domingo, dezembro 10, 2017

Conflito [citação]

>>> Quando o Facebook finalmente admitiu que houve anúncios pagos por agentes russos em 2016, foi dito que o seu conteúdo envolvia sobretudo "mensagens sociais e políticas divisionistas". Funcionavam como amplificadores de contestação, gasolina deitada para os fogos em torno de Deus, armas, raça, direitos LGBT, imigração. E os anúncios visavam ambos os lados: o objectivo não era tanto a conversão como a promoção do conflito como um fim em si mesmo.

NANCY GIBBS
in 'How America became so divided'
in Time, 28-11-17

"O Quadrado" domina
Prémios Europeus de Cinema

Com distinções em seis categorias, incluindo melhor filme e melhor comédia de 2017, O Quadrado, de Ruben Östlund, foi o principal vencedor da 30ª edição dos prémios da Academia Europeia de Cinema — recorde-se que o filme já arrebatara a Palma de Ouro de Cannes, sendo também o candidato sueco a uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

FILME
O Quadrado, de Ruben Östlund (Suécia)

COMÉDIA
O Quadrado, de Ruben Östlund

REVELAÇÃO (Prémio FIPRESCI)
Lady Macbeth, de William Oldroyd (Reino Unido)

DOCUMENTÁRIO
Communion, de Anna Zamecka (Polónia)

FILME DE ANIMAÇÃO
A Paixão de Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman (Polónia/Reino Unido)

CURTA-METRAGEM
Timecode, de Juanjo Giménez (Espanha)

REALIZAÇÃO
Ruben Östlund, por O Quadrado

ACTRIZ
Alexandra Borbély, em Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi (Hungria)

ACTOR
Claes Bang, em O Quadrado

FOTOGRAFIA (Prémio Carlo Di Palma)
Michail Krichman, por Loveless, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)

MONTAGEM
Robin Campillo, por 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo (França)

CENOGRAFIA
Josefin Åsberg, por O Quadrado

GUARDA-ROUPA
Katarzyna Lewińska, por Spoor, de Agnieska Holland e Kasia Adamik (Polónia)

CARACTERIZAÇÃO
Leendert van Nimwegen, por Brimstone - Castigo, de Martin Koolhoven (Holanda)

MÚSICA
Evgueni e Sacha Galperine, por Loveless

SOM
Oriol Tarragó, por Sete Minutos Depois da Meia-Noite, de J. A. Bayona (Espanha)

PRÉMIO DE CARREIRA
Aleksandr Sokurov (Rússia)

FIGURA INTERNACIONAL
Julie Delpy (França)

CO-PRODUÇÃO (Prémio Eurimages)
Cedomir Kolar (França)

PRÉMIO DO PÚBLICO/filme europeu do ano
"Stefan Zweig: Adeus, Europa", de Maria Schrader (Alemanha)

Son Lux — do lado do sonho

Son Lux, alter-ego artístico do músico Ryan Lott (Denver, Colorado) vai lançar um novo álbum, quinto da sua discografia: chama-se Brighter Wounds e estará nas lojas a 9 de Fevereiro de 2018. Entretanto, somos presenteados com um primeiro single, Dream State, extraordinário exercício de montagem e remontagem sonora, num universo de superfícies ásperas, paradoxalmente capazes de acolher a transparência da voz — como o lyric video confirma, esta é uma canção em que as memórias são tanto mais verdadeiras quanto estão do lado do sonho.

"Sociologia" e cinema português

Dois filmes portugueses encenam histórias de juventude, lutando por se colarem a algo de concreto do seu/nosso tempo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Dezembro), com o título 'Filmes e espectadores portugueses'.

