Para a revista norte-americana Rolling Stone, Kid A (Radiohead) e Haverá Sangue (Paul Thomas Anderson) foram o álbum e o filme da década, respectivamente — está tudo na edição especial dupla, nº 1094-95. Registe-se, além do mais, a excelência visual e conceptual da capa, porventura ecoando o sentido do texto de apresentação de Rob Sheffield, emblematicamente intitulado "A década das hipóteses perdidas". Entre os conteúdos específicos da Net, a não perder uma conversa gravada em video com quatro elementos da redacção comentando as suas músicas de eleição ao longo da década.Terça-feira, Dezembro 15, 2009
A década da "Rolling Stone"
Para a revista norte-americana Rolling Stone, Kid A (Radiohead) e Haverá Sangue (Paul Thomas Anderson) foram o álbum e o filme da década, respectivamente — está tudo na edição especial dupla, nº 1094-95. Registe-se, além do mais, a excelência visual e conceptual da capa, porventura ecoando o sentido do texto de apresentação de Rob Sheffield, emblematicamente intitulado "A década das hipóteses perdidas". Entre os conteúdos específicos da Net, a não perder uma conversa gravada em video com quatro elementos da redacção comentando as suas músicas de eleição ao longo da década.Madonna em 47 telediscos (12)
O DVD Celebration: The Video Collection revisita a música de Madonna através de 47 dos seus telediscos — são outros tantos momentos de uma história, de facto, audiovisual. [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10] [11]
LA ISLA BONITA (1987)
Real.: Mary Lambert
Madonna voltava a trabalhar sobre a direcção de Mary Lambert, cerca de dois anos passados sobre Material Girl, uma vez mais num esquema de calculada duplicidade: por um lado, ela é uma personagem de cabelo liso, vestida de forma austera, sozinha num apartamento onde abundam elementos da iconografia católica; por outro lado, num exuberante vestido vermelho, surge como uma bailarina de Flamenco. Dir-se-ia que a primeira se transfigura na segunda, através de um processo coreográfico desencadeado pela visão da rua e das personagens (hispânicas) que nela cantam e dançam — o teledisco conduz a bailarina às personagens da rua, no final afastando-se em direcção a outra zona da cidade. Pela aliança visual e temática entre a simbologia religiosa e o prazer da dança, La Isla Bonita permaneceu como uma referência que transcendeu todas as fases de Madonna, surgindo em quase todas as suas digressões, incluindo a 'Sticky & Sweet Tour' (2008-09).
Bach por Corboz (1/2)
J.L.: Foi com natural calor e simpatia que o público do Grande Auditório, na Fundação Gulbenkian, recebeu o maestro Michel Corboz — ele é, afinal, um símbolo maior da política musical da casa, assumindo as funções de Maestro Titular do Coro Gulbenkian desde 1969. Desta vez, Corboz dirigia o Coro e Orquestra para interpretar Weihnachtsoratorium («Oratória de Natal»), BWV 248, de Johann Sebastian Bach, com as Cantatas I, II e III nos concertos de ontem e hoje (e as restantes três em mais dois concertos, dias 18 e 19). Com alguma improvável nostalgia, torna-se forçoso reconhecer que não é possível repetir as condições de escuta do original, nem de contexto, nem de pose, repartido por seis dias ao longo da quadra natalícia e de Ano Novo. Sobra (o que não é pouco...) a excelência de uma música cuja religiosidade intrínseca coexiste com a precisão de um austero racionalismo — nesse difícil balanço, uma vez mais, Corboz soube expor a notável qualidade do Coro Gulbenkian. Pormenor cénico a sublinhar, saudavelmente estranho aos mais arreigados academismos: retomando a opção do concerto de Gustavo Dudamel, o palco voltou a mostrar a janela gigante para o jardim, fazendo coexistir a música com o pressentimento da natureza e da cidade, lá fora.N.G.: Neste 2009 Michel Corboz assinala os 4o anos de ligação ao Coro Gulbenkian, de que é maestro titular desde 1969. E o que ficou mais nítido ao fim da primeira de uma série de quatro noites dedicadas a um reencontro com a Oratória de Natal de Johann Sebastian Bach foi mesmo essa clara e profunda ligação, o trabalho continuado resultando num corpo coeso que foi peça basilar num palco onde as vozes solistas não brilharam todas da mesma forma. Corboz estava, em todos os sentidos, "em casa". Não apenas pela história de quatro décadas frente ao coro, mas pela também antiga relação que mantém com a música coral religiosa, a que dedicou já parte significativa de uma vasta discografia. Discreto na direcção, Corboz soube conduzir orquestra, instrumentistas nos respectivos segmentos como solistas e quatro cantores (entre os quais se destacou claramente o tenor Christophe Einhorn), a música fluindo com espantosa e tranquila naturalidade. No formato dois mais dois, as cantatas I, II e III foram interpretadas ontem e hoje, as IV, V e VI agendadas já para sexta e sábado. 275 anos depois da sua primeira apresentação, este conjunto de seis cantatas (originalmente apresentadas entre o dia 25 de Dezembro e o feriado da Epifania, celebrado 12 dias depois) concentra em época próxima do contexto que viu nascer esta música uma rara ocasião para ouvir, na íntegra, ao vivo, uma das mais emblemáticas obras alguma vez compostas para a quadra do Natal.
