sábado, setembro 22, 2018

* Um "alien" chamado David Bowie
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

Está a chegar uma nova caixa retrospectiva de David Bowie: Loving the Alien [1983-1988]. Será o nosso ponto de partida para mais uma sessão na FNAC, voltando a evocar uma personalidade multifacetada, num tempo de eclosão dos telediscos e das grandes digressões inter-continentais.

* FNAC / Chiado: hoje, 23 de Setembro, 18h30

sexta-feira, setembro 21, 2018

Ser ou não ser robot

Com Ewan McGregor e Léa Seydoux nos papéis centrais, Zoe é um filme capaz de relançar de forma inventiva alguns modelos clássicos da ficção científica — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Setembro), com o título 'Os robots também amam'.

Decididamente, Drake Doremus (californiano, 35 anos) tem estado a pagar o preço da singularidade dos seus filmes. Recordo, em particular, o belíssimo Iguais (2015), filme que, apesar de contar com Kristen Stewart no seu elenco, passou quase despercebido na maior parte dos mercados (incluindo Portugal).
Quem viu Iguais, recordar-se-á das suas subtis variações sobre matrizes da ficção científica: tudo acontecia num mundo perversamente utópico em que o “progresso” se media pela organização das relações humanas para além desses factores incómodos que seriam as emoções... Agora, através de Zoe, confirmamos que há, de facto, um impulso futurista no trabalho de Doremus, por certo indissociável do seu gosto pela concepção narrativa — mais uma vez, ele surge como co-autor do argumento (em associação com Richard Greenberg).
O essencial acontece em torno de Zoe (Léa Seydoux) e Cole (Ewan McGregor). Enquanto criador de robots, Cole vai experimentar a perturbação imensa que pode nascer do facto de os novos seres mecânicos serem concebidos, não apenas para ajudar os humanos em muitas tarefas do dia a dia, mas também para com eles partilharem os mais convulsivos estados de alma — incluindo o amor e os seus enigmas.
Pensando apenas em produções recentes, não podemos deixar de aproximar Zoe de Ex Machina (2014), filme de Alex Garland com Alicia Vikander no papel central, lembrando também o relançamento destas temáticas no universo televisivo através da série Westworld, criada em 2016 por Jonathan Nolan e Lisa Joy. Em cena está, afinal, um velho assombramento, de uma só vez técnico e filosófico: poderão os produtos da ciência sobrepor-se ao poder dos seus criadores humanos?
Provavelmente, em Iguais, o trabalho de Doremus era mais controlado e homogéneo. Seja como for, perpassa por Zoe uma ambivalência com tanto de fascinante como de inquietante: os corpos, gestos e comportamentos dos robots surgem como um espelho cristalino da própria condição humana. Faz medo. E apela ao romantismo que ainda saibamos celebrar.

quinta-feira, setembro 20, 2018

Da vida e morte dos pandas

Quando nasce um panda, normalmente nascem dois... E, a maior parte das vezes, só um sobrevive: a mãe tem dificuldade em alimentar os dois recém-nascidos, pelo que tende a descurar um deles, desse modo garantindo a sobrevivência do outro. No Chengdu Research Base of Giant Panda Breeding, na província de Sichuan, na China, essa é uma realidade bem conhecida — e que os cientistas e tratadores tentam contrariar. De tal modo que se ocupam das mães que têm dois gémeos, trocando regularmente os seus rebentos (cerca de dez vezes por dia), de modo a que ambos possam resistir. É um admirável labor de sofisticação científica, dedicação humana e água com mel... Podemos descobri-lo através de um video divulgado pela BBC, com narração de David Attenborough.

Marceline Loridan-Ivens (1928 - 2018)

Cineasta e escritora, Marceline Loridan-Ivens reflecte na sua obra as memórias pessoais do Holocausto — este obituário foi publicado no Diário de Notícias (19 Setembro), com o título 'Marceline Loridan-Ivens: morte de uma resistente'.

Marceline Loridan-Ivens faleceu no dia 18 de Setembro, em Paris, contava 90 anos. No domínio cinematográfico, o seu nome é, antes do mais, indissociável daquele que foi o seu segundo marido, o holandês Joris Ivens (1898-1989), figura tutelar da história do documentarismo. Com ele realizou títulos tão marcantes como Le 17 Parallèle (1968), sobre os habitantes da “zona desmilitarizada” durante a guerra do Vietname e os seus modos de sobrevivência face aos bombardeamentos do exército dos EUA, ou Comment Yukong Déplaça les Montagnes, uma série de 12 filmes sobre a Revolução Cultural na China de Mao Tsé-Tung, rodados entre 1972 e 1976.
Num plano mais pessoal, realizou La Petite Prairie aux Bouleaux (2003), com Anouk Aimée, sobre uma francesa nascida numa família judaica, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz. A evocação do Holocausto envolve, afinal, uma dimensão eminentemente auto-biográfica, uma vez que Marceline Loridan-Ivens sobreviveu, ela própria, ao encarceramento nos campos de Auschwitz, Bergen-Belsen e Theresienstadt.
Nasceu em Épinal, a 19 de Março de 1928, de seu nome Marceline Rozenberg, no seio de uma família judaica proveniente da Polónia. Aderiu à Resistência, na sequência da entrada dos nazis em território francês. Juntamente com o pai, foi capturada pela Gestapo, em 1943, tendo sido enviada para Auschwitz a 13 de Abril de 1944, no mesmo comboio em que seguiu Simone Veil (1927-2017). Recuperou a liberdade a 10 de Maio de 1945, quando o exército soviético chegou a Theresienstadt. Numa entrevista recente, resumiu a sua experiência, dizendo que “não sabíamos se íamos sair pela chaminé ou pela porta”.
Marceline Loridan-Ivens surge, ela própria, no filme Chronique d’un Été (1961), realizado por Jean Rouch e Edgar Morin, num célebre monólogo, na Praça da Concórdia, em Paris, evocando as deportações durante a Segunda Guerra Mundial. Esse é um título marcante do período de afirmação estética e social da Nova Vaga francesa.
Tratou as memórias dos campos da morte em dois livros, ambos escritos em colaboração com a jornalista e ensaísta Judith Perrignon. O primeiro, Et tu n’est pas revenu, surgiu em 2015, tendo-lhe valido o Prémio Jean-Jacques Rousseau; o segundo, L’amour après, foi publicado no passado mês de Janeiro — esta entrevista, no programa “La Grande Librairie”, da France 5, aconteceu por essa altura (legendas disponíveis em várias línguas, incluindo português).


