domingo, novembro 19, 2017

Malcolm Young (1953 - 2017)

Foi um dos fundadores dos AC/DC: o guitarrista Malcolm Young faleceu no dia 18 de Novembro em Elizabeth Bay, Sydney, Australia — contava 64 anos.
Com o seu irmão Angus Young, tal como ele nascido em Glasgow, Escócia, Malcolm criou a banda australiana AC/DC, em 1973, concretizando uma peculiar associação de rock, blues e heavy metal. Desde o primeiro álbum, High Voltage (1975), o seu som, ao mesmo tempo vibrante e ritualizado, conferiu-lhes uma enérgica imagem de marca, em particular nas performances ao vivo. Apesar de diversas alterações na formação do grupo, os dois irmãos mantiveram-se como as suas personalidades emblemáticas, até ao álbum Black Ice (2008). Considerado um dos mais brilhantes músicos de guitarra rítmica da sua geração, Malcolm afastou-se dos AC/DC em 2014 para ser tratado da demência que o atingiu — já não participou no álbum Rock or Bust (2014), tendo sido substituído pelo seu sobrinho Stevie Young.

>>> Thunderstruck, single do álbum The Razors Edge (1990), dos AC/DC — vocalista: Brian Johnson.


>>> Obituário na Rolling Stone.

FNAC: Star Wars & etc. [balanço]

A estreia próxima de um novo título da saga Star Wars serviu de pretexto para mais uma edição do nosso Magazine, na FNAC do Chiado. Em jeito de muito breve balanço, aqui ficam imagens de três dos títulos evocados, ilustrando marcas específicas de épocas bem diferentes. São eles:
Metropolis (1927), de Fritz Lang;
O Dia em que a Terra Parou (1951), de Robert Wise;
Debaixo da Pele (2013), de Jonathan Glazer.
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* O próximo SOUND + VISION MAGAZINE terá como tema:
Twin Peaks & David Lynch
(FNAC, 16 Dez., 18h30)
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Charlotte Gainsbourg, opus 5

O apelido pesa na démarche de Charlotte? Claro que sim. Mas não de acordo com a noção, afinal simplista, de que "filho(a) de peixe sabe nadar". A filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin soube construir um edifício musical, por certo não estranho ao misto de versatilidade e auto-ironia da respectiva herança, mas preservando sempre a singularidade de uma voz (no sentido vocal, mas também simbólico) que não abdica da ligeireza contraditória da pop.
Já conhecíamos a canção-título de Rest, quinto álbum de Charlotte Gainsbourg. O seu teledisco era, aliás, um sedutor jogo de espelhos, oscilando entre a contemplação e a irrisão que a dimensão humana pode conter. Algo de semelhante se poderá dizer a propósito desta encenação de Ring-a-ring o' roses, canção em ziguezague entre francês e inglês, evocando a verdade perdida de um amor original, em contraponto com o ritmo peculiar de uma canção infantil [nursery rhyme] — tão perto do medo da morte, tão simples como o instante de uma carícia.

Premier appel
Originel
Premier baiser
Purement maternelle
Première foulée
Effort enragé
Première ivresse
Rêve de déesse

Ring-a-ring o' roses
Pocketful of posies
We all fall down
Round and round in circle
Waiting for a miracle
Kiss the crowd
Ring-a-ring o' roses
Pocketful of posies
We all fall down
Round and round in circle
Waiting for a miracle
Kiss the crowd

Premier amour
Je jure solennel
Premiers ébats
Va au septième ciel
Premier chagrin,
Premier coup de poing
Première affaire
Premier salaire

Ring-a-ring o' roses
[...]

Premier enfant
Monstre bruyant
Premier cheveu blanc
Crâne le temps
Premier pépin
Début de la fin
Dernier soupir
Qu'il soit de plaisir

Ring-a-ring o' roses
[...]

sábado, novembro 18, 2017

A IMAGEM: Philip Jones Griffiths, 1961

PHILIP JONES GRIFFITHS
Inglaterra, 1961

Star Wars & etc.
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

O novo Star Wars: Os Últimos Jedi chega a 14 de Dezembro. É um bom pretexto para, antes da estreia, reorganizarmos as memórias, não apenas da saga criada por George Lucas, mas também da grande tradição cinematográfica (e não só) da ficção científica — será o tema do próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC.

* FNAC: Chiado, hoje, 18 Novembro (18h30)

"Liga da Justiça": mais do mesmo... (1/2)

Na guerra dos super-heróis, Liga da Justiça é o novo episódio: os milhões de dólares acumulam-se e as ideias escasseiam — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Novembro), com o título 'Batman, Super-Homem & Cª. voltam a salvar o planeta Terra'.

O planeta dos super-heróis vive angustiado desde que, em 2016, em Batman v. Super-Homem: O Despertar da Justiça, assistimos à morte de Super-Homem... Ou talvez não... Em qualquer caso, o esclarecimento de tal dúvida seria um dos pontos enigmáticos de Liga da Justiça, filme de Zack Snyder ruidosamente promovido como uma celebração dos principais heróis da DC Comics, incluindo Batman e Wonder Woman. Seria, de facto... Acontece que, desde a divulgação do elenco até ao trailer do filme, passando pelas fotos promocionais, sabíamos do regresso de Henry Cavill como intérprete do lendário sobrevivente do planeta Krypton.
Qual é, então, a surpresa? Pouca ou nenhuma, infelizmente. Este modelo de filmes entrou numa lógica de sequelas repetidas e repetitivas, muito distantes da energia criativa do começo da sua “idade moderna”, iniciada com Batman (1989) e Batman Regressa (1992), ambos de Tim Burton.
Estamos, afinal, perante os efeitos mais grosseiros do conceito corrente de “franchise”, alicerçado em orçamentos ditirâmbicos (Liga da Justiça custou 300 milhões de dólares) cujos dramas de rentabilização ameaçam toda a estrutura de Hollywood. Com um detalhe que importa sublinhar: quem começou por chamar a atenção para o risco de “implosão” da indústria não foi nenhum crítico, antes dois cineastas não propriamente desconhecidos — Steven Spielberg e George Lucas —, num debate realizado no dia 12 de Junho de 2013 na Escola de Artes Cinematográficas da Universidade da Califórnia do Sul.
O mais desconcertante é a perda do gosto mais clássico de contar histórias. Liga da Justiça deixa-se resumir pela mais escassa sinopse. A saber: um exército de terríveis alienígenas, comandado pelo implacável Steppenwolf (Ciáran Hinds), prepara-se para conduzir o planeta Terra ao apocalipse... Enfim, não será preciso especular muito para adivinhar o que farão os heróis. O certo é que tudo isso se resolve com a previsível destruição de um sem número de cenários digitais, aqui e ali “sustentado” por embaraçosos diálogos, capazes de transformar as situações mais trágicas em momentos involuntariamente anedóticos. Isto sem esquecer o subaproveitamento de intérpretes de invulgar talento, com destaque para Amy Adams, claramente à deriva no papel de Lois Lane, eterna “noiva” de Clark Kent.

