quarta-feira, março 22, 2017

Ecrãs [citação]

>>> Pela minha parte, escolhi proteger-me o mais possível. Nem tenho de me forçar a isso, detesto tudo o que abole a fronteira entre o público e o privado. É assim mesmo, está na minha natureza, direi mesmo: é a minha norma. Sinto-me aterrorizada pelas redes sociais e os rumores que propagam. Detesto a exposição íntima. Nunca abri a minha porta, para uma reportagem, às câmaras de televisão. Não faço tweets, mostro tanto menos as minhas fotografias de família ou de férias no Facebook quanto não tenho conta no Facebook, e limito ao estrito mínimo as minhas trocas informáticas. O que há de odioso no mail, é que é intrusivo e exige uma resposta imediata. Como se eu passasse os meus dias em frente de um ecrã! O meu trabalho consiste em estar num ecrã, não em frente.

CATHERINE DENEUVE
"Dieu sait que j'adore tourner, mais..."
L'Obs, 19 Março 2017

Basebol em Boston

É bem verdade que o basebol é um desporto distante dos nossos hábitos — e até, para muitos de nós, do mais básico conhecimento. O que, entenda-se, não impede que o seu visual nos seduza de forma muito particular. Um bom exemplo desse poder de sedução poderá ser o portfolio de Stan Grossfeld, do jornal The Boston Globe, dedicado aos treinos da equipa dos Red Sox — ao todo, são 19 imagens, disponíveis no blog fotográfico do jornal, 'The Big Picture'.

terça-feira, março 21, 2017

Bill Evans inédito

Bill Evans (piano), Eddie Gomez (contrabaixo) e Eliot Zigmund (bateria): em todo o seu esplendor, reencontramos The Bill Evans Trio no recentíssimo lançamento de um concerto nunca editado. O álbum chama-se A Monday Evening e foi gravado a 15 de Novembro de 1976, no Union Theater, em Madison, Wisconsin — eis Time Remembered.


>>> Site oficial de Bill Evans.

Dois cineastas no MAAT

Cinema conjugado em forma de exposição, ou a saga contemporânea dos ecrãs: este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Março), com o título 'Dois cineastas resistentes'.

Apichatpong Weerasethakul e Joaquim Sapinho. Um tailandês, um português. Dois cineastas uniram-se para criar a exposição “Liquid Skin”, patente na Sala das Caldeiras do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), até 24 de Abril. Aliás, a simples designação de “exposição” é discutível, no sentido em que o fascínio da arte passa sempre pela capacidade de desafiar as regras comuns da nossa percepção.
O aproveitamento da imponente estrutura das caldeiras, seus recantos, escadas e tubagens expressionistas, apela à noção de “instalação”, embora transcendendo-a. Mas os materiais específicos da exposição são, em última instância, de natureza cinematográfica. Dito de outro modo: os cineastas arquitectaram uma cena audiovisual (e a palavra cena deve ser pronunciada com todo o seu sabor teatral) em que fragmentos de filmes desenham um mapa de singular intimidade.
São filmes, de facto, eminentemente pessoais (no caso de Sapinho, há mesmo imagens de um projecto em desenvolvimento sobre memórias da sua família). São filmes que se oferecem ao visitante/espectador como capítulo incompletos de um ensaio sobre a própria dificuldade, de uma só vez logística e poética, de dar a ver o que pertence aos domínios mais pudicos do viver em comum.
Tudo isto envolve um calculado modo de expor, numa dramaturgia de contagiantes paradoxos. Assim, as imagens de Sapinho combinam a sensação de privacidade com o minimalismo das dimensões, projectando-se nas próprias matérias metálicas do cenário; por sua vez, Apichatpong faz-nos sentir mais pequenos que as próprias imagens, reforçando a pergunta que circula por todo aquele espaço de mágica transparência: o que é ser (continuar a ser) um espectador?
A pergunta não pode ser reduzida a um mero questionamento interior. Importa mesmo lidar com a sua raiz mais funda — entenda-se: social —, por certo para além de qualquer perfil histórico ou psicológico do próprio espectador. Dito de outro modo: “Liquid Skin” é também produto deste tempo de delirante proliferação de imagens. O ecrã deixou de ser a marca sagrada do cinema. Para mal dos nossos pecados, desde os omnipresentes telemóveis até às fachadas dos edifícios, tudo pode ser ecrã.
Apichatpong e Sapinho colocam-se numa posição de resistência. A saber: se tudo pode ser ecrã, então cada um de nós deve obrigar-se a não desvalorizar a singularidade do seu olhar, a verdade do seu corpo. São resistentes em nome da arte? Talvez. Acontece que esta é também uma forma nobre de fazer política.

