quarta-feira, junho 20, 2018

"Last Exit Before Brexit"

O escritor e filósofo francês Bernard-Henri Lévy encara o Brexit como um desastre anunciado (ainda que não consumado...), não apenas para a identidade nacional do Reino Unido, mas para a coesão cultural, económica e política da Europa. Para dar conta da sua visão, escreveu uma peça de teatro, Last Exit Before Brexit, um monólogo que ele próprio tem interpretado, nomeadamente em Londres, no palco do Cadogan Hall. Por altura dessa performance, Lévy foi convidado de Christiane Amanpour, nos estúdios londrinos da CNN — da Europa aos EUA, passando por Macron e Trump, uma conversa fascinante.

Lichtenstein no Colombo

1. Em matéria de dinâmica cultural, o cliché dominante — amplamente sustentado pelos partidos políticos, direitas e esquerdas confundidas — esgota-se num piedoso voluntarismo. A saber: essa dinâmica resultaria apenas da acção de acontecimentos específicos e circuitos especializados. Tal cliché é incapaz, por exemplo, de pensar uma evidência (com mais de 40 anos...) do contexto português: como discutir os problemas culturais e financeiros (é a mesma coisa) do cinema português omitindo qualquer referência ao poder normativo das telenovelas?

2. A evocação de tais questões vem a propósito deste curioso e desconcertante testemunho cultural. Assim, através da principal chamada de capa do jornal Destak, ficamos a saber que um conjunto de obras de Roy Lichtenstein (1923-1997), figura emblemática da Pop Art, está disponível no Centro Comercial Colombo (até 23 de Setembro).

3. Sinais destes tempos de muitos cruzamentos: um artista consagrado pelos compêndios culturais está exposto num centro comercial. Mais do que isso: o acontecimento surge divulgado, não através de uma qualquer publicação ou circuito "especializado", mas sim nas páginas de um jornal gratuito. Evitemos, por isso, a facilidade televisiva dos "prós" e "contras" (ou, como no futebol, a procura de um "culpado" para cada golo marcado). Digamos apenas que o mundo em que vivemos é feito destas contaminações — e também que é legítimo supormos que Lichtenstein seria o último a queixar-se.

>>> Site oficial da Fundação Roy Lichtenstein.

APV na Cinemateca

[ Cinemateca Portuguesa ]
A filmografia de António-Pedro Vasconcelos é acontecimento central, na Cinemateca, até finais de Julho — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Junho), com o título 'Elogio do velho Cinema Novo'.

Mais do que nunca, importa lidar com a herança do Cinema Novo português para além de qualquer facilidade nostálgica. Revelada nas décadas de 1960/70, a geração de cineastas que emulou a ousadia criativa da Nova Vaga francesa deixou um legado cuja energia não se dissipou. Mais do que isso, a sua memória estética e ideológica enriquece o debate actual sobre as encruzilhadas do cinema. Prova muito real dessa energia: a filmografia de António-Pedro Vasconcelos (n. 1939), actualmente em retrospectiva na Cinemateca (até final de Julho).
Percorrer essa filmografia será tanto mais estimulante quanto o trabalho de APV há muito se libertou de qualquer dependência simbólica das suas raízes artísticas. Aliás, como realizador e polemista, ele tem sido uma personalidade muito interveniente na questão (contemporânea, por excelência) das relações narrativas e financeiras entre cinema e televisão.
É bem provável que a maioria dos espectadores associe o seu nome ao fenómeno que foi o filme O Lugar do Morto (1984), um “thriller” de sucesso protagonizado por Ana Zanatti e Pedro Oliveira. Sempre me pareceu redutora a visão do filme como um exemplo de conciliação entre “qualidade” e impacto “comercial” (acabando por atrair os fundamentalismos mais conflituosos). De facto, tal visão minimiza algo de essencial no gosto narrativo de APV. A saber: a procura de um romanesco em grande parte ligado a lições de mestres de Hollywood, capaz de conciliar o apelo romântico com a atenção crítica à evolução dos usos e costumes sociais. Exemplo mais próximo é, a meu ver, a subtileza emocional e acutilância crítica do seu Call Girl (2007).
Curiosamente, tal gosto tem levado APV a experimentar singulares relações com as convulsões da história colectiva. O exemplo mais sugestivo será Adeus, Até ao Meu Regresso (1974), incontornável memória da nossa Guerra Colonial e, em particular, como o título indica, das “mensagens de Natal” dos soldados difundidas pela televisão do Estado. Mas importa não esquecer, num registo bem diverso, Aqui d’El Rei! (1991), por certo o mais ambicioso projecto de produção de APV, mini-série televisiva (que também teve uma versão para cinema) sobre a expedição de Mouzinho de Albuquerque a Moçambique, em finais do século XIX, para capturar Gungunhana [video, arquivo RTP].
No seu ziguezague temático e criativo, a obra de APV nunca abdicou de questionar os valores do ser (ou não ser) português. Nessa medida, cumpre os desígnios do Cinema Novo, transfigurando-os para as convulsões do tempo presente.