>>> Obituário no jornal Le Monde.

quarta-feira, setembro 19, 2018

terça-feira, setembro 18, 2018

Burt Reynolds não foi “famoso”

Quem se lembra de Burt Reynolds? Ou melhor, que memórias passámos a cultivar, que memórias optamos por silenciar? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Setembro).

Há dias, no seu programa The Late Show (SIC Radical), Stephen Colbert proferiu algumas breves palavras de homenagem a Burt Reynolds (falecido a 6 de Setembro, contava 82 anos), dizendo que tinha a sensação de que estávamos perante “o fim de uma época”.
Não era um banal elogio artístico. Afinal de contas, convenhamos que, a par de filmes admiráveis como Fim de Semana Alucinante (1972), de John Boorman, ou Jogos de Prazer (1997), de Paul Thomas Anderson, há muitos títulos irrelevantes entre os mais de 150 em que Reynolds participou. Nem se tratava de reduzir o actor às suas proezas nas bilheteiras, mesmo se Colbert não se esqueceu de sublinhar que ele foi um dos líderes do mercado cinematográfico ao longo da década de 70.
O que importava lembrar era o facto de Reynolds corresponder a um modelo de estrela que nada (mas mesmo nada) tem a ver com os novos conceitos televisivos de “celebridade”, esses conceitos de celebração da superficialidade e do fútil que, entre nós, pertencem aos chamados “famosos”.
A questão não está em demonizarmos a televisão e as suas potencialidades expressivas — aliás, uma parte significativa da filmografia de Reynolds é de raiz televisiva. Acontece que ele não foi exactamente uma figura que se distinguisse por aparecer em eventos “sociais”, copo de whisky na mão, proclamando um qualquer soundbyte sem pés na cabeça para ter direito a 15 segundos de presença televisiva. Bem pelo contrário: melhor ou pior, através de filmes muito bons ou muito maus, Reynolds foi um ser do ecrã da sala escura, esse ecrã vocacionada para ser maior que a vida.
Escusado será dizer que o desabafo de Colbert é também revelador de um estado de coisas visceralmente americano. Vive-se um tempo de pingue-pongue de frases curtas e ideias escassas de que os “tweets” de Donald Trump se tornaram a matriz de linguagem, o palco universal e o enquadramento ideológico. Dir-se-á que Reynolds era um homem de sensibilidade conservadora... E depois? Será preciso acrescentar que não é isso que aqui está em causa, mas sim o poder enfático de ser imagem sem deixar de ser humano.

segunda-feira, setembro 17, 2018

Maupassant & Ophüls

Mais clássicos franceses a marcar a exibição do Verão/Outono: esta semana, o o destaque vai para Max Ophüls — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Setembro), com o título 'Maupassant reinventado pelo cinema'.

As reposições de filmes clássicos franceses constituem um dos principais acontecimentos deste Verão cinematográfico (até 10 de Outubro, em Lisboa e Porto, respectivamente no Espaço Nimas e no Teatro Campo Alegre). Assim se prova, afinal, que a memória é um valor actual, não uma acumulação de referências pitorescas para evocar em efemérides mais ou menos estereotipadas...
Entre os títulos que surgem esta semana, O Prazer (1952), de Max Ophüls (1902-1957), pode servir de matriz de um cinema clássico cujos ecos persistem no imaginário cinéfilo — e desde logo porque mestres como Ophüls foram modelos fundamentais, da ética à estética, para os cineastas que, a partir de finais de 1959, protagonizaram as convulsões criativas da Nouvelle Vague.
Maupassant
Estamos perante um cinema apaixonado pela riqueza da palavra escrita e, nessa medida, pela possibilidade de transfigurar as matérias literárias em narrativas cinematográficas. Dito de outro modo: este é um painel de três histórias inspiradas em Guy de Maupassant (1850-1993). Numa delas, deparamos com uma misteriosa figura mascarada que se diverte, até à mais completa exaustão, num salão de dança; noutra seguimos as atribulações desconcertantes, à beira do burlesco, das mulheres de um bordel que vão ao campo assistir à primeira comunhão da sobrinha da sua patroa; enfim, na derradeira história acompanhamos a relação de um pintor com a sua modelo, um processo afectivo em que a felicidade parece conter as premissas da tragédia.
A “chave” de tudo isto está, obviamente, no título. Ophüls encena o prazer, sugerindo a sua dimensão mais carnal, ao mesmo tempo que não exclui as atribulações morais com que os humanos o encaram, avaliam ou encenam. Este é um objecto exemplar de um cinema que acreditava na psicologia, ao mesmo tempo que discutia incessantemente as suas certezas. Isto sem esquecer que encontramos aqui uma galeria de actores de um cinema francês que tinha (também) o seu “star system” — entre eles, estão Jean Gabin, Danielle Darrieux, Simone Simon e Madeleine Renaud. Tempos outros, reposições do nosso presente.