Natalie Portman + James Blake

O terceiro álbum de estúdio de James Blake, The Colour in Anything, tem um novo teledisco, protagonizado por Natalie Portman. Poucos dias antes do nascimento do seu segundo filho, Portman foi filmada por Anna Rose Holmer, numa encenação do tema My Willing Heart — ou como a mais genuína intimidade envolve uma delicada arte do corpo e do espírito, nada tendo a ver com o horror quotidiano da reality TV.

Quem é Sonia Braga?

Aquarius é um filme brasileiro, centrado numa mulher que resiste a uma empresa de imobiliário, com uma tocante dimensão universal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Março), com o título 'A música de Sonia Braga'.

Não há cidadão português, maior e vacinado, que não saiba dizer que as telenovelas começaram em Portugal com Gabriela. Quatro décadas depois, a memória persiste e é evocada com naturalidade e automatismo, acrescentando-se sempre que a personagem saída do romance de Jorge Amado transformou a respectiva intérprete, Sónia Braga, num fenómeno ímpar de popularidade dos dois lados do Atlântico.
Caímos em 2017 e, perante a estreia do filme brasileiro Aquarius, protagonizado pela mesma actriz, podemos perguntar porque é que tão mítica memória não está a gerar um fenómeno mediático de gigantescas dimensões, capaz de desafiar a omnipresença das guerras entre Benfica, Sporting e F. C. Porto... A resposta é simples e todos a conhecem (mesmo se muitos se esforçam por recalcá-la): a telenovela não passa de um registo formatado, concebido para consumo automático e repetitivo, alheio a qualquer consciência crítica da televisão (e ainda menos do cinema). Dito de outro modo: a telenovela não gera estrelas, mas apenas “famosos” (a palavra tornou-se, aliás, um instrumento ideológico de celebração da futilidade).
É pena. Desde logo porque, no papel de uma mulher que não quer abdicar da sua casa no Recife, resistindo à especulação imobiliária que atinge a zona em que vive, Sónia Braga é brilhante, expondo desencanto e alegria com igual transparência — creio mesmo que o facto de interpretar alguém que dedicou grande parte da sua vida profissional à crítica de música não funcionará como trunfo mediático para o mundo em que vivemos... Isto sem esquecer que o filme escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho nos faz lembrar uma verdade pouco popular em Portugal. A saber: no domínio das narrativas audiovisuais, o Brasil não é habitado apenas por autores de telenovelas.

domingo, março 19, 2017

A personagem gay
de "A Bela e o Monstro"

A. Onde irá parar a agitação em torno da homossexualidade da personagem de LeFou, interpretada por Josh Gad na nova versão de A Bela e o Monstro? Bastou que o realizador, Bill Condon, tivesse declarado à revista Attitude que LeFou tem direito a um "momento gay" para que se instalasse um aparato de "detecção" sexual que parecia condenado apenas ao mais básico ridículo... Mas não, o fenómeno cresceu, havendo salas nos EUA a resistir à exibição do filme e até uma exigência de corte de uma sequência na Malásia (hipótese, importa sublinhá-lo, liminarmente recusada pela Disney). O próprio Bill Condon, em entrevista ao site 'Vulture', já declarou que se tratava de um "pormenor", revelando-se "farto" do assunto.

B. O mais bizarro em tudo isto é que (quase) ninguém lembra que toda esta agitação só pode ser explicada através do exacerbar de uma questão de detalhe num grande drama "social" — as redes virtuais e alguma imprensa são os protagonistas do costume. Será que cada vez que surgir em algum contexto narrativo uma personagem inesperada (ou atípica nesse contexto), vai ser preciso fazer "teoria" sobre o assunto? Será que vamos ceder à ideia (?) segundo a qual a importância das narrativas depende da gravidade (!) dos seus assuntos? Corremos o risco de, também aqui, deixar triunfar a mentalidade normativa e cínica dos argumentistas da mediocridade telenovelesca que gostam de proclamar que convocam temas muito "sérios"... Que temas? A homossexualidade e o aborto...