[continua]

"Encontros Imediatos" — 40 anos (1/4)

No dia 15 de Novembro, assinalaram-se 40 anos sobre a data da primeira exibição pública, nos EUA, de Encontros Imediatos do Terceiro Grau — este texto, integrando um dossier do Diário de Notícias publicado nessa data, foi publicado com o título 'Quando os extra-terrestres vieram visitar Spielberg'.

Quando percorremos a história de Hollywood, há datas que sinalizam e condensam algumas transformações radicais. Por exemplo, 1927, com O Cantor de Jazz, primeiro fenómeno do cinema sonoro; 1939, com E Tudo o Vento Levou, síntese admirável da epopeia literária e do Technicolor; 1969, com Easy Rider, símbolo da “contra-cultura” dos anos 60 e também dos valores da produção independente. Chegamos a 1977 e tudo parece apontar para o fenómeno Star Wars (que, na altura, entre nós, ainda tinha direito à tradução A Guerra das Estrelas): foi a 25 de Maio que se estreou o primeiro título da saga de George Lucas. Mas importa reorganizar os nossos arquivos cinéfilos e recordar também que no dia 15 de Novembro — faz hoje 40 anos — Nova Iorque assistia à primeira exibição pública de Encontros Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg.
Nunca foi segredo o facto de a história dos extra-terrestres que visitam o planeta Terra ter as suas raízes em memórias remotas de Spielberg. No documentário The Making of Close Encounters of the Third Kind, produzido em 1997, o cineasta cita mesmo como primordial inspiração o facto de, ainda criança, ter assistido com o pai, em New Jersey, a um desses fenómenos naturais normalmente identificado como “chuva de meteoros”. No filme, a contemplação da imensidão do céu envolve mesmo um misto de solidão e expectativa: daquele universo sem fim algo vai aparecer... Ou como dizia a frase promocional do emblemático cartaz de lançamento do filme: “We are not alone” [“Não estamos sós”].


Com o passar dos anos, foi-se tornando cada vez mais evidente que este é mesmo um dos filmes mais pessoais de Spielberg. Nele encontramos a depurada expressão de um tema visceral do seu universo: a disponibilidade infantil para contemplar o mundo, mesmo nos seus contrastes mais assustadores, como uma promessa de encantamento. A célebre imagem do pequeno Barry (Cary Guffey), admirando as luzes “ameaçadoras” que se manifestam à porta de sua casa, resume a ambiguidade da fábula: os extra-terrestres constituem a mais estranha das visitas, mas é o próprio Barry que, alheado do medo dos adultos, os convoca.
Daí que seja discutível a inscrição automática de Encontros Imediatos do Terceiro Grau na vaga de ficção científica que, para o melhor e para o pior, tinha começado a contaminar os instrumentos técnicos e as opções artísticas do cinema americano. Aliás, em 1982, com E.T., o Extra-Terrestre, Spielberg encenaria uma história também de um “encontro imediato”, tratando o inesquecível E.T. como um irónico duplo das personagens infantis.

Cenários naturais

O filme constituiu um invulgar desafio de produção, contando com um sólido orçamento de 20 milhões de dólares, valor, para a época, francamente acima da média. Mais do que isso: o estúdio produtor, Columbia, deu total liberdade criativa a Spielberg, já que, em 1975, ele tinha passado para a linha da frente da indústria graças ao fenomenal sucesso de Tubarão, rodado com apenas 9 milhões (para A Guerra das Estrelas, Lucas teve 11 milhões). Douglas Trumbull, que trabalhara com Stanley Kubrick em 2001: Odisseia no Espaço (1968), foi o responsável pelos efeitos especiais do filme, tendo à sua disposição 3,3 milhões do orçamento global — rezam as crónicas da época que ele considerava que, só com esse dinheiro, teria sido possível fazer uma segunda longa-metragem.
Seja como for, para o impacto visual do filme, os cenários naturais revelar-se-iam decisivos. Lembrando as dramáticas dificuldades encontradas durante as cenas do oceano em Tubarão, Spielberg começou por resistir a tal hipótese, mostrando-se empenhado em trabalhar o mais possível em estúdio. O certo é que acabou por compreender que um certo realismo dos lugares era essencial ao impacto da acção, tendo filmado em particular na zona da “Torre do Diabo”, no estado do Wyoming, a formação rochosa que vai obcecando o pai do pequeno Barry (Richard Dreyfuss), funcionando como elo espiritual com os extra-terrestres.


Encontros Imediatos do Terceiro Grau foi um dos grandes sucessos de 1977 nas salas dos EUA, surgindo no terceiro lugar do top de receitas, depois de A Guerra das Estrelas e Os Bons e os Maus, uma comédia com Burt Reynolds. Curiosamente, o filme acabou por ter uma vida comercial dupla. Ou tripla. Isto porque, um ano mais tarde, dificuldades financeiras levaram a Columbia a pedir a Spielberg que fizesse uma nova versão — com um final em que é revelado o interior da nave dos extra-terrestres —, de modo a que o filme pudesse ser relançado, garantindo um índice de receitas fundamental para o estúdio. Spielberg assim fez, vindo a declarar-se profundamente arrependido — a sua versão pessoal e definitiva, identificada como “Collector’s Edition”, só seria comercializada em 1998.

sexta-feira, novembro 17, 2017

Aretha Franklin em versão "digest"

Um grande e amargo embaraço... Porquê, e para quê, refazer algumas gravações clássicas de Aretha Franklin, acrescentando-lhe as competências de uma grande orquestra?
Escusado será dizer que não são as qualidades da Royal Philarmonic Orchestra que estão em causa, muito menos a perenidade dos registos da Rainha do Soul. Escutando A Brand New Me, resta saber o que é que a intrusão da orquestra traz à singularidade de tais registos... Nada — a não ser a embaraçosa vulgaridade de um conceito "digest" da cultura popular em que, como se prova, a energia dos originais se tornou o mais fraco dos valores.
A seguir:
— o video promocional deste infeliz projecto;
— sons do single que inclui Let it Be e Son of a Preacher Man (1970), ou seja, the real thing.



