terça-feira, março 15, 2016

Telediscos, ma non troppo

Vale a pena regressar ao novo teledisco dos Massive Attack: quem o viu merecer algum destaque... televisivo? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Março), com o título 'Telediscos do nosso descontentamento'.

No campo musical do trip hop e das electrónicas, 2016 começou com boas notícias: os ingleses Massive Attack, de Bristol, estão a trabalhar num novo álbum (a ser lançado lá mais para o final do ano), para já oferecendo-nos um EP de quatro temas, intitulado Ritual Spirit em que colaboram, entre outros, com o velho amigo Tricky.
Visualmente, a divulgação do novo mini-álbum começou com o teledisco de Take It There, precisamente a faixa em que surge Tricky, dirigido pelo japonês Hiro Murai. Nele encontramos o actor americano John Hawkes numa performance que, com contagiante ironia, combina uma estranheza quase zombie com o apelo da dança.
Entretanto, surgiu um segundo teledisco que fica, desde já, como uma das obras-primas audiovisuais deste ano. O tema Voodoo in My Blood, feito em colaboração com a banda de hip hop Young Fathers, é encenado como uma cerimónia ritual em que Rosamund Pike (a brilhante actriz inglesa que contracenou com Ben Affleck em Em Parte Incerta, de David Fincher) se confronta com uma entidade misteriosa — uma esfera que tem qualquer coisa de personagem de filme de ficção científica, ao mesmo tempo que apela a um ritmo de sedução que envolve a possibilidade de aniquilamento físico.


Filmado naquilo que parece ser uma passagem para peões do metropolitano, o teledisco, realizado pelo inglês Ringan Ledwidge, tem tanto de pequeno conto de terror (há mesmo um momento em que da esfera emerge uma assustadora arma pontiaguda) como de quadro musical dançado. Entre a esfera e a actriz vai-se desenhando uma cumplicidade estranhamente erotizada que leva as duas entidades a partilharem uma insólita coreografia.
O trabalho de Ledwidge é tanto mais interessante quanto explora as possibilidades de uma opção que, em boa verdade, está inscrita na história do cinema, mais precisamente no património do género musical (West Side Story, de 1961, pode ser uma boa referência). Trata-se de ocupar um espaço urbano, desarmante na sua indiferença realista (ou no seu realismo indiferente), para elaborar uma mise en scène que mima a delicada sofisticação de um projecto concretizado na segurança material do estúdio.
Há ainda outra maneira de dizer isto: o campo dos telediscos continua a gerar experiências fascinantes, muito para além de qualquer atitude banalmente “ilustrativa” face às matérias musicais. O facto é tanto mais desconcertante quanto o espaço televisivo (será preciso lembrar as afinidades entre as palavras “teledisco” e “televisão”?) há muito criou barreiras à sua difusão. Desde logo, porque a MTV que, historicamente, lhes serviu de palco e matriz passou a ser dominada pela avassaladora mediocridade de formatos da reality TV; depois, porque deixou de haver programas realmente empenhados em manter alguma atenção à produção regular de telediscos. A pouca visibilidade de Voodoo in My Blood é sintomática, mas não passa de uma gota de água no oceano.
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NOTA: O teledisco foi filmado numa passagem subterrânea de ligação à estação de metropolitano de Edgware Road, na zona oeste de Londres [agradeço a informação a João Cerca].