segunda-feira, dezembro 10, 2018

Godard, ou o cinema na guerra da cultura

O Livro de Imagem
Grande acontecimento cinéfilo: a estreia do mais recente filme de Jean-Luc Godard, O Livro de Imagem, acontece em paralelo com a reposição de dois dos seus clássicos dos tempos da Nova Vaga — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Novembro).

Digamos, para simplificar, que O Livro de Imagem, de Jean-Luc Godard, não se parece com nenhum outro filme que o leitor/espectador possa encontrar entre as estreias deste ano. Talvez com a excepção de O Outro Lado do Vento, obra póstuma de Orson Welles que a Netflix está a difundir. Em ambos os casos, sentimos a vertigem e o prazer de uma experiência cinematográfica que se afasta de todos os cânones de consumo, desafiando mesmo as matrizes clássicas da própria história do cinema.
Dizer que estamos perante um objecto experimental é quase uma redundância. De facto, só mesmo o cinéfilo mais distraído (ou apenas desinteressado) ignorará que, desde os tempos heróicos da Nova Vaga, Godard é alguém que pratica um cinema de reinvenção de linguagens que, precisamente, porque sabe reinventar, nunca menospreza o pedagógico culto da memória — recordemos a sua primeira longa-metragem, O Acossado (1959), uma aventura parisiense em que Jean-Paul Belmondo vivia a ironia, plena de angústia, de não poder duplicar a mitologia de Humphrey Bogart.
Em boa verdade, O Livro de Imagem surge como um capítulo mais numa trajectória que Godard iniciou em 1988, com a produção das suas monumentais História(s) do Cinema, concluídas uma década mais tarde. Trata-se de aplicar as técnicas videográficas de integração e manipulação das imagens (e sons) para construir narrativas que são reflexões sobre o nosso presente, sempre ancoradas no passado que os filmes transportam e, de alguma maneira, actualizam.


Regressam, assim, os temas obsessivos que pontuam décadas do seu trabalho. A saber: a herança do século XX do Holocausto, o triunfo da sociedade como comunidade de consumidores, enfim, o apagamento da memória dos clássicos (filmes, livros, etc.) face ao triunfo de uma cultura da gratificação imediata.
Um velho cliché preconceituoso tenta promover a ideia segundo a qual, no seu experimentalismo, o labor criativo de Godard não passa de um sistema de elucubrações abstractas geradas por uma mente desligada do mundo. Em boa verdade, é o contrário que acontece. Se os filmes de Godard podem ser tão intensos, é porque neles encontramos os sinais mais radicais, e também mais perturbantes, da nossa contemporaneidade.
Para Godard, o espaço cultural em que os filmes surgem nunca se aquieta. É mesmo um espaço em que se trava a mais bela das guerras. A saber: a guerra da cultura. Nela se confrontam, não armas de fogo, mas ideias. Não se trata de fazer vítimas, mas de pensar como vivemos e como queremos viver.
Daí que seja importante sublinhar a possibilidade de ver O Livro de Imagem lado a lado com dois títulos emblemáticos da filmografia godardiana. Assim, em paralelo com esta estreia, o cinema Ideal propõe, em cópias restauradas, o já citado O Acossado e ainda Pedro, o Louco (1965), com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina (sem esquecer que as História(s) do Cinema voltam a estar disponíveis em DVD).
Pedro, o Louco, em particular, é um filme de estranha actualidade, em que contemplamos a decomposição de todas as ilusões românticas. Por vezes, com a ironia de uma canção como Ma Ligne de Chance — Karina e Belmondo parecem os sobreviventes de um musical da MGM.

"Aconteceu no Oeste", 50 anos
— SOUND + VISION Magazine [15 Dez.]

Acreditamos que, para além da celebração do passado, as efemérides podem ser também uma forma de redescoberta do presente. No nosso Magazine, propomos um reencontro com Aconteceu no Oeste, de Sergio Leone, um western-ópera feito há 50 anos em que se cruzam Claudia Cardinale, Charles Bronson e Henry Fonda — sem esquecer a música de Ennio Morricone.

