segunda-feira, agosto 06, 2018

Robert Redford encerra carreira de actor

O COWBOY ELÉCTRICO (1979)
Robert Redford é um clássico — quase seis décadas de carreira, quase 82 anos de idade (a celebrar a 18 de Agosto). Pois bem, o seu classicismo vai ter o seu fecho simbólico: de acordo com declarações à 'Entertainment Weekly', Redford decidiu que The Old Man & the Gun, de David Lowery, será o seu derradeiro trabalho como actor (estreia em Setembro nos EUA, Novembro em Portugal).
Fascinante, é o mínimo que podemos dizer da sua trajectória. Para além dos títulos mais universais da sua carreira — Dois Homens e um Destino (George Roy Hill, 1969), O Nosso Amor de Ontem (Sydney Pollack, 1973) ou Os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976) —, encontramo-lo em projectos, não exactamente marginais, embora capazes de desafiar padrões temáticos e dramáticos, indissociáveis das convulsões internas, não apenas de Hollywood, mas da própria sociedade americana. Citemos apenas três exemplos emblemáticos: Perseguição Impiedosa (Arthur Penn, 1966), perturbante crónica social que, além do mais, funcionou como baptismo de fogo num elenco liderado por Marlon Brando; O Cowboy Eléctrico (Sydney Pollack, 1979), por certo um dos mais subtis e inteligentes filmes sobre a decomposição do imaginário clássico do "western"; Peões em Jogo (Robert Redford, 2007), admirável reflexão sobre a dinâmica política dos EUA, tendo como núcleo traumático a intervenção militar no Afeganistão.
É verdade: Peões em Jogo é uma realização do próprio Redford, aliás também um dos intérpretes principais, a par de Meryl Streep e Tom Cruise, além de um jovem talentoso, então desconhecido, chamado Andrew Garfield. A sua obra como cineasta — que inclui também, por exemplo, Gente Vulgar (1980) e Quiz Show (1994) — define uma admirável colecção de ficções, em tudo e por tudo filiada na mais nobre tradição liberal de Hollywood. Boa notícia: apesar de abandonar o trabalho como actor, Redford admite que vai continuar a realizar filmes.

>>> Uma cena de Dois Homens e um Destino + genérico de abertura de Perseguição Impiedosa + trailer de Peões em Jogo.





Steven Seagal: o nosso amigo russo

Assim vai o mundo: Steven Seagal, protagonista de filmes como Em Terra Selvagem (1994), Corrupção Total (1997) ou Yakuza - O Império do Sol Nascente (2005) está nomeado para uma função que lhe permitirá contribuir para a amizade entre os povos. Literalmente: nascido em Lansing, Michigan, em 1952, Seagal, que adquiriu a nacionalidade russa em Novembro de 2016, será um "representante especial para melhorar as relações entre os EUA e a Rússia". Segundo o ministério dos Negócios Estrangeiros russo, trata-se de um papel semelhante aos embaixadores de boa vontade das Nações Unidas, especialmente vocacionado para consolidar as relações entre os dois países "no campo humanitário, incluindo a cooperação na cultura, artes, público e intercâmbio de jovens" [NYT].
Actor medíocre, símbolo banal de um sub-cinema derivado do imaginário 'Rambo', Seagal surge, assim, como agente das nossas esperanças de apaziguamento de muitas tensões da geo-política. Seria abusivo menosprezar as suas qualidades humanitárias em nome da sua identidade cinematográfica. Em todo o caso, convenhamos que, para além da condição fútil de "famoso", é legítimo perguntarmos o que é que na sua trajectória profissional lhe confere alguma autoridade, ou apenas pertinência humana, para assumir tal cargo.
Decididamente, pelo menos no esvaziamento simbólico dos conceitos clássicos de política e fazer política, Vladimir Putin é um aliado directo de Donald Trump — na sua boa vontade humanitária, Seagal sabe isso.

