Foi a maior surpresa da edição da edição do ano passado do Lisbon & Estoril Film Festival e representa a grande estreia nas salas de cinema nacionais desta semana. Progressão natural do que Xavier Dolan nos mostrara já nos anteriores J'ai Tué Ma Mère (2009) e de Amantes Imaginários (2010), o novo Laurence Anyways liberta-o de um mais evidente jogo de citações das suas referências e propõe um dos mais seguros e assombrosos retratos de uma figura transsexual alguma vez levados a uma produção destas dimensões. Ao mesmo tempo representa um dos mais interessantes exemplos de entendimento entre o cinema e a música, entre as canções evocadas e a música original nascendo uma das melhores bandas sonoras dos últimos tempos. E ainda uma das mais brilhantes expressões contemporâneas das grandes heranças do melodrama. Em novembro, por ocasião da passagem do filme no festival, escrevi aqui estas linhas:
Com dimensões de alguma ambição épica (são 169 minutos de filme) Laurence Anyways em nada rompe com o que Dolan já nos mostrou. Barroco nas formas, ocasionalmente histriónico nos diálogos e com alma de grande teledisco, o filme acompanha retalhos da vida de um professor que vive um dia a dia arrumado. Trabalho, uma relação estável... Mas que desde sempre sentiu que nascera com o corpo errado. O processo de transição, a forma como a mulher com que vive, a família e colegas reagem evoluem entre saltos no tempo, porém sob uma condução narrativa que partilha um permanente diálogo com uma demanda de sons e imagens que faz afinal do filme um corpo que se afirma essencialmente como uma experiência estética (o que não significa, note-se, um abafar do tema, antes juntando esse texto ao contexto, um diluindo-se no outro).
Se a personalidade compósita que é expressão natural de uma linguagem em formação na era da informação – onde tantos dados circulam e podem ser assimilados – tem aqui a sua mais evidente expressão de um “eu” ainda em construção, as citações continuam a morar sem receio no cinema de Xavier Dolan. Das folhas que caem do céu como no Written In the Wind de Douglas Sirk ao desfile de rostos e poses como na versão do teledisco de Fade To Grey dos Visage que está disponível no DVD antológico da banda, Laurence Anyways herda elementos de uma genética que, afinal, é o DNA que constrói este olhar. Junta-se ainda a música de uns Fever Ray, Depeche Mode, Tindersticks, Kim Carnes, Beethoven ou Duran Duran (dando maior visibilidade que nunca ao brilhante The Chauffeur, a canção do álbum Rio que nunca foi single – e devia ter sido), somam-se olhares que por vezes abandonam a medula da narrativa para observar gentes e lugares ao seu redor e uma espantosa composição do protagonista por Melvil Poupaud, e encontramos em Laurence Anyways uma das melhores surpresas dos últimos tempos. É que, depois do passo em falso de Amores Imaginários, a ambição evidente deste projeto poderia ter acabado num verdadeiro tropeção. Pelo contrário, e mais que nunca, mostra porque em Xavier Dolan podemos encontrar uma das vozes mais interessantes da sua geração.
Imagens do trailer do filme