* FNAC / Chiado: 15 Dezembro (18h30)

Sharon Van Etten — duas novas canções

Será um dos primeiros lançamentos a ter em conta em 2019: a 18 de Janeiro surgirá Remind Me Tomorrow, novo álbum da americana Sharon Van Etten, prometendo menos guitarras e mais sintetizadores... Para já, reencontramos a mesma energia introspectiva e a mesma depuração melódica em duas canções do novo registo: Comeback Kid e Jupiter 4, com telediscos dirigidos por Jonathan Turner e Katherine Dieckmann, respectivamente.



domingo, dezembro 09, 2018

O vestido de Melania Trump

Este é um video disponível no site do jornal britânico The Daily Mail, registando alguns momentos das cerimónias fúnebres de George H. W. Bush, 41º Presidente dos EUA, falecido no dia 30 de Novembro, contava 94 anos.
O video é especialmente fascinante pelo modo como mostra, numa rara candura de reportagem (sem comentários), as presenças cruzadas de personalidades como Jimmy Carter, Barack Obama, Bill Clinton, Henry Kissinger, Dick Cheney, etc. — desembocando no formalismo protocolar da chegada do casal Trump. Dir-se-ia que assistimos a um bailado sem partitura em que símbolos dos mais variados poderes se expõem na condição de peões vulneráveis, momentaneamente unidos e, de alguma maneira, homogeneizados pelo ritual de reconhecimento da morte de alguém.
De forma sintomática, para o espírito tablóide de The Daily Mail há outras prioridades. O video surge, assim, tratado através de duas temáticas "alternativas":
— primeiro, através da leitura dos lábios dos protagonistas;
— depois, descrevendo minuciosamente as peças (e o respectivo custo) do guarda-roupa de Melania Trump
Como se prova, as diferenças internas do jornalismo não decorrem apenas de qualquer dicotomia transparente verdade/mentira. Fazer jornalismo — e, em particular, ler as imagens do nosso mundo — é sempre um trabalho selectivo de organização de materiais e indução de significados e significações. Para The Daily Mail, aconteça o que acontecer (mesmo a morte de alguém), o mundo é sempre pitoresco. 

sábado, dezembro 08, 2018

Desporto & performance

Aceleração, fragmentação, transpiração. As convenções dos anúncios de material desportivo (em particular dos "sapatos de ténis") são fáceis de identificar — e são muitas vezes aplicadas com a mais entediante preguiça criativa. Eis uma sugestiva excepção: um anúncio da Nike [Japão] executado com sofisticado sentido narrativo. Fica no ar ("air" é, aliás, a palavra associada ao produto) uma sugestão de marginalidade dos protagonistas que, curiosamente, faz parte deste imaginário pueril da performance: ser um herói do desporto envolve a pertença a uma tribo rebelde... Pequeno imaginário, grande trabalho de encenação e montagem.

sexta-feira, dezembro 07, 2018

E do flamenco nasceu um ícone pop



Se as barreiras que outrora separavam (para alguns) os espaços de diferentes géneros musicais já caíram por terra o mesmo se pode dizer das que poderiam também afastar tempos e tradições. Tudo comunica. Tudo se cruza. Que o diga esse vasto espaço a que podemos chamar ‘global club music’ (ou a variação que entendermos dar a esta ideia) pelo qual sons, ritmos e experiências de vários lugares, em alguns casos convocando ecos de tradições locais, se juntam e dançam perante uma plateia sem fronteiras, servindo aqui as eletrónicas de língua franca que assegura as mais fluentes formas de diálogo. Tal como nestes territórios acima das culturas e das geografias pelos quais se tem afirmado uma nova música de dança que traduz a idade da comunicação global também as investidas locais mais focadas sobre este ou aquele universo claramente ligado a grandes tradições procura modos de encontrar caminhos de diálogo. E se aqui as geografias são mais localizadas (embora com gosto por se dar a ouvir tanto ali mesmo como mais longe) já os diálogos são desenhados em pontes que cruzam tempos, agitando tradições e nelas encontrando formas de expressar contemporaneidade. E curiosamente chegamos ao fim com uma música que pode servir de contraponto aos desígnios da ‘global club music’. É que se essa música junta peças de muitos lugares procurando, apesar das referências citadas, transcender a origem para encontrar, sobretudo para quem está na pista de dança, um patamar global comum, já nos territórios de exploração de tradições mais localizadas surgem vozes que, partilhando ferramentas comuns, procuram cantar marcas de identidade. É o que acontece com Rosalía que, no seu segundo álbum editado há poucos dias, mostra como o flamenco lhe serve para a ajudar a afirmar identidade e, ao mesmo tempo, através de si, sob novos desafios, sugere pistas que podem cativar mesmo quem até aqui não tenha sequer nunca passado por esses lugares da tradição cultural do sul de Espanha.

