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quinta-feira, agosto 22, 2013

Em conversa: Adam Ant (2/2)

Esta é parte da entrevista que serviu de base a um artigo sobre o álbum de regresso de Adam Ant, que foi publicado no DN.

Num dos temas do álbum que editou este ano presta um claro tributo a Malcom McLaren. Foi uma figura marcante para si?
Conheci-o na loja da Vivien [Westwood]. Foi uma pessoa importante naquele momento de transição na minha carreira entre o álbum muito indie que foi o Dirk Wears White Sox em 1979 o salto que chegou com o Kings of The Wild Frontier um ano depois. Foi o momento em que se fez o crososover. Ele disse que se eu queria vender mais discos teria de ter o rosto na capa, ter mais cor. Deu-me muitos conselhos sobre a estrutura das canções, sobre arranjos. Fez-me ouvir muitos discos de rock'n'roll. Foi por isso uma pessoa muito importante para mim.

Quando nos anos 00 surgiu uma nova geração de músicos rock atentos às heranças do pós-punk o álbum de 1979 Dirk Wears White Sox teve finalmente um certo reconhecimento...
Creio que terão gostado do som anguloso das guitarras... O Dirk Wears White Sox é um álbum algo complexo. E não é um disco punk... Fico feliz que possa atrair uma geração mais nova de músicos e ouvintes.

Os Adam and the Ants e os Blondie foram os primeiros exemplos de bandas brancas a ter hip hop integrado no espaço de uma canção pop. Como aconteceu?
Estive em Nova Iorque e tinha ouvido alguns daqueles primeiros discos. Uma vez passei pelo MoMA e estavam a fazer breakdance ao som de um disco do Gary Nuamn. A ideia do Ant Rap foi fazer uma música sem "música", apenas com um beat. Nasceu como uma experiência vocal... O video depois também surgiu com ideias muito elaboradas. A ideia foi mesmo a de despir a canção ao mínimo.

Porque se separaram os Ants em 1982?
Os Adam and the Ants separaram-se um pouco por causa da exaustão. Não parávamos. Tínhamos um contrato à moda antiga que nos obrigava a um álbum por ano, havia os singles e as digressões. Foi exaustivo. Nenhuma banda aguenta aquela agenda. Tem de tirar uns meses de vez em quando. Foi triste quando aconteceu... O baterista já era produtor quando se juntou à banda e queria produzir... Se tivéssemos tido o luxo de tirar uns tempos de folga talvez a banda tivesse continuado. Mas eu não estava nessa posição então. Eu só queria mesmo continuar a fazer discos e a tocar na América.

Nasceu nos dias do punk, mas como músico herdou muito do sentido clássico do glam rock. Acha que a sua música reflete essas heranças? São ainda lugares que visita hoje como ouvinte?
Escuto muita música. À medida que fui envelhecendo fui escutando mais jazz e mais música clássica. Mas há muitas coisas que escuto como educação, para aprender a compor e a escrever canções. O desafio do single de três minutos teve para mim uma escola no glam rock. E foi uma grande escola. No aspeto visual os Roxy Music estavam a fazer uma revolução. Tinham capas incríveis e a música certa para ir com aquelas imagens, como o Pijamarama ou o Virginia Plain. A produção era também muito boa.

Entre as memórias que recordou na sua autobiografia recorda os dias em que a sua mãe trabalhava em casa de Paul McCartney. Foram também experiências formadoras para si, esses tempos de convivência próxima com um beatle?
Era uma pessoa muito com os pés na terra e muito bom para a minha mãe. Mas para um miúdo de 11 anos aquilo era algo especial. Dizia onde a minha mãe trabalhava e abriam as bocas. Ele deu-me um white label do Revolver... Andava pela casa, via as guitarras, as roupas... Sempre gostei de música e sempre houve música em casa. Os Beatles eram um fenómeno e era muito novo. Eram os homens mais famosos do mundo e quando os via achava que quilo era o que eu gostaria de ser um dia.



