quinta-feira, dezembro 23, 2010

Um mundo com WikiLeaks (6)


SARAJEVO
[in Wikipedia, Gavrilo Princip]

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* Sarajevo, 1914. Talvez que a gravidade e a complexidade dos problemas suscitados pelo WikiLeaks deva ser vivida também com alguma distanciação irónica. É, pelo menos, esse um dos caminhos tentados por Michael White, veterano de The Guardian, em algumas das suas mais recentes intervenções no blog de política do jornal. Num texto intitulado "WikiLeaks: demasiada informação?", White especula sobre o modo como Julian Assange parece herdar o idealismo de Gavrilo Princip, o assassino do arquiduque Franz Ferdinand e sua mulher, facto que em pouco tempo desencadeou uma série de eventos que conduziram à Grande Guerra de 1914-18. O paralelismo formulado por White não é jurídico, mas simbólico: especulando sobre a eventualidade de um conflito coreano, "isso faria do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, o Gavrilo Princip da catástrofe, ele que foi um outro jovem honrado que achou que matar um arquiduque ou dois em Sarajevo, em 1914, ajudaria a limpar a atmosfera e fazer do mundo um lugar melhor."

* Informação. Sem perder de vista que nenhuma informação é matéria passiva — integrando sempre os valores do modo como é gerida, desde a sua gestação até às formas da sua difusão —, Michael White ironiza ainda sobre o facto de alguns especialistas terem começado a levantar dúvidas sobre certas informações divulgadas, referentes às relações entre China e Coreia do Norte. Escreve ele: "Afinal de contas, os diplomatas não são mais que jornalistas com camisas lavadas; por vezes, interpretam mal as conversas."

* Da responsabilidade. Pensar a dinâmica (legal, social, política) que o WikiLeaks pôs em marcha como uma mera oposição utópica "verdade/mentira" seria repelir a necessária reflexão sobre os modos de existência da informação e, mais do que isso, sobre a implícita atribuição ao jornalismo de um lugar virginal de total des-responsabilização. O drama poderá, talvez, ser resumido por uma hipótese trágico-irónica: mesmo que todos os documentos divulgados, ou a divulgar, existissem como a intocável verdade de um oráculo sem alternativa, mesmo assim manter-se-iam todos os problemas inerentes às relações informação/jornalismo. Reduzir tais problemas a zero será, por certo, a primeira revolução ideológica do século XXI — resta saber por que preço, com que vencedores e com que vítimas.