Há desde logo um elemento curioso nesta história. Rosalía Vila Tobella nasceu na Catalunha, facto que afirma uma verdade identitária que não é necessariamente de berço e sangue mas, antes, de vivência, de gosto, de demanda pessoal. Afinal vivemos no século XXI, certo? E Rosalía não chegou a “El Mal Querer” num desafio às leis da física que nos dizem que não se vai automaticamente dos zero aos cem quando se está a conduzir um automóvel na estrada (e curiosamente há neste seu novo disco um tema que usa samples do som de carros).
Houve um percurso, que passou por colaboradores com história feita no universo do flamenco (fez primeiras partes para Miguel Poveda, por exemplo) e em 2017 o álbum “Los Angeles” dava já sinais de procura de desafios possíveis com o flamenco como ponto de partida… Não faltou desde logo quem contestasse as suas investidas, o que me fez lembrar como, por estes lados, houve quem acolhesse com desconforto um “Povo Que Lavas No Rio” na voz de António Variações ou o visionário “Amai” de Paulo Bragança, ambos ensaiando então como partir do fado para dialogar com a modernidade pop.

“El Mal Querer”, que propõe uma experiência concetual (cada canção corresponde a um episódio de uma narrativa ordenada), revela uma visão atual e desafiante sobre o flamenco. E tanto mantém marcas da sua genética tradicional – sobretudo no canto, na guitarra e do desenhar da estrutura rítmica pelas palmas – como junta modos de compor, de usar eletrónicas (como recurso instrumental ou de manipulação) ou até mesmo a presença pontual de uma orquestra para procurar os diálogos entre tradição e modernidade, entre o flamenco e a canção pop dos quais emerge um álbum que dificilmente escapará às listas dos melhores do ano. É um disco intenso, capaz de convocar toda a carga emotiva que habita o flamenco para a projetar num espaço que, sem apagar essas marcas de origem, as projeta entre sonoridades e formas que estão na linha da frente da música do nosso tempo.
 

"2001" regressa em Blu-ray e 4K

As comemorações dos 50 anos de “2001: Odisseia no Espaço” ainda não terminaram — agora, a obra-prima de Stanley Kubrick surge em edição Blu-ray, com três discos, incluindo uma versão com definição 4K.

Na lista de efemérides cinematográficas de 2018, o cinquentenário de 2001: Odisseia no Espaço terá sido um dos momentos mais emblemáticos. E não só porque a obra-prima de Stanley Kubrick (1928-1999) superou, e continua a superar, os padrões correntes da ficção científica. Na verdade, este é um filme que exponencia o valor espectacular do cinema, desafiando o seu espectador para além dos padrões correntes de percepção e pensamento.
Escusado será lembrar que 2001 foi concebido para ser visto num ecrã gigante (quem tem a memória da sua estreia, não poderá deixar de o associar à grandeza das salas com projecção de 70mm). Seja como for, isso não nos deve impedir de reconhecer que os formatos caseiros nos estão a oferecer edições cada vez mais sofisticadas para acedermos aos grandes clássicos. Pois bem, aí está a novíssima proposta com chancela Warner Bros.: 2001 passou a existir numa edição em Blu-ray, com três discos, um dos quais com o filme restaurado em versão com definição 4K.