Globos de Ouro: as nomeações
São estes os cinco filmes nomeados para o Globo de Ouro de Melhor Filme/Drama:* AVATAR, James Cameron
* ESTADO DE GUERRA, Kathryn Bigelow
* SACANAS SEM LEI, Quentin Tarantino
* PRECIOUS: BASED ON THE NOVEL PUSH BY SAPPHIRE, Lee Daniels
* UP IN THE AIR, Jason Reitman
Os prémios da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood vão na sua 67ª edição e serão atribuídos a 17 de Janeiro. Na categoria de Melhor Filme/Musical ou Comédia, os nomeados são:
* (500) DAYS OF SUMMER, Marc Webb
* A RESSACA, Todd Philips
* IT'S COMPLICATED, Nancy Meyers
* JULIE & JULIA, Nora Ephron
* NINE, Rob Marshall
O prémio honorário Cecil C. de Mille será entregue, desta vez, a Martin Scorsese.
Por (quase) todo o mundo
Era desde logo a canção com mais “sabor a single” entre o alinhamento do magnífico Yes. Agora, All Over The World surge como o rosto (em teledisco, entenda-se) do EP de Natal do grupo (que entre nós terá apenas edição digital). Aqui fica o teledisco, que resulta de uma colagem de imagens da Pandemonium Tour. A tal que esteve para a nos visitar e afinal assim não foi. Uma digressão que passou assim por... quase todo mundo.David, Imelda, e os outros
70 anos depois
Foi a 15 de Dezembro de 1939, faz hoje precisamente 70 anos. Em Atlanta (onde decorre parte da acção do filme), E Tudo O Vento Levou teve a sua estreia no final de três dias de eventos festivos, que incluiu paradas temáticas e um desfile de limousines com as estrelas do elenco. As leis estaduais de então impediram os actores negros de estar presentes na sala, o que levou Clark Gable a ameaçar um boicote à estreia. A sua presença deveu-se a uma intervenção da própria Hattie McDaniel (que no filme interpreta o papel de Mammy.O filme teve depois estreias em Los Angeles e Nova Iorque e, durante quase um ano esteve apenas disponível num reduzido número de salas, com bilhetes comprados antecipadamente por marcação. A sua exibição em circuito alargado só chegou em 1941, com o filme já transformado num sucesso monumental, e premiado com dez Oscares.
Baseado no romance homónimo de Margaret Mitchell publicado em 1936, o filme de Victor Flemming é um épico que evoca os dias da Guerra Civil norte-americana vistos na perspectiva de famílias do Sul.
Os discos da década (19)

Hissing Fauna, Are You The Destroyer?
Of Montreal, 2007
Depois de uma série de álbuns onde ensaiou e aperfeiçoou uma linguagem pop feita de faces múltiplas e fragmentos, Kevin Barnes concebe neste álbum a sua obra-prima. Com um fundo autobiográfico, é um álbum conceptual no qual uma impressionante multidão de acontecimentos (musicais e narrativos) surgem sucessivamente pela nossa frente, acabando todos eles arrumados no seu devido lugar. O disco representa um dos mais bem sucedidos entre as descendências da “família” Elephant Six.
Imagens do teledisco de Himdalsgate Like a Promethean Curse, um dos temas do alinhamento deste álbum.
Os filmes da década (20)

Os Fragmentos de Tracey
Bruce McDonald, 2007
Na idade da fragmentação e da multiplicação das imagens, esta representou uma das mais actuais e visionárias entre as ideias que chegaram às salas de cinema nos anos zero. O ecrã é frequentemente dividido em fragmentos, das mais variadas formas, apresentando alargados pontos de vista a uma narrativa também ela contada aos pedaços. Baseada no romance homónimo de Maureen Medved, esta é, na essência, a história de ansiedade de uma rapariga que perdeu de vista o irmão e tenta tudo para o encontrar entre as ruas e parques da cidade. Fundamental para o todo, a música dos Broken Social Scene.
Imagens do trailer de Os Fragmentos de Tracey.
Segunda-feira, Dezembro 14, 2009
IMDb em português: a miséria cinéfila
Digamos que o lançamento da versão portuguesa (?) do site IMDb não é exactamente um primor de cinefilia. Para já, o tom dominante é dado por graves notícias sobre os grandes problemas do cinema — porventura da humanidade — como esta:Angelina Jolie difundiu fofoca sobre Jennifer Aniston
De acordo com Ian Halperin, escritor do novo livro Brangelina: The Untold Story of Brad Pitt and Angelina Jolie, biografia não autorizada do famoso casal de Hollywood, foi a própria Angelina quem soltou na imprensa o boato de que a ex mulher de Pitt, Jennifer Aniston não queria ter filhos.
Para Ian, o único propósito da atriz era aliviar sua barra e tirar de cima o título de 'rouba-maridos', conquistado quando o ator decidiu divorciar-se de Aniston, ao final das filmagens do longa Sr. e Sra. Smith, que protagonizou com Jolie em 2005.
De acordo com o site Celebrity Gossip, Halperin comenta no livro que a tal 'fonte' que revelou que Brad se separou de Aniston por causa da questão 'filhos', foi Angelina. Um informante comentou: "Ela achava que essa história ia pesar mais, do que ela ser vista como uma mulher que roubou o marido de outra".
O exemplo citado é apenas um, entre vários possíveis, tanto mais penoso quando envolve o nome de uma actriz tão talentosa como Angelina Jolie. Mas convém acrescentar que até podia ser sobre uma qualquer mediocridade artística: o problema de fundo seria rigorosamente o mesmo. A saber: a degradação do espaço público — consumo + fruição + cultura — do cinema.
