19, 2019

Madonna, "Batuka", Cabo Verde

Novo capítulo na saga de Madame X: para apresentar a canção Batuka, Madonna encena-se com as Batucadeiras de Cabo Verde, numa celebração de contagiante energia musical e alegria iconográfica — o teledisco tem assinatura de Emmanuel Adjei (que já dirigira Dark Ballet) e apresenta-se com um agradecimento especial a Dino D’ Santiago.

Tarantino + Robbie + DiCaprio + Pitt

Não é todos os dias que o tempo televisivo é usado para, realmente, desenvolver uma conversa. Eis um belo exemplo: Harry Smith, da NBC, encontrou-se com Quentin Tarantino, Margot Robbie, Leonardo DiCaprio e Brad Pitt para falarem sobre Era uma Vez em Hollywood, o prodigioso filme de Tarantino que chega às salas dos EUA a 26 de Julho (Portugal: 15 de Agosto) — são 22 minutos televisivos que vale a pena conhecer, antecipando 161 minutos de grande cinema.

Tom Cruise, "Maverick"

Pete "Maverick" Mitchell, o piloto aviador interpretado por Tom Cruise em Top Gun (1986) está de volta. Não é uma novidade. Em boa verdade, a possibilidade deste regresso começou a ser referida em 2010, com Tony Scott, realizador do original, associado ao projecto. A morte de Scott, em 2012, levou a um impasse que só seria oficialmente superado quando o próprio Cruise, em 2017, confirmou o relançamento da sua personagem e o título da nova produção: Top Gun: Maverick.
Há outra maneira de dizer tudo isto: independentemente dos percalços humanos ou técnicos que determinado projecto possa enfrentar, há produções que passaram a ser mediaticamente geridas como um longo folhetim de notícias em que o mais banal detalhe tende a ser promovido como uma revelação quase mística. Serão filmes "bons" ou "maus" (não é isso que está em causa), mas a sua sistemática visibilidade reduz o resto do mercado a uma paisagem informe em que não reparamos, ou não nos deixam reparar.
Julho de 2019, dia 18 — novo capítulo na história de Top Gun: Maverick: no cenário promocional da Comic Con, em San Diego, Cruise surgiu para apresentar o primeiro trailer do filme. Curiosamente, o evento aconteceu poucos dias depois da data (12 Julho) que chegou a ser agendada para a estreia. Na prática, falta quase um ano para o lançamento: 26 de Junho de 2020. Entretanto, como podemos ver, reina a sedução da velocidade.

quinta-feira, julho 18, 2019

A marginalização de Winnie the Pooh

Ewan McGregor em boa companhia: o filme Christopher Robin
reinventa o universo do ursinho Winnie the Pooh, criado pelo escritor inglês A. A. Milne
Reinventando as personagens dos livros de A. A. Milne, o filme Christopher Robin é uma das mais belas fábulas cinematográficas dos últimos anos: não passou nas salas portuguesas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Julho), com o título 'Winnie the Pooh e o sentido da vida'.

