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É uma ironia cruel que Pedro Bandeira Freire tenha falecido poucas semanas decorridas sobre o fecho do cinema
Quarteto e aquilo que parecia ser a entrada num período difícil, mas de esperança possível, para tentar salvar as míticas salas de Lisboa. De facto, a sua obra no Quarteto (fundado em 1975) deixa uma lição cuja actualidade não será demais sublinhar: a de que é possível sustentar um modelo de exibição plural — do grande cinema de Hollywood aos objectos mais esotérios das cinematografias mais desconhecidas — que não gera (longe disso!) a indiferença do público.
À sua maneira, Pedro Bandeira Freire foi também um homem plural, repartido, dividido e reconfigurado pela diversidade dos seus interesses e actividades, desde a fundação da Livraria Opinião à escrita de crónicas, contos, poesia e teatro — publicara, recentemente, com chancela da editora Guerra e Paz, o livro
Entrefitas e Entretelas —, passando pelo envolvimento na vida da Sociedade Portuguesa de Autores. É inglório dizê-lo, mas quando nos vimos pela última vez, na edição do Fantasporto, o Pedro tinha balanço e alegria para mais algumas vidas de pura cinefilia.