Black Joe Lewis: Texas blues
São de Austin, Texas, cantam blues e na sua árvore genealógica está inscrito o nome de James Brown: Black Joe Lewis and the Honeybears apresentam como actual cartão de visita o vibrante Tell'em What Your Name Is, com etiqueta Lost Highway. Além do mais, têm dois magníficos telediscos: I'm Broke (deliciosamente influenciado pela iconografia "James Bond") e Sugarfoot. Podemos vê-los, aqui, no mesmo Sugarfoot, em The Late Late Show, na CBS, apresentados por Craig Ferguson — a tradição ainda é o que era.Os filmes da década (19)
DEZAbbas Kiarostami, 2002
Se é verdade que o cineasta iraniano Abbas Kiarostami nos tem ensinado a revalorizar o mais básico poder do cinema — testemunhar o mundo vivo, material, não virtual —, então esta é a apoteose do seu método: uma dezena de conversas registadas num carro em movimento, protagonizadas pela mulher (Mania Akbari) que o conduz e por várias personagens do seu dia a dia. Em termos sociólogicos, trata-se de um impressionante painel sobre as relações homens/mulheres; indissociavelmente, superando qualquer maniqueísmo entre "documentário" e "ficção", Dez expõe-nos as transparentes e perversas formas de poder que a troca de palavras pode envolver. Passa-se praticamente tudo no espaço fechado de um carro, apenas com dois tipos de enquadramentos (a condutora e o acompanhante), mas é das coisas mais vertiginosas que se possa imaginar — aliás, ver e ouvir. Eis um fragmento de Ten on 10, uma apresentação do próprio Kiarostami.
Antes (e depois) de "Avatar"
Será que existe um cinema antes de Avatar e um cinema depois de Avatar? E ainda é cinema, salas e vivência social ou... apenas filmes em DVD? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 de Dezembro), com o título 'Cinema a sério ou versões pirateadas?'.
A nova produção de James Cameron, Avatar [estreia quinta-feira, dia 17], suscita a todos enormes expectativas. Está em jogo, não apenas a evolução do entertainment, mas também a integração da nova tecnologia 3-D. Ironicamente, o espectador comum não saberá que a respectiva projecção para a imprensa vai estar envolvida em apertadas medidas de segurança, com detector de metais, proibição de telemóveis na sala e elementos de segurança nos respectivos corredores. Não é, entenda-se, um episódio português na história de Avatar. Nem sequer se trata de uma novidade na relação de Hollywood com a comunicação social: situações semelhantes têm-se repetido ao longo da última década com filmes de grande orçamento. Porquê? Porque a grande indústria está preocupada (e com fundadas razões) com o crescente impacto económico da pirataria dos produtos cinematográficos.
Claro que há um aspecto caricato em tudo isto: julgar que as projecções de imprensa são um foco de produção de cópias ilegais não passa de uma bizarra ingenuidade… Seja como for, é um facto que o desenvolvimento do mercado pirata (no continente asiático, há países em que os circuitos legais estão longe de chegar aos 50 por cento do comércio global) coloca um drástico desafio à indústria cinematográfica: não se trata apenas de defender a difusão em DVD, mas de conseguir que grandes massas de espectadores retomem o hábito de ir regularmente às salas.
O cinema a três dimensões, de que Avatar parece ser uma espécie de símbolo de combate, emerge como um dos trunfos de uma mudança que os grandes estúdios americanos consideram decisiva para a reconquista de muito público. Os próximos anos servirão para testar tal estratégia, até porque alguns criadores emblemáticos (Steven Spielberg, Tim Burton, etc.) estão envolvidos na fabricação de filmes em 3-D.
Não é simples esta dicotomia entre os impulsos para ver cinema puro (material e comercialmente puro) e as versões “alternativas” das cópias pirateadas. Quanto mais não seja porque a questão não pode ser desligada de toda uma cultura global, de raiz televisiva, que todos os dias trabalha para desvalorizar os valores específicos do cinema.
Nos últimos tempos, a proliferação de uma nova variante do DVD, o Blu-ray, introduziu um dado novo numa equação (cultural e económica) já bastante complexa. De facto, por mais que se valorize a experiência primordial do cinema em sala, há que reconhecer que a sofisticação do Blu-ray, sobretudo na imagem, veio revalorizar a questão da fidelidade aos originais e, mais do que isso, as eventuais “equivalências” entre a experiência de ver um filme em casa e a sua descoberta numa sala. Mais ainda: a estratégia de crescimento do mercado de Blu-ray está a passar, não apenas pelos títulos populares mais antigos, mas também por obras exemplares da modernidade.
Temos, assim, a possibilidade de redescobrir clássicos como E Tudo o Vento Levou e O Feiticeiro de Oz, ambos de 1939 (lançados recentemente entre nós). Ao mesmo tempo, em alguns mercados, começam a surgir obras-primas que testemunham as convulsões dos anos 60: por exemplo, no reino Unido, A Mulher Casada (1964), de Jean-Luc Godard, e Belle de Jour (1967), de Luis Buñuel, foram recentemente editados em Blu-ray. Dir-se-ia que os próprios espaços da cinefilia estão a mudar.
Os primeiros sons de 2010
'Prima Donna' chega a Londres
O Natal de Casablancas
Esta é a espantosa capa que, dentro de uma semana, dará corpo ao single de Natal de Julian Casablancas. I Wish It Was Christmas Today, canção com história que parte do programa televisivo Saturday Night Live, surge numa versão mais próxima do som dos primeiros discos dos Strokes que do recente álbum de estreia a solo do vocalista da banda. No lado B surge Old Hollywood. O single, em vinil, sai a 21 (no mesmo dia surgindo uma edição digital). CD, nicles! Uma última nota sobre o contraste na capa, entre o classicismo do grafismo e o pequeno grande detalhe que é aquele copo (nada habitual nas representações mais tradicionais da quadra).