É provável que o leitor se recorde de uma notícia surgida há cerca de um ano (nos primeiros dias de Agosto de 2018), dando conta da proibição do filme Christopher Robin na China. Porque é que uma história do lendário ursinho Winnie the Pooh seria um objecto interdito aos espectadores chineses? Pois bem, porque as autoridades entenderam que a sua eventual exibição pública iria reforçar o frequente tratamento caricatural de Xi Jinping, Presidente da República Popular da China, com o aspecto de... Winnie the Pooh!
Acontece que Christopher Robin também não teve estreia nas salas portuguesas... O seu lançamento chegou a estar marcado para Outubro do ano passado, mas nunca se consumou. Admitindo algum erro da minha memória (poderia ter estado distraído e não me ter apercebido da respectiva estreia), consultei os dados oficiais do Instituto do Cinema e do Audiovisual e o título do filme não consta, de facto, do “box office” de 2018. Há poucos dias descobri-o, acidentalmente, num canal do cabo.
Peço que não me interpretem mal: não há nenhuma equivalência, prática ou simbólica, entre o gesto da censura chinesa e a indiferença com que o filme foi tratado em contexto português. O que, entenda-se, também não nos impede de tentar compreender as determinações dessa indiferença.
Sobre o filme enquanto objecto específico de cinema, direi que Christopher Robin me parece uma das mais belas fábulas cinematográficas dos últimos anos, reinventando com delicada sensibilidade o universo cativante dos livros de A. A. Milne (1882-1956), ilustrados por E. H. Shepard (1879-1976). E não como mera homenagem a uma das obras-primas da literatura infantil de raiz europeia: a proposta narrativa é tanto mais sugestiva quanto o filme desloca o seu universo original — Christopher Robin em criança, convivendo com Pooh, Piglet, Tigger, etc. — para um futuro em que o protagonista reencontra os bonequinhos da sua infância, vivendo uma aventura que o leva a questionar os próprios fundamentos morais e profissionais da sua vida adulta.
Não estamos, entenda-se, perante um objecto marginal, quer em termos de produção, quer na dinâmica do mercado. Christopher Robin tem chancela da Disney (proprietária dos direitos de adaptação dos livros de Milne) e conta com Ewan McGregor como intérprete da personagem central, um actor muito popular desde os tempos de Trainspotting (1996) que, entre muitos outros sucessos, participou em três episódios da saga Star Wars, assumindo a figura de Obi-Wan Kenobi.
Enfim, também não se trata de procurar qualquer caução “autoral” para sublinhar as singularidades do filme. Ainda assim, vale a pena lembrar que o seu realizador, Marc Forster, está longe de ser um profissional alheio ao chamado cinema de “grande público”. Na sua filmografia encontramos títulos tão singulares como o drama Monster’s Ball (2001), que valeu um Oscar de melhor actriz a Halle Berry, a par de fenómenos de bilheteira como 007: Quantum of Solace (2008), ou WWZ: Guerra Mundial (2013), protagonizados por Daniel Craig e Brad Pitt, respectivamente.
O que está em jogo excede, aliás, o “esquecimento” a que este filme foi sujeito. A marginalização de um produto deste teor (e uso a designação “produto” porque na gíria da distribuição/exibição a palavra tende a obliterar a designação de “filme”) é um sinal sintomático do triunfo de uma outra cultura cinematográfica que já não se reconhece nas fábulas de Milne nem no filme de Forster, privilegiando uma noção de infância que parece destinada a fundir-se com o imaginário bélico de super-heróis e afins.
Em boa verdade, creio que esse processo começou com os medíocres filmes de “Harry Potter”. Através de um elaborado sistema promocional, tais filmes conseguiram impor a ideia banal segundo a qual a dimensão fantástica do cinema nasce obrigatoriamente de uma conjugação de “bruxaria” e “efeitos especiais”. Perante a violência simbólica dessa visão, a imagem de Ewan McGregor sentado num tronco de árvore ao lado de Pooh é coisa de imensa fragilidade. Aliás, quem se lembraria de discutir o sentido da vida com um ursinho de peluche? Chinesices.

Coca-Cola — ter ou não ter rótulo

Não tenhamos ilusões: a apropriação de um discurso transfigurador pela publicidade significa, quase sempre, que esse discurso foi esvaziado de alguma(s) da(s) sua(s) componente(s) de origem. Observem-se as formas correntes e "festivas" de representação dos hippies e compare-se com a angústia sem solução que atravessa um filme como Easy Rider (1969)...
Eis um recente exemplo desse fenómeno de calculada apropriação, tanto mais perturbante quanto mais sedutor: a Coca-Cola está a promover a sua variante de dieta (Diet Coke) através de um conceito de resistência aos rótulos. Mais concretamente: uma nova embalagem do produto apresenta-se sem rótulo.


Que está em jogo? Através da apresentação de várias personagens que podem ser alvo de classificações redutoras (de género, de origem geográfica, de raízes culturais), diz a Coca-Cola que se trata de não vivermos limitados "pelos rótulos que outros nos colocam", de modo a que cada um possa encontrar um território "seguro e aberto".
A pergunta poderia ser: qual a relação entre a liberdade de alguém com uma determinada orientação sexual (seja ela qual for) e uma lata de Diet Coke [*] a que foi retirada a respectiva identificação escrita?
Em boa verdade, a pertinência filosófica de tal relação fica por esclarecer. Saudemos apenas a perversa inteligência semiológica dos autores do marketing da Coca Cola: através do esvaziamento teatral dos rótulos, conseguiram criar um novo rótulo! Que outra explicação pode haver para o facto de a própria escrita da palavra unlabeled [=sem rótulo] se apresentar como um novo ícone com a sua marca registada [TM=trademark]? É a Coca Cola que o diz...

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* NOTA: o autor deste post é consumidor de Diet Coke.

quarta-feira, julho 17, 2019

As pedras e o arco [citação]

>>> Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? — pergunta Kublai Kan.
— A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra — responde Marco, — mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: — Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

in As Cidades Invisíveis
Editorial Teorema, 1993

Elvis por Baz Luhrmann

Baz Luhrmann já encontrou o seu Elvis: Austin Butler (que veremos, brevemente, em Era uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino) irá interpretar o Rei do Rock'n'Roll no filme que o cineasta australiano tem em preparação já há algum tempo. Ainda sem título, o projecto contará também com a participação de Tom Hanks no papel de Tom Parker, o Coronel que, para o melhor e para o pior, controlou todos os aspectos da carreira de Elvis Presley. Recorde-se que o filme anterior de Luhrmann, O Grande Gatsby, tem data de 2013.

terça-feira, julho 16, 2019

CURTAS 2019
— seis filmes a reter


Eis um pequeno balanço de alguns dos filmes mais interessantes vistos na 27ª edição do CURTAS Vila do Conde — estas notas integravam um texto de balanço do festival, publicado no Diário de Notícias (14 Julho).

