domingo, novembro 18, 2018

Memórias do "Álbum Branco"

Como breve balanço na nossa sessão na FNAC, motivada pelos 50 anos do "Álbum Branco" dos Beatles, aqui ficam as canções desse lendário registo que foram ouvidas no forum do Chiado. São elas: Revolution, Glass Onion e Back in the USSR (a primeira num registo da época, as outras duas em telediscos agora produzidos).






>>> Site oficial dos Beatles.

sábado, novembro 17, 2018

Martin Scorsese, 76 anos

O iMDB define-se, prioritariamente, como uma montra agressiva, redundante e repetitiva dos "blockbusters"; ao mesmo tempo, o site vai resistindo à sua própria formatação, não esquecendo que há mais mundos para além da última encarnação de Robert Downey Jr. ou dos milhões que o novo Homem-Aranha custou, rendeu ou vai render...
Celebremos, por isso, o modo como o iMDB assinala o 76º aniversário de Martin Scorsese. Por uma vez, a aceleração obrigatória (?) do clip que nos é proposto permite sentir as vibrações internas do universo onde circulam Travis Bickle, Jesus Cristo ou Mick Jagger — viva o cinema!

BEATLES: 50 anos do "Álbum Branco"
— SOUND + VISION Magazine [hoje]

Foi há meio século que os Beatles lançaram o lendário "Álbum Branco": propomos uma revisitação das suas canções, cruzando as memórias musicais com outros eventos marcantes do ano de 1968.

* FNAC / Chiado: hoje, 17 Novembro (18h30)

sexta-feira, novembro 16, 2018

Orson Welles nunca existiu

O lançamento de um filme póstumo de Orson Welles na Netflix envolve um especial dramatismo: afinal, que é feito da cinefilia? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Novembro).

Se somos cinéfilos, a amargura dos tempos não se vence com nostalgias. Observe-se o fenómeno Netflix. Há um ano ou dois, quando este serviço de streaming começou a consolidar a sua base de consumidores, surgiu um vício “social” (com ou sem rede) que, aliás, persiste: ser espectador seria poder desenrolar uma longa lista de séries televisivas descobertas, e avidamente consumidas, na Netflix...
Mas não é verdade que a Netflix, precisamente, passou a ser um dos lugares de eleição para estarmos a par de algumas das mais notáveis proezas narrativas do actual espaço televisivo? Claro que sim, não é isso que está em causa: por razões que vão da produção à difusão, a Netflix tornou-se mesmo um dos fenómenos da linha da frente do audiovisual contemporâneo.
O que importa reconhecer é a fragilidade deste novo modelo de “telefilia” instantânea. Há nele um espírito consumista, gerado pela abundância da oferta, que já não possui qualquer desejo de procura. Dir-se-ia que a relação com os pequenos ecrãs (do computador ao telemóvel) tende a transformar muitos espectadores em acumuladores de produtos, não necessariamente descobridores de narrativas.
O caso de O Outro Lado do Vento é sintomático. Que temos à nossa frente? Nada mais nada menos que um prodigioso filme póstumo de Orson Welles (1915- 1985), rodado nos primeiros anos da década de 70 e, depois de muitas atribulações, finalmente concluído e estreado pela... Netflix!
As comparações de extremado entusiasmo não serão exageradas. Mesmo as mais esquemáticas: estamos, afinal, perante uma revelação equivalente à que seria a descoberta de um quadro de Rembrandt ou uma partitura de Mozart... Daí a pergunta: será que o nosso agitado espaço “social” tem gerado, já não digo algum entusiasmo pelo renascido Welles, mas pelo menos um leque de informações idêntico ao que tem acompanhado tantos produtos da Netflix, dos mais brilhantes aos mais medíocres?
Há outra maneira de dizer isto: nos nossos dias de relações virtuais, muitas formas de consumo audiovisual são desprovidas de memória, dispensando qualquer relação (nem que seja de mera curiosidade) com a história do cinema — como se essa história de mais de um século não existisse. Enfim, não será por acaso que a narrativa dramática de O Outro Lado do Vento, centrada num velho cineasta interpretado pelo maravilhoso John Huston (1906-1987), formula a possibilidade de o cinema morrer.

quinta-feira, novembro 15, 2018

Os pequenos ecrãs e os grandes filmes

Keir Dullea
2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968)
A difusão das imagens cinematográficas vive tempos atribulados: como encontrar equilíbrios entre as salas escuras e as plataformas de streaming? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Novembro).

