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quarta-feira, setembro 13, 2006

Diane Arbus (2/3)

A biografia de Diane Arbus, escrita por Patricia Bosworth, é um espantoso trabalho de recolha de informações sobre uma vida convusiva, fascinante, trágica. Inseparavelmente, trata-se de uma narrativa metódica, quase austera, capaz de nos dar uma visão íntima dessa mulher genial da fotografia contemporânea que se suicidou, em 1971, aos 48 anos de idade. Na capa da edição do livro de Bosworth (Vintage/Random House) surge uma espantosa imagem assinada por Eva Rubinstein, outra fotógrafa, nascida em 1933, cujo destino profissional se chegou a cruzar com o de Arbus, nomeadamente quando Rubinstein frequentou um dos seus cursos. A imagem resulta de um mútuo desafio: Arbus exigia aos seus alunos que fotografassem alguém ou alguma coisa que nunca tivessem fotografado antes; Rubinstein pediu para fotografar a própria professora. Embora surpreendida, Arbus aceitou, apenas impondo que a sessão de retratos fosse num determinado dia, às oito horas da manhã. A camisola preta e as calças de pele preta eram uma indumentária normal em Arbus; em todo o caso, foi assim que ela apareceu a Rubinstein, colocando-se na sala, tendo como fundo um conjunto de fotografias dispostas de forma mais ou menso aleatória, algumas delas, segundo Rubinstein, de conteúdo explicitamente sexual — a imagem data de 1970 ou 71, poucos meses antes da morte de Arbus.
O livro de Patricia Bosworth — que já escreveu biografias de Montgomery Clift e Marlon Brando — é o ponto de partida para o filme Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus, muito provavelmente um dos títulos de que vamos ouvir falar a propósito dos Oscars referentes à produção de 2006. Dirigido por Steven Shainberg (A Secretária), o filme tem Nicole Kidman no papel de Diane Arbus; no elenco incluem-se ainda, entre outros, Robert Downey Jr., Ty Burrell e Jane Alexander. A fotografia é de Bill Pope e a música de Carter Burwell. A adaptação da biografia escrita por Bosworth esteve a cargo de Erin Cressida Wilson.
Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus tem estreia americana marcada para 10 de Novembro — em Portugal, ainda não consta da lista de nenhum distribuidor.

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sábado, setembro 09, 2006

Diane Arbus (1/3)

DIANE ARBUS Identical twins, Roselle, N.J. 1967

As gémeas de Roselle, New Jersey (1967), são uma das fotografias mais conhecidas de Diane Arbus (1923-1971). Mais do que isso: esta imagem transformou-se em símbolo da sua vocação de fotógrafa de seres mais ou menos "marginais", por vezes freaks, classificação que ela própria tinha consciência de ter gerado, mas contra cujo sentido redutor muitas vezes se revoltou. Em The Shining (1980), Stanley Kubrick (1928-1999), que foi fotógrafo antes de realizar filmes — e, enquanto fotógrafo da revista Look, conviveu com Arbus —, citava ex-plicitamente a imagem das gémeas através das duas meninas que apareciam nos corredores do Overlook Hotel, quando o pequeno Danny (Danny Lloyd) dava os seus passeios de triciclo.

Mais de três décadas decorridas sobre o suicídio de Arbus, os seus "monstros" — travestis, gigantes, prostitutas, mas também crianças, estrelas de cinema ou incautos namorados — devolvem-nos uma paradoxal, por vezes comovente, dimensão humana. Ela foi, afinal, um emblema de um realismo cru, sempre revoltado contra o culto das aparências e a mera reprodução de clichés sociais ou afectivos. Está concluído um filme sobre ela: começou por se intitular Fur (chama-se agora Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus) e estreia-se a 10 de Novembro nos EUA — a realização é de Steven Shainberg (A Secretária); Nicole Kidman interpreta a personagem de Diane Arbus.