De uma visão (incompleta) da selecção apresentada pela 27ª edição do CURTAS fica uma ideia de encruzilhada. Tal como nas longas-metragens, os “pequenos formatos” andam também à procura de novos modelos narrativos, ao mesmo tempo integrando os recursos tecnológicos que, melhor ou pior, fazem parte da vertigem virtual em que vivemos. E isto em todos os domínios, da ficção com actores aos desenhos animados, passando pelos registos documentais.
Eis uma breve galeria de seis títulos (dos mais interessantes que vi em Vila do Conde) que podem ajudar a resumir tal conjuntura:


PLEASE SPEAK CONTINUOUSLY AND DESCRIBE YOUR EXPERIENCES AS THEY COME TO YOU – Novíssima proposta de Brandon Cronenberg (filho de David Cronenberg), encenando em 9 intensos minutos a experiência de uma jovem internada numa clínica como cobaia para experiências com um revolucionário implante cerebral... O longo título faz parte do pedido que é feito à paciente (descrever espontaneamente o que vai “vendo” no seu cérebro) e serve de mote a uma fábula sobre a perda de identidade em nome do avanço tecnológico — é um prolongamento coerente e envolvente de Antiviral (2012), longa-metragem de estreia do cineasta.

THE SIX – Enigmática e belíssima animação chinesa, realizada por Xu An e Xi Chen. Num espaço a preto e branco que mais parece uma ilustração de um livro que ganha vida, assistimos às seis “acções” que o título promete, acompanhando os gestos de aproximação amorosa de um homem a uma mulher, enquadrados por duas luas em permanente transfiguração luminosa. O resultado tem qualquer coisa encantatório, devolvendo ao cinema um gosto ilusionista, de pura e descomplexada contemplação.

A STORY FROM AFRICA – Como revisitar as memórias coloniais (neste caso, de Portugal) sem ceder aos lugares-comuns históricos ou ideológicos que se foram consolidando no imaginário colectivo? O cineasta americano Billy Woodberry propõe um admirável trabalho de inventariação e decifração de fotografias de uma “campanha de pacificação” levada a cabo pelo exército português, em 1907, em Angola, no território do povo Cuamato. Construído a partir de imagens arquivadas na Fundação Mário Soares, este é um exemplo invulgar, ao mesmo tempo histórico e pedagógico, de revisitação das memórias do colonialismo português.


LES EXTRAORDINAIRES MÉSAVENTURES DE LA JEUNE FILLE DE PIERRE – Uma estátua de pedra do Louvre sai todos os dias dos seu pedestal para “conviver” com outras obras do museu, acabando por arriscar sair para a rua e sofrendo as consequências da sua ousadia... Com assinatura de Gabriel Abrantes, eis um exemplo feliz de como é possível elaborar uma fábula “à moda antiga”, genuína e contagiante, ao mesmo tempo aplicando os mais modernos efeitos especiais. O realizador parece ter superado os equívocos “simbólicos” do seu trabalho anterior (em especial a longa-metragem Diamantino), optando por um cinema que celebra o seu artifício sem nunca alienar o gosto de contar histórias, interessando-se, realmente, pela humanidade das personagens. Surpreendentemente ou não, uma dessas personagens é uma estatueta egípcia do tempo dos faraós ou, mais exactamente, um simpático hipopótamo de nome Jean-Jacques...

IN BETWEEN – São apenas 14 minutos, mas possuem o fôlego de uma história de muitas gerações: num tom de austero documentarismo, Samir Karahoda regista as histórias de várias gerações da população rural do Kosovo e, em particular, o modo como os pais se assumem como construtores de habitações para os filhos. Através desse mecanismo de herança assistimos, afinal, à renovação de um espírito comunitário alicerçado num sistema ancestral de valores.

DEMONIC – Com assinatura da australiana Pia Borg, eis um objecto tão estranho quanto fascinante. Em primeiro lugar, trata-se de recordar alguns casos de alegações de abuso através de rituais satânicos surgidos nos EUA ao longo da década de 80, recordando também o enorme aparato informativo que suscitaram, quase sempre de carácter especulativo e sensacionalista. Ao mesmo tempo, o filme aborda esses casos através de “reconstruções” com actores, e também recorrendo a cenas de animação a três dimensões, num jogo dialético sobre o modo como um sociedade vive (por vezes delirando) as manifestações do mal no seu interior. É um caso exemplar de um cinema que discute a nossa relação com a verdade e, em particular, o modo como essa relação surge marcado pelo trabalho específico dos media.