quinta-feira, outubro 22, 2015

Cavaco Silva e o fim do "soarismo"

JOSÉ MALHOA
Fado
1910
* A história televisiva da política pode ser também uma máquina de perversos simbolismos edipianos — assim, foi o filho de Mário Soares, João Soares, que em nome do PS surgiu em primeiro lugar a apelidar publicamente de coisa "estranha" as palavras do Presidente da República [indigitando Pedro Passos Coelho para formar governo].

* "Em 40 anos de democracia, nunca o Governo de Portugal dependeu de forças políticas anti-europeístas", disse Aníbal Cavaco Silva na noite de 22 de Outubro de 2015.

* Haverá, por certo, razões sensatas e legítimas para discutirmos muitas variantes da performance de Cavaco Silva como Presidente da República (e também, como é óbvio, no papel de primeiro-ministro). Em todo o caso, na sequência das eleições de 4 de Outubro, o discurso em que indigitou Pedro Passos Coelho entrará para a história como uma tomada de posição que põe o dedo na ferida mais antiga da democracia portuguesa.

* Dito de outro modo: o PR estabeleceu uma clara linha de demarcação, não entre "direita" e "esquerda", mas sim entre europeístas e anti-europeístas.

* No fundo, Cavaco Silva sublinhou, com surpreendente contundência e lucidez, um dado vital (aliás: o dado vital) da conjuntura que estamos a viver. A saber: é o Partido Socialista que está no cerne de tudo o que vier a acontecer, já que em nome da "esquerda" se tem estado a colocar, nem que seja por um perverso processo de denegação, no sector anti-europeísta da sociedade portuguesa.

* Termina, assim, o "soarismo" — o de Mário Soares, entenda-se.