A guerra dos sexos [citação]

[FOTO: Sophie Zhang]
>>> Parece-vos paradoxal, utópico, num mundo globalizado, uniformizado, banalizado, robotizado, evocar a eventualidade de uma actividade criadora dos sujeitos sexuados que somos? Ela existe, e desenvolve-se mesmo, como contra-peso à banalidade que é o mal moderno. E é nessas margens de pequenas inovações, que nos impedem de morrer de banalidade, que procuramos realizar os nossos elementos de genialidade, talvez émulos patéticos dos génios consagrados através dos séculos. O mais pequeno esforço de originalidade, a mais pequena proeza de novidade, não nos exigem que nos reinventemos? Assim, para além da própria bissexualidade psíquica, seja sujeito homem ou sujeito mulher, eu recrio-me até à minha identidade sexual numa plasticidade aberta a inusitadas metamorfoses: com Rimbaud, eu é um outro — homem, mulher, criança, planta, animal, estrela. E, com Colette, transformo-me na carne do mundo.

JULIA KRISTEVA
2016

quinta-feira, novembro 16, 2017

Björk: mais uma canção utópica

Está quase a chegar o álbum Utopia, de Björk. Depois de The Gate, aí está uma nova canção: Blissing Me surge num misto de fluidez e fragmentação, filmada num extraordinário plano-sequência por Tim Walker & Emma Dalzell.

all of my mouth was kissing him
now into the air i am missing him
is this excess texting a blessing
or just two music nerds obsessing

he reminds me of the love in me
i’m celebrating on a vibrancy
sending each other mp3s
falling in love to a song

this handsommest of wickermen
he asked if i could wait for him
now how many lightyears this interim
while falling in love with his songs

his hands are good in protecting me
touching and caressing me
but would it be trespassing
wanting him to be blissing me
robbing him of his youth

cliffhanger like suspension
my longing has formed its own skeleton
bridging the gap between singletons
sending each other these songs

the interior of these melodies
is perhaps where we are meant to be
our physical union a fantasy
i just fell in love with

so i reserve my intimacies
i bundle them up in packages
my rawward longing far too visceral
did i just fall in love with love?


A IMAGEM: Craig McDean, 2008

CRAIG McDEAN
Nicole Kidman
2008

Kelela — passado e presente

R&B alternativo? Sugestivo, sem dúvida. Mas é um rótulo como qualquer outro... O certo é que na actual paisagem de muitas formas gratuitas de miscigenação, não poucas vezes protegidas pela designação cada vez menos operante de "world music", Kelela (nascida em Washington, em 1983) é um pequeno grande fenómeno de singularidades. As suas canções possuem a verdade intrínseca de uma voz firmemente ancorada no presente, sem procurar imitar ninguém, ao mesmo tempo mantendo uma ágil ligação com o passado, os passados. Vale a pena escutar o seu primeiro álbum, Take Me Apart — este é o teledisco de Blue Light.

quarta-feira, novembro 15, 2017

Armani por Sarah Moon

Sarah Moon, a veterana fotógrafa francesa, criadora de imagens de contornos difusos e poses contemplativas, tudo tecido através de uma infinita melancolia, realizou um portfolio para uma nova colecção da casa Armani — podiam ser fotogramas de um filme de Minnelli.

"The Walking Dead": homens e zombies

Andrew Lincoln
Com a oitava temporada, The Walking Dead chega a um novo patamar narrativo e simbólico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Novembro), com o título 'O perdão no mundo dos zombies'.

Na evolução da série televisiva The Walking Dead (Fox), temos assistido a um desconcertante apagamento das figuras dos zombies. Claro que não desapareceram os “mortos andantes” (a tradução literal envolve um sugestivo resumo dos fantasmas deste imaginário), ilustrando, aliás, uma das vias mais surpreendentes do desenvolvimento dos efeitos especiais, quer em cinema, quer em televisão. O certo é que o confronto dos humanos com os zombies passou a ser uma espécie de pano de fundo infernal, emprestando novas intensidades a uma rede de conflitos visceralmente humanos — as imagens de promoção de The Walking Dead passaram mesmo a dispensar a amostragem dos zombies.
Os primeiros episódios da actual oitava temporada (a série arrancou em 2010) narram uma teia de “guerras civis” que envolvem o colectivo inicial, liderado por Rick Grimes (Andrew Lincoln), a assustadora tribo de Negan (Jeffrey Dean Morgan) e mais alguns grupos gerados no processo de resistência aos zombies. O efeito dramático de tal fragmentação já era sensível nas duas temporadas anteriores, mas agora impôs-se como regra de construção. Em boa verdade, The Walking Dead já não é uma epopeia de resistência aos seres que perderam a sua humanidade, mas sim uma tragédia de humanos contra humanos.
Em especial desde a introdução da personagem de Negan, a questão da sobrevivência tem vindo a colocar-se na sua forma mais drástica, precisamente aquela cuja possibilidade Rick nunca colocou de parte. A saber: para sobreviver no meio de tão dantesco cenário, haverá sempre situações em que os protagonistas terão de matar alguns dos seus semelhantes. É verdade que isso não mudou no dispositivo dramático da nova temporada, mas não é menos verdade que a contundência da sua formulação tem vindo a coexistir com a formulação de uma hipótese de perdão. Há mesmo personagens que resistem a matar os inimigos capturados, sendo Paul Rovia (Tom Payne) o líder de tal atitude — nas relações no interior do seu grupo, Rovia é tratado por “Jesus”.
Vale a pena registar estas nuances, quanto mais não seja porque a maior parte dos valores da cultura popular tendem a ser mediaticamente reduzidos a um pitoresco sem consequências (com excepção do futebol, cujos protagonistas são sistematicamente apresentados como modelos universais). Em tempos de muitas narrativas niilistas, os zombies de The Walking Dead coexistem com uma insólita mensagem de tolerância e compaixão: dir-se-ia que há neles uma (ainda mais) inquietante réstia de humanidade.

terça-feira, novembro 14, 2017

Fernão Mendes Pinto, aqui e agora

João Botelho revisita a herança de Fernão Mendes Pinto em nome de uma ideia feliz de cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Novembro), com o título 'Uma peregrinação cinéfila'.