A versão em 4K ficará para a história, por certo, como um objecto pioneiro na divulgação de um formato que, de acordo com os especialistas, não demorará muitos anos a generalizar-se nas (nossas) formas de consumo. Para além da transcrição normal do filme em Blu-ray (“restaurado e remisturado em 5.1”), o terceiro disco da edição contém várias curtas-metragens (cerca de três horas no total) de preciosos extras.
Em boa verdade, não são revelações, tendo integrado já outras edições em DVD ou Blu-ray. Ainda assim, a sua reunião permite compreender melhor a absoluta singularidade de 2001 quando surgiu no ano de 1968.
A invenção e ousadia dos efeitos especiais constituem, como é óbvio, os sinais mais imediatos dessa singularidade — por alguma razão, os profissionais reconhecem que, no campo da evolução técnica, os dois momentos marcantes da década de 60 são Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock (sobretudo pela integração de sons gerados por processos electrónicos), e 2001. Mas para além das proezas técnicas o filme de Kubrick acaba por ser um exercício de reflexão sobre a própria aliança entre o Homem e a Máquina — com a inesquecível e temível personagem do computador HAL 9000 —, tema que, na perspectiva de Kubrick, instala a hipótese de formulação de um conceito de divindade.
O destaque vai necessariamente para 2001: A Criação de um Mito, documentário do Channel 4 produzido, precisamente, no ano a que o título se refere. Nele encontramos ainda o escritor Arthur C. Clarke (falecido em 2008), comentando em tom de contagiante ironia a sua colaboração com Kubrick na elaboração do argumento, a par do actor Keir Dullea e várias personalidades fundamentais da ficha técnica do filme, incluindo Douglas Trumbull (efeitos especiais) e Ray Lovejoy (montagem). Atenção ainda a um filmezinho breve, mas muito sugestivo, sobre os primórdios de Kubrick como fotógrafo e a sua colaboração com a revista Look.

Stanley Kubrick como fotógrafo da Look

quinta-feira, dezembro 06, 2018

A IMAGEM: Luigi & Iango, 2018

LUIGI & IANGO
Irina Shayk
VOGUE Italia (Nov. 2018)

O que significa pertencer a uma rede “social”?

Imagem publicada no Instagram oficial de Mark Zuckerberg
[ 22 Abril 2016 ]
Mark Zuckerberg tem tido muitas dificuldades em explicar os problemas do Facebook: em jogo estão questões políticas que são sempre, em última instância, dramas humanos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (2 Dezembro).

Em 2010, não foram poucas as vozes que protestaram contra o modo como o filme A Rede Social, de David Fincher, contava a história do nascimento do Facebook. Na perspectiva de tais vozes, o que estava em causa não era apenas a representação (supostamente) caricatural de Mark Zuckerberg por Jesse Eisenberg. Tratava-se, sobretudo, de rejeitar a visão cáustica desse espaço “social” em que todos comunicariam com todos, consagrando a noção utópica segundo a qual, através dos labirintos virtuais, o planeta Terra estaria a entrar numa idade redentora de transparência e felicidade.
Oito anos depois, Zuckerberg e o seu negócio estão na linha da frente das notícias. A partilha selvagem de dados privados dos utilizadores e, em particular, a intromissão russa nas eleições americanas através do Facebook têm revelado uma dimensão peculiar da personalidade de Zuckerberg.
É, afinal, uma dimensão muito típica de uma certa ideologia “científica” dos nossos dias em que os gestores da tecnologia se apresentam, porventura com alguma inusitada candura, como personagens de uma puerilidade trágica. A recente entrevista de Zuckerberg a Laurie Segall, na CNN, pode servir de sintoma esclarecedor desse estado de coisas — leia-se, a esse propósito, a notícia de João Tomé, publicada no DN_insider.


O próprio burburinho “social” torna difícil, talvez mesmo impossível, o desenvolvimento e partilha de reflexões consistentes sobre tema tão perturbante. Voluntariamente ou não, somos arrastados e incrustados num desenho maniqueísta das trocas humanas em que, em última instância, se trata tão só de saber quem está “pró” e quem está “contra”... Além do mais, os partidos políticos, direitas e esquerdas confundidas, apenas sabem acorrer, solícitos, proclamando a necessidade de legislação mais apertada; na prática, evitam problematizar a questão em termos culturais — entenda-se: de relações humanas —, limitando-se a reforçar uma visão instrumental e “nacionalista” da própria cultura.