[EM TERRA SELVAGEM]

Jornalismo audiovisual: um exemplo

Como integrar os novos recursos audiovisuais, em particular as potencialidades da Net, nas práticas quotidianas do jornalismo?
Eis uma pergunta, ainda e sempre, em aberto, susceptível de muitas e variadas respostas. Um dos casos mais exemplares — porque mais pedagógico no seu discurso e também mais elaborado na sua informação — será a secção de videos do jornal Le Monde. Eis três exemplos, sobre as relações Israel/Palestina, integrados série na série "... explicado em cinco minutos".
Os dois primeiros videos, "Meio século de conflito em Jerusalém" e "Compreender as origens da guerra em Gaza" datam de 2015; o terceiro, "Compreender a colonização israelita", foi produzido em 2017 [legendas acessíveis em várias línguas, incluindo o português]. 





domingo, agosto 05, 2018

sábado, agosto 04, 2018

Tom Cruise ou a arte do impossível

Aí está outra vez Missão Impossível, sexta edição e ao nível do título fundador, realizado em 1996 por Brian de Palma — este texto é uma parte de um artigo publicado no Diário de Notícias (30 Julho), com o título 'Tom Cruise volta a salvar o planeta'.

O novo Missão Impossível: Fallout é um genuíno espectáculo. Genuíno, convém sublinhar, já que nestes últimos anos a imposição dos modelos dos estúdios Marvel (quase) só tem gerado filmes repetitivos, sem imaginação, encerrados em clichés de super-heróis, confundindo a emoção com a multiplicação de explosões e ruído, muito ruído...
Enfim, não simplifiquemos: Missão Impossível: Fallout, dirigido por Christopher McQuarrie (que já assinara o anterior Missão Impossível: Nação Secreta), não acontece em atmosfera de recolhimento espiritual. Nada disso: desde uma vertiginosa perseguição pelas ruas mais estreitas de Paris até um delirante duelo coreografado entre dois helicópteros, estamos perante um objecto de cinema que faz apelo aos mais sofisticados recursos técnicos. Tão sofisticados e complexos que, por certo, para além do cachet de Tom Cruise (e da sua percentagem enquanto produtor), ajudam a explicar os 178 milhões de dólares de orçamento (contas redondas: 150 milhões de euros).
Acontece que não é secundário o facto de se ter Tom Cruise (56 anos, completados a 3 de Julho) e não um qualquer actor, muito ou pouco talentoso, que se perca nos adornos digitais que se sobrepõem ao seu corpo. Para além de executar muitas das cenas de acção (a ponto de ter tido um acidente que obrigou à interrupção da rodagem durante nove semanas), Cruise é um intérprete que insiste em preservar a verdade física da história que está a ser contada, nessa medida valorizando a dimensão humana das personagens, mesmo nas situações mais surreais — veja-se as condições de rodagem de um espantoso salto de páraquedas.


Por uma vez, o mercado podia ter arriscado na tradução do título original, optando por não utilizar a palavra “fallout”, mas sim a expressão “chuva radioactiva” (aliás, totalmente justificada pelas peripécias do filme). Seja como for, todos os fantasmas de destruição do nosso querido planeta perpassam pelo filme e não estaremos a revelar a sua intriga se dissermos que Cruise tem meios para lidar com os muitos imbróglios que lhe aparecem. Com uma elegância sedutora e (não digam a ninguém) plena de nostalgia cinéfila.

Senta Simond — feminino, singular

Marie
Haverá uma especificidade feminina que só se revela, ou pode revelar, através de um olhar feminino? A pergunta é suficientemente complexa para evitarmos cair em automatismos panfletários, potencialmente moralistas. Digamos apenas que, no plano fotográfico, o encontro de um olhar feminino com personagens de mulheres pode gerar algo de francamente singular, envolvente, resistente ao estereótipo.
Assim acontece com as imagens assinadas por Senta Simond, do seu livro Rayon Vert (ed. Kominek) — o título remete para o raro fenómeno óptico com essa designação, visível ao nascer ou ao por do sol, e também para o filme homónimo que Eric Rohmer realizou em 1986, integrado na série 'Comédias e Provérbios'. As fotografias aqui reproduzidas integram um portfolio publicado pelo jornal Libération.