Este é o ano em que se comemora meio século de um dos clássicos absolutos do grande ecrã: 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. E é também o ano em que a questão da difusão cinematográfica através de pequenos ecrãs — incluindo o computador e o telemóvel — adquiriu contornos de inevitabilidade técnica e financeira, numa palavra, cultural.
Sabemos, há mais de uma década, que a economia global do cinema foi mudando de forma radical, a ponto de o mapa das suas fontes de rendimento envolver uma verdade muito básica: para a esmagadora maioria dos títulos, mais de metade das receitas acontece, não através das salas, mas... depois das salas.
Ora, essa evidência estrutural — que determina todos os vectores industriais e comerciais, da produção à difusão — também se transfigurou. Em vez de ser encarada como motor de uma dialéctica em que tudo coexiste (entenda-se: todos os circuitos de distribuição e exibição), em muitos casos passou a ser vivida como uma guerra de mútuas exclusões. Nos exemplos mais drásticos, salas escuras e plataformas de streaming vivem de costas voltadas, com alguns dos agentes envolvidos a encarar o “outro” apenas como factor de bloqueio. Consequência prática: alguns dos títulos mais importantes do presente não passam nas salas.
Alfred Hitchcock
O problema está longe de ser simples — e escusado será sublinhar que estas linhas não passam de uma muito esquemática inventariação de dados. E está longe de ser um problema meramente moral. Desde logo, porque não é possível pensar do mesmo modo a vida comercial de um “blockbuster” de super-heróis e, por exemplo, o exercício político que é Fahrenheit 11/9, o novo filme de Michael Moore centrado em Donald Trump. Ou, se for caso disso, o lançamento de uma cópia restaurada de um clássico de Alfred Hitchcock ou Ingmar Bergman. Além do mais, é óbvio (ou talvez não seja...) que a reflexão sobre estas questões não pode ser idêntica para os EUA e para um pequeno e vulnerável mercado periférico como o português.
Importaria, talvez, valorizar um factor que, estranhamente, tende a ser instrumentalizado. A saber: o conhecimento — e reconhecimento — do próprio público. Por respeito das singularidades dos espectadores (e do seu poder de compra), importa pensar o público não como uma massa amorfa de consumidores, mas sim um colectivo de muitos contrastes, grupos e nichos.
Se caminharmos para uma nova cultura audiovisual em que os circuitos virtuais sejam tratados como um fim em si mesmo, não demorará muito tempo a desaparecer todo o lastro cinéfilo que envolve memórias e mitologias, numa palavra, história.
Podemos até alimentar uma utopia tecnocrática e formar espectadores que, no limite, sejam levados a acreditar que a grandiosidade física de 2001: Odisseia no Espaço foi fabricada para “encaixar” no seu telemóvel, ou mesmo no tímido rectângulo do seu computador pessoal... Mas quando surgir uma geração que já não conheça — nem reconheça — qualquer ligação dos filmes aos grandes ecrãs das salas escuras, o cinema definhará, desaparecendo como curiosidade académica de museu.

quarta-feira, novembro 14, 2018

Stan Lee (1922 - 2018)

Figura central na história da banda desenhada, o nova-iorquino Stan Lee faleceu no dia 12 de Novembro, em Los Angeles, no Cedars-Sinai Medical Center — contava 95 anos.
De seu nome verdadeiro Stanley Martin Lieber, distinguiu-se como escritor, editor e director da Marvel Comics. Em colaboração com desenhadores como Jack Kirby e Steve Ditko, Lee esteve ligado à criação e desenvolvimento de personagens como Homem Aranha, Hulk, Doctor Strange, Fantastic Four e X-Men. Em anos recentes, contribuiu para o alargamento da estratégia industrial da Marvel, em particular através de uma crescente presença na produção de Hollywood — a sua figura simbólica adquiriu mesmo o valor de assinatura mitológica em muitos títulos com chancela Marvel Studios. Em 2008, o Presidente George W. Bush atribuiu-lhe a National Medal of Arts.

>>> Entrevista ao New York Times, em 2015 + memória de Stan Lee em video da Marvel.




>>> Obituário em The Washington Post.

segunda-feira, novembro 12, 2018

Douglas Rain (1928 - 2018)

Prestigiado actor teatral canadiano, ficou famoso pela sua participação em 2001: Odisseia no Espaço (1968): Douglas Rain faleceu de causas naturais no dia 11 de Novembro, no St. Marys Memorial Hospital, em St. Marys, Ontario — contava 90 anos.
O essencial da sua carreira teve lugar no teatro, em particular representando textos shakespeareanos, tendo sido, aliás, um dos fundadores do Stratford Festival, em Ontario. O certo é que a sua fama ficou para sempre ligada ao filme de Stanley Kubrick, uma vez que Rain deu voz a Hal 9000, o computador hiper-inteligente de 2001 que decide tomar conta da missão a Júpiter, mesmo que isso implique a morte dos respectivos astronautas, interpretados por Keir Dullea e Gary Lockwood.
Kubrick procurava uma voz capaz de gerar uma sensação ambígua de neutralidade e poder, tendo recusado várias hipóteses de actores com sotaque "demasiado" britânico. Na verdade, o realizador americano conhecia a voz de Rain já há alguns anos, uma vez que é dele a locução de Universe, um pequeno filme produzido em 1960 pelo National Film Board of Canada que terá sido uma referência importante na concepção de 2001. Segundo o testemunho de Dullea numa entrevista, Rain considerava-se objecto de um reconhecimento absurdo, tendo dito qualquer coisa como: "Fiz Shakespeare e os clássicos ao longo de 50 anos e toda a gente me quer falar apenas de um filme em que trabalhei dois dias."
Curiosamente, Rain viria a emprestar a sua voz a outro computador maligno, na comédia Sleeper/O Herói do Ano 2000 (1973), de e com Woody Allen. Em 2010 - O Ano do Contacto (1984), uma sequela de 2001, dirigida por Peter Hyams, retomaria o papel de Hal.

>>> Universe (1960) + cena de 2001: Odisseia no Espaço, com Keir Dullea.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

sábado, novembro 10, 2018

Memórias do Queen Elizabeth 2

BRUCE DAVIDSON
1996
Foi há dez anos que um dos mais lendários paquetes do mundo, o Queen Elizabeth 2 (ou apenas QE2) fez a sua derradeira viagem — mais exactamente, a gigantesca embarcação deixou o porto de Southampton a 11 de Novembro de 2008, para chegar ao Dubai no dia 26 do mesmo mês. Assinalando a data, a agência Magnum propõe uma breve memória histórica dessa cidade flutuante que, no total da sua existência, deu a volta ao mundo 25 vezes, transportando cerca de 2,5 milhões de passageiros — vale a pena descobrir o respectivo portfolio.

