segunda-feira, Outubro 12, 2009

A MTV acabou?

A MTV acabou? Acabou, pelo menos, a estação que apostava na experimentação e na pluralidade — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 de Outubro), com o título 'O envelhecimento da MTV'.

Quando descobrimos telediscos dos Police, George Michael ou Pet Shop Boys a serem evocados de forma mais ou menos “nostálgica” em canais como o VH1, percebemos que a cultura audiovisual dominante conseguiu impor calendários cada vez mais curtos para o “envelhecimento” público. Em boa verdade, o fenómeno não se explica apenas pela natural alternância de gerações, com todas as suas diferenças de sensibilidade e percepção do mundo. Nem se trata de um episódio isolado do VH1, afinal de contas um dos espaços mais abertos e diversificados nesta área. A questão é outra: em termos especificamente televisivos, tudo passa pela progressiva e trágica decomposição dos conceitos criativos (e de difusão) que, em 1981, deram origem à MTV.
Escusado será lembrar que todos os canais “musicais” (incluindo os da chamada música erudita) são derivados mais ou menos evidentes do modelo fundador da MTV. Acontece que a MTV há muito abandonou o seu próprio modelo. Por um lado, assistiu-se a uma brutal restrição de “conteúdos” (como agora se diz), deixando sistematicamente de fora muitos telediscos que se distinguem por apostas criativas realmente originais e inovadoras; por outro lado, a integração (?) de programas filiados no estilo mais obsceno da reality TV contaminou quase tudo, além do mais favorecendo a imagem quotidiana da juventude como uma colecção de indivíduos que só se distinguem por dizerem coisas patetas com ar pateticamente “divertido”.
Nada disto está a ser “compensado” por programas propostos pelos canais generalistas, também eles enredados nas rotinas do modelo “Top +”: a preguiçosa colagem aos movimentos mais óbvios do mercado faz com que o imenso espaço dos telediscos, sendo um dos mais abertos à experimentação e à pluralidade, seja também um dos mais afogados pelas leis dominantes da difusão audiovisual. Dir-se-ia que a MTV não tem sabido envelhecer... O que nos conduz à incontornável pergunta: será possível envelhecer tanto em menos de três décadas? Pelos vistos, o feitiço virou-se contra o feiticeiro.