sexta-feira, dezembro 16, 2005

'Odete' teve anteestreia na Cinemateca

A segunda longa-metragem de João Pedro Rodrigues, Odete, teve ontem anteestreia de casa cheia, muitos aplausos e grande parte do elenco e equipa técnica para os receber, numa noite bem vivida na Cinemateca (com after hours no Lux). O filme mostra como, depois da promissora curta Parabéns, e do magistral Fantasma (um dos melhores filmes do recente cinema português e uma espantosamente coesa primeira obra), se começam a afirmar certas marcas autorais em João Pedro Rodrigues. Há um gosto pelas figuras que se marginalizam e vivem vidas em paralelo à dos comuns, seja numa lixeira (Fantasma) ou, num cemitério (Odete). Um interesse pela contemplação, não moralista, de figuras que se transformam por acessos de perturbação emocional (a fuga perante o amor impossível, porque rejeitado, n’O Fantasma), ou, agora em Odete, uma gravidez estranha (estranha… para aqui não revelar mais, que a ida de cada um ao cinema explicará melhor o que se passa). Um primor exigente pelo detalhe. Um rigor no enquadramento. Um olhar pensado pelas formas e cores. Ritmo e consequência na montagem. Um jogo de sons e silêncios com peso na caracterização das personagens. E uma exigência notória de qualidade técnica na fotografia e som.
Odete é o melhor filme português deste ano, uma história que cruza o real com o inverosímil, numa Lisboa actual que se descobre em supermercados, discotecas, ruas nocturnas, cemitérios, onde os cruzamentos se fazem de carro ou telemóvel… ou patins. Odete e Rui têm vidas separadas. E entre eles passa Pedro. Ele morre num acidente na noite em que celebra o primeiro ano com Rui. Ela despeja do apartamento na cave o namorado, que lhe recusa fazer um filho. Rui e Odete, desamparados e abandonados, cada qual à sua maneira, vão cruzar-se numa história onde a loucura ou a assombração explicam o incrível feito real, e o sonho se transforma num espaço estranho, quase assustador… E ficamos por aqui…
Odete tem uma banda sonora magnífica, onde se cruzam várias versões do clássico Moon River e temas sem bitola de época, de Bright Eyes a Alex Chilton. E não faltam pontuais intervenções instrumentais bem posicionadas e escolhidas. Pena apenas a ausência de uma banda sonora original capaz de envolver mais ainda as vidas que se cruzam e desordenam, e um desfecho que pedia canção pop inteligente para acompanhar os créditos finais. Todavia, o realizador, João Pedro Rodrigues, tentou um contacto de renome para a obter... E não foi desta... Revelações brevemente em entrevista no DN (e posts por aqui, no Sound + Vision).

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