C. Fenómenos deste género arrastam sempre o mesmo tipo de efeitos redutores. A saber: a partir do momento em que a personagem de LeFou surge envolvida numa espécie de batalha ideológico-sexual, a primeira coisa que se apaga é a singularidade do seu comportamento no interior do próprio filme — desvirtua-se o filme para promover um "debate" sobre coisa nenhuma. Entenda-se: não se trata de reconhecer, muito menos de "demonstrar", que LeFou é (ou não é) homossexual — aliás, se for, qual é o problema? Trata-se, enfim, de lhe reconhecer o direito a existir como personagem, seja qual for a sua sexualidade.

A epopeia dos hamburgers

Como nasceram os restaurantes McDonald's? A história, épica e desconcertante, surge agora contada num filme de grande concisão, protagonizado por Michael Keaton — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Março).

Que faz um consumidor típico dos restaurantes McDonald’s? Mantém-se fiel ao hamburger clássico? Ou procura a melhor conjugação de elementos para encomendar o menu mais económico? Arrisca nos desvios pelos pedaços de frango ou, heresia máxima, os filetes de peixe? Ou abraça o radicalismo biológico e só encomenda a variante vegetariana? Todas essas perguntas podem ser condensadas numa perplexidade filosófica que o filme O Fundador condensa com especial acutilância dramática e inteligência narrativa. A saber: de que falamos quando falamos do McDonald’s?
O primeiro mérito do filme dirigido por John Lee Hancock decorre da sua recusa de qualquer digressão “panfletária” (recorde-se que na sua filmografia encontramos, por exemplo, Ao Encontro de Mr. Banks, um curioso retrato de Walt Disney). Agora, não se trata de visar quem consome “muito” ou “pouco” do menu do McDonald’s. Trata-se, isso sim, de elaborar uma crónica ao mesmo histórica e psicológica sobre a personagem fascinante do fundador de um império gastronómico que, nos nossos dias, ultrapassou os 35 mil restaurantes em cerca de 120 países.
Aliás, a definição de Ray Kroc como “fundador” da marca McDonald’s é uma ironia sugestiva que, desde logo, o título propõe. Tudo começa em 1954 quando Kroc não é mais do que um esforçado vendedor de máquinas para fazer batidos de leite, conseguindo, aqui e ali, colocar uma modesta unidade do seu produto... Até que, um dia, recebe uma encomenda de um restaurante da cidade californiana de San Bernardino: os respectivos gestores, os irmãos Maurice e Richard McDonald, não querem uma batedeira, mas sim seis! Aliás, oito!
Quando visita aquele que é, para todos os efeitos, o primeiro restaurante identificado como McDonald’s, Kroc fica siderado pelo racionalismo, eficácia e qualidade de oferta do empreendimento. Os dois irmãos inventaram um sistema de confecção e venda que, além do mais, garante uma excepcional velocidade de atendimento. Verdadeiro empreendedor com apurado faro para o negócio, Kroc não quer vender mais batedeiras — o seu objectivo será a criação de uma sociedade a três, visando o crescimento daquele modelo de restaurante para todos os recantos dos EUA e, por fim, para todo o planeta!
Evitando revelar as peripécias do processo, por vezes irónico, muitas vezes dramático, digamos apenas que o crescimento da empresa McDonald’s nem sempre correspondeu à felicidade regional de Maurice e Richard. E que a saga de Kroc ilustra, afinal, as maravilhas e assombramentos do mais puro desenvolvimento capitalista, tendo sempre a utopia do “Sonho Americano” em pano de fundo.
Acima de tudo, a realização de Hancock sabe preservar um tom em que a dinâmica dos cifrões nunca se sobrepõe ao conhecimento real das personagens com todas as suas singularidades e contradições. No papel de Kroc, Michael Keaton oferece-nos uma composição de deliciosas convulsões. É um menu que chegou a ser tido como um bom trunfo para os Oscars — falhou por completo mas, com ou sem ketchup, vale a pena saboreá-lo.

