quarta-feira, dezembro 16, 2015

O marketing planetário de "Star Wars"

A chegada do episódio VII de A Guerra das Estrelas é um fenómeno transversal no mercado global do cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Dezembro), com o título 'Saga “Star Wars” põe em marcha um marketing planetário'

Algures, num recanto escondido das estepes da Ásia central, haverá ainda um espectador incauto que não sabe que esta semana o filme Star Wars: O Despertar da Força vai ocupar os ecrãs de todo o mundo... Não tenhamos dúvidas: esse espectador solitário só pode ser um extraterrestre que desembarcou acidentalmente no nosso planeta. De facto, desde que, em Janeiro de 2013, J. J. Abrams foi anunciado como realizador eleito para o relançamento da saga de George Lucas, é impossível ignorar que vêm aí herdeiros de Darth Vader (ou o próprio?...). Isso tem um nome: marketing.
Kathleen Kennedy
O cérebro do marketing do episódio VII de Star Wars é uma velha aliada de Lucas, e também de Steven Spielberg: Kathleen Kennedy, figura de topo de Hollywood, presidente da Lucasfilm desde a sua aquisição, em 2012, pelos estúdios Disney. O seu nome está ligado a uma lista imensa de títulos de sucesso, desde a saga de Indiana Jones até à trilogia de Regresso ao Futuro.
Sendo a marca “Star Wars” de tal modo forte e universal, importava adoptar uma estratégia de alguma prudência. Em entrevista a The Hollywood Reporter (9 Dez.), Kennedy refere mesmo que, há cerca de ano e meio, começaram por fazer uma lista, muito estrita, dos eventos californianos em que era fundamental marcar presença ao longo de 2015. A saber: a Convenção Star Wars, na cidade de Anaheim (Abril); a Comic-Con, em San Diego (Julho); e a exposição D23, do Clube de Fãs da Disney, de novo em Anaheim (Agosto).
Seja como for, a contenção de despesas do marketing é muito relativa. Pondo em prática uma regra consolidada, precisamente, através de filmes como a trilogia inaugural de Star Wars, lançada entre 1977 e 1983 (na altura, em Portugal, o mercado ainda usava a expressão A Guerra das Estrelas), o orçamento para a difusão de empreendimentos desta dimensão tende a ser, no mínimo, igual ao da rodagem: estimativas divulgadas pela imprensa dos EUA apontam para 200 milhões de dólares de produção, com mais de 220 milhões para as fases seguintes (desde a fabricação das cópias até às mais diversas formas de publicidade).
A exibição do filme terá um trunfo decisivo na exploração do circuito IMAX, as salas de ecrãs gigantes e sofisticados sistemas sonoros que parecem estar a revitalizar o gosto das superproduções da década de 60 (Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, etc.), rodadas em película de 70mm (o novo filme de Quentin Tarantino, The Hateful Eight, a estrear no dia de Natal nos EUA, será mesmo um caso singular de revivalismo, já que foi rodado nessa película). Só nos EUA, O Despertar da Força surgirá em 390 ecrãs IMAX (mais quatro centenas no resto do mundo), cerca de duas dezenas mais do que aconteceu no Verão com Missão Impossível: Nação Secreta.
Na estratégia coordenada por Kathleen Kennedy, nada disto é arbitrário. Os primeiros números testemunham, aliás, a sua eficácia: no dia 20 de Novembro, o Wall Street Journal noticiava que a venda antecipada de bilhetes para as salas dos EUA tinha atingido o valor recorde de 50 milhões de dólares. Entretanto, em Portugal, ao fim da tarde de segunda-feira, já havia 40 mil bilhetes vendidos.
O que está em jogo implica, claro, a gestão da herança de George Lucas (que, em qualquer caso, se tem mantido distante das tarefas ligadas ao lançamento do filme). Mas envolve também o prestígio e, por certo, o investimento da Disney na reconversão da Lucasfilm (pela qual pagou 4 mil milhões de dólares). De tal modo que Kennedy sublinha o facto de estar em marcha “um plano estratégico” de análise das histórias da trilogia que arranca agora com O Despertar da Força, visando o episódios VIII e IX, agendados para 2017 e 2019. Nessa altura, mesmo um espectador chegado de outra galáxia não ficará surpreendido porque, entretanto, a ante-estreia terá ocorrido, quem sabe, num planeta muito, muito distante...

terça-feira, dezembro 15, 2015

"Tubarão" vs. "No Coração do Mar"