Os discos da década (18)

White Stripes, 2001
Foi este terceiro album dos White Stripes que colocou a dupla no mapa das atenções globais (abrindo a porta a Jack White, que acabaria por se afirmar como um dos grandes do rock alternativo dos anos zero). Heranças dos blues cruzam-se com vivências de ala rock’n’roll de travo punk, numa colecção de canções que lançaram o ponto de partida para evoluções e variações que ouvimos depois em Elephant (2003), Get Behind Me Satan (2005) e Icky Thump (2007).
Imagens do teledisco de Hotel Yorba, o primeiro single extraído de White Blood Cells.
Os filmes da década (18)

Jonathan Dayton e Valerie Faris, 2006
Um dos mais hilariantes retratos da América de classe média dos anos zero, Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos apresenta uma ímpar colecção de personagens em volta de uma pequena aventura em família: a participação da pequena Olive (Abigail Breslin) num garrido (e bem piroso) concurso de beleza. Nada nem ninguém é poupado a um olhar crítico (e satírico), sobretudo a figura de um pai que escreveu um daqueles banais livros de auto-ajuda e reduz toda a sua visão do mundo a uma aplicação prática desses princípios com mais forma que conteúdo.
Imagens do trailer de Uma família à Beira de um Ataque de Nervos
Domingo, Dezembro 13, 2009
"Avatar": à espera das novas imagens
Oito décadas separam estas imagens: em cima, Buster Keaton é o esforçado operador da sua obra-prima The Cameraman (1928), vivendo os primeiros dramas do cinema como registo de uma realidade convulsiva, ali mesmo à frente dos olhos e das lentes; em baixo, James Cameron trabalha com uma das câmaras fabricadas pela Sony para satisfazer o seu projecto, em 3-D, Avatar [estreia dia 17]. A fotografia de Cameron integra um dossier preparado pela revista Wired, sublinhando, precisamente, as novidades na concepção/fabricação das imagens — na prática, o criador já não depende apenas, nem sobretudo, daquilo que coloca à frente da câmara, mas da pluralidade de elementos que pode inscrever nos seus ecrãs. Pormenor nada secundário: o homem da câmara já não olha por um visor, mas para um ecrã.Os filmes da década (17)
Decididamente, o cinema avisou-nos: no ano 2000, Christopher Nolan fazia um filme-símbolo das nossas atribulações com as linguagens. Assombrado pela morte da mulher, Leonard (Guy Pearce) tenta desesperadamente controlar a estranheza do mundo. Atingido por perdas de memória que o fazem esquecer os acontecimentos mais recentes, procura fixar — nas suas polaroids e também através da escrita (inclusive na sua própria pele) — os factos que lhe escapam como areia entre os dedos. Se o cinema somos nós a tentar fixar a verdade no espelho das histórias que contamos, então este é o filme da sua esplendorosa vertigem. Para que a mensagem seja clara, o site do filme fica em otnemem.com.
Jason Lindner: hip-jazz-hop
Sabe sempre bem encontrar um artista que desafia todos os rótulos, não exactamente por querer parecer "muito à frente", mas apenas porque isso é genuíno na sua pose e na sua arte. É o caso de Jason Lindner. Nova-iorquino, homem dos teclados, formado nas ambiências de um jazz mais ou menos etéreo (na NPR, Joey Hood define-o pela irresistível expressão "stoner-friendly jazz"), distinguiu-se a solo e também com a sua Big Band, tendo MeShell Ndegeocello como colaboradora regular. Acaba de lançar o álbum Now vs. Now, com produção de Ndegeocello, na companhia de Panagiotis Andreou (baixo, voz) e Mark Guiliana (bateria), com várias colaborações pontuais, incluindo Baba Israel, nome da spoken-word. O exemplo de Big Bump [magnífico teledisco dirigido por Tchaiko] é notável: paisagens hip hop resgatadas numa deriva jazzística que, em momentos eleitos, não teme o despojamento do rock. Inclassificável? Of course.>>> Site oficial de Jason Lindner.
>>> Jason Lindner no MySpace.
>>> Jason Lindner no YouTube.
Luz e escuridão
Foi eleito como a revelação do ano, em 2008, pela BBC. Aos 28 anos, David Fray é um pianista já com uma interessante obra em disco e o um nome reconhecido. A sua mais recente gravação, para o catálogo da Virgin Classics, apresenta-o frente a uma série de peças de Scubert – os Moment Musicaux D. 780 e Impromptus D.899 – que toma também como ponto de partida para uma série de reflexões que depois assina no booklet. Aí diz: “aqui estamos confrontados pela solidão e morte – uma companhia temerária que todavia, com Schubert, acaba por tomar formas espantosamente tranquilizadoras”.