domingo, setembro 16, 2018

The Twilight Sad anunciam novo álbum

Vem aí o quinto álbum de estúdio de The Twilight Sad (o anterior, Nobody Wants to Be Here and Nobody Wants to Leave, está a fazer quatro anos). Enfim, é uma maneira de dizer: a banda escocesa já anunciou It Won/t Be Like This All the Time, embora o respectivo lançamento esteja agendado apenas 18 de Janeiro de 2019. Uma das canções já era conhecida: I/m Not Here [missing face], objecto exemplar do rock alternativo, estranhamente dançante, destes escoceses sem preconceitos — agora tem direito a teledisco, com realização de Brendan Jay Smith.

2 filmes portugueses

Dois filmes portugueses arriscam desafiar convenções e lugares-comuns: Mariphasa e O Espectador Espantado chegaram esta semana às salas escuras — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Setembro), com o título 'O experimentalismo do cinema português'.

Experimentalismo? A palavra, por vezes, suscita algumas suspeitas. E com razão, convenhamos. Nos tempos que correm, sob a evidência (e a ostentação) do experimental esconde-se, não poucas vezes, um vazio de ideias e um formalismo sem destino.
Dois filmes portugueses que, esta semana, chegaram às salas escuras justificam o adjectivo experimental. São eles: Mariphasa, de Sandro Aguilar, e O Espectador Espantado, de Edgar Pêra. Provavelmente, ambos suscitam uma dúvida metódica: será que as suas opções experimentais cumpriram totalmente os seus desígnios? Seja como for, importa destacar o mais significativo. A saber: Aguilar e Pêra são cineastas que valorizam o risco estético, nessa medida praticando a arte salutar de desafiar os hábitos e crenças dos próprios espectadores.
No caso de Mariphasa, o título alude a uma planta do Tibete que possuiria míticos poderes curativos. Em todo o caso, trata-se de uma referência puramente metafórica. Isto porque a acção decorre numa zona industrial desactivada (aparentemente na Grande Lisboa) em que se cruzam algumas personagens marcadas por uma deriva que tem tanto de físico como de emocional. É pena que o filme não trabalhe mais na definição dessas personagens, já que a ausência de detalhes sobre as suas histórias particulares empobrece a nossa relação com as suas acções. Seja como for, este é um objecto de cinema apostado em valorizar as imagens (e sons!) como elementos de um ambiente realista em que, instante a instante, pressentimos a iminência de alguma tragédia.
O Espectador Espantado foi revelado há cerca de dois anos e meio no Festival de Roterdão. Tal como outras experiências do seu realizador, é um filme que se oferece como um documentário para se transfigurar num ensaio surreal sobre o seu tema central. Deparamos, assim, com uma série de depoimentos de pessoas ligadas ao cinema (da produção à escrita), comentando esse “espanto” que faz do cinema uma arte de reprodução, e também de delírio, da realidade à nossa volta. O que é isso de ficarmos maravilhados perante a projecção de um filme? Será que a nova idade digital nos está a fazer perder o gosto de olhar para um ecrã de cinema? Talvez faltem respostas concisas, mas há que reconhecer que O Espectador Espantado não é uma tese, antes uma deambulação em torno do prazer, exuberante ou secreto, da nossa relação com os filmes.
Da presença simultânea destes dois títulos no mercado fica uma certeza: há um cinema português que, com resultados mais ou menos conseguidos, se demarca das convenções e lugares-comuns das telenovelas. Hoje, mais do que nunca, esse é um fundamental valor artístico. E também uma forma criativa de entender o espectador.

sábado, setembro 15, 2018

Lana Del Rey em Super 8

Misteriosa oração amorosa [... kiss the sky and whisper to Jesus], eis como talvez possamos definir a nova canção de Lana Del Rey: Mariners Apartment Complex poderá ser a primeira antecipação de um novo álbum que, em qualquer caso, a cantora prevê apenas para 2019. O teledisco, evocando as singularidades da película Super 8, a preto e branco, tem assinatura de Chuck Grant (nome próprio: Caroline), irmã de Elizabeth (=Lana).

 You took my sadness out of context
At the Mariners apartment complex
I ain't no candle in the wind

I'm the board, the lightning, the thunder
Kind of girl who's gonna make you wonder
Who you are and who you've been

And who I've been is with you on these beaches
Your Venice bitch, your die-hard, your weakness
Maybe I could save you from your sins

So, kiss the sky and whisper to Jesus
My, my, my, you found this, you need this
Take a deep breath, baby, let me in

You lose your way, just take my hand
You're lost at sea, then I'll command your boat to me again
Don't look too far, right where you are, that's where I am
I'm your man
I'm your man

They mistook my kindness for weakness
I fucked up, I know that, but Jesus
Can't a girl just do the best she can?

Catch a wave and take in the sweetness
Think about it, the darkness, the deepness
All the things that make me who I am

And who I am is a big time believer
That people can change, but you don't have to leave her
When everyone's talking, you can make a stand

'Cause even in the dark I feel your resistance
You can see my heart burning in the distance
Baby, baby, baby, I'm your man (yeah)

You lose your way, just take my hand
You're lost at sea, then I'll command your boat to me again
Don't look too far, right where you are, that's where I am
I'm your man
I'm your man

Catch a wave and take in the sweetness
Take in the sweetness
You want this, you need this
Are you ready for it?
[...]

