sábado, fevereiro 16, 2019

À espera dos Oscars
— SOUND + VISION Magazine [24 Fev.]

Pela 91ª vez, Hollywood vai atribuir os seus lendários prémios: à espera dos Oscars, comentamos o panorama dos nomeados, revisitando também algumas memórias da história das estatuetas douradas — será poucas horas antes da cerimónia de Los Angeles (madrugada de 24 para 25).

* FNAC / Chiado: 24 Fevereiro (18h30)

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Maggie Rogers recria Whitney Houston

É uma das genuínas revelações de 2019: Maggie Rogers, com o seu álbum de estreia intitulado Heard It in a Past Life. Vale a pena escutá-la a mostrar como se pode fazer uma nova versão de uma canção clássica — I Wanna Dance with Somebody (1987), de Whitney Houston —, sendo fiel ao original e, ao mesmo tempo, inscrevendo uma marca muito pessoal nos resultados.
Eis a recriação (acústica!) de Rogers, em gravação efectuada num programa da rádio canadiana, The Strombo Show, de George Stroumboulopoulos; em baixo, a fundamental memória.



quinta-feira, fevereiro 14, 2019

Ellen Page — contra a cultura do sofrimento

Ellen Page esteve há dias em The Late Show. A nova série The Umbrella Academy (Netflix) era o pretexto do encontro com Stephen Colbert, mas a conversa acabou por ficar marcada pelo tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Page soube sustentar um discurso, de uma só vez emocionado e conciso, sobre a ideologia da administração Trump, as posições do vice-presidente Mike Pence e o modo como tais posições decorrem de uma postura cultural enraizada no ódio da diferença, procurando o sofrimento do outro — vale a pena ver e ouvir.

Weezer: memórias dos A-ha

O 12º álbum de estúdio dos americanos Weezer (o quinto auto-titulado) não é, convenhamos, um dos momentos mais requintados da sua discografia. Não pelo facto de propor "apenas" uma colecção de novas versões de temas que marcaram a carreira dos intérpretes originais (Tears for Fears, Eurythmics, Miachel Jackson, etc.). Antes porque tal opção se distingue por uma equívoca "fidelidade", tão versátil quanto frustrante.
Há coisas muito menos interessantes, é verdade. O certo é que, até mesmo quando recriam (?) um teledisco emblemático, os Weezer parecem satisfazer-se com o mais básico efeito copista, numa espécie de pós-modernismo simplista que poderia ostentar o subtítulo: covers for dummies.
Aqui fica a esforçada recuperação de Take on Me, dos noruegueses A-ha, um hino pop (com profusão de sintetizadores) do ano de 1984 cujo teledisco, apesar dos recursos digitais, exibe de modo esquemático aquilo que, no original [em baixo], era genuinamente criativo e exuberante.



A IMAGEM: Patrick Zachmann, 2018

PATRICK ZACHMAN
Novas escavações em Pompeia, Itália
Magnum, Outubro 2018

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

#MeToo [citação]

>>> (...) que o amor se sinta feliz de dizer "mulher" sem ser alvo da cólera de #MeToo; que se sinta feliz de dizer "homem" sem que se oiça berrar #MeTooToo.

BERNARD-HENRI LÉVY
Bloco-notas, 7 Jan. 2019

O Rato Mickey não entra em “Avatar”

Pixar, Marvel e Lucasfilm são estúdios de sucesso que passaram a pertencer ao império Disney; tal como, a partir de agora, a 20th Century Fox — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Fevereiro).