PETER MARLOW
1978

quinta-feira, novembro 08, 2018

Redescobrindo Orson Welles

A preservação, descoberta e conclusão de O Outro Lado do Vento, de Orson Welles, é uma odisseia que vai ficar nos anais da cinefilia: este filme datado de 2018 conta uma história cuja rodagem aconteceu no início da década de 70 — eis um video da Netflix sobre esse processo que, em última instância, nos trouxe um prodigioso objecto de cinema, transparente e enigmático, tocado por uma paradoxal modernidade.

terça-feira, novembro 06, 2018

"O Outro Lado do Vento"
— o filme do ano

Simplifiquemos. Sem receio de o espaço crítico ser confundido com uma prática banalmente panfletária — até porque convém não ceder ao cinismo ambulante da nossa vida "social", lembrando que um panfleto, se for caso disso, pode não ser coisa banal.
Simplifiquemos, então: lançado na Netflix, O Outro Lado do Vento, de Orson Welles (1915-1985), é, muito simplesmente, o filme do ano. Depois de um silêncio de décadas (Welles iniciou a rodagem no começo da década de 70, só tendo sido possível concluir a sua pós-produção em 2018), deparamos com um objecto assombrado pelo mais actual dos temas. A saber: a morte anunciada do cinema, à deriva na vertigem de uma nova ordem — económica, política e simbólica — do audiovisual.
Simplificando, para já: o génio de Welles não é uma voz ténue, resgatada do passado, já que reflecte um labor criativo em tudo e por tudo ligado aos impasses do nosso presente.
O cinema existe, hélas! E isso não é simples.

segunda-feira, novembro 05, 2018

Rufus Wainwright vs. Donald Trump

Ter ou não ter poder, eis a questão.
Ou seja: ter poder implica um grau de responsabilidade que podemos não saber assumir.
Que é como quem diz: vivemos tempos em que a história da espada de Dâmocles pode e deve ser revisitada [aqui, em inglês].
E quem o diz é Rufus Wainwright numa canção devidamente intitulada Sword of Damocles. Mas não é uma banal evocação fabulista: primeiro, porque Rufus dedica a sua lição a alguém que dá pelo nome de Donald Trump; depois, porque, em última instância, o que está em jogo é a necessidade, mais do que isso, a urgência de exprimir o seu voto.
Uma parte das receitas geradas pela canção irão para a organização Swing Left. E, aqui em baixo, eis o respectivo teledisco, realizado por Andrew Ondrejcak — Darren Criss contracena com o cantor e Vivienne Westwood assina o guarda-roupa.

Release
The sword of Damocles
Just release it
To the authorities

We have been given
The same fortune cookies
You and I have
All of our progenies

Raise kindness
Above all else
Avoid the books of
Hatred behind the shelves

I will caress your
Caress your curly hair
With affection
Many a good reason to cut off your head
Then and then

Release
The Sword of Damocles
Just release it
I'm begging
You on my knees

There is no reason
To hide it from the sun
I am a tyrant
Trust me, you are not the one and only
And trust me, you are not the one and only
And trust me, you are not the one and only
Lonely person

Release
The sword of Damocles
Release
The sword of Damocles
Just release it
Cut the thread
Why don't you please

domingo, novembro 04, 2018

Michael Moore vs. Donald Trump

Michael Moore continua a desmontar as atribulações da vida política americana: com Fahrenheit 11/9 ele visa, antes do mais, a figura de Donald Trump, mas o seu filme é também uma contundente análise do sistema bipartidário dos EUA — este texto foi publicado nos Diário de Notícias (1 Novembro), com o título 'Donald Trump na mira de Michael Moore — ou o cinema face às atribulações da política'.

Michael Moore contra Donald Trump? É verdade: mesmo o espectador que mantenha uma relação distante com a actualidade cinematográfica sabe o que o novo filme de Moore, Fahrenheit 11/9, é um libelo de rara contundência moral e ideológica contra o 45º Presidente dos EUA.
E não há dúvida que Moore não deixa pedra sobre pedra. O tom do seu discurso envolve um misto de surpresa e revolta, ambas unidas no mesmo radicalismo emocional. No pré-genérico do filme, somos confrontados com a memória das horas de contagem da votação de 8 de Novembro de 2016, quando tudo e todos, a começar pelos canais de televisão americanos, apontavam para a vitória esmagadora de Hillary Clinton... até que, ao princípio da madrugada, os números começaram a apontar em sentido contrário... O que leva a voz off do filme — o próprio Moore — a perguntar: “Que raio aconteceu?” (isto numa tradução muito pudica).
Fahrenheit 11/9 joga todos os trunfos que tem para jogar. A começar, claro, pela sugestão simbólica que o título contém, “invertendo” esse outro título, Fahrenheit 9/11, do filme sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001, que valeu a Moore a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2004 (atribuída por um júri presidido por Quentin Tarantino).


O que está em jogo é de novo, em última instância, a identidade americana. Ou melhor: a decomposição dessa identidade e dos seus valores através da acção de um líder que, na sua função presidencial, de acordo com a visão política de Moore, tem atraído e, de alguma maneira, reforçado as mais inquietantes componentes fascizantes que se encontram no tecido social americano.


