terça-feira, março 15, 2011

Publicidade (ou a indigência mental)


1. Nestes tempos de exaltação dos "jovens" e das "redes", há toda uma ideologia dominante que trabalha para criar conflitos da mais pura estupidez. São conflitos que tentam obrigar os respectivos protagonistas a escolher "um-lado-de-dois". Mais do que isso: obrigam-nos a pôr de parte a nossa inteligência.

2. Assim, é quase impossível lembrar que o fascínio do Facebook pode e deve ser pensado como um instrumento plural, necessariamente contraditório, de toda uma nova conjuntura tecnológica e cognitiva (afinal de contas, não basta termos liberdade de imprensa para termos melhores jornais — como diria Monsieur de La Palice... é preciso que os jornais sejam melhores). Do mesmo modo, qualquer dúvida que se formule sobre as bases discursivas de um qualquer conceito de geração, conduz frequentemente ao mesmo vazio argumentativo: afinal, estás "por" ou "contra" a minha geração?

3. As leis desta estupidez reinante — capaz de contaminar todas as áreas do social — provêm muitas vezes da publicidade (o que, como é óbvio, também não significa que não se admire a energia e subtileza de muitos trabalhos de natureza publicitária). Em boa verdade, a publicidade, com todos os seus derivados especificamente televisivos, é uma das mais poderosas linguagens do mundo moderno.

4. Esta nova campanha da Diesel — "Banir o que não queremos do Mundo!" — surge como uma encarnação brutal dessa capacidade que a publicidade tem, ou pode ter, de reencenar a vida humana como uma colecção de items que resumem o seu/nosso presente através de uma colecção de rótulos e atitudes mais ou menos formatadas.

5. A frase de abertura é esclarecedora: "Fiel ao seu espírito transgressor e punk, a Diesel decidiu agitar o mundo de uma maneira muito social" (isto depois da não menos esclarecedora campanha anterior que proclamava "Be Stupid"). O "arrojo" não se fica por essa transgressão que se promove em termos de... public relations. Para suscitar respeito (?), evoca-se... Nietzsche!!! Assim: "Seguindo as palavras sábias de Nietzsche 'Um mundo deve acabar para que outro possa começar', a Diesel inaugura a sua campanha cheia de esperança com uma aplicação no Facebook: Dislike. Uma aplicação inspiradora através da qual as pessoas podem manifestar livremente os seus 'Não Gosto' mundiais, partilhar com amigos as suas opiniões sobre as coisas que gostariam de mudar no mundo e banir da Diesel Island o que não gostamos."

6. A definição programática favorece mesmo a utilização mais medíocre do Facebook (ou de qualquer outro espaço da Internet). Não se trata de ser inteligente, de pensar e reconhecer que pensar é um desafio difícil e complexo, mas apenas de lidar com os dados do mundo como quem pratica o mais pueril "tiro-ao-alvo". A descrição é, uma vez mais, esclarecedora: "Como funciona? Basta escreveres algo que não gostes, desde os bigodes dos adolescentes, às ilustrações japonesas de gatos, aos políticos italianos envolvidos em escândalos sexuais ou ditadores do Norte de África. Percebeste a ideia, não percebeste?!?" (a pergunta significa: se não percebeste, não estás...on!).

7. Como é óbvio, uma campanha deste género, tão empenhada em promover a indigência mental dos consumidores, reflecte um profundo menosprezo pelas relações humanas. E só procura um efeito de multiplicação de "mensagens". Incluindo esta, claro. Et pour cause.