Nascido em França 1981 (tem 28 anos), David Fray é um pianista em clara etapa de afirmação global. Há um ano um documentário no Arte chegou a compará-lo, sob as devidas distâncias, com o mítico Glenn Gould. O facto de ter já gravado transcrições para piano de peças de Bach terá acentuado algumas das comparações…. Casado com a filha do maestro Ricardo Mutti, David Fray tem vindo a construir uma discografia sob azimutes de interesse distintos, que além de Bach o fez já abordar Liszt e Boulez. Este disco representa a sua segunda abordagem a Schubert. “É preciso ter confiança para tocar (e ouvir?) Schubert e aceitar que devemos ter fixo este ponto de vista, não o perdendo por nada, mesmo que simbolise a morte”, sublinha entre os textos que apresenta no booklet. O disco mostra uma presença de facto segura de si mesmo numa abordagem cristalina e elegante às peças que aqui nos apresenta. É uma música de contrastes e ambiguidades, que abarca vários estados de alma, de luzes e muitas sombras… Esta é a música de “um amigo próximo”, como David Fray conclui.À volta de Liverpool
'Penny Lane / Strawberry Fields Forever' (single), 1967
Em inícios de 1967, e sem gravações editadas há já alguns meses, a editora pediu aos Beatles um single novo. Assim surgiu Penny Lane / Strawberry Fields, temas gravados durante as sessões de Sgt. Peppers mas que acabaram fora do alinhamento do álbum (recrutadas alguns meses depois para Magical Mystery Tour). Entre ambas corre uma característica comum: o facto de se referirem a espaços na cidade de Liverpool (o que deles fez desde então verdadeiros locais de peregrinação para os admiradores dos fab four). Penny Lane é uma composição de Paul McCartney, todavia creditada à dupla de sempre. A canção tem o piano como força protagonista e apresenta a dada altura um piscar de olho a Bach, num segmento orquestral que foi inspirado pelos Concertos Brandeburgueses. Strawberry Fields Forever (hoje reconhecido como um dos feitos maiores de toda a história da música pop), era a canção de formas mais complexas até então criada pelos Beatles. Tinha conhecido por título de trabalho “it’s not bad”, e na verdade não ficou nada mal… Escrita por John Lennon, a canção conheceu várias etapas de gravação e transformação até à forma final, que dela faz uma experiência única (e um dos paradigmas do psicadelismo ao serviço da pop).O par de canções aqui reunidas representou, para o produtor George Martin o melhor que os Beatles já tinham feito, tendo depois acrescentado que a sua não inclusão em Sgt Peppers havia sido um erro. Era contudo hábito dos Beatles (pelo menos nas edições para o mercado britânico) não juntar aos álbuns as canções editadas como singles… Apesar do apelo gourmet da edição, o single foi o primeiro em muitos a não atingir o topo da tabela no Reino Unido. O que não impediu, em nada, de ambas as canções se terem entretanto transformado em dois dos clássicos maiores dos Beatles.
Para a promoção do single foram rodados dois pequenos filmes (os antepassados dos telediscos, portanto). O de Strawberry Fields Forever foi realizado pelo sueco Peter Goldman.
Os discos da década (17)

Book Of Longing
Philip Glass + Leonard Cohen, 2007
Book Of Longing foi o primeiro livro de poemas que Leonard Cohen publicou em mais de 20 anos. Philip Glass partiu de uma série desses textos para compor um novo ciclo de canções (o primeiro depois do célebre Songs From Liquid Days), usando contudo a voz gravada de Cohen em alguns instantes spoken word. Criado como um concerto, Book Of Longing teve depois edição em disco.
Os filmes da década (16)

Todd Haynes, 2002
Com acção projectada na América dos anos 50, Longe do Paraíso é contudo mais que um filme de época sobre a vida de classe média suburbana da altura. Com Julianne Moore como protagonista, é antes um palco de confrontos entre os códigos sociais vigentes com questões então tidas como tabu, as diferenças surgindo claras entre o que é e o que parece ser. Inspirado em memórias do cinema de Douglas Sirk e com banda sonora de Elmer Bernstein, propõe uma abordagem diferente a uma mão-cheia de referências clássicas.
Imagens do trailer de Longe do Paraíso. A música que acompanha o clip não tem contudo qualquer relação com o filme (nem com o trailer original).
Sábado, Dezembro 12, 2009
Haneke vence Prémios do Cinema Europeu
O filme de Michael Haneke Das Weisse Band — O Laço Branco (estreia portuguesa: 14 de Janeiro) — foi o grande vencedor dos Prémios da Academia Europeia de Cinema, tendo sido distinguido como 'Filme Europeu 2009', cerca de sete meses depois de ter conquistado a Palma de Ouro, em Cannes; Haneke recebeu também os prémios de realização e argumento. Tahar Rahim, em Um Profeta (estreia: 31 de Dezembro), de Jacques Audiard, e Kate Winslet, em O Leitor, de Stephen Daldry, foram os escolhidos nas categorias de representação. Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, recebeu o Prémio do Público.A cerimónia teve lugar em Essen, antecipando as celebrações da Capital Cultural Europeia, "Ruhr 2010" — a lista completa de prémios pode ser consultada no site oficial da academia.
Os discos da década (16)
TWELVEPatti Smith, 2007
Afinal de contas, esta foi a década em que Patti Smith completou 60 anos (nasceu a 30 de Dezembro de 1946). Que é como quem diz: são muitas memórias e, acima de tudo, são memórias que integram todas as convulsões da história do rock, do punk e dessa energia visceral que faz da música popular uma matéria viva das transformações de usos e costumes. Twelve são doze canções de outros, essenciais na formação artística e humana de Patti Smith. E encontramos aqui a herança mais primitiva de Jimi Hendrix (Are You Experienced?) e dos Doors (Soul Kitchen: em baixo, num registo de 2007, no programa de Jools Holland), a par das derivações de Paul Simon (The Boy in the Bubble) ou dos Nirvana (Smells Like Teen Spirit). Um clássico feito de clássicos.
Televisão, publicidade e... futebol
De que falamos quando falamos de publicidade (e futebol) em televisão? E, sobretudo, do que não falamos? — estas duas alíneas integravam um texto publicado no Diário de Notícias (11 de Dezembro), com o título 'Imagens & linguagens'.
A. Quando, num debate, alguém refere que nenhum problema do presente pode ser separado da sua percepção televisiva, há sempre um “moderador” que lembra que não é isso que se está a discutir... Ou seja: a televisão recalca as suas próprias linguagens. Não admira que ninguém lance qualquer ideia sobre os discursos publicitários: são muitos os rostos dramáticos para nos falar da crise em que vivemos, mas ninguém questiona, por exemplo, os anúncios natalícios que pintam o mundo como um paraíso consumista. Mais ainda: quase todos sustentam piedosos discursos sobre a necessidade de “proteger” as nossas crianças, mas ninguém se interroga sobre os valores que, todos os dias, a todas as horas, a publicidade lhes inculca.