Daí que o filme se organize segundo uma lógica que faz lembrar os noticiários televisivos. Desde logo, porque há nele uma aposta decisiva no valor informativo das imagens (e sons) de muitos materiais informativos. Em algumas cenas, Moore trabalha sobre dados que todos conhecemos (incluindo os ataques de Trump aos jornalistas que ele aponta como criadores de “fake news”); noutras, confronta-nos com documentos surpreendentes, por vezes francamente perturbantes (por exemplo, as imagens registadas em telemóveis de agressões individuais contra latinos e afro-americanos em transportes públicos ou em plena rua).
Acontece que Moore está longe de visar apenas a figura de Trump, integrando na sua argumentação cinematográfica e política diversas referências a eventos que, na sua perspectiva, reflectem as perversões do sistema de governação do país. A mais impressionante dessas referências (ocupando, aliás, algumas dezenas de minutos no interior do filme) será a da crise da água em Flint, a cidade do estado do Michigan em que o próprio realizador nasceu (a 23 de Abril de 1954).
Para Moore, os efeitos de uma mudança na distribuição da água em Flint, ocorrida em 2014 — envolvendo mais de 100 mil habitantes numa dramática crise de saúde pública — são sinais inequívocos de um sistema em que o bem estar da colectividade está a ser regularmente ameaçado por interesses de um sector restrito de empresas e indivíduos. Esse foi, aliás, um tema transversal de um debate em que, há poucas semanas, nos estúdios da MSNBC, o próprio Moore participou.


Tudo isto nos chega através de uma narrativa cinematográfica de grande agilidade visual (e sonora), sustentada por um invulgar trabalho de montagem. A nossa relação com a visão de Moore pode ir, naturalmente, da concordância absoluta à mais firme rejeição — ele é, aliás, o primeiro a saber que não há nada de universal, muito menos de ecuménico, na sua análise. Seja como for, catorze anos depois de Fahrenheit 9/11, o novo Fahrenheit 11/9 é a exuberante confirmação de um modelo de construção narrativa que sabe organizar-se a partir de uma investigação eminentemente jornalística, sem nunca abdicar de uma elaborada, complexa e motivadora leitura do mundo à nossa volta. Dito de outro modo: Moore não se refugia em generalizações abstractas, correndo o risco ético e estético de dizer “eu”.
Também por isso, importa sublinhar uma dimensão essencial de Fahrenheit 11/9 que, infelizmente, tem sido esquecida ou iludida em muitas formas de divulgação do filme (a começar, entenda-se, pela própria campanha promocional do filme organizada a partir de imagens polarizadas na figura de Trump).


De facto, considerar que, melhor ou pior, o filme se “esgota” num libelo anti-Trump será passar ao lado da complexidade da sua argumentação. Através das atribulações protagonizadas ou geradas por Donald Trump aquilo que está em jogo é a discussão crítica da vida política nos EUA e, no limite, o funcionamento de um sistema “afunilado” numa bipartidarização (supostamente) sem alternativas.
Recorde-se, por isso, algo de muito básico: Fahrenheit 11/9 acaba por ser um objecto igualmente severo face a muitas acções e formas de intervenção política, quer de republicanos, quer de democratas. Encerrar Moore no rótulo do “ponto de vista democrata” sobre Trump será não reconhecer a pluralidade interior da sua argumentação (exemplo: a severidade com que ele avalia o comportamento de Barack Obama durante a crise da água em Flint).
Por tudo isso, estamos perante um filme genuinamente político. E não apenas porque fala das atribulações da vida política. Antes porque nos leva a reflectir sobre a cena política para além das anedotas ou diatribes que, não poucas vezes, dominam a paisagem mediática. Em jogo está a relação entre eleitores e dirigentes e, em última análise, a forma de pertença de cada cidadão a um colectivo. Não precisamos de concordar ponto por ponto com Moore para admirar o valor humanista de tal atitude criativa.

Vince Staples está no Google Earth

De acordo com a sugestão do seu título, FM!, terceiro álbum do rapper californiano Vince Staples, possui o misto de ligeireza e crueza de uma emissão radiofónica em ambiente suburbano. A ponto de dar origem a um dos telediscos mais fascinantes que vimos nos últimos meses: uma deambulação pelas ruas de um bairro organizada como uma espécie de variação delirante, ora caricata, ora trágica, da visualização típica do Google Earth — eis o espantoso Fun!, realizado por Calmatic.

One time, circling the block
Lil' buddy got murdered on the flock
Two times, you know how we rock
You know who we knocked on, you know who we shot
You know how we comin', come from nothin', I got
Christian Dior, I'm Crippin' Bior
Made her uh-oh, let the mission endure
Gave a little money to me, now I want more
Don't be lookin' funny when we come up in the store
My black is beautiful but I'll still shoot at you, dawg
2Pac, death tells all
Watch out for the niggas in the Lakewood Mall
Bitch, you touch, Nobu brunch
No bit change, no blue Chucks
Just big things, cuz gon' bust
Cuz sure bust, but we ain't on one

We just wanna have fun
We don't wanna fuck up nothin'
We don't wanna fuck up nothin'
Fun, we don't wanna fuck up nothin'
And we don't give a fuck 'bout nothin'
We just wanna have fun
We don't wanna fuck up nothin'
We don't wanna fuck up nothin'
Fun, we don't wanna fuck up nothin'
And we don't give a fuck about nothin'
We just wanna have fun

I'm so Norfy, my loves go viral for me
Ride slow, hop out, get hyphy
Think I know why he no like me
He broke, we know, citch
He told, he on print
Black and white like old flicks
We blam, these bands like goldens, I'm hopeless
Give me all the money in my hand
Type of money pop a rubber band
Miss with the glitz and the glam
Fried catfish at The Ritz in Japan
Yeah, kickin' baby, tell me when to go (Tell me when to go)
Tweakin', I'ma leave him on the floor (Leave him on the floor)
Ricky in LA, adiós
But we don't want the smoke

We just wanna have fun
We don't wanna fuck up nothin'
We don't wanna fuck up nothin'
Fun, we don't wanna fuck up nothin'
And we don't give a fuck 'bout nothin'
We just wanna have fun
We don't wanna fuck up nothin'
We don't wanna fuck up nothin'
Fun, we don't wanna fuck up nothin'
And we don't give a fuck about nothin'
We just wanna have fun

Mack a bitch down, mack a bitch down (Mack a bitch)
[...]

sábado, novembro 03, 2018

Freddie Mercury (não) passou por aqui

A recriação de Freddie Mercury em cinema obedece a um estilo de vulgar “imitação”: o actor Rami Malek esforça-se muito, mas Bohemian Rhapsody é um filme competente, mas menor — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Novembro), com o título 'Cinema cria um “duplo” menor de Freddie Mercury'.