terça-feira, junho 19, 2018

Martin Bregman (1926 - 2018)

Produtor americano muito ligado à carreira de Al Pacino, Martin Bregman faleceu no dia 16 de Junho, em Nova Iorque, vítima de hemorragia cerebral — contava 92 anos.
Depois de ter trabalhado no sector imobiliário, começou a representar diversos actores, incluindo Al Pacino, Barbra Streisand e Bette Midler. Foi com Serpico (1973), de Sidney Lumet, baseado numa personagem verídica da polícia de Nova Iorque, que Bregman se estreou como produtor, oferecendo o papel principal a Pacino — Bregman descobrira-o, poucos anos antes, numa produção off-Broadway, tendo-lhe conseguido o seu primeiro papel importante em cinema no filme Pânico em Needle Park (1971), de Jerry Schatzberg.
Com uma relação especial com Pacino e Lumet, produziu também Um Dia de Cão (1975), exemplo maior de um realismo à flor da pele, indissociável das convulsões sociais e simbólicas da década de 70 [trailer]. Scarface (1983), de Brian De Palma, Perigosa Sedução (1989), de Harold Becker, e Perseguido pelo Passado (1993), de novo de De Palma, todos eles com Pacino, são outros momentos marcantes da sua filmografia. Com Um Dia de Cão obteve a sua única nomeação para um Oscar (melhor filme).


>>> Obituário no New York Times.

segunda-feira, junho 18, 2018

Beyoncé + Jay-Z

Demonstração de poder, sem dúvida. Poder mediático e figurativo, numa palavra, simbólico: Beyoncé e Jay-Z encenam-se no Museu do Louvre a cantar APESHIT. Não há visitantes, apenas os figurantes/bailarinos da sua teatralidade. Talvez seja essa a forma limite, perversamente utópica, de poder contemporâneo — obrigar os consumidores a desertar.
A canção, escrita e produzida com Pharrell Williams, é o cartão de visita de um álbum surpresa: Everything Is Love. Com assinatura conjugal: The Carters.

Eva, aliás, Isabelle Huppert

Eva é mais um encontro magnífico entre Isabelle Huppert e o realizador Benoît Jacquot — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Junho), com o título 'Entre masculino e feminino'.

Há poucas semanas, o site IndieWire dava notícia de um “estudo” empenhado em provar uma bizarra correspondência: os filmes da saga Star Wars que dão mais tempo às personagens femininas seriam os que tinham obtido maiores receitas nas salas dos EUA. A demonstração era involuntariamente ridícula, já que a simples relativização da inflação permite perceber que o primeiro título, lançado em 1977 e considerado o de menor “exposição” feminina é, de longe, o que vendeu mais bilhetes. Mas o mais grave decorria da grosseira aritmética proposta: a figuração do feminino seria sancionada pelos movimentos do dinheiro.
Isto para dizer que Eva, o novo e magnífico filme de Benoît Jacquot, nunca encaixará em qualquer cálculo do género. Ainda bem, digo eu. Em primeiro lugar, porque ainda há filmes que é possível descobrir sem sermos agredidos por uma visão economicista do cinema que reduz toda e qualquer forma de criatividade a contas de “milhões” (ou proezas de “efeitos especiais”). Depois, porque a personagem interpretada por Isabelle Huppert resiste a ser reduzida a qualquer padrão dramático pueril e purificador.
Conhecemos o pano de fundo mediático sobre os abusos cometidos por alguns homens contra algumas mulheres — e nada pode minimizar a importância da identificação dos crimes cometidos e da sua exemplar punição. Em todo o caso, o que quase todos os militantismos ignoram é o facto de ficções como Eva, centrada no fascínio de um homem (Gaspard Ulliel) por uma prostituta (Huppert), funcionarem como espelho amargo de um logro partilhado por masculino e feminino. A saber: Jacquot, autor de filmes belíssimos como As Asas da Pomba (1981), Adolphe (2002) ou Adeus, Minha Rainha (2012), continua a ser um observador terno e cruel do desejo e suas ilusões, do desejo como ilusão.

domingo, junho 17, 2018

A IMAGEM: Steven Klein, 2018

STEVEN KLEIN
Ace
2018

Mensagens televisivas [citação]

>>> Que misteriosa energia imperscrutável faz com que quando se quer utilizar a televisão para fazer passar uma mensagem, a única coisa que passa é, finalmente, a própria televisão?