A IMAGEM: José Bandeira, 2018

JOSÉ BANDEIRA
'O Facebook está preparado'
DN [15-09-18]

A IMAGEM: Craig F. Walker, 2018

CRAIG F. WALKER
Boston / The Boston Globe
7 Agosto 2018

quarta-feira, setembro 12, 2018

"Suspirium" de "Suspiria"

Suspiria é a nova versão de... Suspiria: o original data de 1977 e tem assinatura de Dario Argento; agora, Luca Guadagnino propõe uma releitura do universo de terror de Argento (anuncia-se como um momento forte desta rentrée), mobilizando um elenco que inclui Dakota Johnson, Tilda Swinton e, last but not least, Ingrid Caven. Mais ainda: para compor a banda sonora convidou Thom Yorke — aqui está um primeiro e belíssimo tema, com o título adequado de Suspirium.

This is a waltz thinking
About our bodies
What they mean
For our salvation
With only the clothes that
We stand up in
Just the ground
On which we stand

Is the darkness
Ours to take?
Bathed in lightness
Bathed in heat

All is well
As long as we keep spinning
Here and now
Desert behind a wall

Only old songs and laughter we do
All forgiven, always and never been true

When I arrive here
You come and find me
Or in a crowd
Be one of them

Are you lonesome
Right beside her
No tomorrow's
At peace

terça-feira, setembro 11, 2018

O reverso dos GAFA

I. A manchete do Libération com data de 12 de Setembro dá conta de um drama visceralmente cultural. Ou seja: "Os GAFA não têm todos os direitos". A saber: Google, Apple, Facebook e Amazon podem e devem ser compelidos a respeitar (entenda-se: pagar) os direitos pelos conteúdos que colocam nas suas redes. A notícia surge, aliás, a pretexto de uma reunião de euro-deputados que deverão "pronunciar-se sobre uma directiva que visa compelir os gigantes da Net a pagar pelos conteúdos artísticos e editoriais que utilizam."

II. Curiosa mudança de paradigma ideológico, reduzindo a pó toda uma mitologia mediática em que (quase) todos se enredaram não há muitos anos. Assim, depois da cega celebração dos novos circuitos virtuais — capazes de colocar qualquer ser humano em contacto com qualquer outro ser humano, no interior de uma democracia abençoada por um sopro divino... —, descemos à terra (literalmente), reconhecendo que é preciso pensar a circulação de informação, não como um fenómeno de intocável carisma, antes como um universo de valores e escolhas, quer dizer, um novo sistema cultural e económico.

III. Não terá sido, obviamente, por acaso que, na altura do seu lançamento, o filme A Rede Social (2010), de David Fincher, com argumento de Aaron Sorkin, foi algumas vezes descartado como um objecto pretensioso, apenas empenhado em denegrir Mark Zuckerberg e o seu admirável mundo novo de polegares ao alto — afinal de contas, Jesse Eisenberg nem era assim tão parecido com o criador do Facebook... Agora, os GAFA já não são vistos como os sacerdotes do paraíso virtual, antes surgindo nas assembleias onde se discutem — tentando defender — os legítimos direitos dos cidadãos. Que isso aconteça, eis uma cruel derrota: os legisladores surgem porque a própria dinâmica social falhou. Na verdade, as chamadas redes sociais esvaziaram a dinâmica de pensamento e a capacidade de discussão do próprio espaço social, esse espaço onde não há apenas polegares, mas pessoas inteiras. 
[ 2010 ]

A IMAGEM: Haruki Horikawa, 2018

HARUKI HORIKAWA
Campanha de Linda Farrow
Outono/Inverno 2018

Cinema, futebol e espaço social

Mesmo através de um qualquer “filme-acontecimento”, a presença social do cinema foi diminuindo face ao poder mediático do futebol: eis uma grande questão cultural — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 Setembro).

Permito-me colocar ao leitor uma pergunta de algibeira. E não por qualquer razão banalmente enciclopédica: falar ou escrever sobre cinema não tem nada a ver com saber muitos nomes de cor... Trata-se apenas de propor uma breve reflexão sobre a nossa visão social do cinema. A pergunta é: o que liga os filmes que a seguir refiro?
O primeiro chama-se Crooklyn, foi produzido em 1994, e propõe um retrato amargo e doce de uma família afro-americana em Brooklyn, Nova Iorque, na primeira metade da década de 70.
O segundo, Girl 6 (1996), observa de forma contundente, em tom de comédia negra, a evolução dos usos e costumes sexuais, tendo como personagem central uma jovem que trabalha numa rede de chamadas “eróticas”; nele encontramos nomes tão famosos como Prince (autor e intérprete das canções do filme) e Madonna (num pequeno papel).
Vem depois He Got Game (1998), uma das obras-primas do cinema americano do final do século XX, centrada na personagem de um afro-americano, interpretado por Denzel Washington, que está preso e tenta convencer o filho a seguir a sua vida universitária sem deixar de jogar basquetebol.
Enfim, citemos Bamboozled (2000), sátira subtil e implacável sobre as formas de manipulação das figuras afro-americanas em alguns programas da televisão dos EUA.
O leitor terá encontrado o fundamental elo de ligação entre tais títulos: foram, todos eles, realizados por Spike Lee, cineasta que continua a reflectir de forma fascinante sobre a complexidade das relações entre brancos e negros na América contemporânea — veja-se o seu novo e prodigioso BlacKkKlansman: O Infiltrado (há dias lançado nas salas portuguesas).