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segunda-feira, novembro 28, 2005

Londres 05: rever Diane Arbus

DIANE ARBUS, Sem título 6 (1970-71)

Diane Arbus (1923-1971) é uma referência mágica na história da fotografia do século XX — mágica porque o maravilhoso pode nascer, nas suas imagens, dos extremos mais opostos, incluindo a monstruosidade; mágica porque a sua vida breve, concluída pelo suicídio aos 48 anos, é também um romance vivido na verdade, e pela verdade, da arte como reapropriação festiva do mundo. Discípula de Richard Avedon, formada no fotojornalismo (New York Times, Esquire, Harper's Bazaar, etc.), as suas imagens mais célebres, quase sempre no clássico formato quadrado, são de personagens marginalizadas pela pobreza ou pela doença, personagens a que ela reconhece uma grandiosidade tocante, tecida de ternura e fragilidade. Disse ela, uma vez: "A maior parte das pessoas atravessam a vida receando ter uma experiência traumática. Os 'freaks' já nasceram com o seu trauma. Já passaram o seu teste na vida. São aristocratas."
2006 vai ser, seguramente, um ano de revisitação e redescoberta da espantosa obra de Arbus, uma vez que se anuncia (EUA, Outubro) o lançamento do filme Fur, de Steven Shainberg (A Secretária), com Nicole Kidman a assumir a personagem da fotógrafa — Fur baseia-se no livro Diane Arbus: A Biography, escrito por Patricia Bosworth. Para já, algumas das suas imagens estão expostas em Londres — Nuno Galopim passou por lá.
N.G.: No Victoria & Albert está em exibição Diane Arbus: Revelations, a primeira exposição de grande envergadura da obra fotográfica de Diane Arbus em 30 anos. São três enormes salas com mais de 200 fotografias nas quais tomamos contacto com as linhas mestras da sua obra, a preto e branco, realista e espantosamente envolvente. Do registo full frontal de personagens de Nova Iorque (gente comum, damas decadentes, velhos e novos, casais, travestis, miúdos) a casais em retiros de nudistas, de escritores e gente famosa (Norman Mailer, Jorge Luis Borges, Mae West) a incógnitos num hospital psiquiátrico... A exposição inclui inúmeras peças da sua vida quotidiana e profissional, máquinas fotográficas, instrumentos de laboratório, livros da sua biblioteca e blocos com anotações. Uma paragem obrigatória para qualquer viagem a Londres — até 15 de Janeiro de 2006.
* Quem passar por esta exposição pode aproveitar o momento para entrar na sala ao lado, onde se mostra uma espantosa selecção de nova fotografia e video da China actual. Imagens de corpos, figuras e espaços que desconstroem velhos ícones (dos mais tradicionais aos motivos da revolução cultural), num espantoso olhar por imagens de uma China nova, ainda por descobrir.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Diane Arbus (3/3)

Diane Arbus (1923-1971) permanece como um dos mais fascinantes enigmas da história da fotografia no século XX: o seu trabalho possui a evidência de um realismo cru, à flor da pele, a par de um apelo para outra dimensão, porventura transcendental, sem dúvida trágica. Patricia Bosworth abordou-a numa notável biografia, acumulando factos, cruzando depoimentos, tentando seguir a vertigem suicida de Arbus. A partir do livro de Bosworth, o realizador Steven Shainberg (A Secretária) dedicou-lhe um filme que, embora longe de suscitar unanimidades, se conta entre os títulos mais estimulantes da época pré-Oscars nos EUA (onde estreou a 10 de Novembro) — chama-se Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus e tem Nicole Kidman como protagonista, contracenando, entre outros, com Robert Downey Jr., Ty Burrell e Jane Alexander.
Com estreia prevista para Janeiro/Fevereiro em vários países europeus, Fur continua a não constar das listas dos distribuidores portugueses. Será que as salas portuguesas, onde continuam a ser lançados muitos títulos irrelevantes (mesmo em termos comerciais), se vão dar ao luxo de ignorar um filme destes, por mero acaso com a actriz mais popular do mundo? Esperemos para ver (ou não ver...). Entretanto, aqui está o trailer.

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domingo, junho 19, 2016

Para ler: uma nova biografia
da fotógrafa Diane Arbus

Tem por título Diane Arbus: Portrait of a Photographer, é assinada por Arthur Lubow e é uma nova biografia da fotógrafa Diane Arbus. É um volume de mais de 750 páginas, acabado de lançar pela Ecco Press.