Para além das suas diferenças internas, o cinema português sempre suscitou uma curiosa pergunta “sociológica”: até que ponto os filmes reflectem temas e problemas do próprio tempo em que foram gerados? Com a estreia simultânea de O Fim da Inocência, de Joaquim Leitão, e Verão Danado, de Pedro Cabeleira, o mínimo que se pode dizer é que somos mobilizados para uma mesma evidência, absolutamente contemporânea: o consumo de drogas pela juventude.
Claro que a própria formulação temática é discutível: que realidade recobrimos, ou julgamos definir, através dessa generalização simplista que é a palavra “juventude”? Acima de tudo, importa não exigir aos filmes que se definam como um daqueles debates televisivos, mais ou menos gritados, em que não se sai de abstracções pueris, irremediavelmente equívocas. Infelizmente, o programa narrativo de qualquer um dos novos filmes não propõe nada de muito consistente.
O imaginário simbólico de O Fim da Inocência provém mesmo das matrizes correntes de alguma ficção televisiva, de natureza “novelesca” (integrando, aliás, alguns dos seus rostos mais típicos). Estamos perante uma ficção de estereótipos, em que, desde a classe social ao perfil psicológico, cada personagem é quase sempre um “tipo”, não uma pessoa.
Verão Danado tenta contrariar esse modelo através da injecção de alguma pulsação de “reportagem”, como se a acumulação redundante de cenas idênticas correspondesse a algum tipo de intensificação dramática. Dir-se-ia que se confunde a repetição “documental” de situações com a criação de uma consistente estrutura narrativa — problema tanto maior quanto o trabalho específico dos actores parece procurar apenas uma esquemática sensação de “improviso”.
Escusado será dizer que estamos perante dois filmes que importa ver e pensar. Muito para além de qualquer dicotomia fácil (“bom/mau”), os filmes existem como acontecimentos do presente que com eles partilhamos: de forma reflectida ou reflexiva, vêm inscrever-se numa dinâmica social e cultural a que todos pertencemos (Verão Danado está mesmo a conseguir um significativo impacto internacional, tendo recebido uma menção especial na secção “Cineastas do presente” do Festival de Locarno).
Dir-se-ia que O Fim da Inocência e Verão Danado existem no cruzamento de uma vontade e um bloqueio: vontade de olhar o mundo (português) à sua volta, bloqueio de projectos a que falta um conceito sólido de narrativa. No fundo, enfrentam a mesma questão: como estabelecer alguma relação com os espectadores?

sábado, dezembro 09, 2017

"Desespero global" [citação]

[FOTO: Jake Walters]
>>> O seu novo álbum chama-se Low in High School. Está preocupado com os jovens de hoje?
Sim. Com líderes mundiais como Problema Trump e Theresa May, devemos perguntar-nos se, de facto, a geração universitária tem cabeça. Este desespero global só pode esmagar os jovens... e talvez seja essa a intenção?

MORRISSEY
Entrevista a Rob Sheffield
in Rolling Stone, 08-12-17

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Björk: "a utopia é aqui"

Animal ou alien? Depois de The Gate e Blissing Me, Björk continua a convocar-nos para paisagens utópicas, translúcidas e enigmáticas, de um primitivismo que se quer também futurista. Como é sabido, o novíssimo álbum (nono da discografia) chama-se Utopia — eis é a canção-título, em teledisco assinado por Warren Du Preez e Nick Thornton Jones. Mensagem linear: "a utopia é aqui". 

Bird species never seen or heard before
The first flute carved from the first fauna

Utopia
It’s not elsewhere
Let's purify

You assigned me to protect our lantern
To be intentional about the light

Utopia
It isn't elsewhere
It’s here

My instinct has been shouting at me for years
Saying, "Let’s get out of here!"
Huge toxic tumour bulging underneath the ground here
Purify, purify, purify, purify toxicity

Abel Ferrara, um americano na Europa (2/3)

Abel Ferrara em Piazza Vittorio
Abel Ferrara regressou a Portugal para, no LEFFEST, apresentar os seus dois filmes mais recentes: Alive in France e Piazza Vittorio — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (27 Novembro), com o título '“Na Europa encontro compaixão e um sentido da cultura"'.

[ 1 ]

[Elsinor]

Há cada vez mais filmes que as pessoas vêem “streaming”.
Absolutamente.

Será que se está a perder algo da relação clássica com o cinema?
Tenho sentimentos contraditórios. Não creio que seja uma questão de perda. E é verdade que, mesmo na Internet, se pode obter uma boa qualidade de imagem. No fundo, a questão é saber como é que o trabalho artístico pode continuar — como é que os fulanos que fazem filmes podem... continuar a fazer filmes. Porque, por vezes, as pessoas andam a roubar esses filmes que custaram dinheiro. E, no entanto, a Internet podia ser um grande elo ligação dos artistas com os espectadores, numa partilha planetária.