Que há de comum entre clássicos como O Pecado Mora ao Lado (1955), com Marilyn Monroe, ou o lendário Música no Coração (1965) e sucessos do século XXI como os novos episódios de Star Wars ou o recente Bohemian Rhapsody, evocando Freddie Mercury? Pois bem, todos têm chancela da 20th Century Fox, um dos nomes emblemáticos da história e da mitologia dos grandes estúdios de Hollywood.
E se o logotipo da Fox passasse a integrar o castelo de fantasia dos estúdios fundados por Walt Disney? Eis uma especulação provavelmente absurda, mas com forte motivação simbólica. Acontece que, em meados de 2018, o império Disney adquiriu a Fox por 71,3 mil milhões de dólares (cerca de 63 mil milhões de euros), sendo o final deste mês de Fevereiro apontado como data de integração de um estúdio no outro.
Na prática, o lendário clube dos “Big Six” de Hollywood vai ficar reduzido: os grandes estúdios (“majors”) passarão a ser apenas cinco (Paramount, Warner, Universal, Columbia e Disney). Mas o que está em jogo excede, e muito, o simbolismo histórico de tão excelsa galeria. Desde logo porque este processo de integração envolve muitas promoções, despromoções e despedimentos (segundo a imprensa especializada de Hollywood, há 4000 trabalhadores de diversos sectores da Fox que receiam perder os empregos); depois porque ninguém sabe como a Disney irá gerir o imenso e valiosíssimo património da Fox.
Uma coisa é certa: da produção à difusão, as dinâmicas internas da indústria de Hollywood vão mudar. E não apenas porque, por exemplo, projectos como as quatro sequelas de Avatar em que James Cameron está a trabalhar (com lançamentos agendados até 2015) foram gerados na Fox. O Rato Mickey não será integrado nos respectivos elencos, mas as suas formas de promoção e distribuição vão, por certo, ser repensadas.
A surpresa de tudo isto é muito relativa. Na verdade, as estratégias artísticas, tecnológicas e comerciais da Disney já pouco ou nada têm que ver com os conceitos em que foram gerados clássicos como Branca de Neve e os Sete Anões (1937) ou Bambi (1942). Nos últimos anos, o estúdio dilatou o seu poder económico, global, por excelência, através da aquisição de três outros estúdios: Pixar (pioneiro na animação digital), Marvel Entertainment (produtor dos maiores sucessos na área dos super-heróis) e Lucasfilm (a casa original de George Lucas e da saga Star Wars).
Ponto fulcral em tudo isto: a Disney está há dois anos a preparar o lançamento da sua plataforma de streaming, denominada Disney+. Com abertura prevista para o próximo mês de Setembro, nos EUA, a Disney+ assume-se como concorrente directa da Netflix, ao mesmo tempo reforçando a presença da Hulu (de que a Disney, através da aquisição da Fox, passou a deter 60%). Resta saber se os responsáveis por todas estas mudanças, a começar por Bob Iger (presidente da Walt Disney Company), possuem ideias criativas que acompanhem o seu inquestionável talento de gestores.

terça-feira, fevereiro 12, 2019

Maggie Rogers, opus 1

The next best thing?...
Maggie Rogers é uma daquelas revelações cuja frescura nasce de uma obstinada ligação a um passado cuja vitalidade se afirma sempre em linguagem do presente. Dito de outro modo: uma sensibilidade pop, rigorosa e depurada, aliada a um elaborado gosto coreográfico das canções, sem esquecer a concisão do fraseado, o peso específico de cada palavra.
Nasceu a 25 de Abril de 1994, em Easton, Maryland, e tornou-se conhecida através de Now That the Light Is Fading (2017), EP que incluía o hit Alaska, celebrizado graças a Pharrell Williams (que o incluiu numa master class na Universidade de Nova Iorque). Lança agora o primeiro álbum, Heard It in a Past Life, uma colecção de 12 temas cristalinos, desenhando um presente carregado de futuro — eis os telediscos de Alaska e Fallingwater, e ainda Light On, num registo de La Blogothèque, em Paris.






>>> Site oficial de Maggie Rogers.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

João César Monteiro — a memória dos filmes

O ciclo ‘Viva João César Monteiro’ permite-nos reencontrar a obra de um cineasta capaz de desafiar convenções e ideias feitas: começou no Porto, prolongando-se por Braga, Lisboa, Coimbra e Setúbal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Fevereiro).