Chuck Berry (1926 - 2017)

Pioneiro do rock'n'roll, é um símbolo universal da sua energia e criatividade: Chuck Berry faleceu em sua casa, em St. Charles County, Missouri, no dia 18 de Março — contava 90 anos.
Charles Edward Anderson Berry nasceu no seio de uma família de St. Louis, Missouri, desde muito cedo dando provas das suas aptidões musicais. O seu primeiro sucesso, Maybellene, surgiu em 1955, acabando por integrar a lista de canções pioneiras do rock'n'roll. Roll Over Beethoven (1956), Rock and Roll Music (1957) Johnny B. Goode (1958), No Particular Place to Go (1964) e Nadine (1964) são apenas alguns dos seus temas mais lendários, decisivos para essa colisão entre a tradição country, a inspiração do blues e a nova electricidade das guitarras que, mais do que um "estilo" musical, definiu toda uma nova postura cultural e anímica.
Os Beatles e os Rolling Stones foram apenas alguns dos que reconheceram em Chuck Berry um pioneiro e uma fundamental influência. Em boa verdade, a sua obra transfigurou todo o cenário artístico e comercial da música popular, reflectindo transformações de comportamentos, questionamento de valores e, no limite, um novo conceito social de juventude.
A canção Johnny B. Goode integra o "disco dourado" da nave espacial Voyager, lançada em 1977 (a par de temas extraídos de A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, ou do Cravo Bem Temperado, de Bach, por Glenn Gould). Em 1984, recebeu um Grammy de carreira. O seu reconhecimento no Rock & Roll Hall of Fame deu-se em 1986. A 18 de Outubro do ano passado, data do seu 90º aniversário, anunciara a edição de um novo álbum, o primeiro desde Rock It (1979) — intitulado Chuck, o seu lançamento está previsto para 2017.

>>> Notícia da morte de Chuck Berry na CNN;  duas interpretações ao vivo: Hoochie Coochie Man (tema de Willie Dixon gravado originalmente por Muddy Waters); Nadine, com a participação de Keith Richards.






>>> Obituário: New York Times + Rolling Stone + Le Monde.
>>> Chuck Berry no Rock & Roll Hall of Fame.
>>> Chuck Berry na lista dos '100 maiores guitarristas' [Rolling Stone].
>>> Roll Over Beethoven na Biblioteca do Congresso.
>>> Site oficial de Chuck Berry.

sábado, março 18, 2017

A IMAGEM: Ben Toms, 2017

BEN TOMS
Sara Grace
Vogue [China], Fevereiro 2017

Os representantes do povo [citação]

>>> "Democracia representativa" é uma expressão mais que equívoca. Veicula a ideia falsa de um povo já constituído que se exprimiria escolhendo os seus representantes. Ora, o povo não é um dado que pré-exista ao processo político: é o seu resultado. Um determinado sistema político cria o povo, e não o contrário.

JACQUES RANCIÈRE
Entrevista / L'Obs
12 Março 2017

sexta-feira, março 17, 2017

O prazer de Feist

O quinto álbum de estúdio da canadiana Feist chama-se Pleasure e chega a 28 de Abril. O tema-título instala a ilusão de uma balada para se derramar num rock agreste, romântico q. b. — em nome de uma verdade íntima, ficção ou sonho.

Get what I want
And still it's a mysterious thing that I want
So when I get it
I make sense of a mysterious thing
'Cause I've taken flight on such a serious wing
I, and you are the same and
Either fiction or dreaming

We know enough to admit
[...]

It's my pleasure
And your pleasure
[...]

Oh, an echo calls up the line
An indication of time
Our togetherness
That is how we evolved
We became our needs
Ages up inside
Escaping similar pain
Dreaming safe and secure
Generations in line
Old and then the youth
Come to meet or fade
A chromosomal raid
Built by what we got built for
As much as what we avoid
So the mystery lifts

We know enough to admit
[...]

It's my pleasure
And your pleasure
It's my pleasure
And your pleasure
That's the same
That's what we're here for!
[...]

quinta-feira, março 16, 2017

A Disney, a Bela, o seu Monstro e os livros dele

A Bela e o Monstro está de volta com chancela da Disney, relançando as lições morais da fábula — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Março), com o título 'Por amor dos livros'.