Soumeya
Sunna

sexta-feira, agosto 03, 2018

Que viva Coltrane!

Se for necessário citar um álbum, um só, da discografia de John Coltrane (1926-1967) ao longo da década de 60, a escolha tem qualquer coisa de compulsivo: A Love Supreme (1965) é, de uma só vez, a cristalização perfeita do bop ou hard bop e uma afirmação radical de uma lógica de experimentação e improviso inseparável de uma inigualável pureza poética (enfim, não simplifiquemos: Kind of Blue, de Miles Davis, é de 1959...). Mas não são os tops ou as classificações o mais importante. O que, realmente, importa não esquecer é que a década de 60 foi, para Coltrane, então ligado à etiqueta Impulse!, um período de fascinante criação e reinvenção, desafiando sempre os seus próprios limites.
Pois bem, este Verão de 2018 essa história adquiriu um novo e esplendoroso capítulo com a edição de um conjunto de inéditos cujo reunião em álbum ficou, na altura, adiada [ler, a esse propósito, a contextualização de Giovanni Russonello no New York Times]: Both Directions at Once: The Lost Album é o fascinante registo de uma única sessão, no dia 6 de Março de 1963, com Coltrane acompanhado pelos fiéis McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria), os mesmos de A Love Supreme — em boa verdade, este é o quarteto que encontramos noutros registos fundamentais, da mesma época, como Ballads (1963), John Coltrane and Johnny Hartman (1963), Live at Birdland (1964) e Crescent (1964).
Como refere Hank Shteamer, encontramos aqui matéria preciosa para compreendermos como Coltrane pensava a sua própria evolução [Rolling Stone]. Enfim, dir-se-ia que, mesmo através da sua incompletude, Both Directions at Once é um testemunho exemplar dessa capacidade de ir por um caminho e... experimentar outro, até porque podemos escutar várias, e bem diferentes, takes de alguns dos temas — eis duas faixas do álbum: Untitled Original 11383 (Take 1) e Slow Blues; em baixo, recordamos Psalm, de A Love Supreme.





Antonioni, cinema e urbanismo

DESERTO VERMELHO (1964)
Como vemos e pensamos as nossas cidades? Eis uma evidência muito esquecida: o cinema também nos pode ajudar nessa reflexão: Antonioni, por exemplo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (29 Julho), com o título 'O urbanismo do nosso descontentamento'.

1. Sempre que observo os protagonistas do nosso pensamento social e político a agitarem-se com os dramas do nosso urbanismo, em particular nas grandes cidades, não posso deixar de me perguntar como é que eles são enquanto espectadores de cinema. Não é uma questão de autoridade, entenda-se, muito menos uma qualquer exigência de enciclopedismo (não tenho aquela autoridade e, em matérias enciclopédicas, reconheço-me francamente inapto). Acontece que muitos dos dramas actuais da vida urbana estão inscritos, de forma premonitória, por vezes com perturbante acutilância, em filmes que foram produzidos há 50 anos (ou mais). Regressar a tais filmes talvez nos ajude a alargar os modos da nossa reflexão.

2. Para nos ficarmos por um exemplo, emblemático entre todos, importa citar a esplendorosa herança da filmografia do italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007). Será preciso lembrar que o seu título mais conhecido, Blow-up (1966), através de uma estrutura insólita de filme policial, se apresenta como uma crónica desencantada sobre as novas formas de solidão na grande metrópole londrina? Isto sem esquecer, claro, a trilogia a preto e branco com que Antonioni abriu a década de 60 — A Aventura (1960), A Noite (1961) e O Eclipse (1962) —, admirável colecção de histórias em que se avalia a possibilidade de as relações homem/mulher superarem a crise dos seus valores clássicos. Nesta perspectiva, Deserto Vermelho (1964), ainda e sempre com Monica Vitti, actriz fetiche de Antonioni, continua a ser uma referência modelar. Nos seus cenários assombrados, mas sempre realistas (em termos urbanos, justamente), descobrimos os sinais de uma verdade que quase nunca queremos enfrentar, nem mesmo no plano estritamente político: muitos dos novos conceitos urbanos são desprovidos de qualquer pensamento humanista.