Será que um dos problemas do cinema português é a sua ausência da memória colectiva dos portugueses? A pergunta pode atrair respostas muito contrastadas, porventura contraditórias. Mas todos estaremos de acordo sobre a necessidade de preservar essa memória. Aí está uma iniciativa que tenta corresponder a tal necessidade. Organizado pela Medeia Filmes e a Leopardo Filmes, o ciclo ‘Viva João César Monteiro’ é isso mesmo que está na sua designação: uma celebração da obra de um cineasta que marcou de forma indelével, não apenas a história do cinema português, mas os modos de pensar as suas grandezas e misérias.
O pretexto do evento é uma efeméride: falecido em 2003, João César Monteiro teria feito 80 anos no passado dia 2. O ciclo arrancou no dia 5 na cidade do Porto (Rivoli e Campo Alegre, dias 5 e 6). Segue-se Braga (Theatro Circo, dias 11 e 17), Lisboa (Monumental, 17 a 20), Coimbra (Teatro Académico Gil Vicente, 18) e Setúbal (Auditório Charlot, 21, 22 e 28; 1 de Março).
Conhecida a dimensão provocatória da obra do cineasta e também a sua vocação de polemista (foi, além do mais, um talentoso crítico de cinema), será salutar evitarmos qualquer processo de canonização dos seus filmes. Acima de tudo, importa contrariar um efeito de consagração que nos empurre para uma beatitude sem alma. Veja-se o que aconteceu em torno da figura de Manoel de Oliveira: depois de décadas de repúdio militante de muitos dos seus filmes, numa atitude quase sempre enraizada no desconhecimento dos próprios filmes, o seu falecimento, em 2015, desencadeou um generalizado processo de consagração como “mestre” que, no mínimo, soa a falso.
Ora, justiça seja feita, João César Monteiro nunca foi artista de suscitar unanimidades. Como é normal acontecer com os autores que têm a coragem de desafiar os limites da expressão cinematográfica, há vários dos seus filmes que nem sempre foram recebidos de forma entusiástica (incluindo pelo autor deste artigo).
Dito de outro modo: importa regressar ao convívio com o seu trabalho e percorrer os ziguezagues de uma trajectória que talvez se possa definir, globalmente, pela defesa de um realismo interior ao próprio cinema. Nada a ver com o naturalismo mediático que hoje prolifera, mais ou menos sustentado pelo pobre imediatismo dos telemóveis e as montagens aceleradas que proliferam na Internet. Nada disso. Antes um realismo que nasce da paixão pelo cinema como lugar de invenção de uma outra dimensão humana, talvez poética, sem dúvida inimiga da futilidade moral e do pensamento seguidista.
A exigência ética e estética do labor de João César Monteiro terá tido a sua expressão mais célebre no filme Branca de Neve (2000), adaptação “selvagem” de uma obra do escritor suíço Robert Walser (1878-1956). Como é sabido, a apresentação do texto de Walser aconteceu, na sua quase totalidade, sobre o ecrã a negro (tendo o filme a duração de 75 minutos). Permito-me relembrar que, na altura da estreia, escrevi que, desse modo, o filme “cria um maniqueísmo formal que ao fim de cinco minutos se torna redundante e previsível, isto é, que acaba por se atolar no seu próprio academismo.”
Apesar disso (ou precisamente por causa disso), importa acrescentar que o formalismo fácil de Branca de Neve nasce de uma revolta artística que, mais do que nunca, importa reconhecer e, pedagogicamente, compreender: trata-se de questionar o triunfo quotidiano de imagens (e sons!) convencionais e redundantes que, em última instância, menosprezam a inteligência do próprio espectador.
Curiosamente, em alguns momentos emblemáticos, através dos sinais dessa revolta, João César Monteiro lidou com uma questão que, com o passar dos anos, se tornou inerente a muito do cinema mais interessante que se vai fazendo nas mais diversas geografias e culturas. Que questão é essa? Pois bem, a discussão sempre em aberto das diferenças entre “documentário” e “ficção”, acrescida da permanente possibilidade de contaminação criativa das respectivas linguagens.
Três exemplos podem ajudar-nos a situar tal questão:
— SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1969). É o primeiro título da filmografia do realizador e, a meu ver, um dos mais depurados objectos que ele criou. Encontramos, aqui, a fragilidade de um típico home movie sobre a poetisa e o seu espaço familiar, fragilidade que se transfigura em verdade dos instantes e dos gestos — completamente realista, insolitamente cósmico.


— VEREDAS (1978). Historicamente, é muitas vezes citado como um “descendente” do admirável Trás-os-Montes, realizado dois anos antes por António Reis e Margarida Cordeiro. Haverá alguma justificação para isso, quanto mais não seja porque ambos os filmes ilustram um período de grande (e fascinante!) convulsão da produção portuguesa. Seja como for, João César Monteiro procura algo de muito particular: trata-se de reencenar o património lendário do país para expor uma violência interior que, simbolicamente, nos remete para o nosso presente — cinema político, no sentido mais radical que a designação pode envolver.
— RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA (1989). Tal como em alguns filmes posteriores (incluindo o derradeiro Vai e Vem, de 2003), João César Monteiro assume-se como actor principal, criando uma personagem (João de Deus) que é, de uma só vez, uma projecção sarcástica do seu cepticismo existencial e um ser tendencialmente burlesco que se dá bem com o olhar clínico da câmara de filmar. Por alguma razão perpassa aqui uma sugestão de cumplicidade com a figuração vampiresca do clássico Nosferatu (1922), de F. W. Murnau. Talvez que João César tenha sido um criador que viveu o cinema como supremo gesto de vida, isto é, empreendimento capaz de integrar o silêncio da morte. Estranhamente ou não, isso confere aos seus filmes, mesmo os menos conseguidos, uma alegria alheia ao jogo medíocre dos nossos cinismos.

25 canções de Madonna

Na sua série 'Deep Cuts', a Apple Music acaba de propor uma lista dedicada a Madonna. São 25 canções de diversos álbuns, de Like a Prayer (1989) a Rebel Heart (2015), passando por antologias como Something to Remember (1995) ou Celebration (2009).
Evitando o espírito convencional de um "best of", trata-se de reunir uma série de referências que ficaram mais ou menos secundarizadas pelo sucesso de outros temas incluídos nos mesmos registos. Exemplos significativos: Act of Contrition, um exercício confessional de ousada estrutura, última faixa de Like a Prayer; Sky Fits Heaven, uma delicada deambulação poética do álbum Ray of Light (1998); ou ainda o belíssimo X-Static Process desse álbum assombroso, quase sempre esquecido, que é American Life (2003) — eis X-Static Process num registo da MTV, em 2003.