De que falamos quando falamos das abordagens da história de Portugal nas imagens que consumimos? Ou, de um modo geral, no audiovisual? Dois clichés televisivos dominam as respostas. O primeiro é o mais fácil e também o mais frequentemente aplicado: sentam-se três ou quatro especialistas em semi-círculo e difunde-se através das câmaras. O segundo, para além da especialização, envolve uma afirmação de autoridade discursiva: um especialista, de novo, fala para a câmara (neste caso, basta uma), colocando-se em frente de testemunhos do passado, de preferência monumentos — quanto mais antigos, mais parecem legitimar o seu discurso.
Evitemos as generalizações. Para além das retóricas triunfantes, há acontecimentos televisivos de grande valor informativo e pedagógico que aplicam as regras dos dispositivos atrás descritos. Resta saber o que pode existir — ou ser criado — sem ceder à preguiça das rotinas instaladas.
O novo filme de João Botelho, Peregrinação, surge como um belo exemplo de criatividade e invenção, desafiando os efeitos normativos de muitas imagens geradas sem reflexão sobre o que significa... trabalhar com imagens. Ao propor a reconstituição das viagens de Fernão Mendes Pinto, no século XVI, Botelho começa por questionar os equívocos que essa mesma noção, “reconstituição”, tantas vezes arrasta.
Reconstituir o quê? Os barcos? Sem dúvida. As roupas? É possível. O modo de falar? Interessante, certamente difícil... O que está em jogo é a possibilidade de superar a visão pueril que, não poucas vezes, reduz os chamados filmes históricos a catálogos de adereços mais ou menos luxuosos, sem o mais rudimentar pensamento sobre o que significa percorrer a distância (temporal, cognitiva, simbólica) que nos separa dos acontecimentos evocados.
Botelho aplica um instrumento, inesperado e fascinante, para lidar com essa distância: a música ou, mais precisamente, as canções de Fausto, do álbum Por Este Rio Acima (1982), agora retrabalhadas por Luís Bragança Gil e Daniel Bernardes. Que acontece, então? Descobrimos que o concreto das experiências de Fernão Mendes Pinto não rejeita, antes parece atrair, os artifícios que as matérias musicais transportam e instalam. A histórica como colagem de referências “realistas”? Digamos que sim. A música como derrapagem “irrealista”? Sim — porque não? O certo é que, em Peregrinação, os respectivos contrastes coexistem de modo feliz e contagiante: não é uma história de especialistas, mas uma saga, bizarra e contraditória, de portugueses.

domingo, novembro 12, 2017

Kevin Spacey
ou a ditadura dos inocentes

BELEZA AMERICANA
(1999)
1. A evolução do caso Kevin Spacey justifica que pensemos um pouco sobre aquilo que está a acontecer. Acima de tudo, importa perceber se estamos realmente a pensar — ou se nos limitamos a reproduzir, em equívoca euforia, aquilo que é voz do povo (a que deveríamos chamar voz dos media, de tal modo a noção de “povo” quase só aparece, nos nossos dias, instrumentalizada por discursos de avassalador simplismo político — sendo Donald Trump o protótipo dominante — que encontram um eco automático, irresponsável e irreflectido, em muitas linguagens de informação).

2. Não é simples reagir a tal conjuntura — entenda-se: pensar para além do imediatismo dos dados mais ruidosos — sem correr o risco de ser apontado como alguém que procura afastar a opinião pública da seriedade daquilo que está em jogo. A saber: o facto de, através de um número crescente de testemunhos, Spacey ser apontado como predador sexual. Há uma certeza: as acusações que pesam sobre Spacey são graves (como são graves as que, desde as notícias em torno de Harvey Weinstein, têm citado outras figuras públicas). Resta saber se o reconhecimento da sua gravidade — reconhecimento em que, creio, todos nos encontramos — explica e, mais do que isso, justifica e legitima a histeria mediática com que o caso está a ser vivido um pouco por toda a parte, invariavelmente reproduzindo padrões de abordagem que provêm dos EUA.

OS SUSPEITOS DO COSTUME
(1995)
3. Claro que todos os discursos panfletários que se têm apropriado do assunto aumentam o seu ruído sempre que surge alguma tentativa de compreender as linguagens do que estamos a viver e, mais concretamente, como é que elas determinam o nosso viver. Reflectir sobre as linguagens que usamos envolve sempre o pensamento sobre alguma forma de responsabilidade — e, no nosso presente, isso tornou-se uma questão quase sempre mediaticamente descartada como irrelevante e “intelectual”. Será preciso lembrar que avançar para tal reflexão não envolve nenhum branqueamento do que quer que seja? Provavelmente, é mesmo indispensável lembrá-lo — e sublinhá-lo. Até porque conhecemos as muitas formas de histeria geradas em Portugal pelo caso José Sócrates. Desde o começo, o que estava (e está) em jogo não é (nunca foi) qualquer forma de desculpabilização seja de quem for. Pode até admitir-se que se venha a provar, para além de qualquer dúvida razoável, que Sócrates é culpado de uma lista imensa de crimes — acontece que, mesmo assim, há quem considere [é o meu caso] que isso não é uma boa razão, nem moral nem deontológica, para evitarmos pensar a degradação de valores jornalísticos que, na abordagem do caso Sócrates, tem proliferado no contexto português.

