quarta-feira, agosto 23, 2017

Na encruzilhada da Porto Editora

1. Na sequência das discussões públicas surgidas em torno de duas edições de "Blocos de Actividades", uma "para meninas", outra "para rapazes", a Porto Editora suspendeu a respectiva venda, manifestando em comunicado a sua disponibilidade democrática para analisar a situação: " (...) a Porto Editora reafirma que as edições em causa não foram trabalhadas sob qualquer perspetiva discriminatória ou preconceituosa, a qual é absolutamente contrária aos valores que norteiam a sua atividade editorial desde sempre."

2. Na candura com que enfrentou esta encruzilhada cultural e comercial, a Porto Editora acaba por contribuir, inadvertidamente, para reforçar o primarismo pedagógico e a cegueira biológica que puseram em marcha esta campanha contra tão castas edições.

3. Vivemos num país em que os olhos e os ouvidos das crianças são todos os dias agredidos por modelos formatados que estiolam a sua imaginação narrativa (telenovela) ou pervertem qualquer saudável educação sexual (reality TV). Em todo o caso, há décadas — sublinho: décadas — que não ouvimos um pedagogo, muito menos um político, a levantar a mais tímida dúvida sobre o matraquear quotidiano de tais objectos. Seja como for, uns caderninhos azuis, outros cor de rosa, são motivo duma agitação completamente deslocada.

4. Não se pede aos nossos pedagogos e políticos que conheçam a obra de Camille Paglia, em particular a sua desmontagem dos fundamentalismos feministas e outros que têm contribuído para esquecer que, de facto, existem sexos e diferenças sexuais (leia-se o recente Free Women, Free Men) — até porque, sejamos claros, Paglia será tudo o que cada um entender, menos uma personalidade para gerar consensos. Em qualquer caso, mais de um século depois de Sigmund Freud ter publicado os seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, a liofilização daquelas diferenças tende a reduzir a sexualidade humana — infantil ou não — a uma espécie de programa abstracto que podemos gerir com um "like" ou um "dislike", à maneira do Facebook.

5. A importância social, cultural e simbólica da defesa da igualdade de géneros surge, assim, diminuída. Porquê? Porque se transforma (em nome de quê?) num douto policiamento dos comportamentos, no limite como se cada criança fosse um projecto de identidade (gerido pelos adultos) que pode ser pensado como "liberto" das diferenças sexuais. Assistimos, assim, ao reforço de uma visão de histérico proteccionismo das crianças — corremos o risco de não as deixarmos viver, ignorando-as como seres de muitas diferenças, por fim olhando-as e tratando-as apenas como vítimas. De quê? Do sexo e dos malignos blocos de actividades.

A guerra segundo Hollywood (2/8)

O sucesso de Dunkirk relançou muitas memórias cinematográficas da guerra e, mais especificamente, do segundo conflito mundial: esta breve antologia de memórias foi publicada no Diário de Notícias (20 Agosto), sob o título genérico 'Como Hollywood tem visto a Segunda Guerra Mundial'.


1942 – A FAMÍLIA MINIVER
Simbolicamente, este retrato de uma família inglesa afectada pelo início dos combates na Europa, realizado por William Wyler, é o filme que inaugura o tratamento da guerra por Hollywood. Rodado antes do ataque a Pearl Harbor, em Dezembro de 1941, seria lançado no Verão de 1942, transformando-se em bandeira de resistência — ganhou seis Oscars, incluindo o de melhor filme do ano.

"Material Girl" em novo DVD

É um dos emblemas do universo de Madonna: Material Girl foi também, durante algum tempo, uma canção que ela excluiu dos seus concertos, porventura com receio das leituras "moralmente correctas". Vencido esse complexo, Material Girl integrou a 'Rebel Heart Tour' e, agora, emerge como primeiro cartão de apresentação do DVD da digressão — lançamento a 15 de Setembro.

"Largo mulher e filhos
e de joelhos vou te seguir"

1. A notícia é conhecida: um tema novo de Chico Buarque, Tua Cantiga, tem sido objecto de muitas condenações, em particular de acusações de machismo, com especial intensidade nas chamadas "redes sociais", devido a um fragmento da sua letra [O Globo]. A saber:

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir.

2. Para resumir, lembro apenas que, paralelamente a tão triste simplismo, nem tudo é um deserto de ideias. Assim, têm proliferado também as manifestações de solidariedade com o veterano artista brasileiro. E acrescento que me incluo entre aqueles que, através de tal solidariedade, consideram esta polémica (?) um triste exemplo da mediocridade humana que encontrou acolhimento — e uma sinistra câmara de eco — nesses espaços "sociais".

3. Em todo o caso, peço licença para contrapor uma visão diferente da que encontrei expressa em muitos discursos de apoio a Chico Buarque. Ou seja: quando se considera que a condenação de Tua Cantiga decorre de um pensamento anquilosado sobre a criação artística e as relações homens/mulheres, creio que se passa ao lado do problema.

4. Porquê? Porque não há pensamento.

5. Considero mesmo que o poder crescente, e crescentemente assustador, deste tipo de utilização das "redes sociais" sai todos os dias reforçado quando, nem que seja por distracção, as suas práticas são encaradas e tratadas em termos de confronto de pensamento.