No seu caso, como é que vê filmes?
Quando venho a festivais, tento ver filmes. Vejo-os também no meu computador e, como dou aulas, vejo muitos filmes com os meus alunos — aproveito todas as oportunidades.

Recentemente, fez algumas boas descobertas?
Sim, sem dúvida. Serão, sobretudo, filmes que pouca gente viu, coisas como uma curta de 10 minutos feita por um miúdo de 19 anos que passou, algures, num festival... E tenho alunos que são mesmo muito bons. Além do mais, não vejo televisão, pelo que não estou a seguir todas essas séries que agora se fazem. Na verdade, o que faço mais é ler — faça-me perguntas sobre livros.

O que é que anda a ler?
Solzhenitsyn. Svetlana Alexievich — o livro dela sobre Chernobyl é qualquer coisa de poderoso.

E o seu novo filme, Piazza Vittorio, como é que o apresentaria?
É um documentário sobre a zona de Roma em que vivo: a Piazza Vittorio, perto de Santa Maria Maggiore, onde, em 1948, Vittorio De Sica filmou Ladrões de Bicicletas. É uma zona multi-étnica, um pouco à maneira de Nova Iorque, com muitos emigrantes, especialmente agora, vindos de África e da Europa de Leste, muitos deles vítimas de guerras terríveis. Digamos que tento fazer um pouco aquilo que faz Svetlana Alexievich: dar a palavra às pessoas, deixá-las falar.

[Vittorio De Sica]
Quer isso dizer também que decidiu viver na Europa?
Vim cá fazer um filme, encontrei Christina, tivemos um bebé (tenho uma menina com dois anos e meio) — a minha escolha é a Europa. Não compreendo o que está a acontecer nos EUA, especialmente em Nova Iorque, a “cidade que nunca dorme”, etc. Talvez tenha chegado ao meu limite, talvez precisasse de alguma mudança. É certo que ainda o mês passado estive lá a filmar... O ar tornou-se insuportável, a comida é péssima, os preços estão completamente fora de controle, a cidade foi entregue aos ricos, é uma espécie de recreio para os que querem roubar dinheiro ao mundo todo — está tudo bem se se tiver uma carrada de dinheiro, mas não é essa a minha cena.

Será que a “sua” Nova Iorque já não existe?
Nova Iorque muda todos os dias. Além do mais, eu sou do Bronx, que é outra Nova Iorque...

E o que é que encontra de tão especial na Europa?
Encontro compaixão, um sentido da cultura... As coisas aqui têm dois ou três mil anos; o meu país tem uma história de 300 ou 400 anos, está ainda a descobrir o que é ou pode ser. Aqui, não é a procura do lucro que comanda: encontro respeito pela vida, pelos lugares, de umas pessoas pelas outras. Em última instância, tem a ver com o modo como se coloca luz numa sala — quem iluminou esta sala fê-lo respeitando as pessoas que se vão aqui sentar.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Que está a acontecer aos U2?

Subitamente, Bono aparece de megafone no Saturday Night Live [video], liderando os U2 em American Soul, uma das novas canções da banda — e tudo aquilo parece, não apenas musicalmente débil, mas inapelavelmente falso... Que está a acontecer aos U2? Porque é que toda a expectativa positiva em relação ao novo álbum, Songs of Experience, se desfaz perante a académica "revisão da matéria dada" que nos é proposta?
Dir-se-ia que cada uma das canções do álbum, da balada à celebração épica, não consegue aguentar a comparação com outros temas que, ao longo das décadas, os U2 assinaram. Na sua ambição de hino de estádio (“You! Are! Rock’n’roll!”) não é America Soul uma triste variação da energia musical de Where the Streets Have No Name, além do mais com uma imaginação poética claramente menor? E a singeleza de Summer of Love não está a anos-luz da vibração interior de digressões intimistas como One ou The Fly?
É bem verdade que Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. não podem andar toda a vida a tentar refazer Achtung Baby (1991). Aliás, não é esse o problema e ninguém irá proclamar que, de repente, o colectivo perdeu talento e know how. O problema é que, depois da longa e insólita gestação que se seguiu a Songs of Innocence (2014), Songs of Experience parece esgotar-se num grito de desespero: "Reparem que ainda somos os U2..." Não era preciso avisarem-nos — só esperamos que o sejam mesmo, em vez de imitarem aquilo que o marketing definiu como a sua imagem de marca.