4. Algo de semelhante se poderá recordar a propósito do que está a acontecer — e, sobretudo, do que não está a acontecer — perante a multiplicação de acusações contra Spacey. Em primeiríssimo lugar, porque o princípio jurídico de presunção de inocência desapareceu — sublinho: desapareceu — do espaço mediático. Depois, porque as singularidades do caso rapidamente foram promovidas à condição de referendo “público” sobre todas as formas de comportamento sexual. No limite, a parte do feminismo que esqueceu a dimensão humana dos males que diz enfrentar achou por bem instrumentalizar a situação, apostando mesmo em exponenciar o lado mais sinistro do pior jornalismo contemporâneo. Como? Reduzindo o espaço social (com ou sem utilização das ditas “redes”) a uma obscena exposição de culpados, agrilhoados e insultados, de modo a que, do lado dos puros, cada um possa atirar as pedras da sua justiça. Discursos desse teor exaltam-se e celebram-se através de circunstâncias como a que estamos a atravessar, ao mesmo tempo que mantêm um silêncio de décadas sobre a repelente humilhação das mulheres em muitos lugares mediáticos, todos os dias presente nos nossos ecrãs (exemplo: o horror anti-feminino — e, mais do que isso, anti-humano — do “Big Brother” televisivo e seus derivados).

5. Face ao delírio de linguagens — que é também uma linguagem delirante — que transformou Spacey em “símbolo” de todos os males da história das relações sexuais, desapareceu qualquer hipótese de pensar a perturbação inerente ao espaço polimorfo da sexualidade. Em boa verdade, mais de 120 anos depois de Freud ter publicado os seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, há forças que nos querem convencer que a sexualidade é um filtro automático, casto e universal, capaz de dividir o mundo entre inocentes, embaixadores de um bem sem fissuras, e culpados, automaticamente escorraçados para um inferno sem remissão. Será este mundo sem compaixão — nem vontade de conhecer os fantasmas do comportamento humano — a nova expressão dos valores cristãos de que, dizem, somos todos abençoados herdeiros?

SEVEN
(1995)
6. A ditadura dos inocentes que assim vai tomando conta de muitas zonas do nosso quotidiano (sendo o jornalismo persecutório uma mera variante) nem sequer soube prestar a devida e fundamental atenção àquela que é, de facto, para já, uma inquietante falta moral cometida por Kevin Spacey. A saber: a sua reacção às primeiras acusações de que foi alvo, reconhecendo e censurando o seu próprio comportamento, surgiu contaminada por uma perversão argumentativa que acaba por favorecer uma sinistra equivalência entre ser homossexual e ser predador sexual [Daniel D’Addario, na revista Time, foi dos poucos a apontar a chantagem moral de tal discurso].

7. É sintomático que esta onda de purificação compulsiva esteja a reforçar toda a apoteótica estupidez dos lugares-comuns que, ao longo de muitas décadas, sempre se satisfez em arrumar Hollywood (aliás, aquilo a que é dado o nome de “Hollywood”) na prateleira das monstruosidades condenadas ao mais radical opróbrio. Como é possível chegar-se ao ponto de mascarar o esplendoroso património artístico que foi — e continua a ser — gerado em Hollywood? Para os apóstolos vingadores do nosso tempo, a indiferença a tal património cinematográfico não basta. Na visão angelical dos seus próprios gestos, torna-se mesmo possível conhecer o último século da história da sexualidade omitindo todos os que, de Eric von Stroheim a Barry Jenkins, passando por George Cukor, Billy Wilder ou Robert Altman, trabalharam ou trabalham na indústria cinematográfica dos EUA — será que pretendem que tal ignorância seja também compulsiva? Infelizmente, Ridley Scott, cineasta menor com alguns filmes maiores, veio agora reforçar os efeitos de tudo isto, protagonizando um vergonhoso gesto de abdicação artística: face às notícias sobre Spacey, aceitou suprimir as cenas em que ele surgia no seu novo filme (All the Money in the World), refilmando-as com outro actor. Eis um gesto certamente livre que, no seu mercantilismo, banaliza e, pior do que isso, degrada o próprio conceito de liberdade de expressão.

8. Importa perguntar se tal gesto é apenas um sinal de um novo modelo de classificação dos filmes, ou melhor, de um novo método de supressão das suas “impurezas”. Que vai acontecer a títulos como Os Suspeitos do Costume (Bryan Singer, 1995), Seven (David Fincher, 1995), L. A. Confidential (Curtis Hanson, 1997), Beleza Americana (Sam Mendes, 1999) ou O Dia Antes do Fim (J. C. Chandor, 2011)? Não é verdade que em todos eles aparece um tal Kevin Spacey? Vão ser retirados de circulação? Ou passarão a ter um cartão de abertura em que se avisa o espectador incauto que no seu elenco está um predador sexual? E, neste caso, os próprios filmes incluirão as provas materiais daquilo que afirmam? Qualquer projecção de Annie Hall (1977), obra central no imaginário romanesco de várias gerações de espectadores, passará a ter como complemento um documentário sobre as acusações de abuso sexual de que Woody Allen foi alvo?

O DIA ANTES DO FIM
(2011)
9. Tais hipóteses podem ser facilmente descartadas como caricaturais. O certo é que a caricatura há muito passou a integrar a realidade em que nos movemos: há mesmo um ministro britânico que se demitiu após reconhecer que, há 15 anos, durante um jantar, colocou a mão no joelho de uma jornalista... A própria jornalista veio publicamente desvalorizar o episódio, mas não é o detalhe do “quem, como, onde” que importa reter, como não será qualquer patética consideração sobre o “peso” legítimo de uma mão sobre um joelho... Evitemos combater a estupidez com mais estupidez. O que importa enfrentar é a lógica normativa deste alarido que, desde as acusações de violações até ao gesto de uma mão no joelho, acredita, ou quer fazer acreditar, que a sociedade ficará mais pura — e as relações sexuais mais transparentes e saudáveis — se transformarmos o sexo numa matéria que existe, não através da enigmática singularidade dos indivíduos, mas de uma vigilância “purificadora” de que, em última instância, seríamos todos agentes mandatados. Onde está alguém, a começar pelos protagonistas da cena política, que queira reflectir, seriamente, sem intuitos persecutórios, sobre as perturbantes contradições da fascinante “sociedade de informação” em que passámos a viver? [PBS].