Página de entrada do Facebook

Estas linhas não têm nenhuma solução mágica para lidar com o assunto. Quem a tem? Trata-se apenas de relembrar que aquilo que está em jogo excede (e muito!) a virgindade virtual que Zuckerberg tenta exibir quando diz “não estávamos à espera” que os russos fossem tão perversos... Acontece que, na concepção fundadora do Facebook, ninguém esperava nada, a não ser a instalação de um sistema de multiplicação infinita de trocas e links, capaz de gerar tráfego e mais tráfego equivalente a dinheiro e mais dinheiro.
Em boa verdade, na sua “modernidade” comunicacional, o Facebook encarna o sonho primitivo do capitalismo como mecanismo de interminável exponenciação dos mercados, logo de indexação mutiplicadora dos laços protagonizados por seres humanos. Que as direitas não o digam, eis o que apenas confirma que nunca pensaram no assunto. Que as esquerdas evitem dizê-lo, eis um sinal de serena hipocrisia política.
O assunto é tanto mais perturbante quanto, com os seus 2,2 mil milhões de utilizadores, o Facebook se tornou tão (ou mais) complexo do que a indústria automóvel. Que é como quem diz: todos reconhecemos que os automóveis poluentes que usamos constituem uma componente central das nossas tragédias ecológicas, mas será que, no ano da graça de 2018, alguém tem um projecto viável para pensar um planeta sem automóveis?
Em 2010, o lançamento do filme de Fincher foi apoiado por um poster admirável em que ao rosto de Eisenberg, enquadrado por elementos de uma paisagem da Net, se sobrepunha uma frase contundente: “Não se conseguem 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos.” Enfim, os números estão desactualizados, mas as ideias que nos dividem persistem — e essa divisão define uma genuína problemática social.

terça-feira, dezembro 04, 2018

Sollers — nas margens, quer dizer, no centro

Homem sempre interessado pelos labirintos da beleza, o francês Philippe Sollers situa-se, por isso mesmo, nas margens de qualquer sistema que trabalhe para a formatação do real.
Coisa frequente, coisa monstruosa do nosso mundo contemporâneo: desde aqueles que alimentam as deprimentes polémicas futebolísticas até aos que naturalizaram os horrores da Reality TV, passando pelos arautos de todas as purificações sexuais, os formatos impuseram-se como a única ideia de redenção de um universo que não consegue pensar para além de 20 ou 30 palavras (eventualmente 140 caracteres, o que vem a dar no mesmo).
O seu génio é tanto mais repelido pelo exército dos "formatadores" (se a palavra não existe, precisamos de a inventar) quanto a marginalidade de Sollers o impele para o centro. Centre, justamente, aí está, obra maior na produção literária de 2018 em que a personagem de um escritor fascinado por Freud e Lacan, expõe, através de palavras precisas e desejos impregnados pela escrita, a sua relação amorosa com Nora, psicanalista.
Sabemos que Sollers é casado com Julia Kristeva, ensaíasta, romancista e, avant tout, psicanalista... Evitemos, porém, os jogos florais autobiográficos, outro formato em voga: cronista medíocre ou profissional do comentário político, sem esquecer as mais bizarras encarnações de bloggers e youtubers, são muitos os que se afadigam no domínio da desvergonha autobiográfica, pueril e anedótica, alimentada pela estupidez "social" em rede.
Para Sollers, o centro é, de uma só vez, o lugar a partir do qual o amor se define, pulverizando a geometria do mundo, e o domínio do impensável humano — porque a urgência de pensar as relações humanas pode levar-nos a coabitar com uma transcendência que pertence apenas ao labor da escrita ou, como diria um mestre querido de Sollers, ao prazer do texto.
Enfim, este é um livro de um humor radical, prolongando a série de romances fragmentários com que Sollers vai inventariando a obscenidade do mundo, pressentindo, apesar de tudo, uma alegria que insiste em assumir-se como centro do pensamento. Et pour cause.

>>> Na era do Espectáculo mundializado, a "pós-verdade" impõe-se. Aliás, tudo se tornou "pós". Pós-moderno, pós-sexual, pós-religioso, pós-político, pós-climático. Um "pós" e uma "pós" já não têm muito a dizer um ao outro, permanecem dobrados sobre os seus smartphones, em contacto constante com outros "pós". Os "pós-ovócitos" estão no mercado, do mesmo modo que os "pós-espermatozóides" tornados cada vez mais raros. O "pós-útero" está em marcha. Assim vai o "pós",  já ultrapassado, na ciber-guerra, pelo "hiper-pós". Já não há posteridade, já não há póstumo, nada a não ser posturas postiças sem futuro.