>>> Site oficial dos U2.

A "democracia" do IMDb



A "democracia" do IMDb é um contínuo método de apagamento da memória. Em nome da "abertura" que transforma qualquer cidadão em "historiador" do cinema (aliás, repetindo o método — ou a falta de método — que marca muitos espaços informativos online), milhões de cidadãos são todos os instantes confrontados com uma hierarquização numérica dos filmes que ignora tudo o que possa ser contexto, linguagem ou narrativa.
Exemplo com que deparei recentemente: enquanto muitos "blockbusters" recentes são consagrados com médias (?) acima dos 7,5 pontos, há preciosidades esmagadas por classificações abaixo, por vezes muito abaixo, de tal valor — Homem de Ferro (2008) segue alegremente com 7,9, enquanto o clássico Cheyenne Autumn/O Grande Combate (1964), de John Ford, fica pelos 6,8...
Se recordarmos que Cheyenne Autumn é, não apenas um título nuclear na vaga de "westerns" críticos da década de 60, mas uma obra indispensável para compreender as convulsões que marcam o fim do período clássico de Hollywood, corremos o risco de ofender as "maiorias" que o IMDb promove — a não ser que o conhecimento tenha passado a ser uma mera questão de acumulação aritmética.
Dir-se-á: Homem de Ferro recebeu votos de 763.694 visitantes do IMDb, enquanto o filme de Ford só interessou 4117 espectadores... et pour cause.

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Johnny Hallyday (1943 - 2017)

Pioneiro entre os pioneiros, é a figura mítica, por excelência, do rock'n'roll francês: Johnny Hallyday morreu no dia 6 de Dezembro, na sua casa de Marnes-la-Coquette, vítima de cancro — contava 74 anos.
Há uma ironia amarga no facto de Johnny Hallyday ser muitas vezes referido como o “Elvis Presley francês”. Não que o rótulo lhe assente mal. Bem pelo contrário. Afinal de contas, para além do carácter genuíno das suas canções, os números da sua carreira são impressionantes: uma discografia com meia centena de álbuns, vendas globais de 110 milhões de discos, 40 discos de ouro... O certo é que ele foi sempre mais francês que universal, com um reconhecimento simbólico que nunca se traduziu numa presença forte na maior parte dos mercados estrangeiros.
Salut les Copains!
De seu nome verdadeiro Jean-Philippe Smet, viria a ser um dos emblemas da geração a que também pertencem Jacques Dutronc et Eddy Mitchell — os três, aliás, evocaram a partir de 2014 o seu passado comum, apresentando-se em palco como Les Vieilles Canailles. Escolheu o apelido Halliday, de um familiar americano, Lee Halliday, que sempre encarou como o seu “pai” artístico — na edição do seu primeiro 45 rotações, em Janeiro de 1960, um erro fez com que surgisse identificado como “Hallyday”, nome artístico que acabou por adoptar.
Na década de 60, consolidou uma imensa popularidade através de singles como Viens Danser le Twist ou Retiens la Nuit e diversos álbuns, incluindo Salut les Copains! (1962) e Johnny Hallyday Olympia 64 (1964). O fulgor das performances ao vivo cedo se tornou uma das suas imagens de marca, além do mais revelando uma crescente abertura a variantes country, soul ou R&B que viriam a marcar as décadas seguintes da sua carreira.
As exuberantes encenações em grandes palcos, pavilhões e estádios, são elementos fulcrais dos anos de maturidade, reflectindo-se em álbuns como Johnny Hallyday Story - Palais des Sports (1976), Johnny Hallyday au Zénith (1984) ou Stade de France 98 Johnny Allume le Feu (1998). O seu derradeiro álbum, ainda referente a uma digressão, Rester Vivant Tour, surgiu em 2016. Recentemente, tinha patrocinado On A Tous Quelque Chose de Johnny, antologia de alguns dos seus grandes sucessos por outros intérpretes.
Sobretudo nos anos 60, foi também uma vedeta do cinema, através de títulos como Donde Vens Tu, Johnny? (Noël Howard, 1963) ou À Procura de um Ídolo (Michel Boisrond, 1964), que reflectiam a sua condição de estrela rock. De qualquer modo, a grande referência da sua filmografia é Détective (1985), de Jean-Luc Godard, homenagem amarga e poética aos velhos filmes “noir” em que contracenava com a então sua companheira, Nathalie Baye (nunca estreado entre nós, foi editado em DVD como Mafia em Paris). Em 1996, o Presidente Jacques Chirac atribuiu-lhe o grau de Cavaleiro da Legião de Honra da República Francesa.