10. Difícil de pensar é também, por tudo aquilo que aqui apenas se resume, o enquadramento político do tribunal público que condenou Spacey — político, quer dizer, envolvendo a complexa vivência do colectivo e a incontornável irredutibilidade individual. Na verdade, os protagonistas encartados de tal tribunal, incapazes de qualquer pensamento político, confundem-se, muitas vezes, com os que reduziram Donald Trump a uma caricatura do mais anedótico e pré-histórico moralismo: mesma abordagem maniqueísta dos factos, mesmo apagamento da complexidade intrínseca de qualquer facto, mesma procura de encenação do mundo como um frente a frente de “anjos” e “demónios”. Em boa verdade, agora mais do que nunca, Trump deve estar agradecido a tão empenhados inimigos: se ele não conseguir consumar o seu trabalho de purificação da América (e do mundo), outros avançam — desde que seja possível contemplar Kevin Spacey a arder na crepitante fogueira da nossa inocência, está tudo bem.

sábado, novembro 11, 2017

Eminem + Beyoncé

O essencial da notícia, isto é, o lançamento de Revival, nono álbum de Eminem, foi ganhando consistência através de vários fragmentos noticiosos [Rolling Stone]. Em forma de antecipação, fomos presenteados com uma magnífica colaboração, Eminem + Beyoncé, num auto-retrato tecido de angústia, orgulho e desencanto — para ler e escutar.

I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water
But only when it freezes (fuck)

Why are expectations so high? Is it the bar I set?
My arms, I stretch, but I can’t reach
A far cry from it, or it's in my grasp, but as
Soon as I grab, squeeze
I lose my grip like the flyin' trapeze
Into the dark I plummet, now the sky’s blackening
I know the mark's high, butter–
flies rip apart my stomach
Knowin' that no matter what bars I come with
You're gonna harp, gripe, and
That's a hard Vicodin to swallow, so I scrap these
As pressure increases like khakis
I feel the ice cracking, because—

I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water (shit)
But only when it freezes

It's the curse of the standard
That the first of the Mathers discs set
Always in search of the verse that I haven't spit yet
Will this step just be another misstep
To tarnish whatever the legacy, love or respect
I’ve garnered? The rhyme has to be perfect, the delivery flawless
And it always feels like I’m hittin' the mark
’Til I go sit in the car, listen and pick it apart
Like, "This shit is garbage!"
God's given me all this, still I feel no different regardless
Kids look to me as a god, this is retarded
If only they knew, it's a facade and it's exhaustive
And I try not to listen to nonsense
But if you bitches are tryin’ to strip me of my confidence
Mission accomplished
I'm not God-sent, Nas, Rakim, Pac, B.I.G., James Todd Smith
And I'm not Prince, so…

I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water
But only when it freezes

'Cause I'm only human, just like you
Making my mistakes, oh, if you only knew
I don't think you should believe in me the way that you do
'Cause I'm terrified to let you down, oh

It's true, I'm a Rubik's—a beautiful mess
At times juvenile, yes, I goof and I jest
A flawed human, I guess
But I'm doin' my best to not ruin your ex–
pectations and meet 'em, but first
The "Speedom" verse, now Big Sean
He's goin' too fast, is he gonna shout or curse out his mom?
There was a time I had the world by the balls, eatin' out my palm
Every album song I was spazzin' the fuck out on
And now I'm gettin' clowned and frowned on
But the only one who's looking down on me that matters now's DeShaun
Am I lucky to be around this long?
Begs the question though
Especially after the methadone
As yesterday fades and the Dresden home
Is burnt to the ground, and all that's left of my house is lawn
The crowds are gone
And it's time to wash out the blonde
Sales decline, the curtain's drawn
They're closin' the set, I'm still pokin' my head from out behind
And everyone who has doubt, remind
Now take your best rhyme, outdo it, now do it a thousand times
Now let 'em tell ya the world no longer cares or gives a fuck about your rhymes
And as I grow outta sight, outta mind, I might go outta mine
'Cause how do I ever let this mic go without a fight
When I made a fuckin' tightrope outta twine?
But when I do fall from these heights though, I'll be fine
I won't pout or cry or spiral down or whine
But I'll decide if it's my final bow this time around, 'cause—

I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water
But only when it freezes

'Cause I'm only human, just like you
I've been making my mistakes, oh, if you only knew
I don't think you should believe in me the way that you do
'Cause I'm terrified to let you down, oh
If I walked on water, I would drown

'Cause I'm just a man
But as long as I got a mic, I'm godlike
So me and you are not alike
Bitch, I wrote "Stan"

sexta-feira, novembro 10, 2017

O desafio de Jake Gyllenhall (2/2)

O atentado na Maratona de Boston, em 2013, volta a inspirar um filme, desta vez dominado por uma brilhante interpretação de Jake Gyllenhaal, desafiando os limites de representação do próprio corpo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Novembro), com o título 'O corpo e a sua verdade'.

[ 1 ]

É bem provável que a composição de Jake Gyllenhaal em Stronger – A Força de Viver venha a ser castigada por um velho preconceito. A saber: a interpretação de personagens com algum tipo de limitação, física ou mental, seria um trabalho fácil e mecânico, no limite, oportunista. Vale a pena reflectir um pouco sobre tal ponto de vista. Não porque tais personagens sejam um aval do que quer que seja, tanto para os intérpretes, como para os próprios filmes. O certo é que nunca se ouviu ninguém a questionar a dignidade artística de um actor por, por exemplo, representar um violento assassino... Que faz, então, com que as características das personagens sejam consideradas de modo tão contrastado?
Não tenho respostas lineares, muito menos seguras, ficando-me apenas pela certeza mais primitiva: cada caso é um caso. Apesar disso (ou precisamente por causa disso), não posso deixar de notar que há personagens que envolvem desafios extremos, dramáticos e dramatúrgicos, ao corpo do próprio actor. Lembremos o génio autista de Rain Man (1988) ou o pintor atingido por paralisia cerebral em O Meu Pé Esquerdo (1989), interpretados, respectivamente, por Dustin Hoffman e Daniel Day-Lewis (ambos distinguidos com o Oscar de melhor actor). O que os liga não é uma qualquer definição abstracta de “deficiência”, antes a verdade muito concreta de cada corpo.
Neste tempo de super-heróis de corpo digital, castigando os mais talentosos actores (observe-se o desaparecimento de Robert Downey Jr. nas vestes do Homem de Ferro), importa valorizar tal verdade. Mais do que isso: importa celebrar a irredutível vibração que um corpo pode inscrever nas imagens. Stronger – A Força de Viver não terá o fulgor de um filme de Ingmar Bergman, mas não nos fica mal lembrar a sua herança.

