sexta-feira, março 01, 2013

Novas edições:
David Bowie, The Next Day

David Bowie 
"The Next Day"
ISO Records / Sony Music 
5 / 5

Este texto foi originalmente publicado a 27 de fevereiro no DN Online com o título 'O melhor disco de david Bowie em 33 anos'.

Não há como a instituição de um lugar comum para instalar preconceitos. E um deles é aquele com que tantas vezes ouvimos dizer que David Bowie foi uma força com uma invulgar mão-cheia de grandes álbuns nos anos 70 mas que só então experimentou e lançou novas ideias... Tremenda injustiça para com o mesmo homem que desafiou os confrontos da sua linguagem com eletrónicas e uma ideia de composição com sugestões de role playing para os músicos (em 1.Outside, de 1995), novas formas rítmicas menos habituadas com diálogos com a canção pop/rock (em Earthling, de 1997) ou até mesmo uma focagem, em contexto contra-corrente, de heranças mais próximas das tradições do vaudeville ou do teatro musical no seu primeiro álbum a solo, editado em 1967 (que merecia outra atenção e maior destaque no quadro de honra da sua discografia).

É verdade que, depois da experiência pop talhada juntamente com Nile Rodgers, em Let's Dance (1983) a sua carreira no resto dos oitentas foi sempre mais nutritiva entre singles que nos alinhamentos dos álbuns. E que, depois de hours... (1999) descobriu um novo patamar essencialmente feito de olhares sobre si mesmo, revisitando memórias, evitando contudo um registo de nostalgia ao fazê-lo sob um ponto de vista contemporâneo. Esta nova fase teve como primeiros paradigmas a canção (e o impressionante teledisco que a acompanhou) Thursday's Child e a imagem da própria capa do álbum hours... (uma pietà com um Bowie envelhecido olhando um outro mais novo), entre todos eles Bowie traduzindo a verdade do tempo que passou e inscrevendo nelas as marcas de um homem que contempla quem foi para, no fim, nos dizer quem agora era...

Dez anos após o silêncio que se seguiu à interrupção da Reality Tour (a poucos dias de uma passagem pelo Porto, que acabaria por ser cancelada) e durante os quais apenas surgiu em pontuais colaborações com os Arcade Fire, TV On The Radio, Scatlett Johansson, Kashmir, um novo paradigma para essa mesma noção de classicismo à la Bowie lançado em 1999 surgiu no dia do seu 66º aniversário quando, ao som de Where Are We Now? reencontrámos a voz e um autor numa canção sem receio de mostrar as suas rugas, observando à distância os dias vividos em Berlim nos anos 70 e refletindo sobre o presente, consciente do tempo que passou.

A canção - que lhe deu o momento mediático mais eufórico e transversal em mais de vinte anos - abriu caminho para um disco que, mesmo não replicando vezes 14 (o número de faixas) o modelo da balada (aparentemente) frágil que ali se mostrava, acaba por traduzir a essência mais profunda de um autor que, sem escapar ao presente (que aborda em algumas das letras) constrói uma narrativa feita da revisitação de momentos e épocas pelas quais a sua obra passou. Tem todo o direito de o fazer, acrescente-se. E fá-lo, uma vez mais, sem o recurso fácil à nostalgia. A guerra e quem a faz surgem em How Does The Grass Grow (que mos fala de soldados, de como são treinados para matar os seus iguais e como o fazem) e I'd Rather be High (sobre o que fica em cada combatente depois de regressar dos campos de batalha). Há cenários distópicos de um mundo assombrado no tema-título. Há delinquentes (e em seu torno um certo magnetismo) em Dirty Boys, canção cujos sons transportam ecos de memórias dos dias de Young Americans, assim como The Next Day é herdeiro natural de um Scary Monsters. If You Can See Me, por sua vez, pisca um olho ao fulgor de Earthling e o outro a memórias distantes dos dias de Diamond Dogs e You Feel So Lonely I Could Die (uma das mais belas canções do álbum) recorda as formas elegantes do lado A do clássico Ziggy Stardust. Auto-centrado e auto-referenciado, The Next Day aceita apenas uma mais evidente assimilação de ideias (e linguagens) de outras paragens quando avança por terrenos que se aproximam dos de um Scott Walker (que há muito se admiram mutuamente) em Heart, assombrosa balada que fecha o alinhamento.

Pois não será The Next Day um álbum para contrariar aquela ideia pré-concebida do Bowie visionário como valor exclusivo da sua obra nos anos 70. Nem ninguém o esperava, nem pelo que costumam ser as obras de músicos veteranos (embora haja quem fuja à regra) nem pelo rumo natural que haviam tomado os seus três álbuns imediatamente anteriores, sobretudo hours... (de 1999, com evidente foco de atenção sobre memórias dos dias de Hunky Dory, em inícios dos anos 70) ou Heathen (de 2001, que evoca a etapa "berlinense" da segunda metade dos setentas).

The Next Day não será por isso, como o o foram Hunky Dory (1971), Ziggy Stardust (1972), Diamond Dogs (1974), Young Americans (1975), Station to Station (1976), Low (1977), Heroes (1977), Scary Monsters (1980), Let's Dance (1983), 1.Outside (1995) ou Earthling (1997), espaços onde a surpresa comandou as operações e inscreveu as respetivas canções entre os episódios mais marcantes da história da música popular, um disco para lançar novos rumos para a música do nosso tempo. Mas, e tal como o fez o magnífico hours..., embora neste novo disco sob horizontes ainda mais largos e, convém dizer, algumas das melhores canções da obra de Bowie, The Nex Day merece morar ao lado de Time Out Of Mind (1997) de Bob Dylan, Chaos and Creation in The Backyard (2005) de Paul McCartney ou Banga (2012) de Patti Smith como exemplo maior do que é o discurso sólido de um veterano inspirado. Acrescente-se, em jeito de remate, que, mesmo sem repetir os focos de inovação que ensaiou entre 1993 e 97, este é simplesmente o melhor álbum de Bowie desde Scary Monsters. Em 33 anos, sim.

Entretanto o álbum está já disponível para audição integral em streaming aqui.