>>> Notícia da morte de Johnny Hallyday no canal France 24.


>>> Estreia televisiva de Johnny Hallyday, no programa 'École des Vedettes' (18 Abril 1960).


>>> Com Michel Polnareff, ensaio no Palais des Sports (Paris), em 1971.


>>> Quelque Chose de Tennessee, canção do álbum Rock'n'Roll Attitude (1985).


>>> Cadillac, tema-título do álbum de 1989.


>>> Video promocional de On A Tous Quelque Chose de Johnny.


>>> Trailer de Détective.


>>> Obituário: Le Monde + New York Times + Les Inrockuptibles.
>>> Biografia de Johnny Hallyday na Radio France Internationale.
>>> Página de Johnny Hallyday no AllMusic.

Jean d'Ormesson (1925 - 2017)

[FOTO: Le Monde]
Escritor e filósofo, analista da actualidade política, o francês Jean d'Ormesson faleceu no dia 5 de Dezembro, em Neuilly-sur-Seine — contava 92 anos.
Nascido numa família ligada à diplomacia francesa — o pai, André Lefèvre, foi embaixador no Brasil —, foi professor, funcionário da UNESCO (Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas), criador, com Roger Caillois, da revista de ciências humanas Diogène, director do jornal Le Figaro (1974-77). A sua vasta obra literária, ao mesmo tempo analítica e romanesca, sempre com importantes componentes auto-biográficas, iniciou-se com L'Amour Est un Plaisir (1956), prolongando-se através de mais de duas dezenas de volumes até Un Jour Je m'en Irai sans en Avoir tout Dit (2013) e Dieu, les Affaires et Nous (2015). Como sugere um dos seus títulos mais célebres, Presque Rien sur Presque Tout (1995), nunca desistiu de cultivar uma visão multifacetada dos comportamentos humanos, resistindo a encerrar-se num qualquer rótulo de "direita" ou "esquerda". Definindo-se como alguém que não era "de modo algum" feminista, desempenhou um papel fundamental na entrada de Marguerite Yourcenar na Academia Francesa. Nunca abdicando dos valores primordiais da palavra e da escrita, disse um dia que "enquanto houver livros, pessoas para os escrever e pessoas para os ler, nem tudo estará perdido neste mundo que, apesar das suas tristezas e horrores, tanto amámos".

>>> Jean d'Ormesson falando da condição feminina [video Le Monde] + breve resenha biográfica [video Le Point].




>>> Obituário no jornal Le Figaro.

"Metropolis", nº 55

A edição nº 55 da revista Metropolis já está disponível online. A nova produção da Pixar, Coco, é tema de capa, a par da abordagem de outros lançamentos recentes como Liga da Justiça e A Montanha entre Nós.
Destaque para dois novos filmes portugueses, O Fim da Inocência, de Joaquim Leitão, e Verão Danado, de Pedro Cabeleira, incluindo entrevistas com os realizadores; nos temas televisivos, surge a nova produção de Steven Soderbergh, Godless, a par de uma evocação da filmografia do realizador. Jessica Chastain é também um dos nomes em evidência através da abordagem de Molly's Game, título de estreia na realização de Aaron Sorkin.

>>> Site da Metropolis.

