quinta-feira, agosto 14, 2014

Novas edições:
John Foxx

“The Virgin Years (1980-1985)”
Metamatic Records
4 / 5

O tempo por vezes leva tempo a emendar as coisas. E com John Foxx levou muito tempo a ser justo. Um dos fundadores dos Ultravox, foi vocalista do grupo com quem gravou os seus três primeiros álbuns (entre 1976 e 78) e do qual se afastou em 79. Mesmo quase ignorados nessa primeira etapa, os Ultravox definiram, sobretudo entre os álbuns Ha Ha Ha e Systems of Romance (ambos de 1978) as bases de um entendimento entre as guitarras e as emergentes electrónicas, abrindo terreno para o que seria o som do movimento romântico e muita da pop dos anos 80. Os sintetizadores ganharam peso com o aproximar do fim dessa etapa de vida dos Ultravox, que então partilhavam com Gary Numan a linha da frente de uma nova forma de entender a canção pop. John Foxx não teve sorte. Gary Numan tornou-se a primeira estrela pop britânica da era dos sintetizadores e os Ultravox viraram caso de sucesso quando se apresentaram com nova formação... Mas John Foxx tinha uma ideia, uma visão. E mantendo-se firme no trilho da demanda que encetara ainda no grupo, fez de Metamatic, o seu álbum de estreia a solo (editado em 1980), uma referência de uma nova pop electrónica mais assombrada (a quem muitos então chamaram cold wave). Houve quem o apontasse como estando a seguir Numan (foi mais ele o inspirador do outro, mas enfim) e, mesmo não tendo representando um caso de êxito de primeira linha, o álbum marcou o seu tempo e reivindicou de vez em nome de John Foxx um lugar na história da música electrónica. Os episódios que se seguiram nunca repetiram contudo o patamar de grande visão que este álbum sugeria. The Garden (1981) suaviza arestas mas mantém firme uma ligação aos registos electrónicos de Metamatic, abrindo todavia mais espaço a heranças de modelos new wave ensaiados ainda nos Ultravox. De resto, tanto neste álbum como no seguinte The Golden Section (1983) encontramos em John Foxx o melhor contraponto ao trabalho contemporâneo dos seus ex-colegas e, em ambos os casos, com discos mais interessantes que os que se revelavam entre Rage In Eden (talvez o melhor álbum dos Ultravox na fase Midge Ure, editado em 1981) e o pomposo Quartet (1982). Em The Golden Section John Foxx ensaia mesmo uma tentativa de diálogo com espaços pop mais ligeiros e luminosos (poderíamos dizer mainstream se a adesão popular se tivesse verificado), num álbum onde aceitou pontualmente a colaboração de um outro produtor: Zeus B Held. O tropeção chegou no seguinte In Mysterious Ways, disco descaracterizado e sem uma agenda de ideias tão sólida quanto a que dominara os três anteriores. Dos maus resultados nasceu uma vontade de se afastar da música. E assim, até ao regresso em finais dos noventas – claramente apontado a demandas numa área mais ambiental – John Foxx trabalhou como designer e chegou mesmo a dar aulas. Agora é tempo de rever a matéria dada. Esta caixa junta não apenas os quatro álbuns que lançou pela Virgin entre 1980 e 85, todos eles com som remasterizado e alinhamento alargado com extras da época, acrescentando ainda um quinto disco com gravações de arquivo ainda inéditas... Se passarem ao lado do álbum de 1985 encontrarão aqui uma das grandes obras da pop essencialmente feita com electrónicas (mas que não exclui demais presenças instrumentais) da primeira metade dos anos 80.