Foi em 1957 que Elvis Presley protagonizou o lendário Jailhouse Rock, de alguma maneira inaugurando a história das relações estéticas do cinema com o universo multifacetado do rock — de tal modo que, no auge da MTV, na década de 80, se reconheceu a influência do filme em muitos telediscos. Em tempos mais recentes, tais relações parecem dominadas por uma obsessão central, banalmente biográfica: criar personagens que “dupliquem” as figuras retratadas. O novo Bohemian Rhapsody, sobre Freddie Mercury (1946-1991), símbolo lendário dos Queen, é mais um exemplo de tal tendência.
Há, de facto, um paradoxo desconcertante e, no limite, cinematograficamente frustrante. Por um lado, o actor Rami Malek presta-se a um trabalho detalhado, sem dúvida competente e esforçado, para se “parecer” com Mercury, tentando reproduzir os mais pequenos detalhes, desde os dentes salientes até aos típicos gestos, em palco, com uma parte do microfone. Por outro lado, parece que ninguém pensou numa velha lição muito básica, de uma só vez narrativa e simbólica: não basta “imitar” uma figura real para se conseguir uma personagem consistente; em boa verdade, essa “duplicação” é tão só um recurso expressivo que qualquer actor minimamente talentoso possui.
Que fica, então, do filme assinado por Bryan Singer? Uma visão esquemática, emocionalmente correcta, de uma figura que venceu as resistências mais diversas, do pai até aos decisores da indústria discográfica, para se afirmar artisticamente, ajudando a transformar os Queen num fenómeno global que persiste para além do seu desaparecimento.
Curiosa e desconcertante é a opção que leva a construir Bohemian Rhapsody a partir da performance dos Queen no Live Aid (13 de Julho de 1985): a entrada de Mercury no palco do Estádio de Wembley é mostrada na cena de abertura, sendo a actuação dos Queen uma espécie de bónus final. Dir-se-ia que o filme tenta resgatar-se do seu convencionalismo dramático através da celebração de momentos de pura apoteose da música, das canções e, claro, da energia peculiar de Mercury. Mesmo considerando que as memórias possuem uma vibração contagiante, o cinema acontece em tom menor.

Springsteen na Broadway — o álbum

É um fenómeno exterior a tendências ou modas: o espectáculo Springsteen on Broadway impôs-se como derivação de palco da autobiografia de Bruce Springsteen, Born to Run, mantendo-se em cena desde Outubro de 2017 — a derradeira performance está marcada para 15 de Dezembro. Na véspera, chegará às lojas o álbum também intitulado Springsteen on Broadway, incluindo em dois CD o alinhamento global do espectáculo.
Eis o exemplo vibrante de Land of Hope and Dreams, tema composto em 1999, embora apenas gravado em estúdio em 2012, para o álbum Wrecking Ball; em baixo, o trailer da nova edição.



sexta-feira, novembro 02, 2018

Donald Trump (re)visto por Bob Woodward

Autor de um livro magnífico sobre Donald Trump na Casa Branca, Fear, Bob Woodward é, afinal, um jornalista capaz de manter uma reflexão activa, ágil e crítica, sobre o mundo à sua/nossa volta — vale a pena voltar a escutá-lo nesta intervenção na CNN, desta vez especificamente sobre o modo como Trump (não) analisa as atribulações que têm marcado a vida da sociedade americana.


>>> Site oficial de Bob Woodward.

Carly Rae Jepsen — solidão pop

A canadiana Carly Rae Jepsen tem um novo álbum de estúdio, o quarto da sua discografia. Para bilhete de apresentação escolheu uma canção de genuína elegância pop, colocando em cena uma teia de solidões que parecem poder comunicar entre si, ou talvez não... O título, aliás, define um irónico programa existencial: Party For One. O teledisco, colorido e paradoxal como se impunha, tem assinatura de Bardia Zeinali [bela entrada de site...].

quinta-feira, novembro 01, 2018

Mostra de Cinema Casa da Imprensa / Ideal

A partir de hoje e até ao dia 7 de Novembro, o cinema Ideal, em Lisboa, apresenta a primeira edição da Mostra de Cinema - Casa da Imprensa / Ideal, dedicada a filmes sobre fotógrafos. Serão, assim, exibidos títulos emblemáticos sobre o trabalho de artistas como Robert Mapplethorpe, Robert Frank ou Gérard Castello Lopes (neste caso, a bela média metragem que Fernando Lopes lhe dedicou em 1998). O ciclo inclui ainda a ante-estreia de Mais um Dia de Vida, de Raúl de la Fuente, misto de animação e documentário centrado na experiência do repórter Ryszard Kapuscinski em 1975, em Angola.
Esta é, afinal, uma bela reinvenção dos clássicos Ciclos de Cinema da Casa da Imprensa que, sobretudo ao longo das décadas de 1960/70, marcaram o mapa cinéfilo português (recorde-se que o edifício que integra o Ideal é propriedade da Casa da Imprensa). Os títulos a exibir estão também disponíveis no mercado do DVD — eis o cartaz do evento, com informações sobre filmes e sessões.