B. As televisões desistiram de qualquer autocrítica (jornalística) em relação ao tratamento do futebol. Aliás, desistiram de qualquer consideração meramente quantitativa sobre os tempos da sua abordagem. A pergunta (jornalística, justamente) que, a meu ver, importaria colocar é esta: se é possível ocupar horas de emissão a perorar sobre os penalties bem ou mal marcados e as cores dos cartões mostrados e por mostrar, por que são tão raros os minutos a fruir as maravilhas dos grandes lances de futebol? Além do mais, hoje em dia, a tecnologia permite ver e compreender esses lances através de uma espectacular diversidade de imagens... Como sempre, as imagens (e os sons) que se difundem não têm nada de natural, muito menos de naturalismo: são escolhas.
Os filmes da década (15)
ZODIACDavid Fincher, 2006
A todos os níveis, em todos os planos da percepção humana, as novas tecnologias estão a transfigurar o nosso entendimento da verdade. Ou para nos exprimirmos em termos cinematográficos: o efeito de verdade. E não haverá muitos cineastas como David Fincher a trabalhar sistematicamente sobre essa questão. Baseado na história verídica de um serial killer (São Francisco, anos 1970) que nunca foi descoberto, Zodiac [trailer] é uma viagem dantesca às ambivalências da verdade, tanto mais bizarra quanto um dos seus protagonistas, Robert Graysmith (interpretado por Jake Gyllenhaal), provém de um tempo primitivo das imagens: as suas qualidades de cartoonista são requisitadas pela polícia, tentando figurar — ou seja: atribuir uma imagem — às emanações do Mal. Grande cinema, em tudo e por tudo contrário aos clichés quotidianos da televisão.
"Depois das Aulas": repensar a escola
O filme Depois das Aulas confronta-nos com a urgência de repensar a escola e os seus protagonistas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 de Dezembro), com o título 'Imagens, solidão e medo'.Talvez seja inevitável (eventualmente útil) encarar o filme Depois das Aulas, de Antonio Campos, a partir de uma perspectiva eminentemente portuguesa. Vivemos, de facto, num país em que as questões da educação e, em particular, os problemas específicos dos professores têm favorecido acesos confrontos políticos. Ora, mesmo não recusando a sua gravidade (e a legitimidade reivindicativa dos seus protagonistas), importa reconhecer que persiste em Portugal um chocante défice de reflexão e pensamento sobre os próprios estudantes. Há uma indiferença generalizada (que, em maior ou menor grau, passa pela classe dos professores) em relação aos modos de apropriação dos estudantes pelas ficções audiovisuais. Afinal de contas, assistimos ao triunfo da miséria narrativa e da inanidade mental de Morangos com Açúcar e... ninguém diz nada!
Na sua visão fulgurante (e, à sua maneira, muito pedagógica), Depois das Aulas é um filme que proclama uma verdade que a nossa cultura predominantemente televisiva tem dificuldade em enfrentar. A saber: nenhuma imagem (como nenhum som) é inocente, no sentido em que a sua difusão nunca é passiva ou neutra. Quando um telejornal trata com a mesma evidência uma cimeira sobre o aquecimento global ou um fait-divers numa aldeia esquecida do fim do mundo, isso traduz uma visão do mundo, quer dizer, implica formas de responsabilidade.
Aquilo que Antonio Campos filma é a dolorosa solidão dos estudantes com as imagens (e sons) da Internet, em particular do YouTube. Não se trata de dividi-las em “boas” e “más”, mas sim de observar como a sua generalização realista pode favorecer uma trágica interrogação: afinal de contas, o que é (e onde está) a realidade? Daí que a solidão e o medo dos protagonistas de Depois das Aulas seja tudo menos uma anedota geracional. Vivemos com eles. Vivemos como eles.
Yello, 1987
Continuando a recordar singles que ajudam a contar a história dos Yello, passamos hoje pelo álbum One Second, editado em 1987. Já com um estatuto de reconhecimento global, o disco contou como cartão de visita com o single Goldrush, mais um claro exemplo da linguagem muito pessoal desta dupla suíça.Yello
‘Goldrush’, 1987
Os discos da década (15)

Martes
Murcof, 2002
Natural de Tijuana (México), Fernando Corona estreou o seu projecto Murcof com um dos mais espantosos discos de música electrónica da década dos zeros. Texturas, padrões e micro-eventos povoam um espaço de alma minimalista que vive entre uma ideia de imensidão e não muito distante do silêncio. Notava-se já aqui um interesse por formas da música erudita, que mais tarde vira a explorar em outros contextos.
Vídeo experimental criado pelo próprio Fernando Corona (com base em fotos suas) para ilustrar o tema Memoria, que abre o alinhamento de Martes.
Os filmes da década (14)

Monstros e Companhia
Peter Docter, 2001
Uma das melhores produções dos estúdios Pixar na década dos zero é, além de um espantoso feito técnico, um filme com toda a carga dos ingredientes necessários ao contar de uma boa história, sobretudo uma fortíssima galeria de personagens (à qual não é estranha a colecção de vozes convocadas, de John Goodman a Billy Crystal) e um argumento sem um único prego de fora. Esta é a história de um mundo paralelo ao nosso, habitado por monstros, e que tem como fonte energia os gritos de sustos…
Imagens do trailer de Monstros e Companhia.
