

Por uma coincidência inevitavelmente irónica, entre as entidades produtores de Entrevista figuram a Cinecittà e a televisão italiana, RAI. De facto, estamos perante um exercício de narcisismo eminentemente crítico em que Fellini expõe a sua condição de estrela de um mundo, afinal, já dominado pelos valores mais fúteis da televisão. Vale a pena recordar que Entrevista surgiu logo após Ginger e Fred (1986), precisamente um filme marcado pela indiferença da televisão em relação ao património tradicional do entertainment, aí simbolizado por duas figuras emblemáticas do seu universo criativo: Giuletta Masina (mulher de Fellini) e Marcello Mastroianni.
Mastroianni reaparece em Entrevista, tal como Anita Ekberg, inevitavelmente evocando o par lendário de A Doce Vida. Para Fellini, o reencontro envolve algo de paradoxal: por um lado, perpassa pelos seus actores a nostalgia da idade de ouro do cinema italiano; por outro lado, Entrevista desenha uma quadro infinitamente céptico do futuro do cinema, a ponto de, no final, o cenário do filme-dentro-do-filme ser invadido por uma turba ululante de índios armados com... antenas de televisão!!! Por isso mesmo, para os que julgam que foram os críticos que inventaram o cepticismo contemporâneo face à mediocridade televisiva, importa voltar a lembrar que esse cepticismo é uma componente vital do trabalho de alguns dos maiores cineastas contemporâneos. Também nesse aspecto, Entrevista poderá ser um bom exercício de pedagogia e humildade.