sábado, agosto 12, 2006

FOTOGRAMAS: Os Pássaros, 1963

Talvez que o cinema — pelo menos o mais glorioso cinema clássico — seja a gestão deste sábio paradoxo: o efeito de bloco-notas bidimensional do real não contraria, antes parece favorecer, a emergência de uma dimensão outra do espaço em que todas as coordenadas vacilam, baralhando a física e atraindo a metafísica.
Alfred Hitchcock filmava o apocalipse dos pássaros sobre os humanos como a expressão natural de uma natureza (passe a redundância) perdida num universo que passou a descrer de qualquer hipótese divina. Daí que este seja um filme cuja perturbação existencial nunca se desvaneceu: a partir do momento em que a angelical Melanie Daniels (Tippi Hedren) chega a Bodega Bay, todos os males esquecidos do mundo parecem multiplicar até ao insustentável a solidão de cada ser humano. Talvez que este seja apenas um conto sobre a solidão e o seu espelho metódico que é o amor.
Experimentador nato, o velho Hitch — tinha, na altura, 64 anos e estava no apogeu do seu poder como produtor & realizador — testou, aqui, os próprios limites técnicos da imagem (com transparências e sobre-impressões) e do som (com a aplicação pioneira de recursos electrónicos). Mais do que um marco na evolução dos efeitos especiais, Os Pássaros é, por isso, a expressão obsessiva de um cinema que quer ver (e ouvir) mais do que os sentidos humanos prometem.

THE BIRDS / Os Pássaros
EUA, 1963

Realização: Alfred Hitchcock
Produção: A. H.
Argumento: Evan Hunter, a partir de uma história de Daphne du Maurier
Interpretação: Rod Taylor, Tippi Hedren, Jessica Tandy

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