domingo, fevereiro 10, 2019

A agenda política dos Pet Shop Boys

O tema não está na moda. Que tema? A apropriação artística do discurso político. Porquê? Porque tendemos a confundir os gestos políticos com a ocupação da paisagem televisiva por soundbytes mais ou menos efémeros.
Pois bem, Agenda, o novo EP dos Pet Shop Boys reflecte, precisamente, a agenda política de quem sempre concebeu o trabalho musical como um exercício de uma só vez lírico e pedagógico que, embora evitando encerrar-se num discurso panfletário, não abdica de olhar o mundo à sua volta. Neil Tennant e Chris Lowe oferecem-nos assim, quatro canções ("três satíricas e uma muito triste", no dizer de Tennant) que inventariam temas trágicos do nosso viver e, sobretudo do nosso mal viver. A saber:
Give Stupidity A Chance, sobre a mediocridade de alguns líderes políticos;
On Social Media, expondo as simulações e ilusões da sociedade em rede;
What Are We Going To Do About The Rich, denunciando a associação do dinheiro à insensibilidade humana;
The Forgotten Child, observando o vulnerável lugar da infância num mundo sem compaixão.
Aqui estão as novas canções (que não farão parte do álbum que o duo prepara para o Outono), devidamente ilustradas pela concisão das suas palavras.








>>> Site oficial dos Pet Shop Boys.

Albert Finney (1936 - 2019)

Com a morte de Albert Finney (dia 7 de Fevereiro, em Londres, contava 82 anos), desaparece um dos nomes maiores do moderno cinema britânico — membro da Royal Shakespeare Company, a sua sofisticada formação teatral transfigurou-se em filmes marcantes, quer britânicos, quer americanos, incluindo Charlie Bubbles/Um Homem e a sua História (1968), única produção cinematográfica que dirigiu.
Celebrizado por Tom Jones (1960), adaptação picaresca do romance de Henry Fielding por Tony Richardson, participou das convulsões da "nova vaga" britânica, distinguindo-se através de uma versatilidade enraizada numa capacidade invulgar de expor as mais secretas nuances emocionais do comportamento humano.
Ei-lo em cinco momentos modelares da sua trajectória artística.

>>> Sábado à Noite, Domingo de Manhã (1960), de Karel Reisz

>>> Ao Cair da Noite (1964), de Karel Reisz

>>> Charlie Bubbles/Um Homem e a sua História (1968), de Albert Finney

>>> Debaixo do Vulcão (1984), de John Huston

>>> Erin Brockovich (2000), de Steven Soderbergh

>>> Obituário no jornal The Guardian.

sábado, fevereiro 09, 2019

Clive Swift (1936 - 2019)

Popularizado pela série Cuidado com as Aparências, o actor inglês Clive Swift faleceu no dia 1 de Fevereiro, em Londres, na sequência de uma doença súbita — contava 82 anos.
Membro da Royal Shakespeare Company, Swift era um prodígio de subtileza contracenando com a genial Patricia Routledge, a senhora empenhada em fazer valer os seus (supostos) méritos aristocráticos em Cuidado com as Aparências (1990-95). E se é verdade que a sua carreira passou por muitas produções televisivas, não é menos verdade que o seu nome, sempre como brilhante secundário, ficou inscrito em alguns títulos emblemáticos do cinema britânico, incluindo Frenzy/Perigo na Noite (1972), a obra-prima esquecida com que Alfred Hitchcock regressou a cenários londrinos, Excalibur (1981), fantasia futurista de John Boorman, e Passagem Para a Índia (1984), belíssimo e também muito esquecido filme final de David Lean.
Swift deixou também uma obra considerável como autor de canções. O seu interesse pedagógico pela arte de representar levou-o a escrever os livros The Job of Acting (1976) e The Performing World of the Actor (1981).

>>> Cena de Cuidado com as Aparências.


>>> Frenzy: trailer protagonizado por Hitchcock; em baixo, uma conversa sobre o filme, no BFI, em 2012 — participam Swift e Jean Marsh, também intérprete.




>>> Obituário no jornal The Guardian.

Cremilda Gil (1927 - 2019)

mubi.com
Protagonizou uma carreira multifacetada ao longo de mais de meio século: a actriz Cremilda Gil faleceu no dia 8 de Fevereiro, na sua casa de Évora — contava 91 anos.
Foi no palco que se começou a distinguir, em particular no D. Maria II — A Visita da Velha Senhora e Madame Sans-Gêne são algumas das peças da primeira fase da sua carreira. Desde o começo da década de 60, foi uma presença em destaque na televisão, afinal o meio de expressão em que surgiu com mais regularidade — impôs-se como uma secundária de talento em "tele-teatro" (nos primeiros anos da RTP), filmes e séries. No cinema surgiu em títulos tão diversos como Raça (1961), de Augusto Fraga, Domingo à Tarde (1965), de António de Macedo, Brandos Costumes (1975), de Alberto Seixas Santos, Um Adeus Português (1985), de João Botelho, ou A Divina Comédia (1991), de Manoel de Oliveira.

