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Veja-se o caso de Amor e Raiva (ed. Costa do Castelo), uma preciosidade de 1969 que ilustra, antes do mais, um “género” — o filme de episódios — que se tornou raro no mercado de exibição. Claro que os exemplos continuam a existir: ainda recentemente estreou o muito curioso Paris Je t’Aime, com duas dezenas de cineastas a propor uma espécie de revivalismo romanesco, por vezes assumidamente melodramático. Em todo o caso, perdeu-se a dimensão autoral que os filmes de episódios da década de 60 possuíam — tratava-se, afinal, de congregar diferentes pontos de vista e estilos de mise en scène, justamente a pretexto do conceito de autor, então politicamente muito activo e também comercialmente muito forte.
Não admira, por isso, que o tema de alguns filmes de episódios se reduzisse a um simples ponto de partida para as mais inesperadas divagações. No caso de Amor e Raiva, temos cinco realizadores — Carlo Lizzani, Bernardo Bertolucci, Pier Paolo Pasolini, Jean-Luc Godard e Marco Bellocchio — a trabalhar sobre “actua-lizações” (completamente livres) de parábolas bíblicas. Revisto agora, o filme funciona como testemunho de um particularíssimo contexto cultural e político, marcado pelas lutas estudantis e por muitos desafios vanguardistas. Nesta perspectiva, os episódios de Bertolucci (com a participação de Julian Beck e do seu Living Theatre) e Bellocchio (propondo uma visão deliciosamente burlesca de um conflito universitário) serão os mais emblemáticos.
Em todo o caso, é o pequeno filme de Godard, intitulado apenas O Amor, que resume de forma mais exuberante a vitalidade do cinema da época. Trata-se de um prodigioso jogo de espelhos — entre um par romântico e um outro que, por assim dizer, os observa como num filme — construído como uma parábola sobre a própria possibilidade de amar. Contemplamos as imagens godardianas, utilizando todas as potencialidades do formato scope, e revemos o génio de um cinema de paciente e depurada beleza.