Podem ler na New Yorker um artigo de Anthony Lane que apresenta o livro.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Corpo e alma

Gostamos de Diane Arbus (1923-1971). Falámos dela, em Novembro de 2005, a propósito de uma exposição, em Londres, no Victoria & Albert, desde logo chamando a atenção para o filme "biográfico" que sobre ela se anunciava, com Nicole Kidman sob a direcção de Steven Shainberg. Em Setembro de 2006, recordámos as suas espantosas fotografias, avançando com as primeiras notícias sobre a estreia do filme nos EUA. Ainda no mesmo mês, comentámos o livro de Patricia Bosworth em que Shainberg se baseou, voltando a remeter para o filme. Finalmente, em Novembro de 2006, dávamos conta de mais alguns ecos em torno do filme, perguntando se os distribuidores portugueses se iam dar ao luxo de ignorar um filme, à partida, tão motivador e, para mais, com a actriz mais popular do mundo?
Pois bem, a resposta a esta pergunta é, felizmente, negativa. Com chancela da Lusomundo, Fur - Um Retrato Imaginário de Diane Arbus tem estreia portuguesa marcada para 15 de Março. E já podemos acrescentar que se confirmam as melhores expectativas: estamos perante um encantatório retrato de um processo criativo, por dentro, com uma Nicole Kidman prodigiosa, tendo a seu lado o genial Robert Downey Jr., num papel com tanto de ingrato (por razões de figuração do corpo) quanto de subtilmente emocional. Fur é um exemplo esclarecedor de como, se há um realismo do corpo, pode haver também um naturalismo da alma.

terça-feira, setembro 11, 2007

A IMAGEM: Diane Arbus, 1970

Diane Arbus
A jewish giant at home with his parents in the Bronx, NY (1970)

terça-feira, novembro 18, 2014

Malkovich por Malkovich (1/2)

Variações de Casanova
John Malkovich passou pelo Lisbon & Estoril Film Festival em três registos: através das memórias do Steppenwolf Theatre, numa exposição de fotografias de Sandro Miller e protagonizando o filme Variações de Casanova. Como ele gosta de dizer, é um actor que se sente bem na sua “personalidade dividida” — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (17 Novembro).