>>> Minutos iniciais de Um Adeus Português.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Sexo x 4

Estas duas imagens coloridas são mesmo para ser tomadas à letra: os novos perfumes S&X definem-se através das suas conotações sexuais. Questão de corpos, entenda-se, encenados não como meros destinários do produto, antes como símbolos activos do imaginário sexual que, justificadamente ou não, enquadra a sua promoção.
Para completar a mensagem, o fotógrafo britânico John Rankin Waddell, ou apenas Rankin, concebeu uma especialíssima campanha com a agência 'The Full Service' (honni soît...). São quatro videos a preto e branco, contrariando a lisura assexuada do digital, celebrando a pluralidade dos corpos e respectivos encontros — todos os géneros, todas as idades, eis os enigmas primitivos do olfacto transfigurados em videoclip.







quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Beck inspira-se no filme "Roma"

Alfonso Cuarón decidiu convidar alguns dos músicos que mais admira a criar canções inspiradas no seu filme Roma. O resultado é um álbum que se intitula, precisamente, Music Inspired by the Film Roma. Com um alinhamento de respeito:

01. Ciudad de México – “Tepeji 21 (The Sounds of ROMA)”
02. Patti Smith – “Wing”
03. Beck – “Tarantula” (Colourbox cover)
04. Billie Eilish – “WHEN I WAS OLDER”
05. Bu Cuarón – “PSYCHO”
06. UNKLE – “On My Knees” (ft. Michael Kiwanuka)
07. Jessie Reyez – “Con El Viento”
08. El-P / Wilder Zoby – “Marooned”
09. Sonido Gallo Negro – “Cumbia del Borras”
10. Quique Rangel – “La Hora Exacta”
11. Ibeyi – “Cleo Who Takes Care of You”
12. DJ Shadow – “We Are Always Alone”
13. Asaf Avidan – “Between These Hands”
14. Laura Marling – “Those Were the Days” (Mary Hopkin cover)
15. T-Bone Burnett – “ROMA”

Para já, registemos a notável contribuição de Beck, recriando Tarantula, tema gravado em 1982 pelos Colourbox, depois popularizado pela versão de This Mortal Coil — escutando a nova versão, dir-se-ia que podia pertencer ao alinhamento de Sea Change, esse prodigioso álbum que Beck lançou em 2002.
Beck esteve no programa de James Corden, The Late Late Show, para interpretar Tarantula com um coro de luxo que incluía Feist, Natasha Khan (Bat For Lashes) e Inara George (The Bird And The Bee) — sem esquecer que a parte instrumental esteve a cargo da Filarmónica de Los Angeles dirigida por Gustavo Dudamel!

Steve McCurry — as mãos

Feyzabad, Afeganistão
Steve McCurry é muitas vezes identificado pela intensidade dos seus rostos. Mas, como se prova, há nele também uma atenção muito especial às mãos humanas, elementos essenciais da nossa identidade e, mais do que isso, da nossa relação com o mundo. Numa altura em que publica um belo livro antológico, A Life in Pictures (organizado pela irmã, Bonnie McCurry), o lendário fotógrafo da Magnum propõe no seu blog vários sinais dessa "silenciosa linguagem das mãos" — aqui ficam alguns exemplos.

Kabul, Afeganistão
Vale do rio Omo, Etiópia

quarta-feira, fevereiro 06, 2019

20.000 imagens e sons

A. Foi em 1954 que Richard Fleischer realizou essa deliciosa aventura que é 20.000 Léguas Submarinas, com James Mason na personagem lendária do Capitão Nemo.
Como é sabido, tudo tinha começado bem antes, em 1870, quando Júlio Verne publicou o clássico Vingt mille Lieues sous les Mers: Tour du Monde Sous-marin.

B. Dito de outro modo: nós chegámos um pouco mais tarde. O que não impede que este seja o post nº 20.000 publicado no SOUND+VISION. É verdade: desde 3 de Setembro de 2005, o Nuno e eu já partilhámos convosco 20.000 textos — de opinião, de celebração, noticiando coisas que gostamos de noticiar, canções, muitas canções, livros, filmes, televisão, etc.

C. No dia em que assinalamos a sedução de tão redondo número, chegou também a notícia de mais um teledisco de Neneh Cherry, do seu quinto álbum a solo, Broken Politics. Não exigíamos tanto, mas registamos o nosso humilde reconhecimento — eis Natural Skin Deep, além do mais com produção dos Four Tet, também eles várias vezes convocados para a nossa odisseia milenar.