3. A indiferença corrente pelo valor de pensamento do cinema e dos filmes não se explica apenas pela crise da cinefilia enquanto memória colectiva: quase toda a gente saberá o que aconteceu no Mundial de Futebol de 1966, poucos associarão a data a Blow-up... Ora, o que está em jogo não envolve qualquer demonização do futebol (também eu tenho memória do Portugal-Coreia do Norte num pequeno televisor a preto e branco). O que importa considerar é este apagamento do cinema enquanto fenómeno visceralmente social, submerso por um marketing simplista que reduz o prazer do espectáculo ao mercado dos “super-heróis”. Eis um bom tema complementar para os nossos políticos, de todos os quadrantes, inscreverem na sua tímida agenda cultural.

quinta-feira, agosto 02, 2018

Celeste Rodrigues (1923 - 2018)

Símbolo maior do fado, dentro e fora das fronteiras nacionais, Celeste Rodrigues faleceu no dia 1 de Agosto, em Lisboa — contava 95 anos.
A irmã mais nova de Amália Rodrigues (1920-1999) ocupa um lugar muito especial na história do fado, antes do mais como intérprete dos cenários mais típicos da tradicional canção portuguesa. Estreou-se no Casablanca (Parque Mayer), em 1945, tendo cantado em lugares emblemáticos como o Café Latino, Café Luso, Adega Machado, A Viela e A Parreirinha de Alfama. Teve uma importante carreira internacional, do Brasil (onde participou em espectáculos com a irmã) a Angola e Moçambique, passando por Espanha e o então Congo Belga. Foi também uma das figuras em destaque nas primeiras emissões da RTP, a partir do teatro da Feira Popular, em Lisboa, na zona de Entre Campos.
Com uma discografia de cerca de seis dezenas de títulos, nunca abandonou o canto, tendo surgido em 2007 na colectânea Eles e Elas, a par de nomes clássicos como Alfredo Marceneiro, Maria Teresa de Noronha e Hermínia Silva, além de Amália. Em 2010, o seu neto Diogo Varela Silva realizou um documentário sobre a sua vida e obra, intitulado Fado Celeste.

>>> Eu Dantes Cantava, num registo televisivo de 1978 + Fado Celeste, por ocasião do 90º aniversário, filmado por Bruno de Almeida.




>>> Obituário no Diário de Notícias.
>>> Página de Celeste Rodrigues no Museu do Fado.

quarta-feira, agosto 01, 2018

Trump/CNN — história de um repórter

1. É o mais universal cliché do espaço televisivo: o repórter coloca-se de frente para a câmara e, empunhando o seu microfone, relata aquilo que está acontecer atrás de si... Por vezes, limita-se a uma informação redundante, porque já avançada pelo pivot em estúdio. Em qualquer caso, este é um dispositivo que parece acreditar (ou querer fazer acreditar) que estar lá é condição suficiente para garantir uma verdade automática, unívoca e inquestionável.

2. Curiosa perversão: por vezes, o acontecimento "revolta-se" contra o seu próprio relato televisivo. Assim aconteceu, a 31 de Agosto, na CNN, num directo de um comício de Donald Trump: com Wolf Blitzer em estúdio, o repórter Jim Acosta viu-se compelido a quebrar a regra do olhar frontal para a câmara porque, de facto, a agitação dos apoiantes de Trump era dirigida para ele, aliás, contra ele, com insultos à CNN e uma histeria de gritos e cartazes a denunciar as célebres fake news [video].

3. O episódio é sintomático e revelador — embora não me pareça que haja muita disponibilidade jornalística para reflectir sobre ele. De facto, na sua mediocridade filosófica, o imaginário Trump não se limita a propalar uma visão grosseira da liberdade de imprensa (pondo-a, objectivamente, em causa). Como se prova, na sua violência anti-democrática, tal visão tende a ser expressa até mesmo contra a logística da informação. Na prática, o episódio demonstra a necessidade de repensar a própria definição dos directos televisivos. E talvez um pouco mais. Encore un effort...