Os filmes distinguem-se pelas forças dramáticas e emocionais que sabem colocar em movimento — e isso reflecte-se em (quase) tudo o que está envolvido na respectiva difusão. Veja-se a diferença entre os cartazes do admirável Tubarão (1975), de Steven Spielberg, e do recente No Coração do Mar, de Ron Howard, triste exemplo de uma incrível banalização tecnológica dos conceitos de aventura e espectáculo: no primeiro caso, há um movimento vertical, de baixo para cima, em que a entidade ameaçadora desenha a linha agreste da sua visão da incauta figura humana; no segundo, a verticalidade é de sentido inverso, esconde a entidade que devia ser protagonista (a baleia) e os humanos, de costas para nós, parecem espectadores ainda menos interessados. Diz-me como te representas...

"Só se vive uma vez" [Sinatra]

Sendo essencialmente musical, a herança de Frank Sinatra é também subtilmente cinematográfica — este texto foi publicado no Diário de Notícias, a 12 de Dezembro, dia do centenário do nascimento de Sinatra.

Em 1967-68, Frank Sinatra protagonizou três policiais dirigidos por Gordon Douglas: Tony Rome Investiga, O Detective e Uma Mulher no Cimento. Retrospectivamente, tais títulos adquirem uma paradoxal clareza: por um lado, com ou sem espiões, tratava-se de rentabilizar a moda das aventuras de James Bond (surgidas em 1962); por outro lado, a postura cinematográfica de Sinatra, não disfarçando a sua idade, sublinhando o desencanto existencial das suas personagens, favorecia uma ambiguidade moral que, em última instância, o distanciava das regras correntes do entertainment.
Nesse misto de moda e anti-moda residirá, provavelmente, o enigma de um fascínio que a passagem dos anos (para além da sua própria morte) foi intensificando. Na música como no cinema, Sinatra impôs-se como autor da sua própria narrativa, não um mero peão do sucesso ou da mitologia — será preciso recordar que a canção My Way ficou como o hino pessoal dessa trajectória?
Voltando a escutar a imaculada métrica de Come Fly With Me ou revendo-o num filme como O Homem do Braço de Ouro (1955), observamo-lo através de uma drástica nostalgia. Não é, entenda-se, a nostalgia marcada pelas estratégias do marketing, sempre empenhadas nessa suave chantagem emocional e política que consiste em sugerir que perdemos uma “inocência” que, em tempos mais ou menos remotos, outros tiveram. É, isso sim, uma nostalgia que nos leva a duvidar da grandeza de alguns modelos de sucesso aliados aos eventos mais ou menos virtuais que passaram a determinar grande parte dos nossos gestos quotidianos. Sem esforço aparente, Sinatra era concreto e abstracto, literal e simbólico, corpo e alma. Ele o disse, com a elegância de um sempre contido sarcasmo: “Só se vive uma vez — da maneira que eu vivo, é quanto basta.”

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Sinatra no arquivo da Magnum

Frank Sinatra em 1944 (ano em que completou 29 anos), fotografado pelo grande Philippe Halsman — é uma das imagens recordadas pela agência Magnum, a pretexto do centenário do nascimento do cantor.

domingo, dezembro 13, 2015

A guerra da publicidade

A percepção televisiva do Natal, em particular através da publicidade, envolve o confronto bélico dos mais variados valores culturais — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Dezembro), com o título 'Promoções de Natal'.

1. A cultura é uma guerra. Sempre foi, sempre continuará a ser. Guerra de valores, entenda-se, de formas de olhar e escutar, mostrar ou ocultar. Assim, a cultura televisiva dominante conseguiu mesmo impor a mais demagógica definição do factor cultural. Na prática, quando se colocam num estúdio três ou quatro personalidades a comparar as pautas de Mozart e Stockhausen, os peões da ideologia televisiva dominante gosta de proclamar que, aí sim, discute-se Cultura com um “C” grande... Importaria olhar para o avesso das coisas e lembrar que não há nada mais cultural do que as telenovelas ou o Big Brother: a formatação narrativa das primeiras e a desumanização do segundo são valores culturais, por excelência.

2. Na quadra natalícia, a cultura dominante tem um renovado agente na publicidade televisiva. De facto, podemos ser conduzidos à beira do suicídio, real ou simbólico, se não tivermos resistência psicológica para lidar com os noticiários que nos relembram, insistentemente, que o país está à beira da falência e o clima global a tender para o apocalipse... O que não impede que, poucos segundos depois (avisados por um pedagógico separador com a palavra “publicidade”), sejamos bombardeados com retratos paradisíacos da felicidade familiar, abençoada pela aquisição do mais recente dos telemóveis “desbloqueados” ou por um radioso automóvel de luxo que, por mero acaso, custa um pouco mais do que o rendimento anual de 99% dos portugueses...

