quarta-feira, novembro 07, 2007

A "música absoluta"

The Hilliard Ensemble
Johann Sebastian Bach, Motetten
ECM, 2007

Texto publicado na revista Op (#24, Outono 2007) >>> Hoje em dia, na abordagem da música vocal, em especial dos períodos renascentista e barroco, encontramos uma referência incontornável no Hilliard Ensemble (os tenores Rogers Covey-Crump e Steven Harrold, o contratenor David James e o barítono Gordon Jones). Não admira, por isso, que os motetos de Bach surgissem como um desafio derradeiro, uma espécie de prova limite para as suas qualidades e a sua capacidade de encaixe nas infinitas modulações de peças tão delicadas e, ao mesmo tempo, tão transparentes. Esta foi, aliás, uma gestação demorada, uma vez que estamos perante registos de 2003, só agora editados. Dir-se-ia que, para o grupo britânico, se tratou de reencontrar a luminosidade de uma forma de canto que nasce na harmoniosa aliança entre o mistério musical e a crença segura na inspiração divina. Há mais de um século, Richard Wagner definiu os motetos de Bach como a “música absoluta”. E é, sem dúvida, essa noção de absoluto que aqui se renova em contagiante esplendor. Expandido, neste caso, para oito vozes, o Hilliard Ensemble reafirma, assim, a disciplina e a tenacidade com que o seu trabalho se desenvolve a partir de um paciente retorno às origens e, mais do que isso, através da procura obsessiva das sonoridades do presente destas composições. Que presente? O de Bach. Mas também, paradoxalmente, o nosso.