O certo é que há outra resposta possível à minha pergunta inicial. Para além de estarmos perante trabalhos de realização de Spike Lee, os quatro primeiros filmes partilham uma bizarra condição: não foram lançados nas salas portuguesas. Aliás, a lista de inéditos de Lee podia prolongar-se com mais alguns títulos, incluindo Chi-Raq (2015), drama musical sobre gangs de Chicago que usa matrizes da tragédia grega como ponto de partida.
Há outra maneira de dizer isto: apesar de BlacKkKlansman ser um invulgar objecto de cinema que nos convoca para os dramas actuais dos EUA, sob a presidência de Donald Trump, daí não resulta que, no nosso contexto social, o filme adquira a evidência mediática de que desfrutam as convulsões do futebol.
E ainda outra: na nossa sociedade, o valor do cinema (como objecto social, precisamente) tem sido metodicamente secundarizado, para não dizer anulado. Eis um estado de coisas que, por certo, implica muitos e complexos factores, desde as opções de fundo do mercado cinematográfico até aos comportamentos específicos dos espectadores.
Uma coisa é certa: mesmo através de um objecto como BlacKkKlansman, é cada vez mais escassa a possibilidade de um filme ser motor de uma qualquer reflexão sobre o mundo em que vivemos. Não poucas vezes, a chamada de atenção para os dramas culturais desta conjuntura atrai a ideia simplista segundo a qual o crítico de cinema é aquele que “espera” que os outros se reconheçam nos mesmos filmes que ele celebra...
Na verdade, tal preconceito é, também ele, produto de uma dinâmica social em que a agitação de umas eleições futebolísticas possui um poder mediático mais forte que o labor criativo de um qualquer cineasta, Spike Lee ou qualquer outro. Escusado será dizer que não é possível transformar tudo isso sem pensar sobre o vasto mundo das imagens, o que nele se expõe e também o que nele se recalca.

Dudamel & Schultz

Gustavo Dudamel
[Foto: Mark Hanauer]
Mahler Chamber Orchestra
Gustavo Dudamel Maestro
Golda Schultz Soprano

Franz Schubert

Sinfonia n.º 3, em Ré maior, D. 200

Gustav Mahler
Sinfonia n.º 4, em Sol maior

* Sexta, 7 setembro 2018 (20h00)

Noite de glória musical, na sexta-feira, dia 7, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian. Pelo reencontro com Gustavo Dudamel? Sem dúvida. O actual director da Los Angeles Philarmonic será uma star — e muito merecidamente. Mas não tem pose de vedeta, e não apenas no sentido mais imediato ou imediatista. Escutar a música que ele nos traz, neste caso com a Mahler Chamber Orchestra (fundada por Claudio Abbado em 1997), envolve sempre algo de primordial e revelador: estamos, de facto, a assistir a um singularíssimo processo de descoberta ou redescoberta das obras que nos apresenta.
E não deixa de ser curioso voltar a referir o facto de Dudamel dispensar a pauta enquanto maestro. Não porque se trate de uma qualquer ostentação de "virtuosismo"... Nada disso: ele coloca-se na posição do primeiro espectador, o primeiro a procurar escutar na orquestra algo que se enraíza numa paisagem única, algures entre a sua memória das notas e os desejos originais do compositor.
Golda Schultz
Neste caso, como Rui Cabral Lopes refere no programa de sala do concerto, tratava-se de apresentar duas obras, separadas por 85 anos, mas ligadas por um "elo inequívoco", através do "mesmo núcleo instrumental de madeiras, metais e cordas". Dir-se-ia que as ousadias de Schubert, como pioneiro do romantismo, são revistas, decompostas e recompostas, eventualmente pulverizadas, pelo labor de Mahler — hipótese a considerar: o belíssimo 3º andamento desta Sinfonia nº 4 de Mahler [Ruhevoll (Tranquilo)] talvez possa figurar entre as peças que, simbolicamente, desenham uma fronteira conceptual entre os séculos XIX e XX, no limite, anulando-a.
Seja como for, importa não esquecer a genuína revelação que foi (para os espectadores portugueses) a presença de Golda Schultz, soprano sul-africana: a sua interpretação de 'Das himmlische Leben', no 4º andamento [Sehr behaglich (Muito agradável)], foi um pequeno prodígio de subtileza e emoções, expondo o misto de carnalidade e abstracção que habita a pulsão transcendental do universo mahleriano.
Como exemplo dos requintados dotes de Schultz, ei-la, com a Münchner Rundfunkorchester, dirigida por Ivan Repušic, interpretando uma ária (Chi il bel sogno di Doretta), da ópera La Rondine, de Giacomo Puccini.

segunda-feira, setembro 10, 2018

Queer Lisboa edita "O vírus-cinema"

A 22ª edição do Queer Lisboa vai decorrer entre 14 e 22 de Setembro. Prolongando a sua política de edições, o festival propõe, este ano, um volume intitulado O vírus-cinema: cinema queer e VIH/sida. Trata-se de "uma edição da Associação Cultural Janela Indiscreta, com coordenação de António Fernando Cascais e João Ferreira, que reúne um conjunto de ensaios onde diferentes personalidades convidadas — de médicos a ativistas, de programadores a críticos de cinema —, escrevem cada uma sobre um filme que aborda a temática do VIH/sida, oferecendo diferentes perspetivas sobre os desafios que a epidemia representou para o cinema."
O lançamento está agendado para sábado, dia 15, às 16h30, no cinema São Jorge.