Em tempo de Natal (e sem novidades)
'A Collection Of Beatles Oldies' (compilação), 1966
A trabalhar no que, meses depois, seria Sgt. Peppers, os Beatles não tinham música nova para editar no Natal de 1966. A editora editou então uma antologia de canções. Chamou-lhe A Collection Of Beatles Oldies, propondo um alinhamento de 16 canções sem nenhuma real novidade maior, à excepção talvez de Bad Boy, uma versão de um original de Larry Williams que já tinha sido incluído numa das edições especiais para o mercado americano. As outras “novidades” desta compilação era a estreia, no alinhamento de um LP (fora dos EUA, entenda-se), de uma série de canções originalmente editadas em singles, entre as quais Paperback Writer, Day Tripper ou I Want To Hold Your Hand. Não foi um sucesso monumental, tendo atingido apenas o número 7 no Reino Unido.
Sexta-feira, Dezembro 11, 2009
Gene Barry (1919 - 2009)
Figura muito popular da televisão americana dos anos 50/60, o actor Gene Barry faleceu aos 90 anos de idade. Alfred Hitchcock Presents, Our Miss Brooks e Playhouse 90 foram algumas das séries em que participou, mas seria a personagem de Bat Masterson (um gentleman do velho Oeste), na série homónima, que lhe traria popularidade — participou em 108 episódios no período 1958-61. Foi sempre surgindo em produções cinematográficas, em particular de série B, sendo o seu papel mais célebre o cientista da versão de 1953 de A Guerra dos Mundos, dirigida por Byron Haskin; em 2005, quando fez o respectivo remake, com Tom Cruise, Steven Spielberg convidou Barry para um pequeno papel — seria o seu derradeiro trabalho como actor.
Os discos da década (14)
NO DIRECTION HOMEBob Dylan, 2005
Ao revisitar Bob Dylan no meio das convulsões dos anos 60, o filme No Direction Home (2005), de Martin Scorsese, está muito para além da estratégia tradicional do documentário sobre a "vida & obra" de um artista — é uma reinvenção da própria herança musical que o justifica. Não admira, assim, que a respectiva banda sonora seja também um objecto invulgar que não encaixa nos modelos correntes do género. Estamos, afinal, perante uma enérgica celebração desse tempo de desafios que conduziria Dylan à lendária digressão eléctrica de 1966: com participação do próprio Scorsese nas escolhas, o álbum duplo organiza-se como uma antologia de momentos mais ou menos esquecidos, desde uma gravação completamente amadora de 1959 (tinha Dylan 18 anos) até Like a Rolling Stone, a 17 de Maio de 1966, no Free Trade Hall, em Manchester [ver imagens]. Não por acaso, a edição retoma a designação das raridades da discografia de Dylan, sendo o seu título completo No Direction Home: The Soundtrack - The Bootleg Series Vol. 7.
Antonio Campos: escola & Internet
É um dos acontecimentos cinematográficos do ano: Depois da Escola/Afterschool, um retrato muito íntimo de um grupo de estudantes e do seu imaginário dominado pela lógica do YouTube — esta entrevista com o realizador Antonio Campos foi publicada no Diário de Notícias (10 de Dezembro), com o título 'A Internet não se pode comparar com a projecção de um filme'.Subitamente, um cineasta americano de nome português, Antonio Campos, surge com um filme fulgurante: Depois das Aulas, uma crónica muito crua sobre as relações dos jovens estudantes com a Internet e, em particular, com os pequenos filmes do YouTube. Gerado na área da produção independente, é também um exemplo de um cinema ligado às questões mais perturbantes da vida contemporânea.
As peripécias do argumento de Depois das Aulas são completamente inventadas ou têm a ver com algum tipo de experiência que, de alguma maneira, conhecesse?É uma história inventada, tanto mais que eu próprio frequentei uma escola privada, não do tipo que aparece no filme. O ponto de partida surgiu quando andava no último ano do liceu, logo após o 11 de Setembro: teve que ver, primeiro, com o facto de o pai de um colega ter morrido nas Torres e, depois, com a morte do meu melhor amigo. De alguma maneira, a combinação dessas duas ocorrências levou-me à história do filme.
Como é que as suas personagens e, de um modo geral, os jovens que usam frequentemente a Internet e o YouTube respondem à pergunta: “Afinal, o que é a realidade?”
Essa é uma pergunta inevitavelmente armadilhada. O que é, afinal, uma relação verdadeira? O que é a verdadeira experiência das coisas? Creio que para esta geração não é fácil responder, não é fácil falar daquilo que realmente experimentam.
Nesse sentido, parece-lhe que o cinema nos pode ajudar a lidar com essas questões, de maneira diferente da Internet ou mesmo da televisão?
Sim, creio que o cinema continua a ser o meio mais forte para explorar ideias, emoções e relações humanas. A Internet é diferente: gera discussão, promove interacção (“deixe o seu comentário”) e, ao mesmo tempo, é tão grande que se faz um click, depois outro, depois outro... Digamos que lidamos com a Internet um pouco como com um canivete suíço, utilizando diferentes funções e ferramentas. Digerimos uma ou outra informação, mas somos rapidamente distraídos, impelidos para outra coisa. Não é, de modo nenhum, uma experiência que se possa comparar com o assistir à projecção de um filme. Isto sem esquecer que o cinema é caro de fazer.
Que reacções tem obtido, nomeadamente nos festivais internacionais por onde passou?Creio que posso dizer que, de um modo geral, são reacções positivas. Em qualquer caso, as pessoas reagem sempre de forma muito contundente: há mesmo quem odeie o filme o que, a meu ver, não é necessariamente mau. Seja em Londres, Nova Iorque ou Gijón.
Que tipo de distribuição teve o filme no mercado americano?
Foi uma difusão de pequena escala, mas as reacções têm sido muito boas. Começamos em Nova Iorque, depois em cidades mais pequenas. Além do mais, temos explorado os circuitos de “video-on-demand”, permitindo que as pessoas possam alugar o filme para ver em casa, o que também tem corrido muito bem.