Quando olhamos para as fotografias de Sandro Miller em que “copia” algumas imagens célebres (de Marilyn, Hitchcock, Che Guevara, etc.), deparamos com uma difícil exposição pessoal — foi, no fundo, um trabalho de representação?
Fazer qualquer coisa interessante é sempre difícil... E quase sempre falhamos. A complexidade do projecto decorria de uma espécie de linha de fronteira, um pouco à maneira da representação num filme, mas mais pura. Por exemplo, consigo ser exactamente como as gémeas de Diane Arbus porque, num certo sentido, tenho a mesma idade emocional e talvez, quem sabe, a mesma personalidade dividida. Mas a parecença não era a questão fundamental. Sempre ouvi dizer que a câmara não mente — é para isso que serve, creio eu. Por isso, para mim, este era um projecto sobre os poderes da própria câmara.
Podemos dizer: aqui está John Malkovich a imitar estas pessoas, mas vêmo-lo, ao mesmo tempo, apresentando-se como... John Malkovich.
Isso não sei. Talvez fosse importante colocar a questão ao próprio Sandro — afinal de contas, eu só faço aquilo que faço, nunca me inscrevo, eu próprio, em nada. Ao mesmo tempo, é evidente, sou... eu próprio — e isso é tudo o que tenho para dar.
Malkovich / Bette Davis
Que foto envolveu o desafio mais difícil?
Bette Davis foi mesmo difícil, até porque o original de Victor Skrebneski é magnífico. Os seus olhos são enormes — não ficaria surpreendido se me dissessem que são o dobro dos meus. Era uma pequenina mulher. Lembro-me, de ter viajado, sentado a seu lado, num voo de Paris para Londres — era pequenina e, ao mesmo tempo, uma figura impressionante.
O filme realizado por Michael Sturminger, Variações de Casanova, é também sobre o fingimento, a verdade e a mentira...
Tudo começou por uma ópera que fiz com o Michael e Martin Haselböck [director musical da Orquestra da Academia de Viena]: intitulava-se The Infernal Comedy e era sobre o austríaco Jack Unterweger, jornalista, romancista, poeta, dramaturgo e... “serial killer”. Foi depois que surgiu a ideia de fazer uma nova ópera, tendo como ponto de partida a História da Minha Vida, de Giacomo Casanova. Dito isto, devo também dizer que Casanova não me interessava, até começar a ler coisas sobre ele.
Como vê este Casanova: alguém que vem de um passado distante ou uma personagem moderna?
Não me sinto qualificado para dizer o que é moderno ou não. Em boa verdade, não sei muito sobre o mundo moderno — e não tenho a certeza se quero saber. Casanova é uma figura histórica muito interessante que o filme sujeita, de forma inédita, a uma verdadeira reconversão de imagem.
Que imagem é essa?
Uma imagem que começa no facto de a palavra “Casanova” se ter transformado numa espécie de insulto, para mais usada por pessoas que, de facto, nada sabem sobre Casanova. Como se Casanova fosse Valmont [personagem de Ligações Perigosas, interpretada por Malkovich no filme de 1988, dirigido por Stephen Frears]. Ora, Casanova não tem nada a ver com Valmont (que, aliás, nunca existiu), como nada tem a ver com o Marquês de Sade ou Lord Rochester — isto para nomearmos os mais célebres libertinos. Tal como Michael Sturminger o encena, Casanova é um romântico.
Histoire de Ma Vie
É alguém que experimenta a dor através do seu desejo.
Sem dúvida. Ele descreve-se como uma vítima dos seus sentidos — e acho que o era. Claro que tinha um mau temperamento, mas muito pouco da malícia que tradicionalmente lhe é atribuída. Muitas vezes, nas relações com as mulheres, o abandonado era Casanova.
Talvez Casanova não seja mesmo nada moderno, até porque no nosso mundo o prazer é muitas vezes apresentado como coisa linear, supostamente fácil.
A minha percepção das actuais relações entre homens e mulheres é que serão muito diferentes, menos idealizadas, menos importantes... Mas não tenho a certeza — é apenas uma percepção que pode não ter qualquer fundamento. O certo é que, para Casanova, qualquer relação era incrivelmente importante.
Digamos que apostava a sua alma.
E, normalmente, perdia. O grande amor de Casanova foi uma mulher chamada Henriette. Não temos a certeza se se chamava assim, ou até se realmente existiu. Seja como for, quando o abandona, Henriette escreve no vidro de uma janela, usando o diamante do seu anel: “Também irás esquecer Henriette”.

quarta-feira, junho 20, 2007

40 anos

A última vez que a vimos nos ecrãs foi no filme Fur, sobre Diane Arbus. Depois, não a vimos, mas pudemos ouvi-la a dar voz à mãe de Mumble, em Happy Feet. Entretanto, já concluíu The Invasion, sob a direcção de Olivier Hirschbiegel, contracenando com Daniel Craig (estreia portuguesa anunciada para 13 de Setembro). Está a rodar Australia, reencontrando Baz Luhrmann (que a filmou em Moulin Rouge), incluindo-se entre os seus projectos o título Need, com realização de Ryan Murphy, o criador da série Nip/Tuck. Provavelmente, imaginamo-la assim, como uma dama vinda directamente do século XIX, sempre um pouco fora deste nosso mundo acelerado. O certo é que ela é um pouco menos idosa que isso — de seu nome completo Nicole Mary Kidman, faz hoje 40 anos.

quarta-feira, maio 21, 2014

Novas edições:
Tori Amos, Unrepentant Grealdines

Tori Amos
"Unrepentant Geraldines"
Deutsche Grammophon / Universal
4 / 5

Revelada na alvorada dos anos 90 com Little Earthquakes (1991), a norte-americana Tori Amos deu há perto de três anos um passo importante na evolução da sua carreira ao assinar pela editora Deutsche Grammophon, casa sobretudo reconhecida pelo seu trabalho nos vários domínios (e tempos) da música erudita. E depois de um álbum que celebrava heranças de compositores como Chopin, Debussy ou Satie (Night of The Hunter, editado em 2011) e de um outro no qual recriava canções de duas décadas de discos em novos arranjos orquestrais (Gold Dust, de 2012), eis que regressa agora à alma central da sua obra, apresentando em Unrepentant Geraldines um novo disco de estúdio feito de temas originais.