3. De acordo com dados oficiais, em 1975, as eleições em Portugal tiveram 526.879 abstencionistas (8% do total de eleitores inscritos); quatro décadas depois, esse número passou para 4.273.748 (44% do total). Continuo à espera que os políticos das direitas e esquerdas abordem estes números (sintomáticos de uma cultura da indiferença), algures nas televisões — talvez depois de aproveitarem as promoções de Natal.

sábado, dezembro 12, 2015

Sinatra: I've Got You Under My Skin

13 de Outubro de 1974 — The Main Event, momento apoteótico da carreira de Frank Sinatra, concebido especialmente para televisão. A dois meses de completar 59 anos, no Madison Square Garden, o cantor fazia um concerto/balanço que era tudo menos uma queixa nostálgica: revisitando temas emblemáticos da canção popular, Sinatra reafirmava a vitalidade de uma imensa tradição, sublinhando a singularidade das suas performances. Um exemplo: o clássico de Cole Porter, I've Got You Under My Skin.


>>> Site oficial de Frank Sinatra.

Dylan canta Sinatra



No dia em que se assinala o centenário de Frank Sinatra, vale a pena reparar como o seu legado está vivo. E ouvir a versão que, já este ano, Bob Dylan fez do tema The Night They Called it a Day.

Já agora fica o convite para que se juntem aos dois autores deste blogue, às 18.00 horas no CCB (na Sala Luís Freitas Branco) para o programa de homenagem 100 Sinatra, que junta conversa, imagens e canções interpretadas por Miguel Guedes.

Já agora fica aqui um link para um texto que hoje apresentei na Máquina de Escrever sobre novos DVD e discos que assinalam igualmente o centenário de Frank Sinatra.

sexta-feira, dezembro 11, 2015

O ridículo dos Globos de Ouro

Perdido em Marte corre o risco de ser consagrado como melhor musical do ano... Ou melhor comédia, tanto faz...
Na verdade, os Globos de Ouro da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA) conseguiram superar o seu próprio ridículo (quando nomearam Julianne Moore na categoria de musical/comédia pelo filme Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg). Desta vez, Perdido em Marte, de Ridley Scott, é candidato a melhor musical/comédia de 2014... Enfim, digamos que Carol, de Todd Haynes, parece muito bem posicionado para alguns dos prémios principais. E que a cerimónia de entrega ocorrerá a 10 de Janeiro.
Eis os nomeados nas duas categorias principais:

* MELHOR FILME / drama
Carol, de Todd Haynes
Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
The Revenant: O Renascido, de Alejandro González Iñárritu
Quarto, de Lenny Abrahamson
O Caso Spotlight, de Tom McCarthy

* MELHOR FILME / musical ou comédia
A Queda de Wall Street, de Adam McKay
Joy, de David O. Russell
Perdido em Marte, de Ridley Scott
Spy, de Paul Feig
Descarrilada, de Judd Apatow

>>> Lista integral de nomeações no site da HFPA.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Spielberg 2016

[1982]
The BFG [= Big Friendly Giant] é um livro infantil de Roald Dahl, publicado em 1982. A história da pequena Sophie que faz amizade com um gigante está a ser transposta para o cinema, com realização de Steven Spielberg e chancela dos estúdios Disney. Sophie e o seu amigo são interpretados, respectivamente, por Ruby Barnhill e Mark Rylance (o espião russo de A Ponte dos Espiões); a adaptação foi escrita por Melissa Mathison. A estreia americana acontecerá a 1 de Julho de 2016 — eis o primeiro trailer.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Irène Jacob: memórias de Kieslowski

VERMELHO (1994)
Irène Jacob é uma das figuras emblemáticas do universo cinematográfico do polaco Krzysztof Kieslowski — uma troca de mails com a actriz serviu de base a um texto publicado no Diário de Notícias (5 Dezembro).

