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O imaginário texano revisto por Beyoncé |
A recente consagração do álbum Cowboy Carter nos Grammys leva-nos a redescobrir um certo imaginário americano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 fevereiro).
Ao receber o Grammy de Álbum do Ano, por Cowboy Carter, Beyoncé dedicou a distinção a Miss Martell: “Espero que continuemos a fazer força para seguir em frente, abrindo portas.” Referia-se ela a Linda Martell, actualmente com 83 anos, cuja voz surge em dois temas do álbum. Num deles, Spaghettii, Martell pergunta: “Os géneros são um pequeno conceito divertido, não são?” [video] A questão está longe de ser banalmente pitoresca. Desde logo porque a inscrição de Cowboy Carter num género, a música country, tem tanto de linear, por causa das referências tradicionais que convoca, como de inadequado, já que estamos perante um álbum inequivocamente “by Beyoncé”.
Tendo em conta que Cowboy Carter também arrebatou o Grammy de melhor álbum country, as contas baralham-se, obrigando-nos a não cedermos na catalogação de qualquer produção artística como mera ilustração de um cânone pré-estabelecido. Afinal de contas, a saudação de Beyoncé remete para um evento muito concreto: em agosto de 1969, Linda Martell foi a primeira cantora afro-americana a participar no lendário programa de rádio Grand Ole Opry [video], em Nashville, Tennessee, verdadeiro templo artístico da country (criado em 1925, já ultrapassou as 5 mil edições).
A concepção de Cowboy Carter como um espaço de muitos cruzamentos temáticos e simbólicos tem outro sinal inequívoco na integração da canção Blackbird, tema dos Beatles do chamado “Álbum Branco”, publicado em 1968. Assinada pela dupla Lennon/McCartney, é uma daquelas composições cuja autoria pertence apenas a um deles, Paul McCartney. A canção nasceu associada a uma referência muito concreta (que, aliás, o próprio McCartney já explicitou em várias intervenções públicas): nela se evoca o chamado “Little Rock Nine”, grupo de nove estudantes afro-americanos (rapazes e raparigas) impedidos de entrar no liceu de Little Rock, Arkansas, a 4 de setembro de 1957 — a proibição foi ordenada por Orval Faubus, Governador do Arkansas, vindo a ser anulada pelo Presidente Dwight D. Eisenhower.
Há na elaboração de Cowboy Carter a lógica de um requiem. O que, bem entendido, está presente desde a canção de abertura, Ameriican Requiem — sem esquecer que a duplicação (“ii”) que encontramos em vários títulos do alinhamento decorre do facto de este ser o Act II: Cowboy Carter, dois anos passados sobre o lançamento de Renaissance, ou melhor, Act I: Renaissance. O arco simbólico desemboca no tema final, Amen, em que Beyoncé propõe uma “oração pelo que aconteceu”, já que “seremos nós a purificar os pecados dos nossos Pais”. Ou ainda: “As suas velhas ideias serão enterradas aqui.” [video]
Todo o trabalho iconográfico do álbum propõe um jogo de variações sobre as imagens tradicionalmente associadas às performances públicas da música country e, mais do que isso, a um imaginário dos “cowboys” intimamente ligado a múltiplas imagens da história de cinema e televisão. Da responsabilidade do fotógrafo Blair Caldwell, o portfolio de Cowboy Carter tem a sua imagem emblemática na capa do álbum, com Beyoncé a cavalo, com uma bandeira dos EUA, recriando o típico arranjo de abertura dos rodeos no estado do Texas (Caldwell é texano, tendo nascido na cidade de Tyler, em 1994).
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Beyoncé, fotografada por Blair Caldwell |
Dir-se-á que, globalmente, Cowboy Carter cumpre essa tarefa “ideológica” de revisitar o imaginário country, cruzando-o com as referências da cultura afro-americana que permaneciam secundarizadas ou mesmo omitidas. Assim é, sem dúvida, mas seria errado ceder ao simplismo do politicamente correcto para encerrar Beyoncé numa “mensagem” estereotipada. Nada disso pode ser dissociado de uma sensualidade das formas, das imagens e dos sons que se exprime na textura das canções. Escute-se, por exemplo, o tema Levii’s Jeans [video], interpretado com Post Malone — "Boy, I'll let you be my Levi's jeans".