Unrepentant Geraldines surge depois de finalmente estreado o musical The Light Princess, composto pela própria Tori Amos e que, em 2015, terá edição em disco com o elenco que assegurou a sua vida em palco. Mas o mais importante estímulo que conduziu Tori Amos a estas canções foi o aprofundar da sua relação com as artes visuais. Um esboço de Daniel Maclise, uma fotografia de Diane Arbus ou uma ilustração de Dante Gabriel Rossetti inspiraram respetivamente canções como Unrepentant Geraldines, America ou Maids of Elfen-Mere.

Tori Amos faz contudo questão de sublinhar a importância que teve a sua relativamente recente descoberta de Paul Cézanne, que está na origem do tema 16 Shades of Blue. "Sei que levei tempo a chegar" a Cézanne, confessa na entrevista que podemos ver no DVD que acompanha o disco. "Há anos que me davam livros sobre o seu trabalho, mas eu não chegava lá... Só apanhamos as coisas quando estamos prontos para as compreender", reconhece, confessando que só recentemente conseguiu finalmente "escutar" a pintura de Cézanne. Leu então tudo o que encontrou sobre o pintor e a sua obra. E deixou-se maravilhar pela forma como "saía para a natureza", e como nela conseguia ver o corpo de uma mulher.

Muito estimulado por imagens, este disco é um álbum que, mesmo que musicalmente assente sobre a já "clássica" linha central da obra de Tori Amos, é um reflexo do nosso tempo. Na entrevista que acompanha a versão especial do álbum, Tori Amos explica que tanto juntou aqui uma forma de contar histórias ao jeito de um Johnny Cash como reflete sobre questões do presente, das esferas da política às da segurança (sendo bem evidente a sua preocupação sobre as revelações recentes sobre atos de espionagem e escutas em grande escala).

America, que abre o alinhamento, traduz uma relação consciente e crítica com a sua identidade americana. "Quando entro num lugar e me escutam o sotaque já têm uma ideia de mim, como se todos os americanos fossem iguais", comenta na mesma entrevista. Tori Amos explica que há ideias feitas, por vezes "por causa de um político" e defende que os americanos deviam pensar melhor a sua terra "e como tem sido usada" e que, por isso, os mais novos devem procurar saber que papel se espera para esta mesma América no futuro.

PS. Este texto foi originalmente publicado na edição de 19 de maio do DN com o título "Tori Amos regressa com disco inspirado pelas artes visuais"

terça-feira, novembro 21, 2017

O sexo segundo Hollywood

Howard Hughes, aliás, Warren Beatty
Assim vai o mundo do cinema: o mais recente e prodigioso filme de Warren Beatty, Rules Don't Apply, não chegou às salas de cinema portuguesas... — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Novembro).