Say Anything: uma quase-ópera-rock

Lembram-se de Tommy, a ópera rock dos ingleses The Who que celebra este ano o seu cinquentenário? Digamos que Oliver Appropriate, dos Say Anything, de Los Angeles, não será exactamente um objecto para colocar a par das geniais elucubrações de Pete Townshend, muitos menos uma tentativa de remake... Mas há aqui uma lógica de descendência que importa referir e valorizar.
A saber: em tempos de fragmentação gratuita e celebração do incidente anedótico contra a efabulação narrativa, é bom encontrar uma banda que arrisca construir um romance operático para fazer o retrato amargo e doce de um jovem punk, seduzido por todos os sexos, angelical, algo à deriva, talvez suavemente cruel como a personagem da capa.
Rezam as crónicas que tudo isso nasce da pulsão autobiográfica de Max Bemis (n. 1984), vocalista, compositor e sacerdote dos Say Anything. De tal modo que, depois de muitas atribulações pessoais, Oliver Appropriate possui qualquer coisa de redenção, na procura de um desafio radical que possa ser entendido como um lugar paradoxal de paragem e reinvenção. Como Bemis já informou, será o derradeiro álbum... ou talvez não.
O mínimo que se pode dizer de Oliver Appropriate é que não há muitos empreendimentos contemporâneos com este misto de energia e ambição, sempre ligado à crueza primitiva de um punk cuja frontalidade se confunde com o seu apelo poético. Para que conste, eis o exemplo esclarecedor de Send You Off.

You ask me to do this again
I say I think I just date girls
And you're not a girl, right? (You're not a girl, right?)
And you won't ever be one based on my insight
Actually I don't know how this works
This confusing spectrum of modern sexuality
I espouse it to my friends, but it churns me

Mom loves me too much
And my daddy not enough
And I grew up nouveau riche
And I'm a slick son of a bitch
Oh

And I can't (I can't), sustain (Sustain)
But I'll try (I'll try), if it numbs the pain
And I can't (I can't), sustain (Sustain)
But I'll try (I'll try), if it numbs the pain

Because mom loves me too much
And my daddy not enough
And I grew up nouveau riche
And I'm a slick son of a bitch

Because Bowie's my excuse
So I can brag of how I tried
But all I want to do
Is send you off and get you high
Get you high



>>> Say Anything cantam o tema Say Anything, do álbum Anarchy, My Dear (2012).


>>> Site oficial dos Say Anything.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

A filosofia do video-árbitro

[ FPF ]
As imagens não são revelações divinas do mundo à nossa volta. Ou será que o futebol está a mudar a nossa experiência estética? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (2 Fevereiro).

Lembram-se do quadro A Condição Humana, de René Magritte? Aliás, o pintor belga legou-nos dois quadros com esse título, um de 1933, outro de 1935. Ambos exploram o mesmo dispositivo figurativo: vemos uma tela, em cima de um cavalete, de tal modo que aquilo que está pintado “prolonga” os elementos do próprio fundo (uma paisagem campestre, o horizonte do oceano). Dito de outro modo: a representação da visão do pintor “confunde-se” com os elementos da paisagem representada.

1933

Há uma simples lição filosófica na visão de Magritte. A saber: representar o mundo não é “reproduzir” uma verdade automática e eterna, mas criar objectos que prolongam, porventura enriquecendo, a nossa experiência pessoal, essa experiência que, por alguma razão, podemos descrever através de uma sugestiva palavra: mundividência.
Escusado será dizer que, através de pintores como Lucian Freud ou David Hockney, passando por cineastas como David Lynch, a história moderna das imagens evolui através da consciência muito aguda dessa ambivalência: quando mostramos o mundo, estamos apenas a expor uma visão particular das suas componentes e dinâmicas, não uma verdade divina e intocável.
Com a instalação social do vídeo-árbitro (VAR), recuámos um século na nossa experiência estética. Repare-se no que está a acontecer, não apenas em Portugal, mas no espaço público do futebol. Metodicamente, somos levados a contemplar as imagens com a ânsia pueril do crente que confunde a sua relação com a divindade com a totalidade da experiência humana. Estar ou não estar fora de jogo deixou de ser um incidente normal de um desporto fascinante, sendo agora vivido como hipótese de uma revelação transcendental.

1935

Entenda-se: não se trata de negar a beleza inerente a um desporto tão complexo como é, ou pode ser, o futebol. E escusado será sublinhar que a discussão das componentes sociais do VAR não envolve qualquer dúvida sobre a seriedade e dedicação dos respectivos agentes — no site da Federação Portuguesa de Futebol, o VAR é mesmo apresentado através de um título sintomático, afinal ingénuo, que a prática tem desmentido: “Mínima interferência, máximo benefício.”
A questão fulcral não se esgota nas convulsões em que passou a viver a cultura futebolística (que é, muito simplesmente, a cultura dominante). O que se discute é o empobrecimento das nossas relações com as imagens.
Se tais relações se esgotam na procura de uma “verdade” sem rugas nem ambiguidades, isso significa que passámos a entender as imagens como meros instrumentos de “transcrição” da complexidade do mundo e da condição humana. Vivemos angústias infinitas por causa de um cartão vermelho que ficou por mostrar... Será que isso nos pode levar a ignorar a lição de Magritte? É uma lição que envolve ousadia criativa, uma inteligência fulgurante e, afinal, um valor muito esquecido: o prazer de olhar.

