segunda-feira, dezembro 21, 2009

"Avatar" e os outros espaços (4/10)

UMA MULHER CASADA (França, 1964), de Jean-Luc Godard

Face a Avatar, de James Cameron, gostaria de defender a ideia segundo a qual a "descoberta" do 3-D é uma asserção historicamente fraca. Dito de outro modo: a história do cinema contém toda uma genealogia dramática do espaço, por vezes de enorme complexidade conceptual, que está muito para além da "ilusão" óptica — dez fotogramas para nos lembrarmos.

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O liberalismo pueril dos tempos banalizou a nossa relação com as imagens dos corpos e a sua nudez: ou são apresentados como uma promessa automática de "verdade" (observe-se o sinistro imaginário erótico das telenovelas), ou existem num turbilhão de coisas intermutáveis (registo comum da pornografia). E, no entanto, um corpo não é uma porta aberta. Se quisermos utilizar a pulsão poética que o espaço godardiano convoca, talvez possamos dizer que é antes uma janela por abrir. Em Une Femme Mariée, Godard filma a intimidade do casamento — e do aultério —, não como algo que, enquanto espectadores, possamos partilhar, mas apenas como o teatro geométrico e distante da perversa circulação dos valores sociais. Que pressentimos neste fotograma? O olhar do homem que toca? Ou o rosto da mulher que é tocada? Em termos históricos, o filme expunha o cerne das ilusões da sociedade de consumo e da sua celebração mercantil do "feminino". Tão certeiro e perturbante que, na época, a censura francesa obrigou a mudar o título original — era, não Uma Mulher Casada, mas A Mulher Casada (La Femme Mariée).