A IMAGEM: Herring & Herring, 2017

HERRING & HERRING
Narcisse Magazine
2017

quinta-feira, novembro 09, 2017

Karin Dor (1938 - 2017)

Foi uma "Bond girl" do período em que o Agente Secreto 007 foi interpretado por Sean Connery: a actriz alemã Karin Dor faleceu no dia 6 de Novembro, numa casa de repouso, em Munique — contava 79 anos.
Na década de 60, a sua figura popularizou-se através de vários filmes dirigidos pelo seu primeiro marido, o austríaco Harald Reinl, em especial aventuras baseadas em obras de Karl May — A Revolta dos Apaches (1963), com Lex Barker, é uma das referências desse período. Ao mesmo tempo, começou a surgir em diversos títulos de língua inglesa como O Misterioso Dr. Fu Manchu (1965), coprodução Reino Unido/Alemanha, protagonizada por Christopher Lee, com Don Sharp a realizar. Em 1967, assumiu a personagem de Helga Brandt em 007 - Só Se Vive Duas Vezes, de Lewis Gilbert. Em 1969, surgiria o título mais importante da sua carreira, Topázio, de Alfred Hitchcock — é ela que está no centro da cena visualmente mais sofisticada do filme, contracenando com John Vernon [video]. Depois, o essencial da sua filmografia é constituído por produções alemãs, a última das quais, O Mundo Fora do Lugar (2015), tem assinatura de Margarethe von Trotta.


>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

quarta-feira, novembro 08, 2017

Spielberg: novo filme, primeiro trailer

Aleluia! Ainda há filmes promovidos, não pela carapaça de um qualquer entediante super-herói, ou pelas explosões que o acompanham, mas pelo nome dos seus actores. É verdade: o novo filme de Steven Spielberg, The Post, reúne os suspeitos do costume — John Williams na música, Janusz Kaminski na fotografia, Michael Kahn (desta vez com Sarah Broshar) na montagem —, tendo como trunfo central nada mais nada menos que Meryl Streep e Tom Hanks.
The Post evoca a batalha, de uma só vez jornalística, política e moral, pela divulgação na imprensa americana dos chamados 'Pentagon Papers', sobre a guerra do Vietname. A estreia nos EUA ocorrerá a 22 de Dezembro, chegando à Europa no começo de 2018 (25 de Janeiro é a data anunciada para Portugal) — para já, um primeiro e vibrante trailer.


>>> 'Pentagon Papers': Wikipedia + National Archives (publicação oficial).

Wim Wenders em Lisboa (3/3)

O Eden que já não existe
[FOTO: Cinemas do Paraíso]
Wim Wenders é um militante defensor da diversidade do cinema e da cultura europeia, não se cansando de chamar a atenção para as exigências da nova conjuntura digital — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Outubro), com o título 'O amigo alemão'.

[ 1 ]  [ 2 ]

Conheci Wim Wenders em 1990, tendo-o acompanhado numa visita ao Cine-Teatro Eden (juntamente com o produtor Paulo Branco e Manuel S. Fonseca, então meu colega de trabalho na secção de cinema do semanário Expresso). O cineasta alemão procurava um cenário para uma cena de Até ao Fim do Mundo. A cena foi, de facto, rodada no Eden, tendo o filme estreado em 1991, numa versão amputada que Wenders nunca reconheceu — a versão integral só foi reposta em 2015 (tendo sido exibida, nesse ano, no Lisbon & Estoril Film Festival).
Cruzando essas memórias com as palavras de Wenders sobre a urgência de defender o património cultural europeu (e não apenas no domínio cinematográfico), reencontro a tristeza imensa que é ver importantes referências arquitectónicas da cidade de Lisboa (como o Eden) “modernizadas” em função das mais indiferentes lógicas de “progresso”. Aliás, sabemos que há casos ainda mais trágicos, como o do velho Monumental, na Praça do Saldanha: não tivesse desaparecido do mapa, seria hoje, por certo, um símbolo exemplar da idade de ouro do consumo cinematográfico em toda a Europa.
Não recordo isto para favorecer qualquer “tribunal” de tipo televisivo empenhado em listar “culpados” e “inocentes”. A realidade crua é mais complexa e menos espectacular. Acontece que as formas de criação e intervenção cívica de personalidades como Wenders nascem, de facto, de uma genuína vontade de preservação daquilo que, sendo passado, nos enriquece enquanto habitantes do presente. Mais do que isso: a relação com tal passado afigura-se vital na inteligência que podemos inscrever no nosso presente. Eis um labor a que o espaço jornalístico pode e deve continuar atento. Seria interessante que todas as entidades políticas manifestassem a mesma disponibilidade.

terça-feira, novembro 07, 2017

Lalah Hathaway, honestamente

Filha do cantor soul Donny Hathaway (1945-1979), Lalah Hathaway, 48 anos, é já uma veterana do R&B, preservando uma fidelidade às origens que encontra uma dimensão nova na sua voz densa e elegante fraseado. O seu sétimo registo de longa duração, Honestly, aí está como um belo inventário de sofisticação sem ostentação — cartão de visita: um ensaio unplugged do tema I Can't Wait.

Sally Potter em festa

* A FESTA, de Sally Potter
[DN, 02-11-17]

Com chancela da BBC, eis um pequeno filme (até pela duração: 71 minutos), que é também um brilhante exercício de cinema. Conhecida sobretudo pelo seu Orlando (1992), inspirado em Virginia Woolf, Sally Potter arrisca filmar um argumento saborosamente “teatral” (que ela própria escreveu) com um toque de Agatha Christie...
Em termos simples, a “festa” do título é um encontro privado de “meia dúzia” de pessoas (quatro mulheres e três homens, para sermos exactos), celebrando a escolha de uma delas para o cargo de ministra da saúde. Nada corre como esperado e Potter delicia-se a desmontar as máscaras de um tecido social iludido pelo seu próprio liberalismo — com um conjunto de magníficos intérpretes, incluindo Kristin Scott Thomas (a nova ministra), Timothy Spall, Patricia Clarkson e Cillian Murphy.