Concerto surpresa de Paul McCartney

O cenário: Grand Central Station, em Nova Iorque. Com memórias de outras noites: começou, adequadamente, com A Hard Day's Night... Na sexta-feira, 7 de Setembro, Paul McCartney deu um concerto surpresa, celebrando o lançamento do seu 17º álbum a solo, Egypt Station. O evento, transmitido em directo no seu canal do YouTube, cruzou as novas canções com memórias dos Beatles e Wings — nostalgia, ma non troppo, aqui na versão integral.

domingo, setembro 09, 2018

Jessica Chastain e os índios

Jessica Chastain interpreta Caroline Weldon, uma mulher que retratou, em pintura, os índios Sioux. Ou como o cinema reencontra o valor crítico do “western” moderno — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Setembro).

Um dos efeitos do movimento #MeToo no campo do cinema tem sido o reforço de uma reivindicação feminina, de uma só vez profissional e artística. A saber: na percepção da história (e das histórias que os filmes narram), é importante que as personagens de mulheres sejam realmente consistentes e contrastadas, porventura contraditórias, evitando clichés dramáticos ou morais.
Jessica Chastain tem sido uma das vozes mais militantes nesse domínio e não há dúvida que o seu sofisticado talento tem estado ao serviço de personagens genuinamente complexas. Para nos ficarmos por um único exemplo, lembremos esse filme admirável que é Molly’s Game/Jogo da Alta Roda (2017), retrato íntimo de uma promotora de jogos privados de poker que marcou a estreia na realização do grande Aaron Sorkin [trailer].


Agora, graças a Mulher que Segue à Frente, produção americana dirigida pela inglesa Susanna White, Chastain encontra outra admirável figura histórica: Caroline Weldon (1844-1921), pintora americana de origem suíça que, além de ter militado pelos direitos dos índios Sioux, retratou o lendário chefe Touro Sentado [eis o respectivo quadro].


O filme terá como limitação maior uma certa indecisão de tom. Por um lado, apresenta-se como uma crónica romanesca, não romântica, sobre a convivência de Weldon e Touro Sentado, este interpretado por Michael Greyeyes (actor canadiano cuja árvore genealógica remonta aos índios Cree); por outro lado, Mulher que Segue à Frente reflecte uma época de grandes convulsões em que, de forma mais ou menos compulsiva, o governo norte-americano tentava colocar vários tribos em reservas.


O filme torna-se francamente esquemático na encenação da cavalaria dos EUA, desde logo na caracterização do coronel Silas Grove, interpretado por um Sam Rockwell à deriva. Seja como for, encontramos aqui um espírito, de uma só vez cinematográfico e histórico, que nos remete para a herança de alguns “westerns” críticos das décadas de 1960/70, empenhados, precisamente, em superar as visões mais esquemáticas da expansão para Oeste e, em particular, da violência entre brancos e índios.
Podemos recordar, assim, títulos como A Quadrilha Selvagem (1969), de Sam Peckinpah, ou O Pequeno Grande Homem (1970), de Arthur Penn. E se é verdade que o trabalho de Susanna White nunca se aproxima da excelência de tais referências, não é menos verdade que Mulher que Segue à Frente consegue demarcar-se do “cinema de Verão” (?) que se esgota nos lugares-comuns de super-heróis e afins. Desta vez, trata-se mesmo de discutir as componentes do heroísmo e o valor das imagens — afinal de contas, Caroline Weldon era uma mulher que acreditava nesse valor.

O lugar de Trump [citação]

>>> Trump existe num lugar doce entre a suave e contraditória atitude dos liberais americanos e o ruidoso racismo dos que gritam "preto" e exigem que os latinos voltem para o México, tudo isso encaixado num sistema económico que não consegue resolver o brutal desequilíbrio entre o 1% do topo e aqueles que se matam a trabalhar para pagar as contas. Trump coloca-se aí mesmo, no meio da confusão e das falsas promessas, com um esgar sorridente.

'Don’t Let the Loud Bigots Distract You. America’s Real Problem With Race Cuts Far Deeper'
in Time (06-09-2018)

Uma conversa entre
Bob Woodward e Donald Trump

O novo livro de Bob Woodward aborda a presença de Donald Trump na Casa Branca como um cenário de "medo". Intitula-se, aliás, Fear e anuncia-se como um testemunho, amplamente documentado, sobre um modo de (não) fazer política que está contaminar toda a vida interna dos EUA e, mais do que isso, as suas relações no plano internacional da política e da economia.
O lançamento de Fear está agendado para 11 de Setembro. Mas mesmo antes da chegada do livro, e para além de alguns perturbantes conteúdos já divulgados [The Washington Post], há um documento espantosamente revelador sobre o trabalho de Woodward e, mais especificamente, sobre o modus operandi de Trump e a sua perversa (in)capacidade de diálogo — ou até de simples reconhecimento do outro.
Assim, no passado dia 14 de Agosto, Woodward falou ao telefone com Trump no sentido de lhe explicar que, apesar de todas as suas tentativas, não conseguiu acesso ao Presidente no âmbito do seu trabalho de investigação para o livro. A conversa foi gravada — com autorização de Trump — e fica como um retrato breve, mas contundente, de uma personalidade política que funciona numa delirante matriz de continuada denegação.