Time Grove, opus 1

Nitai Hershkovits — piano.
Rejoicer — sintetizadores.
Eyal Talmudi — clarinete.
Roy Chen, Amir Bresler e Sol Monk — bateria.
Bemet — teclados
Sefi Zisling — trompete.
Yonatan Albalak — guitarra.
Nove músico de sofisticados talentos para celebrar a alegria, de uma só vez elegante e imprevisível, de um jazz obviamente contaminado por muitas heranças, embora afirmando a vontade de edificar o seu próprio presente: são os Time Grove, ensemble de Tel Aviv, com um magnífico álbum de estreia adequadamente intitulado More Than One Thing — eis o tema Roy the King.

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

Julie Adams (1926 - 2019)

A participação no filme O Monstro da Lagoa Negra (1954) tornou-se o símbolo incontornável da sua carreira: a actriz americana Julie Adams faleceu no dia 3 de Fevereiro, em Los Angeles — contava 92 anos.
Nascida Betty May Adams, começou em finais da década de 40, destacando-se sobretudo em westerns de série B. Em O Monstro da Lagoa Negra, de Jack Arnold, experiência pioneira no cinema 3D, assumiu um modelo de personagem — a figura feminina que seduz a entidade monstruosa — que seria mil vezes retomado em aventuras mais ou menos fantásticas. O certo é que, a partir dessa altura, a televisão acabou por ser o seu domínio preferencial, surgindo em séries como Dr. Kildare, Perry Mason ou Mannix. Em cinema, um dos seus derradeiros papéis foi em World Trade Center (2006), de Oliver Stone. Em 2011, com a colaboração do seu filho, Mitchell Danton, publicou a autobiografia The Lucky Southern Star: Reflections From the Black Lagoon.

>>> Trailer de O Monstro da Lagoa Negra + video promocional da autobiografia de Julie Adams.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.
>>> Site oficial de Julie Adams.

"The Twilight Zone", por Jordan Peele

Já se sabia que a CBS está a refazer a lendária série televisiva The Twilight Zone, com Jordan Peele (o realizador de Get Out/Foge) a assumir o papel de apresentador que pertenceu ao lendário Rod Serling (1924-1975) no período 1959-64. Em todo o caso, no Super Bowl, foi uma surpresa absoluta a passagem deste breve spot promocional. Eis um minuto de contagiante espectáculo alicerçado na interrogação mais radical: "Quando a verdade não é a verdade, em que dimensão estamos?"

domingo, fevereiro 03, 2019

Alfonso Cuarón & Spike Jonze

Alfonso Cuarón
Com o seu maravilhoso Roma, Alfonso Cuarón recebeu o prémio de melhor realizador (longa-metragem, cinema) atribuído pela Directors Guild of America (DGA). Mais, incomparavelmente mais, do que as escolhas dos tão falados Globos de Ouro, esta é uma distinção que permite considerar o mexicano como grande favorito para o Oscar da mesma categoria (a atribuir a 24 de Fevereiro).
Na lista de prémios da DGA, assinale-se também a presença do actor Ben Stiller, neste caso como realizador da excelente mini-série Escape at Dannemora, e ainda Spike Jonze, na categoria de realização de filmes publicitários com Welcome Home, promovendo o Apple HomePod.
Protagonizado pela talentosa inglesa FKA Twigs, cantora com dotes de bailarina, Welcome Home [video] é um prodigioso exercício de imaginação cenográfica, afinal colocando em cena um dos valores mais fortes da actual conjuntura tecnológica. A saber: o enfrentamento da solidão individual através de uma (in)dependência gerada pela integração caseira dos mais variados gadgets "humanizados" — fascinante, sem dúvida, e também assustador.

A IMAGEM: Bruce Gilden, 2018

BRUCE GILDEN
'Só Deus me pode julgar' — Jessica: Overtown, Miami
Magnum, 2018

As guitarras de David Gilmour

Esta é uma D-35 Martin de 1969, guitarra fabricada pela C.F Martin & Company (Nazareth, Pensilvânia) — estima-se que o seu valor poderá oscilar entre 10 e 20 mil dólares. Vai estar à venda, a 20 de Junho, num leilão da Christie's, em Nova Iorque.
É apenas um dos items da impressionante colecção de guitarras de David Gilmour (e não dos mais valiosos). Aos 72 anos, Gilmour, personalidade emblemática dos Pink Floyd, decidiu vender mais de 120 guitarras dessa colecção — a receita será integralmente entregue a instituições humanitárias.
Aqui fica o tema Wish You Were Here, do álbum homónimo de 1975, nascido, justamente, na D-35. Em baixo, um breve video assinado por Gavin Elder, com Gilmour a partilhar memórias do seu convívio com tão fascinantes objectos.



sábado, fevereiro 02, 2019

FNAC: falando de séries televisivas

JL
Twin Peaks (1990-91 / 2017).
The Wire (2002-08).
Anjos na América (2003).
Três referências incontornáveis na história das séries televisivas. Foram algumas das memórias que partilhámos na nossa sessão na FNAC do Chiado dedicada, precisamente, às ficções do chamado pequeno ecrã — aqui ficam as respectivas imagens. Sem esquecer que o SOUND + VISION Magazine regressa a 24 de Fevereiro, tendo como tema central os Oscars de Hollywood.





