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| Foto: Ken Howard / Metropolitan Opera |
Na sequência de um convite chinês a uma equipa de jogadores de ténis de mesa norte- -americanos para um torneio na China em 1971, a viagem de Richard Nixon começou a desenhar-se em julho desse mesmo ano, por uma ocasião de uma ida ao Paquistão do consultor para Segurança Nacional Henry Kissinger, este tendo passado por Pequim para um primeiro número de reuniões secretas que prepararam a ida do presidente americano em 72. Até então, alguns outros chefes de Estado norte-americanos haviam passado pela China, mas nunca em funções. Ulysses Grant (16) visitara o país depois de terminada a sua administração. Herbert Hoover (17) tinha ali vivido brevemente antes de chegar à Casa Branca, em 1899. Já Dwight Eisenhower havia visitado Tawian em 1960, num tempo em que a diplomacia norte-americana não reconhecia ainda a República Popular da China. Em 1968, um ano antes da sua eleição, Nixon escrevera em Foreign Affairs que “não havia lugar neste pequeno planeta para que um bilião dos seus habitantes potencialmente mais capazes viva num estado de irado isolamento”(18). Da visita de sete dias, que incluiu apenas um encontro entre Nixon e Mao (que aconteceu logo no dia da chegada da comitiva Americana), resultaram as bases para um novo entendimento político e comercial entre os dois países, a questão de Taiwan tendo sido também debatida entre diplomatas. Além das reuniões com Chou En-lai, Nixon visitou a Grande Muralha, Hangzhou e Xangai, tudo sob a presença permanente dos media que, a par e passo, levaram notícias e imagens desta viagem a todo o mundo.
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| Imagens de arquivo da visita de Nixon à China em 1972 |
John Adams tinha já lido vários artigos na imprensa sobre o jovem encenador. Era um estudante “controverso” que, como o compositor recorda na sua memória autobiográfica, tinha feito “o equivalente a lançar uma cobra cascavel viva na sóbria e conservadora vida musical da Boston de então”(23). Encontraram-se pela primeira vez na cafetaria de uma pequena escola de música onde decorriam os ensaios de uma produção da ópera Armida, da Haydn, que Sellars ia encenar. Sellars, por seu lado, conhecia já o trabalho de Adams e propôs de imediato que colaborassem num projeto comum. Tinha mesmo um título para a ópera que gostava que fizessem juntos: Nixon in China, uma espécie de versão pop art do Iphigenia in Tauris (ópera de Gluck estreada em 1779), como recorda o compositor. Sellars, descreve Adams, tinha estado a ver os bailados políticos chineses, “produto das fervorosas campanhas de agitação e propaganda de madame Mao (24), assim como tinha estado a ler os relatos pomposos e autoelogiosos de Kissinger sobre os seus anos na Casa Branca”(25). Sugeriu assim que fizessem uma espécie de encontro, ao jeito realpolitik, entre o Oriente e Ocidente. Apesar de ainda incerto sobre o que poderia surgir, sabendo que nunca antes tinha escrito para vozes, muito menos uma ópera, Adams regressou a São Francisco pouco convencido de que aquele seria um caminho a seguir, pensando mesmo que a ideia lhe lembrava até “os maus comediantes que faziam imitações de Nixon na televisão, movendo os ombros e fazendo o sinal de vitória com os dedos” (26). Dois anos mas tarde reconhecia que esta era, afinal, uma grande ideia...
(16) Ulysses S. Grant (1822-1885) – 18.º presidente dos EUA, entre 1869 e 1877.
(17) Herbert Hoover (1874-1964) – 31.º presidente dos EUA, entre 1929 e 1933.
(18) in http://millercenter.org/president/nixon/ essays/biography/5.
(19) Peter Sellars (n. 1957) – um dos mais aclamados encenadores de teatro e ópera do nosso tempo. É professor na UCLA.
(20) in John Adams, Hallelujah Junction (Faber & Faber, 2008), pág. 135.
(21) Ronald Reagan (1911-2004) – 40.º presidente dos EUA, entre 1981 e 1989.
(22) Jimmy Carter (n. 1924) – 39.º presidente dos EUA, entre 1977 e 1981.
(23) in John Adams, Hallelujah Junction (Faber & Faber, 2008), pág. 125.
(24) Jiang Qing (1914-1991) – pseudónimo usado por Lan Ping, a última mulher de Mao e uma figura importante na história da Revolução Cultural, sobretudo entre 1966 e 76. Caiu em desgraça e foi presa depois da morte do marido. Suicidou-se em 1991. Na ópera Nixon in China é tradada como Madame Mao.
(25) in John Adams, Hallelujah Junction (Faber & Faber, 2008), pág. 126.