Sentiu-se de alguma maneira inspirado por outros filmes sobre estudantes adolescentes?
Senti-me mais inspirado por alguns filmes europeus cujo tema não é, necessariamente, a adolescência: filmes de Michael Haneke, Bruno Dumont ou, recuando um pouco, Bergman, Fassbinder, Chantal Akerman. E ainda Stanley Kubrick, que é americano, para mim uma referência fundamental.
Por vezes, na Europa, considera-se que o cinema independente americano é mais criativo que a produção dos grandes estúdios. Qual é a sua perspectiva?
Creio que há excepções, mas na maior parte dos casos é verdade. Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino são excepções. Mas não será que foi quase sempre assim?
E agora as imagens
A dupla Junior Boys editou este ano o álbum Begone Dull Care, um dos grandes momentos discográficos de 2009 no departamento que trata do relacionamento das electrónicas com a canção. Agora chegam finalmente imagens para as canções. Em concreto um teledisco para o tema Bits and Pieces. A realização é de Stephanie Comilang.Trabalhos sónicos em curso
Duran Duran 2010: as reedições
2010 será um ano de intensa actividade editorial para os Duran Duran. Por um lado deve assinalar o lançamento de um novo disco, que têm estado a gravar na companhia de Mark Ronson. Por outro conta já com agenda carregada de reedições. Ao álbum So Red The Rose, dos Arcadia (versão CD duplo mais DVD), juntam-se agora as notícias de reedições, logo nos primeiros meses do ano, igualmente com conteúdos extra, dos álbuns Duran Duran e Seven and The Ragged Tiger, respectivamente de 1981 e 1983, ambos seguindo o modelo recentemente adoptado para a reedição de Rio.O álbum de estreia dos Duran Duran surgirá uma edição de dois CD e um DVD. O CD1 inclui, além do alinhamento original do álbum, os lados B dos singles dele extraído (Late Bar, Khanada, Fame e Faster Than Light). O CD 2 junta as remisturas editadas em máxi-single de Planet Earth e Girls on Film e uma série de sessões inéditas de gravação de maquetes. Em concreto nos AIR Studios em Julho de 1980 (Girls On Film e Tel Aviv), Manchester Square em Dezembro de 1980 (Anyone Out There, Planet Earth, Friends Of Mine e Late Bar) e na Radio 1, em Junho de 1981 (Night Boat, Girls On Film, Anyone Out There e Like An Angel). O DVD inclui os telediscos de Planet Earth (2 versões), Careless Memories, Girls On Film (2 versões, a censurada e a nem por isso) e Nightboat, um pequeno documentário e actuações televisivas da época. Há ainda uma reedição em vinil, com um segundo disco (também a 33 rpm) com as remisturas de Planet Earth e Girls on Film. Como extra, apenas em edição digital, há uma gravação de um concerto no Hammersmith Odeon, em Dezembro de 1981 com os temas Anyone Out There, Planet Earth, To The Shore, Late Bar, Last Chance On The Stairway, Khanada, Night Boat, Sound Of Thunder, Faster Than Light, My Own Way, Careless Memories, Girls On Film e Planet Earth.
O album de 1983 é reeditado num format semelhante. O CD1 inclui o alinhamento original do disco. No CD2 surgem, além de Is There Something I Should Know?, os lados B ligados a esta etapa (Faith In This Colour, Sekret Oktober, Tiger Tiger – Ian Little Remix e Make Me Smile – Come Up and See Me), a versão single de The Reflex, as remisturas dos máxis da altura (Is There Something I Should Know?, Union Of The Snake, New Moon On Monday e The Reflex) e ainda temas gravados ao vivo no LA Forum em Fevereiro de 1984 (New Religion e The Reflex). O DVD inclui o programa televisivo As The Lights Go Down (nunca editado sequer em vídeo), nada mais que uma série de temas gravados ao vivo na digressão mundial de 1983/84, ao qual se juntam os telediscos de Union Of The Snake, New Moon On Monday (duas versões, uma delas com 17 minutos) e The Reflex e ainda actuações no Top Of The Pops. A reedição em vinil junta um disco extra com remisturas editadas originalmente em máxi-singles. E haverá uma edição digital, apenas áudio, com os temas ao vivo de As The Lights Go Down (Tiger Tiger, Is There Something I Should Know?, Hungry Like The Wolf, New Religion, Save A Prayer, Rio, The Seventh Stranger, The Chauffeur, Planet Earth, Careless Memories e Girls On Film).Os discos da década (13)

LCD Soundsystem
LCD Soundsystem, 2005
É impossível contar a história da música popular nos anos zero sem mencionar este disco. Não apenas pelo conjunto de temas que junta num alinhamento rico em grandes canções, como pelo facto de ter representado um momento de afirmação de uma ideia (claramente ligada à identidade da DFA Records e de James Murphy) que marcou a forma de relacionamento entre os espaços rock’n’roll e a cultura da música de dança na segunda metade da década.
Imagens do teledisco de Tribulations, um dos singles extraídos do álbum de estreia dos LCD Soundsystem.
Os filmes da década (13)

Tarnation
Jonathan Caouette, 2003
É um documentário. Mais concretamente uma autobiografia. E resulta de 20 anos de imagens e sons guardados por Jonathan Caouette, que assim nos conta a sua história e da sua (muito disfuncional) família. Com orçamento mínimo, ensaiando linguagens por vezes próximas do cinema experimental, junta ainda memórias do cinema e da música pop para nos contar uma narrativa na primeira pessoa naturalmente conduzida pela visão que Caouette tem de si mesmo e da história que nos quer contar…
Imagens do trailer de Tarnation.