sábado, setembro 08, 2018

Netflix triunfa no Festival de Veneza

No canto inferior direito do cartaz do novo filme do mexicano Alfonso Cuáron, Roma, pode ler-se: "Brevemente em salas seleccionadas e na Netflix". Que salas? Como é que a plataforma digital vai gerir a exposição pública de um objecto tão especial que ostenta a sua chancela de produção?
Tais dúvidas (mesmo que atribuamos um sentido eminentemente positivo à palavra dúvidas) surgem agora multiplicadas por uma proeza muito especial: Roma arrebatou o Leão de Ouro da 75ª edição do Festival de Veneza. Isto poucos meses passados sobre o conflito entre a Netflix e a direcção do Festival de Cannes, conflito motivado pelo facto de a plataforma não querer dar garantias prévias de exibir os seus filmes nas salas escuras — de tal modo que a Netflix, pura e simplesmente, retirou-se da última edição do certame da Côte d'Azur (isto, recorde-se, depois de uma polémica presença na edição de 2017).
Uma coisa é certa: todas estas peripécias são sintomáticas das alterações em curso nos modos de difusão dos objectos cinematográficos. E se é verdade que não faz sentido demonizar as imensas possibilidades de acesso digital aos filmes, hoje em dia disponíveis, não será menos verdade que, mais do que nunca, as entidades que gerem as salas devem reflectir cuidadosamente sobre o que está a acontecer.
Entretanto, vale a pena acrescentar que outra produção da Netflix, The Ballad of Buster Scruggs, dos irmãos Coen, também foi distinguida em Veneza, com o prémio de argumento — palmarés completo disponível no site do festival.

Burt Reynolds (1936 - 2018)

Foi uma estrela capaz de se expor, sem drama, com ironia, como anti-estrela: falecido no dia 6 de Setembro, contava 82 anos, Burt Reynolds fica como símbolo de uma idade do cinema em que os heróis digitais ainda não existiam — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Setembro), com o título 'Elogio de Burt Reynolds'.

Não vale a pena cedermos a lirismos fáceis: numa filmografia de mais de centena e meia de títulos, como é a de Burt Reynolds (1936-2018), são muitos os títulos medíocres e irrelevantes que podemos encontrar. Perante a notícia do seu falecimento, evitemos, por isso, qualquer processo de “santificação” artística.
Acontece que o actor que, como todas as biografias recordam, foi também um símbolo triunfante de um certo imaginário sexual, participou em alguns filmes cuja valor histórico e estético é inestimável. Exemplo? O insólito Vendedor de Sonhos (1976), de Peter Bogdanovich, uma evocação amarga e doce dos pioneiros da indústria cinematográfica (cujo título original, Nickleodeon, remete, justamente para as primeiras salas escuras). Num certo sentido, Reynolds expunha-se aí num perverso espelho crítico: tradicionalmente menosprezado pelo jornalismo “sério”, ele interpretava um actor-vedeta com um ego capaz de destruir tudo à sua volta...
Surpreendentemente ou não, casos houve em que Reynolds se distinguiu por uma presença de invulgar subtileza emocional. Desde logo, nos seus títulos mais conhecidos, os admiráveis Fim de Semana Alucinante (1972), de John Boorman, O Jogador (1992), de Robert Altman, ou Jogos de Prazer (1997), de Paul Thomas Anderson — em todos eles, dir-se-ia que as suas personagens são clichés que ele vira do avesso, expondo as grandezas, misérias e contradições do factor humano.
Para a história, Jogos de Prazer ficará, por certo, como o centro irradiante da sua filmografia — até porque, convém lembrar, a sua interpretação de um realizador de filmes pornográficos lhe valeu um Globo de Ouro e uma nomeação para o Oscar de melhor actor secundário.
Mas vale a pena ver ou rever filmes como: 100 Armas ao Sol (1969), de Tom Gries, exemplo menor mas simbolicamente muito importante das transformações do “western” ao longo das décadas de 60/70; A Cidade dos Anjos (1975), de Robert Aldrich, belo e muito esquecido policial romântico [título original: Hustle] em que Reynolds contracenava com Catherine Deneuve (numa das suas poucas incursões na produção de Hollywood); ou ainda Amar de Novo (1979), de Alan J. Pakula, exemplo modelar de um melodrama, tradicional na sua organização, mas empenhado em compreender as novas relações homens/mulheres.
Reynolds começou na televisão, em finais dos anos 50, num momento de crise: a idade de ouro de Hollywood estava a chegar ao fim. O certo é que a sua capacidade de criar um “look”, não deixando de arriscar as mais inesperadas variações, lhe confere uma intocável aura de classicismo. Em dias de tão pobre cinefilia, há memórias que não nos podemos dar ao luxo de menosprezar.

>>> Memória de Burt Reynolds na CNN.


>>> Obituário em The Washington Post.

sexta-feira, setembro 07, 2018

Jennifer Lawrence em pose de sereia

A publicidade é um espaço de continuada e sedutora promiscuidade estética. O mais recente anúncio da Dior, ao perfume Joy, consegue envolver Jennifer Lawrence, o realizador Francis Lawrence (da saga The Hunger Games) e o clássico She's a Rainbow, dos Rolling Stones — sem esquecer, claro, que Joy é também o título de um dos melhores filmes da actriz (de 2015, sob a direcção de David O. Russell) e que a direcção fotográfica do anúncio pertence ao tri-oscarizado Emmanuel Lubezki. Ou como a mitologia das sereias resiste nas convulsões deste século pouco mitológico.

quarta-feira, setembro 05, 2018

O cisne de Blood Orange

Devonté Hynes, inglês, compositor, cantor, criador multifacetado, aí está — com o seu nome artístico Blood Orange. Ao quarto álbum, Negro Swan, deambulando num tom de reflexão intimista que não exclui, antes parece potenciar, as suas muitas experimentações realmente multi-instrumentais. Cartão de visita: Saint, com realização de... Devonté Haynes.