PHILIPPE SOLLERS
in Centre, pág. 98

Bertolucci, antes e depois da revolução

BERNARDO BERTOLUCCI
— rodagem de Os Sonhadores
 
O cineasta de O Último Tango em Paris e O Último Imperador deixa uma obra imensa, plena de actualidade, marcada pelas clivagens entre gerações e classes sociais — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Novembro).

É bem provável que, um pouco por todo o mundo, a maioria dos espectadores de cinema associe o nome de Bernardo Bertolucci apenas ao seu grande filme “oscarizado”, O Último Imperador (1987), retrato amargo e doce da decomposição de uma forma ancestral de poder político. Além do mais, a sua assinatura está no eternamente polémico O Último Tango em Paris (1972), por certo um dos mais belos testemunhos da ressaca das ilusões libertárias da década de 60.
Na verdade, tal visão é profundamente limitada e limitativa. Entenda-se: não são os espectadores que estão em causa, sobretudo nesta Europa que continua a não saber dar aos seus filmes a mesma visibilidade comercial de que desfrutam os produtos americanos (mesmo não esquecendo que é dos EUA que provêm muitos dos títulos mais interessantes da actualidade). Acontece que essa capacidade (ou a falta dela...) de transmitir um legado, seja ele afectivo ou político, social ou simbólico, está no centro da obra de Bertolucci.
Talvez possamos dizer que a sua filmografia se organiza a partir do arco temático que podemos traçar entre o emblemático e tão esquecido Antes da Revolução (1964) e esse monumental fresco histórico que é 1900 (1976). O primeiro, gerado nos tempos heróicos da Nova Vaga, claramente devedor do seu mestre Jean-Luc Godard, expõe a solidão primordial de uma juventude à procura de um lugar que seja realmente seu, num mundo em que todos os laços tradicionais entre pais e filhos se desagregaram. O segundo, dir-se-ia um panfleto posterior a todas as revoluções, assume até ás últimas consequências os enunciados (e também os profundos desencantos) de uma filiação marxista em que a luta de classes, mais do que um axioma banalmente ideológico, ocupa o cerne da tragédia cinematográfica — 1900 é, afinal, o filme através do qual Bertolucci se assume como herdeiro céptico, também ele solitário, da obra imensa de Luchino Visconti (que, num simbolismo à beira do sarcástico, viria a falecer cerca de dois meses antes da primeira apresentação pública de 1900, em Cannes).
Certamente não por acaso, depois da apoteose de O Último Imperador (não é qualquer um que arrebata nove Oscars em Hollywood, incluindo os de melhor filme, melhor realização e melhor argumento adaptado), a trajectória criativa de Bertolucci foi sendo cada vez mais marcada pela nostalgia — não acomodada, antes crítica e inventiva — de uma juventude para sempre perdida. Exemplos admiráveis dessa sua visão são Os Sonhadores (2003), por certo uma das mais sublimes evocações das ilusões e desilusões de Maio 68, e o comovente Eu e Tu (2012), filme mal amado desde a sua passagem em Cannes, expondo com crueldade e ternura a deriva de dois irmãos que, perante a ausência física e simbólica dos pais, descobrem os valores emergentes do seu austero abandono.
Precisamos, por isso, de ver e rever Bertolucci para lá dos lugares-comuns “eróticos” que se colaram a O Último Tango em Paris (em boa verdade, não há filme menos erótico). Na sua exposição das clivagens entre gerações e classes sociais, os filmes de Bertolucci ajudam-nos a lidar com os temas, sombras e fantasmas do eterno conflito entre o Velho e o Novo. Na certeza de que não precisamos de escolher um contra o outro — o que, bem entendido, nunca será fácil.

segunda-feira, dezembro 03, 2018

"O Livro de Imagem" — sessão gratuita
na Noite do Cinema Europeu


NOITE DO CINEMA EUROPEU

O LIVRO DE IMAGEM de Jean-Luc Godard - entrada gratuita [ * ]

5 Dezembro, Quarta, 21:30, cinema IDEAL, em Lisboa


>>> Informação divulgada pelo cinema Ideal/Midas Filmes:

Lisboa será uma das 34 cidades dos 27 países membros da União Europeia, onde esta semana (de 3 a 7 Dezembro) terá lugar a NOITE DO CINEMA EUROPEU.