Neymar Jr. colabora com a Teacher Kids

Criada em 1982, com o objectivo de receber e apoiar refugiados em campos do Cambodja e da Tailândia, a Handicap International é uma organização não governamental que continua a ajudar pessoas com os mais variados tipos de limitações em situações de pobreza, exclusão e desastre — a sua acção estende-se, actualmente, a mais de 60 países. Um futebolista, Neymar Jr., colaborou recentemente com a Handicap International, integrando um dos seus videos — a iniciativa visa o desenvolvimento das condições de ensino e tem a designação de Teacher Kids.

quarta-feira, outubro 31, 2018

Suede — desencanto em azul

The Blue Hour: o oitavo álbum de estúdio dos ingleses Suede (dois anos e meio depois de Night Thoughts) apresenta-se em tom ambiguamente azul, oscilando entre a omnipotência da cor e o desencanto das paisagens urbanas do presente. Em som Suede vintage, polarizado na voz inconfundível de Brett Anderson, deparamos com um itinerário social que tem qualquer coisa de noticiário televisivo transfigurado em poesia cantada — exemplo modelar, tocado por uma energia redentora: Wastelands, em teledisco assinado por Giles Campbell Longley, com interpretação de Robbie Griffith.

I watch you drift away
Around the room in that dress
The jewels on your bracelets
Have seen their best

I watch the sweat fall
Against your clothes
I've seen the look on the faces
I think they know

That the clock is ticking away
And the wind is calling us
And the pleasantries will chain us
No more

When it all is much too much
We'll run to the wastelands
Where the snow is all there is
And words sound different
When it all is much too much
Meet me in the wastelands
Where the fear will fade away
Where the children in us play

I walk the smoky room
And stumble into you
The chattering of their faces
Says nothing new

But the clock is ticking away
And the wind is calling us
And the way you make your exit
There are no words

Would it all is much too much
We'll run to the wastelands
At the car beside the road
And taking shelter
When it feels like much too much
Meet me in the wastelands
Where the horror slowly fades
Where the children in us play

When the world is much too much
We'll run to the wastelands
Leave footprints in the snow
Till our ties are severed

When it all is much too much
Meet me in the wastelands
Make a chain of flowers
Like our ties are severed

When the world is much too much
Meet me in the wastelands
At the car beside the road
And taking shelter

When the world is much too much
Meet me there in the wastelands
And the wind is on our face
And our veins are opened

When the world is much too much
Meet me in the wastelands
Make a chain of flowers
And the children in us play


terça-feira, outubro 30, 2018

Um acontecimento chamado "Sara"

Subitamente, a televisão pensa a televisão: a série Sara, de Marco Martins, é um acontecimento que nos convoca para pensarmos as narrativas que consumimos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Outubro), com o título '“Sara”: quando a televisão faz a história'.

Sejamos precisos e, se necessário, contundentes: num país em que os principais agentes com responsabilidades culturais — a começar pelo Estado, os governos e os partidos políticos — mantivessem uma postura regular de preservação da diversidade e de defesa da inteligência criativa, uma série televisiva como Sara (RTP2) não existiria.
Porquê? Porque, em última instância, Sara está a suprir as falhas monumentais de outras entidades. Assim, ao colocar em cena uma actriz, Sara, primorosamente composta por Beatriz Batarda através de um calculado jogo de objectividade e ironia, a série dirigida por Marco Martins convoca-nos para uma tarefa urgente. A saber: uma reflexão sobre o domínio da matriz telenovelesca no espaço público português e, por isso mesmo, no imaginário dos espectadores.
Aliás, neste contexto, a palavra “urgente” adquire qualquer coisa de absurda caricatura. A formatação narrativa imposta pela telenovela começou há 40 anos e bem sabemos que, ao longo desse tempo, sempre que alguém, em nome da mais básica sensatez, chama a atenção para os efeitos práticos de tal formatação — da produção ao consumo, passando pelas falta de diversidade do mercado de trabalho de actores e actrizes —, esse alguém surge imediatamente rotulado de perigoso intelectual (é verdade: apesar das suas muitas e admiráveis proezas, a vida democrática portuguesa ainda integra a utilização da palavra “intelectual” como um insulto).
Evitemos ceder à estupidez corrente segundo a qual tentar pensar o poder narrativo, financeiro e simbólico da telenovela envolve um apelo a formas de censura. Sou mesmo dos que pensam que a facilidade com que as mais variadas atribulações da vida social, artística e institucional continuam a ser tratadas através do uso pueril da palavra “censura” tende a reforçar uma terrível ignorância. De quê? Da existência de um sistema estatal de censura durante o Estado Novo.


O certo é que a série Sara existe. Por mim, como simples espectador que valoriza a diversidade televisiva, esperei 40 anos pela chegada de algo semelhante no contexto português: afinal, a televisão pode (e, a meu ver, deve) pensar o que é, como é e o que pode ser. Presto a minha humilde homenagem a quem a encomendou, produziu, filmou, interpretou e programou.
E acrescento que o meu ponto de vista não passa de um evento microscópico no interior da imensidão do que importa conhecer e reconhecer. Dito de outro modo: a existência de Sara é mesmo um acontecimento central na nossa história cultural das últimas décadas — por uma vez, a própria criação artística expõe e pensa o espaço do seu trabalho narrativo e, em particular, o seu enquadramento televisivo; por uma vez, uma ficção televisiva resiste a ser arrastada pelas matrizes dominantes e faz história, faz a sua própria história.
Daí que importe também celebrar a especificidade das matérias narrativas de Sara. O que surge nas suas cenas não é a ilustração de uma qualquer “tese”, mas sim uma galeria de personagens observadas e acarinhadas na sua despojada vida material (roubo a expressão a Marguerite Duras).
Olhamos para o nosso ecrã caseiro e, subitamente, desapareceram as figuras automáticas e automatizadas que, todas as noites, povoam o consumo televisivo de um país inteiro. Sara é sobre pessoas complexas e verosímeis, vontades concretas e desejos enigmáticos, porventura inomeáveis, enfim, corpos com vida, corpos que resistem à condição de meros veículos de narrativas deterministas.