Shashi Kapoor (1938 - 2017)

[The Hindustan Times]
Com uma carreira de mais de uma centena e meia de títulos, foi uma das grandes estrelas do cinema indiano: Shashi Kapoor faleceu no dia 4 de Dezembro, em Mumbai, na sequência de uma prolongada cirrose hepática — contava 79 anos.
Pertencia a uma lendária família do espectáculo e do cinema de Bollywood. As suas primeiras experiências de representação ocorreram nas digressões da companhia teatral do seu pai, Prithviraj Kapoor (1906-1972), pioneiro do cinema hindi. O filme Dharmputra (1961), de Yash Chopra, seria um momento decisivo de lançamento de uma carreira cinematográfica repartida por diversos géneros, do drama histórico ao musical. Os pares que formou com actrizes como Raakhee Gulzar, Sharmila Tagore e Zeenat Aman foram especialmente populares nos anos 60, 70 e 80, transformando-o num dos mais bem pagos intérpretes da produção hindi. O seu sucesso criou-lhe oportunidades no cinema de língua inglesa, tendo surgido em vários títulos da dupla Ismail Merchant/James Ivory (produtor e realizador, respectivamente), entre os quais Shakespeare-Wallah (1965) e Heat and Dust/Verão Indiano (1983). Na sua longa lista de distinções, inclui-se o Dadasaheb Phalke Award, o mais importante prémio honorário do cinema na Índia, atribuído em 2015.

>>> Uma canção do filme Aa Gale Lag Jaa (1973), de Manmohan Desai, com Shashi Kapoor e Sharmila Tagore + trailer de Verão Indiano.




>>> Obituário na BBC.

terça-feira, dezembro 05, 2017

A caminho dos OSCARS
— críticos de Los Angeles
consagram "Call Me By Your Name"


Os críticos da costa Oeste do EUA, mais precisamente a Los Angeles Film Critics Association (LAFCA), também já escolheram, a 3 de Dezembro, os melhores de 2017, consagrando Call Me By Your Name como filme do ano e Guillermo del Toro, por The Shape of Water, como melhor realizador. Eis os principais vencedores:

* Filme — CALL ME BY YOUR NAME, de Luca Guadagnino
* Realizador — Guillermo del Toro, por THE SHAPE OF WATER [trailer]
* Actor — Timothée Chalamet, CALL ME BY YOUR NAME
* Actriz — Sally Hawkins, THE SHAPE OF WATER
* Filme de animação — THE BREADWINNER , de Nora Twomey
* Documentário — VISAGES, VILLAGES, de Agnès Varda
* Filme estrangeiro (ex-aequo) — 120 BATIMENTOS POR MINUTO, de Robin Campillo, e LOVELESS, de Andrey Zvyagintsev

>>> Lista completa de vencedores (incluindo segundos classificados) no site da LAFCA.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Mundo Jurássico, 2018

Que define, hoje em dia, um "blockbuster"? Uma avassaladora e instantânea ocupação do mercado das salas. E antes disso? Pois bem, uma campanha agressiva e (muito) antecipada.
Observe-se a actualidade: Jurassic World: Fallen Kingdom tem estreia americana agendada para 22 de Junho de 2018 e a sua novidade mais recente é, ou melhor, será o primeiro trailer. Quando? Quinta-feira, dia 7 — antes, o chamado teaser aí está com os seus metódicos e sugestivos 15 segundos pensados pelos especialistas do marketing.


Em Portugal, como na maior parte dos mercados europeus, a estreia ocorrerá cerca de duas semanas antes, a 7 de Junho. Por cá, o título será Mundo Jurássico: Reino Caído. Irremediável ironia: por vezes, os autores de títulos parecem esforçar-se por se afastar o mais possível dos originais... Desta vez, a expressão "fallen kingdom" suscitava alguma prudência, mas não, optou-se pela facilidade literal: Reino Caído??? Não valeria a pena arriscar alguma agilidade, eventualmente usando qualquer coisa como "A Queda de um Reino"? Mesmo não invocando a herança de Camilo.

A IMAGEM: Lucrezia Ganazzoli, 2017

LUCREZIA GANAZZOLI
Ling Chen
IO Donna, Nov. 2017

Twin Peaks & David Lynch
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [16 Dez.]

A nova série Twin Peaks veio relançar um clássico da televisão, reabrindo caminhos para percorrermos o mundo fascinante de David Lynch — no próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC, propomos uma viagem, com imagens e música, pelos seus temas, personagens e enigmas.

* FNAC: Chiado, 16 Dezembro (18h30)