La Démocratie Virtuelle

* Bergman + Bernstein
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [dia 24]


[NOVA DATA: inicialmente prevista para o dia 30, esta sessão terá lugar no dia 24]


Cinema e música cruzam-se nas celebrações do centenário de Ingmar Bergman e Leonard Bernstein, ambos nascidos em 1918 — propomos uma viagem, com imagens e sons, pelas suas obras fascinantes.

* FNAC (Chiado) — 24 Junho, 18h30

Bruno de Carvalho não está
num filme de Manoel de Oliveira...

I. Cada vez que vejo Bruno de Carvalho na televisão, numa conferência de imprensa, não penso em futebol. Penso nas vozes, ora indignadas, ora chocarreiras, dos que dizem que os filmes de Manoel de Oliveira são feitos de longos planos fixos de 10 minutos (antes do digital, era a duração máxima de uma bobine de película...), alguns deles garantindo tal "verdade" ao mesmo tempo que proclamam que nunca viram tais filmes.

II. Onde estão essas vozes para comentar os longos planos fixos (10, 15, 20 minutos...) que são difundidos nos pequenos ecrãs quando Bruno de Carvalho dá uma conferência de imprensa? Aliás, ele está longe de ser o único protagonista de tal fenómeno. Qualquer personalidade do mundo do futebol parece ter o direito (automático, indiscutível, irrevogável) de ocupar esses ecrãs ao longo de infinitas horas, não poucas vezes interpretando os tais planos fixos.

III. Como espectador, confesso que já nem compreendo o que se diz e repete, repete, repete... como assunto futebolístico. Mas uma coisa é certa: se os ecrãs privilegiam tais matérias, isso decorre do facto de a elas atribuírem o valor de uma ideia de futebol.

IV. Que ideia é essa? Em boa verdade, é uma ideia cultural, poderosa como mais nenhuma outra. Ou não é verdade que, através do futebol, somos todos os dias confrontados com os méritos da vocação, os meandros da justiça e os valores da portugalidade?

V. No limite, o futebol tornou-se mesmo o único discurso cultural que tem à sua disposição todo o espaço audiovisual — entenda-se: social — para circular como princípio compulsivo da nossa identidade colectiva. O que, bem entendido, não nos garante que haja muitos novos espectadores, disponíveis e sem preconceitos, para ver, realmente ver, os filmes de Manoel de Oliveira.

sábado, junho 16, 2018

Bayona (não) é herdeiro de Spielberg (2/2)

Longe vão os tempos da criatividade de Steven Spielberg em Parque Jurássico: a nova sequela tem muito barulho para nada — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Junho), com o título 'Um circo audiovisual'.

[ 1 ]

A decomposição de alguns modelos de espectáculo cinematográfico detecta-se em todos os pormenores. Assim, por exemplo, o título português de Jurassic World: Fallen Kingdom. De facto, Mundo Jurássico: Reino Caído acaba por ser uma tradução tão “literal” que consegue apagar a sugestão de um reino em processo de queda. Foi mesmo dispensada a expressão mais apelativa: “A queda de um reino”.
Olhamos para as mais de duas horas em que o filme se arrasta, multiplicando ruídos e esgares dos dinossauros, e ficamos enredados na pergunta: afinal, qual é a aventura que nos querem vender?
Como numa psicanálise em que alguém, perversamente, deixou aberta a porta do consultório, o filme acaba por desmontar-se através de uma cena involuntariamente ridícula. Assistimos, assim, a um leilão em que os proprietários dos dinossauros vendem cada um dos seus monstros, devidamente licitados por homens de negócios e políticos provenientes de todo o mundo (com russos e diversas figuras asiáticas para reforçar a “actualidade”). Dir-se-ia que os criadores do filme podiam integrar a plateia de compradores: a única coisa que os interessa é organizar um catálogo de monstros para exibição gratuita num circo audiovisual sem ideias dramáticas.
Numa das poucas cenas com algum sentido do espaço vemos Chris Pratt e Bryce Dallas Howard a extrair sangue de um bicho encerrado numa gaiola gigante... E um dos segredos da história é o facto de a manipulação genética ter concebido um novo monstro... Como é que recebemos essa cena e tal segredo? Pois bem, com o tédio de quem já tinha sido “informado” da sua existência pelo trailer do filme... Moral da história: espera-se que o espectador seja uma marioneta sem sensibilidade, limitando-se a ir ao cinema para “descobrir” aquilo que já sabe.