E o cinema IDEAL foi escolhido pela rede Europa Cinemas - que organiza esta iniciativa em conjunto com o Programa Europa Criativa MEDIA - para ser o parceiro dessa iniciativa em Portugal.

É uma iniciativa que une todos os países membros e que pretende realçar a importância que este Programa tem na luta pela afirmação dos filmes europeus na Europa.

Nessa noite haverá uma sessão especial, com entrada gratuita, do filme O LIVRO DE IMAGEM de JEAN-LUC GODARD, Palma de Ouro Especial do último festival de Cannes, e que será apresentado por José Manuel Costa, Director da Cinemateca Portuguesa, na presença da representante da Comissão Europeia em Lisboa.

* Os bilhetes para a sessão podem ser levantados no IDEAL a partir das 14:00 horas de quarta-feira, 5 — será servido um cocktail.

França, ou a decomposição do "social"

Coletes amarelos? Subitamente, compreendemos que o "social" garantido pelas redes não cobre todos os espaços da sociedade.
Daí que a comunicação social (!) se afadigue a convocar temas e especialistas para "explicar" o que está a acontecer em França — esta primeira página do Libération é uma contundente materialização do que sentimos e, sobretudo, do que não sabemos como sentir. Somos espectadores de uma decomposição do espaço público que não sabemos nomear: a linguagem vacila.
A colagem da palavra populismo às perturbantes imagens das ruas (procurando identificar entidades seguras do tradicional espectro político "direita/esquerda") surgiu como uma espécie de catarse mediática para enquadrar aquilo que, teimosamente, escapa a qualquer enquadramento. É verdade que os acontecimentos são inquietantes e, pelo modo como têm afectado o tecido urbano de Paris, tristíssimos. Mas não é menos verdade que, na sua brutal singularidade, nos obrigam a reconhecer que o social persiste, radical e obstinado, onde deixámos de o ver ou somos incapazes de o nomear — decididamente, a multiplicação de links e polegares ao alto não recobre toda a vida humana. O amarelo torna-se um símbolo, ou apenas um sintoma do que já não sabemos simbolizar.

O inimigo [citação]

>>> [video] Este é o inimigo. Não ele, o homem, mas a cultura — este é o inimigo.
Eu até sorrio para ele, nem sequer me mostro revoltado, dizendo-lhe que a maneira com que me filma é tão repugnante que não admira que pessoas como Le Pen venham dizer que os campos de concentração não passam de um detalhe. Isso vem desta maneira de olhar as coisas.
Com a televisão, nem sequer é possível pensar em algo diferente — com o cinema, é. E é por isso que há esta estranha questão de amor/ódio entre televisão e cinema.

JEAN-LUC GODARD
Conferência de imprensa de Histoire(s) du Cinéma
41º Festival de Cannes / 1988

domingo, dezembro 02, 2018

A IMAGEM: Elliott Erwitt, 2004

ELLIOTT ERWITT
George H. W. Bush e Barbara Bush
Convenção Republicana, Nova Iorque, 2004
[MAGNUM]

sábado, dezembro 01, 2018

João Botelho e o progresso das formas [2/2]

OS MAIAS
De Conversa Acabada (1981) ao mais recente Peregrinação (2017), os filmes de João Botelho surgem em retrospectiva no Lisbon and Sintra Film Festival (LEFFEST): aos 69 anos de idade, o cineasta confessa que sente a falta do gosto colectivo de descobrir o cinema — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (20 Novembro).

[ 1 ]

Pensando nesta retrospectiva no LEFFEST, que filme ou filmes da tua obra conseguiram gerar essa comunhão [cinematográfica]?
Conversa Acabada foi um fenómeno de divisão, metade a gostar, metade a não gostar... Creio que Um Adeus Português ou Tempos Difíceis geraram essa comunhão. Houve uma altura em que aquilo que eu fazia seria, talvez, muito arriscado, acabando por obter um impacto internacional mais forte do que internamente. Quando adoptei outra atitude, com Filme do Desassossego ou Os Maias, procurando lutar contra o esquecimento, enfim, fazendo serviço público, os filmes começaram a funcionar melhor em Portugal do que lá fora... Mas o mais difícil é conseguir que os adultos voltem às salas — Os Maias terá sido o filme que mais conseguiu isso.