Warren Beatty realizou um dos filmes mais extraordinários de 2017: chama-se Rules Don’t Apply e coloca em cena a figura verídica do bilionário Howard Hughes (1905-1976), interpretado pelo próprio Beatty. O essencial tem a ver com o romance entre uma candidata a actriz, Marla (Lily Collins), e um dos motoristas de Hughes, Frank (Alden Ehrenreich). Em várias entrevistas, o actor/realizador foi claro na caracterização do seu trabalho: “Não se trata de uma biografia de Howard Hughes — é antes um filme envolvido com aquilo que eu chamaria as consequências cómicas, por vezes tristes, do puritanismo sexual da América no final dos anos 50, princípios dos anos 60.”
Em boa verdade, quase ninguém deu atenção ao propósito de Beatty. Estreado sem qualquer pompa, Rules Don’t Apply foi um desastre comercial nos EUA, sendo de imediato “castigado” com a supressão do seu lançamento em quase todo o mundo, surgindo nas salas de apenas seis países (três na Europa: Espanha, Itália e Reino Unido). Entre nós, pelo menos, está a passar no canal TV Cine & Séries, com o título Excepção à Regra.
O caso envolve uma lição exemplar: filmar a sexualidade para além dos padrões dominantes num determinado momento histórico envolve um preço elevado, nem que seja a marginalização dos circuitos de distribuição/exibição. E, no entanto, encontramos na produção de Hollywood muitas e fascinantes abordagens do sexo, seus medos e fantasmas. Para nos ficarmos por apenas alguns exemplos, lembremos como a sexualidade se expõe nas tensões indivíduo/sociedade em filmes admiráveis como Um Lugar ao Sol (George Stevens, 1951), A Última Sessão (Peter Bogdanovich, 1971), Sexo, Mentiras e Vídeo (Steven Soderbergh, 1989), Estrada Perdida (David Lynch, 1997) ou Fur – Um Retrato Imaginário de Diane Arbus (Steven Shainberg, 2006).
Com uma inteligência plena de ironia, Beatty retoma essa herança, expondo Hughes, lendário produtor de cinema e industrial de aviação, como rei e peão, patrão e escravo de um xadrez sexual dominado pelos discursos masculinos. E não é das menores maravilhas de Rules Don’t Apply o modo como é encenada a história de Marla, protagonizando uma saga pessoal de conquista do seu próprio discurso, em paralelo com a tocante decadência física de Hughes, assombrado pela dependência de drogas. Para Beatty, enfim, tratava-se de evocar a época em que ele próprio chegou a Hollywood. Tanto pior se o nosso tempo não quer lidar com o seu filme — o futuro tornará claro o génio criativo de Rules Don’t Apply.

terça-feira, setembro 11, 2007

Media / McCann (6)

Macbeth (1948), de Orson Welles

Confesso a minha pertença a um clube infinitamente minoritário: ao contrário de muitos concidadãos, não passo a vida a especular se o pai e a mãe de Madeleine McCann são "inocentes" ou "culpados", não vivo para esse jogo obsceno de telenovela em que quase todos se condenam a encarar a existência (a sua e a dos outros) como se fosse um imenso bordel de jogos de investigação policial. Conheço os factos e aguardo para saber — além do mais, a situação parece-me sufi-cientemente perturbante para não lhe acrescentar o gratuito da especulação e do moralismo. Inocentes ou culpados, os McCann devem ser respeitados na condição de presunção de inocência que a lei lhes garante.
Em todo o caso, não consigo ficar indiferente a uma nova tendência, para mais expressa com a exuberância de quem, subitamente, se afirma confrontado com um mistério que a história da humanidade escondeu de tudo e de todos. Assim, passou a ser chic proclamar que, "se os McCann forem culpados", então a nossa crença na bondade humana ficará muito abalada...
Como? Importam-se de repetir? De repente, parece haver pessoas que julgam que os milénios de histórias das famílias são um paraíso de paz e harmonia, porventura com anjos castos a dormitar debaixo das camas e no topo dos armários. De repente, a herança da tragédia grega desvaneceu-se... E Shakespeare? Connaît pas... Parece-me até que os que celebraram a morte do “poeta” Bergman, nunca se deram ao trabalho de olhar para um dos seus filmes.
Não se trata de demonizar a instituição família. E também não é um problema de enciclopedismo. Longe disso (já basta os “enciclopedis-
tas” internéticos que por aí andam). É um problema, isso sim, de aculturação, no sentido mais fundo e dramático que a palavra pode envolver: a cultura foi esvaziada do seu peso ancestral, da sua função de cimento colectivo e o mundo passou a ser pensado (?) como algo que começou neste preciso instante. “Os McCann podem ser culpados? Que horror! Ao longo de milénios, não é a família um espaço de radiosa harmonia e palpitante redenção?”
Como viver no meio deste infantilismo? Porque, de facto, é disso que se trata: uma suposta purificação do nosso olhar — e da nossa vontade de ver e saber — que nos fragiliza face à complexidade do mundo e às contradições da natureza humana. E tudo isso, insisto, independentemente de os McCann serem culpados ou inocentes. Como viver no meio desta recusa de ser adulto?

A Child Crying (1967), foto de Diane Arbus