Bob Mould, opus 13

Drones, paranóia, desinformação... O veterano Bob Mould, 58 anos, ex-Hüsker Dü, aí está a propor uma encenação angustiada e irónica deste mundo tecido de muitas vigilâncias. A canção Lost Faith pertence a Sunshine Rock, 13º registo a solo de Mould — ou como a sensibilidade alternativa ainda é o que era, tudo metodicamente encenado em ambiente germânico, com assinatura de Philipp Virus.

Para onde vão as séries de televisão?
— SOUND + VISION Magazine [ hoje ]


As séries mudaram a televisão, recebendo influências do cinema e contaminando também muitos filmes — no nosso Magazine, na FNAC, propomos uma viagem através de uma das zonas mais populares do consumo audiovisual, perguntando também como estão a evoluir os modelos de ficção. Será que ainda faz sentido separar os conceitos de "cinema" e "televisão"?

* FNAC / Chiado: hoje, 2 Fevereiro (18h30)

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Partilhando memórias do Holocausto

O filme Debaixo do Céu, de Nicholas Oulman, ensina-nos a olhar para as imagens do passado, questionando os próprios métodos de fazer história através do audiovisual — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Janeiro).

Com a estreia de Debaixo do Céu, o belo filme de Nicholas Oulman organizado a partir de memórias judaicas do tempo de ascensão dos nazis ao poder, enriquece-se o património documental sobre a Segunda Guerra Mundial. Noite e Nevoeiro (1956), de Alain Resnais, e Shoah (1985), de Claude Lanzmann, são algumas das referências incontornáveis no interior da mesma paciente e obstinada tarefa: a de não deixar morrer as memórias do Holocausto e, nessa medida, preservar os testemunhos dos sobreviventes.
O trabalho de Oulman é tanto mais admirável quanto se afasta, ponto por ponto, das mais fáceis (?) soluções narrativas. Dito de outro modo: estamos longe do preguiçoso dispositivo televisivo que encara as imagens como matéria “ilustrativa” à qual se sobrepõe uma voz off reduzida à missão de “evocar” factos à maneira de uma entrada de enciclopédia histórica.
Não está em causa que, por vezes, tal dispositivo tenha gerado objectos capazes de apresentar, de modo organizado e esclarecedor, alguns factos fundamentais da Solução Final montada pelo aparelho repressivo de Adolf Hitler. Acontece que filmes como Debaixo do Céu [trailer] sabem valorizar os recursos específicos da linguagem cinematográfica, convocando o espectador para uma riquíssima experiência cognitiva e sensorial.


Assim, os testemunhos de judeus que abandonaram a Alemanha a partir de 1932/33, rumando a diversos países europeus e americanos, incluindo Portugal, ocupam por inteiro a banda sonora — e escusado será sublinhar o modo como tal opção minimalista intensifica a contundência informativa das vozes e também a complexidade das emoções que transportam. O impacto de tais vozes remete-nos, afinal, para um tempo em que as pessoas escutadas eram crianças ou adolescentes.
Em simultâneo, vamos descobrindo espantosas imagens de arquivo, das menos vistas (ou mesmo não habitualmente utilizadas) em produções deste teor. Da visão aérea das ruínas de Berlim no final da guerra aos refugiados a conviver em lugares emblemáticos da cidade de Lisboa, somos confrontados com memórias que transcendem, e muito, a lógica “descritiva” das matrizes narrativas dominantes nos noticiários televisivos.
Aliás, quase todas as imagens de Debaixo do Céu são tratadas através uma metódica “lentidão”. Não é um efeito banal de câmara lenta, antes a criação de novas durações capazes de solicitar o nosso olhar para outros modos, mais atentos e exigentes, de contemplar os materiais de arquivo.
Nesta perspectiva, pode dizer-se que as imagens de Debaixo do Céu reavivam uma velha lição de Jean-Luc Godard exposta, em 1980, nesse filme prodigioso que é Salve-se quem Puder — título original: Sauve qui Peut (La Vie). Godard tratou as imagens do quotidiano alterando as suas velocidades de percepção [video], curiosamente integrando técnicas de manipulação que começavam a ser correntes no espaço televisivo, em particular no tratamento dos lances do futebol (no Reino Unido, o filme foi mesmo lançado com o título Slow Motion).


Eis uma outra lição simples e radical, isto é, indo à raiz das coisas: conhecer o passado através de imagens e sons não é acumular informação “visual”, acrescentando-lhe uma caução “sonora”. Debaixo do Céu lembra-nos que os nossos modos de relação com o passado, cruzando ética e estética, são também figuras do entendimento do nosso presente. Ver é seleccionar e reorganizar. Partilhar, enfim.