Como é que a herança dos filmes de Krzystzof Kieslowski (1941-1996) persiste na memória de Irène Jacob? Ou ainda, em termos práticos: como entrevistar a actriz através das vantagens e limitações do correio electrónico?
Embora correndo o risco de ser acusado de patética presunção, atrevo-me a pedir ao leitor que encare as linhas que se seguem como uma variação jornalística sobre as marcas do imponderável (humano ou divino) no universo do cineasta polaco. Enviadas as perguntas, chegou um primeiro mail, incompleto, redigido à pressa durante a rodagem em que está envolvida; uma segunda mensagem, ainda incompleta, corrigia a anterior e oferecia palavras ternas e concisas sobre Kieslowski (ou apenas “K”, como ela o nomeia); enfim, um terceiro conjunto de respostas rematava com a justeza da ironia: “Creio que, assim, já tem matéria suficiente.”
Se é verdade que Kieslowski foi também um delicado retratista dos enigmas do feminino, eis o que podemos confirmar através dos seus quatro títulos finais (precisamente aqueles que, agora, foram repostos em novas cópias): A Dupla Vida de Véronique (1991) e a célebre “Trilogia das Cores”, formada por Azul (1993), Branco (1994) e Vermelho (1994).
Irène Jacob começou por ser a Véronique do primeiro filme (reencontrando Kieslowski em Vermelho). Em boa verdade, tratava-se de representar duas personagens — Weronica e Véronique, uma na Polónia, outra em França — ligadas por algo de tão forte que parece provir do domínio do sagrado: “O desejo de K era filmar as coisas normalmente invisíveis num ecrã: a sensação de, por vezes, se estar acompanhado na solidão. Ao escrever a história das duas jovens a viver em dois países diferentes, que seriam a mesma sem se conhecerem, procurava expor esse mundo interior em que, por vezes, nos sentimos ligados a alguém, outras vezes perdidos.”
“K era alguém muito atento às coincidências, por vezes de maneira muito lúdica — era um grande observador e a sua câmara funcionava como um microscópio.” Mas, sublinha a actriz, tal atitude não decorria de uma lógica abstracta. Era mesmo algo indissociável de todo um contexto histórico: “Tendo trabalhado na Polónia com uma censura muito severa, habituou-se, tal como os seus colegas cineastas, a fazer filmes em que, como ele dizia, se deixa ao espectador a tarefa de completar as frases...” Aliás, curiosamente, algo desse método transpunha-se para a relação com os actores. Como? Quando Irène Jacob lhe perguntava porque é que Véronique fazia um gesto ou adoptava uma atitude, ele dizia: “Prefiro que sejas tu a responder-me.”
Daí, talvez, a contagiante sensação de liberdade que emana das histórias de Kieslowski, a ponto de podermos supor que grande parte do que vemos terá resultado de alguma forma de improvisação. Mas não: “Não havia qualquer improvisação no momento de filmar. K incentivou-me mesmo a criar um dicionário de gestos para Weronica e Véronique, começando por reflectir nos gestos que fazia quando estava sozinha; além do mais, todas as noites, tínhamos um encontro para discutir a cena do dia seguinte.”
Tal rigor (“seguíamos o argumento à letra”) não impedia que cada filme fosse concebido como uma estrutura em aberto, nomeadamente no domínio da montagem. A Dupla Vida de Véronique teve mesmo “umas quinze versões” a ponto de o realizador “ter imaginado três finais diferentes que seriam apresentados em diferentes salas de cinema.”
Centrado na relação inesperada entre uma jovem modelo, de nome Valentine, e um juiz retirado, interpretado por Jean-Louis Trintignant, Vermelho é um conto moral sobre a Fraternidade (depois da Liberdade e Igualdade, respectivamente em Azul e Branco): “O tema é tratado através de dois seres que, a priori, não têm nada em comum. Para K, a relação entre o juiz e Valentine decorre do confronto que ele sentia em si mesmo entre a desilusão resultante da experiência e o optimismo da juventude.”
Vermelho envolveu uma componente ainda mais pessoal. De facto, o essencial da rodagem teve lugar em Genebra, a cidade onde Irène Jacob viveu a infância e a adolescência: “Foi muito emocionante regressar aos lugares em que tinha crescido. Para a minha personagem, K perguntou-me qual era, em criança, o meu nome preferido. E eu disse-lhe: Valentine.”
Nesse jogo de intimidades, o cineasta envolvia-se como o mais omnipresente, ainda que mais invisível, dos actores: “K ajoelhava-se mesmo por baixo da câmara, que estava a dois passos de nós — quase fazia parte da imagem. No princípio, Jean-Louis sentia-se muito impressionado com isso. Durante a filmagem fazia-nos sinais, mais lento, uma hesitação, uma tensão, como um maestro — por vezes, tocava-nos num joelho.” Para que o resultado fosse mais claro para o espectador? Talvez. Em todo o caso, não esquecendo um princípio muito directo: “Se começar a ficar demasiado explícito, eu corto!”