Quer isso dizer que, apesar de tudo, ainda há alguma disponibilidade que decorre do interesse pela nossa herança literária?
Sim, porque as pessoas podem ter lido ou apenas julgarem que leram Os Maias, mas persiste na sua memória como um dos grandes romances do século XIX português. Mas não é necessariamente por ter a ver com literatura. Poderia ser, por hipótese, um filme sobre o Amadeo de Souza Cardoso ou as fotografias do Carlos Relvas — há referências em relação às quais os adultos ainda têm algum interesse; os miúdos, não sei... Mas não é tanto uma questão de cultura, é sobretudo uma questão de educação: o sistema educativo português não é suficientemente atractivo e exigente.

Deveria haver um contacto das crianças com o cinema promovido, antes do mais, pela escola?
Sem dúvida. Há um menosprezo pela história do cinema que importa contrariar. Os pensadores da história do cinema, como o Sr. Godard, continuam a ser minoritários.

As crianças e os jovens estão a ser mais educados pelo cinema ou pela telenovela?
Nem por uma coisa nem por outra — estão a ser educados, não exactamente pelas “fake news”, mas pelo carácter mundano das coisas, pela sua facilidade. Hoje, já ninguém fala com os outros. O Google resolve uma dúvida em 30 segundos... mas 90% daquilo é lixo e consumo. Os “fait divers”, as notícias ridículas e pequeninas, a vida íntima, tudo isso passou a ser mais importante que as obras — as pessoas lêem pequenos resumos e acham que sabem tudo. Ao mesmo tempo, quero ser optimista e não posso deixar de lembrar que há uma minoria que também é forte, mas são casos individuais, não há ligação entre eles, não há diálogo.

João Botelho
[FOTO: Miguel A. Lopes]
As coisas eram diferentes quando começaste a fazer cinema?
Existia o colectivo. Antes do cinema, lembro-me que, em Coimbra, havia um tipo que sabia de jazz e chamava-nos para escutarmos o último disco do Miles Davis em casa dele... Na casa de outro, líamos em voz alta o Quarteto de Alexandria. Havia formas colectivas de aprendizagem.

E deixou de haver?
Quando apareceu, a televisão matou um pouco do cinema. Mesmo assim, era um acontecimento colectivo: a família via e discutia. Depois, cada um passou a ter uma televisão no seu quarto. Agora, já nem tem televisão — há computadores e iPhones, é um individualismo virtual. Não há toque, não há pele, não há discussão. Tudo isso me inquieta, porque o reforço do individual reforça a manipulação dos indivíduos. Assistimos a uma vingança dos ignorantes sobre o saber, contra a surpresa. Muitas pessoas não querem ir ao cinema para serem inquietadas: querem ser confortadas e confirmar o que já sabem. No limite, as pessoas querem saber da vida privada dos autores, mas não querem saber das obras — ora, eu posso ter uma vida privada estapafúrdia, mas as obras são sérias.

Nesse aspecto, terás consciência de que muitas pessoas, eventualmente espectadores de cinema, te reconhecem mais como homem da noite e adepto do Benfica...
Cada vez menos adepto do Benfica — aquilo está a correr muito mal, gosto mais de futebol do que da palhaçada à volta do futebol. Mas homem da noite, sim, é verdade: se calhar, sou o último dos homens que, com esta idade, ainda dança, salta e diverte-se.

Mas o que é a noite? Uma cultura? Uma utopia?
É uma ideia da dança... É o Nietzsche [riso]: “Só acredito num Deus que saiba dançar”. É a tal ideia de comunhão — nessa noite, ainda há sentido colectivo. E a electrónica não é uma dança de engate, nem sequer de par, é realmente uma dança colectiva em qua cada um dança como quer.

O certo é que há um cliché que associa a noite apenas ao consumo do álcool.
Sim, é verdade, mas eu bebo pouco, não tenho ressacas. Sempre fui noctívago e isso, aliás, tem também a ver com a educação dos filhos. Como tive filhos com diferenças de cerca de cinco anos, só encontrava o silêncio às duas da manhã — o trabalho passou a ser à noite, sempre. Para mim, o pensamento tem de ser no silêncio.