

Estamos em Agrestic (sim, podemos ler “agreste” nas entrelinhas), na Califórnia. No centro da acção mora uma família de classe média. O pai morreu recentemente de fulminante ataque cardíaco quando fazia jogging com o filho mais novo. A mãe, professora, e viúva, é a actual única responsável pela gestão de uma grande vivenda, dois filhos, uma empregada mexicana e um cunhado inútil que ali se instalou, feito lapa. Para manter o nível de vida começa a vender marijuana. A início, quase ingenuamente, entre colegas e amigos. Aos poucos construindo as bases de um pequeno negócio alternativo... “Não sou uma dealer... Sou uma mãe que, por acaso, distribui produto ilegal”, explica sempre que confrontada com a sua verdadeira fonte de rendimentos... Juntamente com a família Botwin conhecemos os seus vizinhos e amigos, entre os quais de destaca Celia, uma mãe de família cuja personalidade conservadora é radicalmente transformada por um cancro no peito que acaba por ver como uma “bênção”, para horror da sua mãe, fiel presença nas excursões da igreja do seu bairro. Igualmente forte é a contribuição da família negra que fornece a marijuana à protagonista.
O que, num primeiro episódio, pode parecer uma composição esteticamente requintada de estereótipos de subúrbio rapidamente evolui no sentido de nos apresentar, gradualmente, o aprofundar de cada personagem, das suas relações e contexto. De resto, a grande força de Erva reside na forma como destas fortíssimas personagens nascem situações, frequentemente caricatas, hilariantes, que fazem de cada episódio um irresistível cocktail de comédia inteligente e drama. “Erva” mostra as verdades por trás do verniz da classe média americana. Sexo, erva e algum rock’n’roll...
PS. Texto originalmente publicado na revista N