sábado, agosto 09, 2008

Por um fio

Nova Iorque, 7 de Abril de 1974. Passavam poucos minutos das sete da manhã quando, sobre um cabo de aço esticado entre as duas Torres Gémeas, Philippe Petit, um jovem equilibrista francês, então com 24 anos, desafiou a gravidade e lançou-se numa travessia de risco. Cruzou os 43 metros que separavam os dois edifícios (então ainda inacabados) por oito vezes. Ao todo foi uma aventura de 45 minutos a 400 metros do solo. Sem cabo de segurança. Apenas transportando uma pesada vara de contrapeso com oito metros de comprimento... O equilibrista chegou mesmo a sentar-se sobre o cabo e acenou para os poucos que, na rua, de pescoço levantado, acompanhavam o que parecia impossível. Tudo terminou com a intervenção das forças de segurança que, depois de várias tentativas, às quais o equilibrista respondia fugindo em direcção à outra torre, colocaram definitivo ponto final a uma manobra de risco clandestina (porque nunca autorizada). Sem queixa judicial depois levantada contra o autor da proeza, a acrobacia ficou por ali... Mas obrigou, mesmo assim, o jovem francês a actuar, a troco de nada, para as crianças da cidade, no Central Park. Anos depois, foi-lhe entregue um passe que lhe permitia acesso gratuito, e permanente, ao Observation Deck, o miradouro no último andar das torres.


Agora, 34 anos depois da proeza, um documentário devolve o desafio de Philippe Petit à ordem do dia. O "golpe", como o próprio lhe chama, temperando a sua ousada aventura com uma pitada de desafio à lei e ordem. Com o título Man On Wire, sob realização de James Marsh, e banda sonora do compositor britânico Michael Nyman, o filme cruza imagens de época, entrevistas (entre as quais uma feita ao próprio Philipe Petit, agora com 58 anos) e recriações para relatar um feito que chegou, na altura, a ser descrito como o "crime artístico do século". Quem já viu o filme (que há poucos dias se estreou no Reino Unido e não tem ainda prevista a eventual passagem por ecrãs portugueses) tem comentado o facto de este não referir os acontecimentos do 11 de Setembro. Em entrevistas já concedidas, o realizador James Marsh tem frisado que é do conhecimento de todos o que aconteceu às torres nesse dia. E vinca até o que de pungente pode haver num filme que foca a memória de algo que já não existe. Uma omissão que, a seu ver, enfatiza a sua ausência. Acrescente-se que, a 11 de Setembro de 2001, o ataque terrorista às Torres Gémeas passou pelo dia do homem que em tempos as tinha cruzado pelo ar. Um vizinho, ao saber da notícia, avisou-o: "As suas torres estão a ser destruídas."
Na verdade, Philippe Petit manteve desde 1974 uma relação especial com os edifícios. A "acrobacia", diz, não a fez pela fama ou para entrar no livro dos recordes. E recorda que sentiu uma "comunhão" com os edifícios durante a travessia. Esta relação iniciou-se seis anos antes, quando as começou a estudar. Com amigos, aprendeu a subi-las sem ser detectado. Escondeu cabos e preparou a travessia. Na manhã escolhida usaram um arco e flecha para depois lançar o cabo entre as torres. Quando deram por ele, já ia a meio da travessia.
PS. Versão editada de texto publicado no DN a 4 de Agosto.