Fixo-me, em particular, na misteriosa personagem do “agente” de Sara. A admirável composição de Albano Jerónimo é um desses acontecimentos raros que, no limite, desafia a nossa própria condição de espectadores. Nele, através dele, deparamos com uma entidade que tem tanto de concreto (o agente que gere a carreira de uma actriz) como de transcendental (um ser cujas raízes identitárias se encontram, algures, numa paisagem exterior a qualquer mapa). Registo, em particular, o facto de esse “agente” ser definido a partir de uma convivência muito física com uma infinidade de livros. Como se a tragédia de Sara fosse o facto de viver num país que menosprezou os valores mais primitivos da literacia. O que é que isso tem a ver com a telenovela? Digamos, para simplificar, que, quando falamos do poder normalizador da telenovela, é isso mesmo que está em jogo.

segunda-feira, outubro 29, 2018

domingo, outubro 28, 2018

John Carpenter: os filmes e a sua música

O realizador do primeiro Halloween (1978) é também o compositor de várias bandas sonoras dos seus filmes: redescobrir John Carpenter é, por isso, de uma só vez, um gosto cinéfilo e uma aventura musical — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Outubro), com o título 'John Carpenter: um mestre que criou o seu próprio estilo de terror'.

Face à nova versão de Halloween, assinada por David Gordon Green, torna-se inevitável evocarmos o valor de culto do original, realizado em 1978 por John Carpenter. E não apenas porque Green, claramente, estudou as nuances do estilo de Carpenter no interior do género de terror. Também porque o novo Halloween integra a herança musical do próprio Carpenter que, afinal, é autor das bandas sonoras de muitos dos seus filmes.
Pode mesmo dizer-se que o tema original de Halloween se transformou numa espécie de símbolo sonoro do cinema de terror — a sua vibração electrónica passou a significar a própria perturbação de histórias que encenam a eterna luta entre o Bem e o Mal.


Dir-se-ia que Carpenter criou um pessoalíssimo universo a partir da conjugação de três elementos fundamentais: primeiro, um sofisticado sentido do tempo das acções, dilatando o mais possível os elementos de “suspense”; depois, uma inquietação que nasce da estranheza de cada ser humano face ao seu semelhante; enfim, uma musicalidade narrativa, subtil e elegante, servida por uma hábil montagem de que a pontuação musical é apenas o sinal mais evidente. E tudo isso, pelo menos na primeira fase da sua filmografia, através de produções de pequeno orçamento, herdeiras directas da clássica “série B” — lembremos o exemplo desse verdadeiro objecto de culto que é Assalto à 13ª Esquadra (1976).


Apesar de tudo, a obra de Carpenter nunca ficou presa a um género — e até mesmo no interior do terror, podemos dizer que ele é um individualista que inventou uma zona autónoma de expressão que está longe de se confundir com as regras correntes do género. Afinal de contas, ele é também o cineasta de Elvis (1979), um telefilme sobre Elvis Presley, Nova Iorque 1997 (1981), uma epopeia de ficção científica, ou As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim (1986), aventura delirante produzida na época em que os filmes de Indiana Jones mobilizavam multidões.
Isto sem esquecer que Carpenter assinou The Thing – Veio do Outro Mundo (1982), remake de um título de 1952 que explora de forma exuberante a história de uma entidade realmente “do outro mundo” que tem a capacidade de assumir a forma dos seres humanos que devora — curiosamente, neste caso, a banda sonora é de Ennio Morricone.


Embora, por vezes, com interrupções de alguns anos, o trabalho de Carpenter tem continuado através de produções capazes de encontrar forças (criativas) nas suas fraquezas (orçamentais). Assim nasceram títulos tão interessantes como Eles Vivem (1988), A Cidade dos Malditos (1995) ou O Hospício (2010), este o seu mais recente projecto de longa-metragem.
Em tempos mais recentes, Carpenter tem editado alguns álbuns com os temas (originais ou remisturados) que compôs para os seus filmes, incluindo essa magnífica colectânea que é Anthology: Movie Themes 1974-1998. Por vezes, tal labor prolonga-se através da criação de novas imagens, ou melhor, telediscos capazes de recriar as mais fantásticas ambiências. Vale a pena ver ou rever o pequeno filme que ele realizou para o tema de Christine, o Carro Assassino (1983) — sem esquecer que o próprio realizador decidiu integrar o elenco...