Para descobrir filmes "antigos"

Não é uma novidade. Longe disso. Mas é um facto que a Internet oferece — sublinho: oferece — um volume considerável de filmes que está muito, mas mesmo muito, para além da agitação das estreias que o marketing promove.
Dito de outro modo: se o leitor/espectador sabe — e, sobretudo, quer saber — da existência de um imenso e contrastado património cinematográfico, então é bom contrariar hábitos de passividade e percorrer um pouco o espaço virtual que tem à sua disposição.
Isto para destacar uma especial oferta de filmes "antigos". Não é uma novidade, insisto, mas merece ser (re)descoberta. Falo de Timeless Classic Movies, uma zona do YouTube em que podemos encontrar uma surpreendente colecção de preciosidades, com particular destaque para títulos incontornáveis do período mudo — do Nosferatu (1922), de Murnau, a The General (1926), com Buster Keaton — e muitos exemplos, bizarros ou sofisticados, do universo da "série B".
Aqui fica um belo exemplo: The Most Dangerous Game (1932), aventura em ambiências de terror, com a particularidade de ser uma produção sonora ainda do chamado período "pré-código", quer dizer, antes de os grandes estúdios de Hollywood adoptarem o Código Hays, determinando regras de encenação de situações/relações tidas como mais "delicadas".
Realizado por Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack, trata-se de uma produção de Schoedsack e Merian C. Cooper, aproveitando muitos cenários do seu King Kong, que seria lançado um ano mais tarde; os protagonistas são Joel McCrea e Fay Wray (a heroína de King Kong) — entre nós, recebeu o título O Malvado Zaroff.

segunda-feira, novembro 06, 2017

Refazendo o "Requiem" de Mozart

Nova e maravilhosa gravação do Requiem, de Mozart, com chancela Harmonia Mundi — a partir de uma nova versão de Pierre-Henri Dutron, René Jacobs dirige a Freiburger Barockorchester, com o RIAS Kammerchor.
No primeiro video, Dutron e Jacobs falam da necessidade de superar a versão tradicional, completada por Franz Xaver Süssmayr nos meses que se seguiram à morte do compositor; no segundo, encontramos um dos concertos desta versão, sendo a obra de Mozart precedida por Harmoniemesse, de Joseph Haydn — delicadas emoções, grandes momentos mozartianos.



O desafio de Jake Gyllenhall (1/2)

Jeff Bauman + Jake Gyllenhaal
[USA Today]
O atentado na Maratona de Boston, em 2013, volta a inspirar um filme, desta vez dominado por uma brilhante interpretação de Jake Gyllenhaal, desafiando os limites de representação do próprio corpo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Novembro), com o título 'Jake Gyllenhaal interpreta uma odisseia de resistência'.

Há boas razões para o novo filme protagonizado por Jake Gyllenhaal se intitular Stronger — à letra, “Mais Forte”. Lançado entre nós com o subtítulo A Força de Viver, este é, de facto, um conto de sofrimento e superação em que a personagem central se vê compelida a desafiar todos os limites físicos e psicológicos.
Estamos perante a história verídica de Jeff Bauman. No dia 15 de Abril de 2013, ele foi um dos mais de 250 feridos no atentado bombista perpetrado nos momentos finais da Maratona de Boston. Para além das vítimas (morreram três pessoas na zona da meta), a violência do acto terrorista foi também sentida, obviamente, como uma agressão contra valores de desportivismo e solidariedade expressos através de um evento que há muito adquiriu um estatuto lendário — a cidade organiza a sua maratona desde 1897.
Bauman perdeu as pernas na explosão, vendo-se forçado a viver um doloroso processo de recuperação. Mas o filme está longe de se poder resumir como uma odisseia física. Tendo como ponto de partida o livro que o próprio Bauman escreveu (com a colaboração de Bret Witter), o realizador David Gordon Green explora as peculiares tensões que se vão revelando entre intimidade e vida pública. Bauman vê a sua existência vacilar entre o espaço familiar, liderado por uma mãe alcoólica (Miranda Richardson), e a instável relação amorosa com a jovem atleta (Tatiana Maslany) que tinha ido apoiar, precisamente, na zona da meta; ao mesmo tempo, a sua dramática recuperação física irá transformá-lo em herói incauto de um público que nele celebra a resistência a todas as adversidades.

Uma cruel verdade

Escusado será dizer que, logo após o atentado, a fragilidade de Bauman é profundamente comovente. Em todo o caso, a realização evita transformar o filme num requiem simplista por uma vítima. David Gordon Green é, aliás, um, bom retratista de personagens que escapam às mais banais matrizes sociais ou dramáticas — recorde-se o caso exemplar de Joe (2013), centrado numa magnífica composição de Nicolas Cage como um ex-recluso, agressivo e intratável, que passou a trabalhar como capataz de uma zona florestal.
Desta vez, é a composição de Jake Gyllenhaal que se revela decisiva (sem esquecer o trabalho admirável de Tatiana Maslany na personagem da namorada). O actor sabe compor a figura de Bauman muito para além da nova e cruel verdade do seu corpo. Vale a pena referir, a esse propósito, que os artifícios técnicos para figurar Bauman sem pernas são absolutamente surpreendentes (desmentindo a noção segundo a qual só há efeitos especiais quando vemos naves ou monstros...). O certo é que todo o filme está longe de se polarizar no mais visível, nunca abdicando de tratar Bauman como um homem com sérias dificuldades para aceitar lidar a consagração pública da sua figura.
No princípio deste ano, vimos Patriots Day – Unidos por Boston, de Peter Berg, com Mark Wahlberg e Kevin Bacon, filme com o mesmo pano de fundo, mas centrando-se na corrida contra o tempo para identificar, localizar e capturar os terroristas. Agora, Stronger – A Força de Viver consegue, por assim dizer, corrigir os limites desse primeiro filme: passou-se das regras do policial mais convencional para um registo dramático em que a irredutibilidade de cada ser humano se impõe como valor fundamental.