Imagens do teledisco de Ant Rap, de 1981

quarta-feira, agosto 21, 2013

Em conversa: Adam Ant (1/2)

Esta é parte da entrevista que serviu de base a um artigo sobre o álbum de regresso de Adam Ant, que foi publicado no DN.

Esteve longe da música durante muitos anos. Porque levou tanto tempo a criar um novo disco e o que fez saber que era a altura para regressar?
Depois de Wonderful decidi focar a minha atenção numa carreira como ator, e estava então a viver em Los Angeles. Assim foi por cinco anos. Depois vivi no Tennesse durante uns outros três anos e mais tarde nasceu a minha filha. E aí achei que devia dedicar-lhe algum tempo. Pelo caminho escrevi um livro. Só há dois anos é que decidi voltar a dar concertos, a juntar uma banda e a fazer um disco. Parece que levou muito tempo, mas tive também de tratar de obrigações contratuais. Agora tenho a minha própria editora.

Visualmente a ideia que a capa do novo álbum sugere leva-nos para um período na sua vida em que apostou na imagem de uma forma evidente, vestindo a pele de personagens de outros tempos como piratas e hussardos. É uma imagem que acha que as pessoas ligam a si?
Tenho nove álbuns editados... Quando se regressa e começa a dar concertos depois de um período de ausência, senti que tinha um corpo de canções entre as quais podia escolher as que ia tocar. As canções que prefiro mesmo. Gosto de recordar singles, mas também temas de álbuns e lados B. Gosto de tocar coisas mais antigas do tempo do Dirk Wears White Socks. Mas o meu álbum preferido é o Kings of The Wild Frontier, e achei que podia ver como estaria essa mesma personagem 30 anos depois. Daí desenvolvi a ideia de alguém que foi até Moscovo com Napoleão mas sobreviveu. Há esse tema histórico de uma personagem que assim pude revisitar. E o álbum é sobre isso mesmo. E chame-lhe Adam Ant Is the Blueblack Hussar in Marrying the Gunner's Daughter.

Na etapa entre Kings of The Wild Frontier e o sucessor Prince Charming a utilização do vídeo fez da imagem uma força ainda mais importante. Acha que por esses dias os telediscos quase engoliram o protagonismo da música e si?
Sim, chegou a ser perigoso. Eu tinha já feito trabalho como ator, por isso estava preparado. Os vídeos foram até uma grande oportunidade para explorar os conhecimentos que tinha e ver o que poderia fazer. Serviram para criar histórias. Tudo serviu para servir explorar, na forma de pequenos filmes, o que eram as ideias das canções. Quando o video surgiu havia muita resistência das editoras, que não queriam gastar muito dinheiro na sua produção. Eu investi o meu dinheiro para criar os meus mini-filmes...

Como, por exemplo, no caso de Stand and Deliver?...
Sim, exatamente. Esse paguei-o eu mesmo. Paguei-os porque achava que valia a pena fazê-los. Sempre tive a consciência da importância da imagem perante uma canção. Mas ao mesmo tempo sempre toquei ao vivo. Sempre tive uma banda. O video não foi algo que tomasse assim o lugar da música. Creio que o Thriller do Michael jackson foi mesmo o ponto mais alto que se atingiu. Depois os orçamentos passaram a ser milionários,. E chegou-se a um ponto em que se transformaram na coisa mais importante a fazer e isso era algo que eu não queria. O video foi para mim um bónus para fazer um publico sentir qualquer coisa, mesmo antes de nos poder ver ao vivo. A revolução do video foi por isso muito importante para artistas como eu. Foi uma boa maneira de poder chegar onde nunca teria podido ir antes.

Falava do trabalho como ator. Participou, por exemplo, em Jubilee, filme histórico de Derek Jarman...
Sim, e foi tudo muito explícito, muito espontâneo. Ele deixava os atores improvisar muito. Ele não tinha muito dinheiro... o que gerava algumas restrições. Era um cinema de guerrilha, de certa maneira. Foi o único filme a captar a energia do punk, a captar o verdadeiro feeling do que estava a acontecer e daquele tempo tão importante. O Derek era um homem muito criativo.



Imagens do teledisco de Stand and Deliver, de 1981

(continua)