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O acervo do museu soma hoje números impressionantes. As colecções incluem perto de 12 mil filmes, 20 mil objectos (de aparelhos a memorabillia), 750 mil fotografias, 26 mil livros, 30 mil periódicos... Naturalmente apenas parte da colecção está exposta, sugerindo ao visitante uma viagem pela história do cinema, sem que tal esqueça a sua pré-história. Um andar inteiro da Mole Antonelliana é inclusivamente dedicado às primeiras experiências de imagem em movimento, desde os jogos de sombras em voga nas cortes do século XVIII ao advento do cinematógrafo e ao surgimento, logo depois, da indústria do cinema.
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O percurso sugerido segue depois para pisos superiores dedicados a vários aspectos da história do cinema. Um andar inteiro segue, a par e passo, as etapas da produção de um filme, da ideia do argumento à exibição. Recorda os estúdios, os realizadores, a criação de cenários, do guarda-roupa e, claro, não esquece as "estrelas". No piso superior, uma galeria impressionante de posters recorda artes do desenho e da pintura ao serviço da promoção cinematográfica.
A fechar o percurso é proposta uma visita a cenários recriados de filmes e a espaços que sugerem o cinema de género, do westrern à ficção científica. Depois, nada como percorrer uma rampa que sobe até meia altura da cúpula, ladeada por fotografias e objectos que ilustram mais de cem anos de filmes, realizadores e actores.
O Museo Nazionale del Cinema mora numa casa com história. A Mole Antonelliana (assim baptizada em homenagem ao seu arquitecto, Alessandro Antonelli), foi inicialmente concebida, em 1862, como uma sinagoga. Contratempos e desentendimentos conduziram em 1878 à compra do edifício, ainda inacabado, pela Comuna di Torino. A obra foi concluída em 1899, já pelo filho do arquitecto, Constanzo Antonelli, inaugurada como monumento à unidade nacional. Recorde-se que Victor Emanuel II, o primeiro rei da Itália unificada, era natural de Turim.
J.L.: No seu filme O Caimão, Nanni Moretti aborda a Itália de Silvio Berlusconi a partir da própria indústria cinematográfica. Mais concretamente, trata-se de retratar as atribulações de um pequeno produtor de cinema que se vê a braços com um projecto de filme sobre a figura de Berlusconi. Para além das óbvias ligações com o seu presente (O Caimão foi, em Itália, um dos grandes sucessos de 2006), o filme era também uma maneira de Moretti homenagear as vias mais populares da tradição cinematográfica italiana. Afinal de contas, ele é um dos herdeiros de um cinema antigo ("pré-televisão") que vivia da popularidade dos seus actores, mas também desse misto de crueldade e ternura com que sabia abordar os grandes temas sociais, desde a reconversão económica pós-Segunda Guerra Mundial até à evolução dos usos e costumes durante a década de 60.
Estamos a falar de um cinema que, desde os tempos do mudo, cultivou os valores do grande espectáculo. Bastará lembrar o caso emblemático de Cabiria (1914), de Giovanni Pastrone, verdadeiro monumento cinematográfico apresentado no Festival de Cannes de 2006 numa cópia restaurada com o patrocínio de Martin Scorsese. Quando, na primeira metade da década de 40, são lançadas as bases do neo-realismo, isso decorre de uma outra dimensão vital: a capacidade de o cinema italiano funcionar como espelho multifacetado das convulsões históricas, contribuindo decisivamente para a formação de uma consciência nacional. Títulos como Roma, Cidade Aberta (1945) e Paisà (1946), ambos de Roberto Rossellini, ou Ladrões de Bicicletas (1948), de Vittorio De Sica, são verdadeiras histórias de resgate, contribuindo para a superação emocional das muitas formas de destruição herdadas da guerra.
O cinema italiano manteve ao longo das décadas de 60/70, nomeadamente no mercado português, uma genuína popularidade. A comédia, mais ou menos cruzada com o melodrama, foi um género exuberante, através de vedetas como Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni ou Claudia Cardinale e realizadores como Luigi Comencini, Dino Risi ou Mario Monicelli. Isto, claro, sem esquecermos que essa foi também a época em que, através de autores como Michelangelo Antonioni ou Federico Fellini, a produção italiana esteve na linha da frente das grandes transformações dos "novos cinemas".
Apesar do contributo de autores como Nanni Moretti, Giuseppe Tornatore ou Roberto Benigni, a história do cinema italiano das últimas décadas está irremediavelmente marcada pela mediocridade imposta pelas televisões (Fellini, em filmes como Ginger e Fred, de 1986, foi dos primeiros a retratar esse processo de degradação). Seja como for, nada pode apagar a vitalidade da sua história e do seu património.
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