
A interpretação de Mickey Rourke em O Wrestler, de Darren Aronovsky, pertence à mesma família estética da de De Niro. E não apenas, nem sobretudo, pela abordagem de desportos marcados por formas muito particulares de violência — o que confere ao filme uma tão peculiar emoção, literalmente à flor da pele, é esse poder primitivo, mas sempre presente, de a relação actor/personagem se expor como um ritual de mútua devoração em que, em boa verdade, não há um "vencedor" e um "vencido", mas se assiste ao nascimento de uma entidade que se confunde com o próprio cinema enquanto matriz de vida.
Não por acaso, Rourke vive/representa uma espécie de derradeira variação sobre as ilusões do American Dream e a sua miragem de redenção individual. Veja-se o espantoso plano final: não sabemos qual é o contracampo daquilo que nos é mostrado e isso deixa-nos uma amarga lição de solidão — da personagem e de nós próprios, espectadores.