Os vampiros de Lawrence Rothman

Há cerca de um ano, numa entrevista ao site Pitchfork, o americano Lawrence Rothman (n. 1982) perguntava por que razão seria preciso encaixar numa classificação de "masculino ou feminino". Agora, face à sua nova canção, Decade, talvez possamos prolongar pedagogia dos géneros, desta vez envolvendo humanos e vampiros (e alguns emojis...) — Decade é uma festivo bailado de ambiguidades, servindo, além do mais, para anunciar um novo álbum, I Know I've Been Wrong, But Can We Talk, com lançamento marcado para 9 de Novembro.
O teledisco tem assinatura de Floria Sigismondi, senhora de muitas proezas neste domínio — recorde-se que da sua filmografia fazem parte telediscos para David Bowie (Little Wonder, Dead Man Walking, etc.), Björk (I've Seen It All) ou Fiona Apple (O'Sailor). Decade é um sonho romântico encenado como um spot publicitário viciado em sonhos surrealistas.

sábado, outubro 27, 2018

O medo e a política através de Trump

O título de Fear, o livro de Bob Woodward sobre Donald Trump — ou, mais, especificamente, sobre "Trump na Casa Branca" — provém do próprio protagonista. Numa entrevista que Trump deu a Woodward (e Robert Costa, outro jornalista de The Washington Post), realizada no dia 31 de Março de 2016 (recorde-se que a sua eleição ocorreu cerca de seis meses mais tarde, a 8 de Novembro), ele próprio, com bizarra relutância, define o medo como elemento fundamental do poder: Real power is — I don't even want to use the word — fear.
Curiosamente, para a escrita do livro, Woodward não conseguiu consumar qualquer encontro com Trump — o registo de tal impasse ficou mesmo gravado numa conversa telefónica entre o jornalista e o presidente. Apesar dessa ausência (apetece dizer: através dessa ausência), Fear é, da primeira à última linha, um exercício de investigação e desmontagem da figura de Trump: das peculiaridades do seu carácter, por certo, mas também, para além disso, da configuração política que esse carácter impôs à Casa Branca e à dinâmica social dos EUA, no limite, alterando o lugar institucional do país na esfera internacional e nas relações da geo-política.
Estamos perante um livro tanto mais fascinante, historicamente essencial, quanto os detalhes da sua investigação, por vezes absolutamente incríveis, expõem a vulnerabilidade de um sistema de governação às componentes idiossincráticas do seu líder. Dir-se-ia que Fear consegue ser um espantoso ensaio de investigação política sem deixar de ser um perturbante estudo psicológico — tudo isso pensado, executado e escrito em nome dos valores mais primitivos, e também mais essenciais, do labor jornalístico.
Fear contém, assim, um apelo implícito à urgência jornalística de discutir as encruzilhadas da verdade no mundo contemporâneo. A saber: como garantir o valor da verdade (valor jornalístico e função social) num contexto em que a sua desqualificação surge como arma corrente das formas mais perversas de ataque ao clássico sistema democrático de vida? Porque, escusado será sublinhá-lo, tudo o que está em causa excede o território especificamente jornalístico — é a cidadania que importa ter em conta, quer dizer, a pertença a um colectivo.

>>> Registo de uma conversa de Bob Wooward com Michael Schmidt (New York Times) organizada pela livraria Politics and Prose (George Washington University, 27-10-2018).

Cedric Burnside — cool

Nascido em Memphis, Mississippi, há 40 anos, Cedric Burnside é um homem de blues — de talento singular, fiel às raízes, alheio a qualquer modernização postiça. Surge agora com Benton County Relic, álbum de espantosa consistência, homogeneidade e apelo poético, afirmando uma verdade visceral, celebrando a arte de ser cool. A esse propósito, aqui fica Hard to Stay Cool, precedido de algumas palavras do próprio Burnside.

A ditadura da tecnologia

É enorme, e totalmente justificável, o fascínio que nos despertam muitos transformações das nossas vidas induzidas pelas novidades tecnológicas. O que, entenda-se, não exclui a necessidade de uma permanente atenção crítica às perversões de poder que tais novidades podem gerar ou alimentar.
No limite, podemos mesmo perguntar se, em certos domínios, a tecnologia servirá para reforçar os modelos mais agressivos de vigilância e controle dos comportamentos humanos. Este video de The Economist analisa um caso muito particular que justifica tal interrogação: descobrimos, na China, o desenvolvimento de um sistema de identificação facial dos cidadãos. Ou ainda: quando, e como, a gestão de informação sobre o indivíduo se transforma em controle estatal?

quinta-feira, outubro 25, 2018

Nova colaboração de Scorsese e DiCaprio

Na década de 1920, os índios da tribo Osage enriqueceram subitamente graças à descoberta de petróleo nas suas terras, no estado do Oklahoma — até que, um a um, começaram a ser mortos... Lançado em Abril de 2017, o livro de David Grann, Killers of the Flower Moon, é uma crónica histórica sobre esse conturbado capítulo da história dos EUA, também uma das primeiras grandes investigações conduzidas pelo FBI sob o comando do seu jovem director, J. Edgar Hoover.
Killers of the Flower Moon vai ser adaptado ao cinema, com Martin Scorsese a realizar e Leonardo DiCaprio a liderar o elenco; Eric Roth está a trabalhar no argumento, sem que haja ainda qualquer data prevista para o lançamento do filme.
Profissional de grande prestígio, vencedor de um Oscar de argumento adaptado por Forrest Gump (1995), Roth é o argumentista do recente Assim Nasce uma Estrela, de Bradley Cooper. Entretanto, o novo filme de Scorsese, The Irishman, sobre o líder sindical Jimmy Hoffa (1913-1975), com Robert de Niro e Al Pacino, só será lançado em 2019.

>>> Registo de uma apresentação pública de David Grann, evocando o contexto histórico de Killers of the Flower Moon e o seu trabalho de investigação.

O realismo segundo Gregory Halpern

[Los Angeles, 2008-2015]
Em tempos de super-heróis digitais, o realismo não está na moda... Num certo sentido, afinal, qualquer pulsão realista existe mesmo contra a formatação gerada pelas modas. O fotógrafo Gregory Halpern convoca-nos para as possibilidades infinitas da arte de olhar o mundo à nossa volta, admitindo mesmo atribuir renovada dignidade à noção de Realismo Mágico — para ler e ver no site da Magnum.