Calvin Klein — uma ideia de movimento

Não apenas fabricar um anúncio através de muitos planos breves para criar uma sensação banal de "aceleração". Antes trabalhar, não apenas os movimentos dos corpos, mas uma ideia de movimento. Como se o anúncio fosse, ele próprio, uma ilustração efémera de uma transcendência possível. Assim é o novo video Calvin Klein, organizado, justamente, a partir da noção de performance — fotografia e realização de Jacob Sutton.

segunda-feira, setembro 03, 2018

Spike Lee vs. Sporting

Spike Lee e John David Washington
— realizador e actor principal de BlacKkKlansman
O novo e admirável filme de Spike Lee está quase a chegar às salas. Mas são as eleições do Sporting que dominam a actualidade mediática: o que é que isso diz sobre a nossa vida cultural? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Setembro), com o título 'Spike Lee não será presidente do Sporting'.

Eis um facto objectivo: as imagens directa ou indirectamente relacionadas com as eleições para a presidência do Sporting têm dominado o espaço público durante as últimas semanas. E uma pergunta suscitada por tal facto: o que é que tal dominação diz sobre a nossa vida cultural?
Sem querer magoar a sensibilidade de ninguém, devo esclarecer uma dúvida que pressinto em alguns leitores. Ou seja: o que é que as eleições do Sporting têm a ver com a nossa vida cultural?
Pois bem, é esse o meu ponto: hoje em dia, na sociedade portuguesa, não há nada mais cultural do que o mundo do futebol. Há mesmo um défice de genuínas reflexões sobre tal dimensão cultural. Isto porque importa não confundir a dinâmica cultural com a performance de bilheteira do filme A ou B, ou o reconhecimento internacional do escritor C ou D... A cultura não é uma colecção de marcas estéticas ou índices de mercado, mas sim um sistema de valores que marca toda a nossa vida colectiva.
Dito de outro modo: o valor cultural dominante na sociedade portuguesa é o futebol. Por ele passam elaboradas noções de justiça, consistência moral e definição identitária. Se se gastam horas, dias, semanas a avaliar um penalty bem ou mal marcado, isso é um acontecimento visceralmente cultural. Porquê? Porque isso privilegia umas imagens e não outras, favorece determinadas formas de pensar e não outras, enfim, transforma o futebol em padrão universal de medida de todas as relações humanas. Se isto não é a cultura, onde é que está a cultura?
Não é a vida do Sporting que está em causa. Aliás, estas considerações teriam a mesma pertinência (ou falta dela, se o leitor assim o entender) a propósito de uma infinidade de peripécias protagonizadas pelo F. C. Porto, o Benfica ou qualquer outro clube. Escusado será lembrar que também não se trata de escamotear o prazer de ver e admirar esse jogo fascinante que é o futebol.
Eis outro facto objectivo: no dia 6 de Setembro (ante-véspera das eleições do Sporting) surgirá nas salas portuguesas BlacKkKlansman, de Spike Lee, por certo um dos filmes mais importantes feitos neste século XXI nos EUA, quer o encaremos no plano específico da linguagem cinematográfica, quer consideremos as suas dramáticas propostas de reflexão sobre a América de Donald Trump [trailer aqui em baixo]. E uma outra pergunta: a expectativa mediática em torno desse filme tem alguma comparação com a presença das eleições do Sporting no nosso quotidiano?


Infelizmente, tornou-se difícil lidar com estas questões na sociedade portuguesa, quanto mais não seja porque há quem considere que colocá-las significa demonizar os jornalistas que trabalham sobre temas futebolísticos. No fundo, tal dificuldade é, também ela, cultural: na verdade, o que está em causa é apenas o gosto de nos abrirmos à pluralidade do mundo.

domingo, setembro 02, 2018

Cinemateca acolhe Godard


>>> A verdadeira condição do homem: pensar com as suas mãos.

Que os cínicos espalhem o seu veneno — o certo é que o novo filme de Jean-Luc Godard, O Livro de Imagem (estreado em Maio, em Cannes) encheu a sala da Cinemateca na noite de 1 de Setembro. Terá sido porque se tratava, no essencial, de uma sessão por convites... Ou porque era a abertura de uma nova temporada de programação... Ou até porque se vai à Cinemateca como um ritual, não por causa de um filme específico... Enfim, que os anti-cinéfilos espalhem o seu cinismo. O certo é que aconteceu assim — e não é todos os dias que um filme ao mesmo tempo tão extremo e tão transparente gera este efeito de mobilização; e um tão indizível encantamento.
O Livro de Imagem é distribuído pela Midas Filmes e terá estreia no mês de Outubro. A sessão abriu um mês em que será possível acompanhar na sala da rua Barata Salgueiro eventos como uma retrospectiva de Jean-Marie Straub/Danièle Huillet ou uma homenagem a Rita Hayworth — programa disponível no site da Cinemateca.

sábado, setembro 01, 2018

Eminem: novo álbum sem aviso prévio

Será uma via para combater os efeitos imediatos de massificação? Ou uma forma (ainda mais) perversa de ser global?
Uma coisa é certa: Eminem lançou um novo álbum, dispensando qualquer aviso prévio. O título parece definir uma raiva consciente do seu ambíguo impulso masoquista: Kamikaze. À boleia da notícia da NPR, eis os novos 13 temas — o 13º, Venom, pertence à banda sonora do filme com o mesmo título (estreia-se em Outubro).