quinta-feira, junho 14, 2018

A IMAGEM: Sarah Moon, 2018

SARAH MOON
Luping Wang [Armani]
2018

O Mundial por Sergey Ponomarev

Praça Manezhnaya, Moscovo, 13 Junho
Já distinguido com um prémio Pulitzer, pelo seu trabalho sobre os refugiados na Europa, o fotógrafo russo Sergey Ponomarev está a acompanhar o Mundial de Futebol para o diário francês Libération — alguns sugestivos instantâneos para lá dos fragmentos mais ou menos acelerados que predominam nas televisões.
Moscovo, 13 Junho

Fritz Lang na televisão

Gloria Grahame e Glenn Ford
Fritz Lang a passar nos TVCine: uma belíssima (re)descoberta — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Junho), com o título 'O Bem e o Mal segundo Fritz Lang'.

Será um efeito de (de)formação profissional, mas sempre que revejo um filme tão admirável como Desejo Humano (1954), de Fritz Lang, não posso deixar de pensar no velho preconceito que tende a menosprezar o cinema rodado em imagens a preto e branco. Bem sabemos que as raízes de tal preconceito estão, em grande parte, no triunfo de um certo novo-riquismo cultural há várias décadas favorecido pelo advento da televisão a cores. Em todo o caso, como é possível que se tenha instalado como coisa “natural” a ignorância de uma boa metade (ou mais) da história do cinema?
Desejo Humano está a passar nos canais TVCine, além do mais numa cópia que preserva a sofisticada direcção fotográfica de Burnett Guffey, de alguma maneira reflectindo as memórias “expressionistas” dos filmes que Lang dirigira na Alemanha (com inevitável destaque para Metropolis e M – Matou, respectivamente em 1927 e 1931).
Adaptando a um contexto americano o romance La Bête Humaine, de Émile Zola (que em 1938 estivera na base do clássico francês A Fera Humana, de Jean Renoir, com Jean Gabin), Desejo Humano tem chancela da Columbia Pictures, podendo exemplificar uma certa produção média com que, na altura, Hollywood ia cruzando as regras do filme negro com as nuances do melodrama.
Escusado será dizer que o trabalho de Lang é tudo menos mediano. E tanto mais quanto a precisão realista do detalhe coexiste com uma concepção abstracta da narrativa, desembocando numa desencantada parábola filosófica sobre a fragilidade do Bem e a omnipresença do Mal. Ou ainda: esta é uma história sobre as componentes malignas do desejo (o adjectivo “humano” do título é quase uma redundância), numa paisagem de paixões e traições em que o romantismo surge amaldiçoado pela mais descarnada pulsão de morte.
Simplificando (e simplificando muito...), digamos que esta começa por ser a história de um par interpretado por Gloria Grahame e Broderick Crawford: na sequência da perda do seu emprego nos comboios, movido pela cegueira do ciúme, ele mata um homem; o crime acontece num comboio em que também viaja um dos seus companheiros de trabalho, Glenn Ford — através do seu envolvimento com a mulher, ele será uma ambígua testemunha do ocorrido...
Provavelmente, nas mãos de um cineasta vulgar, este seria apenas um enigma mais ou menos policial sobre a exposição pública de um crime. Encenada por Lang, estamos perante uma tragédia íntima sobre a muito humana desumanidade do desejo, pontuada pelas infinitas nuances das imagens a preto e branco.

Dumbo + Disney + Tim Burton

Apostados em revitalizar "em imagem real" (e muito efeitos digitais...) alguns dos seus títulos clássicos, os estúdios Disney têm já agendada, para Março de 2019, uma nova versão de Dumbo, 78 anos passados sobre o desenho animado original. O primeiro trailer é uma pequena proeza de sedução — pormenor a ter em conta: a realização tem assinatura de Tim Burton. Aqui ficam as novas imagens, logo seguidas do trailer do filme de 1941.