Moral da história: é tudo uma questão de percepção. Assim, a monstruosidade do Monstro (a redundância, convém não esquecer, faz parte deste universo narrativo) começa a esbater-se quando a Bela cita Shakespeare e ele, de memória, completa a citação. Um pouco mais tarde, o Monstro abre-lhe o coração. Aliás, e para sermos mais precisos, com ou sem metáfora: ele abre-lhe as portas da sua imensa biblioteca. Conquistada por tão imponente património escrito, a Bela, porventura ainda sem o saber, já começou a amar o Monstro, assim cumprindo os desígnios da fábula.
Há outra maneira de dizer tudo isto: a nova versão de A Bela e o Monstro existe em íntima ligação com o universo dos livros. Pela sua inspiração, claro, mas sobretudo porque a relação entre os dois protagonistas se vai selando através desses objectos que podem ser tocados, lidos e relidos — é mesmo através de um livro mágico que acontece a revisitação de Paris, numa cena calculadamente psicanalítica em que, finalmente, a Bela (e o espectador com ela) encontra a memória perdida da mãe.
Não há muitos filmes deste universo de produção — em boa verdade, de todo o cinema que, actualmente, convoca os espectadores infantis e juvenis — que contenham esta celebração sensual dos livros, dispensando o patrocínio de super-heróis que derrubam arranha-céus por cada monossílabo que pronunciam. Não que A Bela e o Monstro com chancela Disney seja um filme alheio aos poderes digitais. Longe disso. Acontece que as fábulas se fazem também do modo como integram sinais e objectos do nosso mundo: lobos e candelabros, pianos e chávenas de porcelana, livros e mais livros. Quando as mãos da Bela e do Monstro se tocam sobre um livro, pressentimos que a magia já está do lado do erotismo. Não se assustem, que as crianças também não.

A IMAGEM: Angel Boligán, 2017

ANGEL BOLIGÁN
O Narcisista
"El Universal", México, 2017

quarta-feira, março 15, 2017

Califórnia, verdade e mentira

Alexander Skarsgard e Nicole Kidman
Big Little Lies está a passar no TV Séries e é mais um notável exemplo da produção com chancela HBO — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Março), com o título 'Cenários e palavras da Califórnia'.

Mais um prodígio televisivo vindo da HBO: chama-se Big Little Lies (está a passar no TV Séries) e adapta o romance homónimo de Liane Moriarty, publicado entre nós como Pequenas Grandes Mentiras (ed. Asa). Para além da excelência do elenco — liderado por Reese Witherspoon, Nicole Kidman e Shailene Woodley — e do requinte da realização de Jean-Marc Vallée (O Clube de Dallas, Livre), este é um projecto com as marcas do veterano argumentista e produtor David E. Kelley (L.A. Law, Ally McBeal, etc.).
Trata-se, afinal, de desafiar as representações correntes do espaço “novelesco”. Deparamos com uma galeria de famílias de uma zona de bem-estar social e económico, de deslumbrantes cenários naturais (Monterey, Califórnia), que conhecemos através de quatro personagens femininas, interpretadas pelas actrizes referidas e ainda Laura Dern. A perturbação desencadeada pela morte de alguém (anunciada logo no primeiro de sete episódios) funciona como perverso mecanismo de exposição e desmontagem de uma complexa teia dramática — em jogo estão as marcas das diferenças sociais, as convulsões do espaço conjugal e as relações entre pais e filhos.
Uma das dimensões mais espantosas, e também televisivamente mais raras, de Big Little Lies provém da sua capacidade de desmontar a “naturalidade” do quotidiano, expondo os seus recalcamentos, máscaras e feridas interiores. Repare-se, em particular, na caracterização do par interpretado por Nicole Kidman e Alexander Skarsgard. No terceiro episódio, numa cena incrível (desde logo, pela sua duração invulgarmente dilatada), vêmo-los numa sessão de terapia, falando sobre a conjugação de amor, sexo e violência física do seu casamento. Subitamente, com uma intensidade que faz lembrar Ingmar Bergman, as palavras emergem como cruéis instrumentos de uma verdade tão cristalina quanto dura de enfrentar.
O impacto da cena é tanto maior quanto Jean-Marc Vallée resiste ao cliché televisivo do grande plano, “demorando” algum tempo a aproximar-se dos seus admiráveis actores. A distância a que a câmara se coloca de Kidman e Skarsgard envolve, assim, um sábio pudor que, paradoxalmente ou não, intensifica o contundente poder de revelação das palavras.
Há outra maneira de dizer tudo isto: alguns dos mais radicais objectos televisivos do nosso tempo reflectem a riqueza plural de um património enraizado no cinema e na sua história. Não é uma forma de dependência, muito menos um banal exercício de citações — antes uma consciência da riqueza interior das imagens.