6. A maioria dos discursos que circulam em tais plataformas ignora o conceito de confronto — a única coisa que tais discursos procuram é o conflito.

7. Assistimos mesmo à insidiosa instalação da ideia (?) segundo a qual o "social" só se manifesta — em última instância, só existe — se for conflitual.

8. Face ao discurso poético de Chico Buarque, o único efeito que se procura é o estabelecimento de alguma ligação (um link, sem dúvida) que possa gerar conflito e multiplicar-se de forma viral. Os "autores" de semelhantes proezas são mesmo incensados, não pelo pensamento que enunciam, apenas porque as suas "intervenções" se podem quantificar em links, likes ou qualquer outra medida pueril, alheia a qualquer tipo de responsabilidade social.

9. Escusado será dizer que, num espaço "social" desta natureza, lavra uma desmesurada ignorância sobre as especificidades do discurso artístico — que, aliás, se apoia num desconhecimento total de quaisquer referências históricas das práticas artísticas.

10. Fomos condenados a viver com isto. Podemos, em todo o caso, ver e escutar Chico Buarque a cantar Tua Cantiga. Nada nos impede disso — ainda não.

terça-feira, agosto 22, 2017

Aqui e algures com Régis Debray

O mais recente livro de Régis Debray tenta pensar o nosso devir americano no interior de uma nova civilização de lugares virtuais — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Agosto).

O novo livro de Régis Debray, Civilisation (ed. Gallimard), tem um subtítulo eloquente — “Como nos tornámos americanos” — que, em todo o caso, convém não reduzir a uma oposição simplista entre “prós” e “contras”. Não se trata de desistir da Europa, mas de não esquecer que “a Europa não terá tido a política do seu pensamento”. Comentário à burocracia de Bruxelas? Não. Antes uma citação das Notas sobre a Grandeza e a Decadência da Europa, escritas por Paul Valéry em... 1931.
O livro ajuda-nos a perceber que uma cultura, por mais enraizada num território, não é uma barreira automática aos avanços de uma civilização — a história ensina-nos mesmo que há civilizações que avançam, preservando as componentes culturais dos territórios que conquistam.
Régis Debray
Neste mundo de “portáteis e fibra óptica”, aquilo que mudou foi o próprio território. Primeiro, porque o império das imagens se tornou omnipotente e omnipresente — há mesmo milhões de pessoas que, através de Facebook ou Instagram, consideram “normal” partilhar com o planeta as imagens do seu mundo privado (desse modo contribuindo para o enfraquecimento político do próprio conceito de privacidade). Depois, porque, por Skype ou qualquer outros aparato virtual (incluindo o directo televisivo), foi anulada a distância física entre o lugar que cada um ocupa e o lugar do seu semelhante. Na prática, apagou-se a diferença simbólica entre o estar aqui e o responder algures.
“Aqui e Algures” (Ici et Ailleurs) é, justamente, o título de um filme de Jean-Luc Godard, concluído em 1976 a partir da reorganização crítica de imagens recolhidas na Palestina, em 1970. Godard lembrava uma verdade cuja pertinência moral não se dissipou: não é por ir recolher imagens “algures” que posso dizer que, estando “aqui”, sou detentor de uma verdade definitiva sobre aquilo que registei. A minha relação com os outros começa na consciência da distância, geográfica ou espiritual, que deles me separa (ou aproxima, se for caso disso).
Tal problemática está inscrita no trabalho de Godard desde os filmes com que observou a França à beira de Maio 68. Veja-se ou reveja-se La Chinoise (1967). Num misto de ternura e crueldade, descobríamos as ilusões dos jovens maoístas, recitando o Livro Vermelho, como nessa imagem em que vemos Jean-Pierre Léaud com óculos cujas lentes reproduzem a bandeira da República Popular da China. Cegueira ideológica? Sim. Mas também um testemunho de uma dinâmica cultural em que o objecto fulcral de comunicação era ainda o livro.
LA CHINOISE (1967)
de Jean-Luc Godard

Steven Wilson, opus 5

Aplica-se a velha máxima existencial: Steven Wilson não anda aqui para enganar ninguém... Ao lançar o seu quinto álbum a solo, To the Bone, o ex-colaborador de Jethro Tull, King Crimson ou Roxy Music, orgulhoso das suas raízes no rock progressivo, organiza uma espécie de antologia privada, tão magoada quanto festiva, resistindo às ilusões das amizades virtuais e não abdicando das dores do romantismo. Na canção Pariah, cantada com a israelita Ninet Tayeb, ainda se lembra de citar o Sr. Zuckerberg, mas é apenas para entrar em modo confessional:

I'm tired of Facebook, tired of my failing health
I'm tired of everyone and that includes myself
Well being alone now it doesn't bother me
But not knowing if you are, well that's been hell you see

Afinal de contas, o homem está à beira dos 50 anos (nasceu a 3 de Novembro, em Londres) e, abençoado seja, não se sente obrigado a pedir desculpa por isso. Daí a verdade poética que perpassa por To the Bone, título de combate, como se deduz. Eis Pariah e o lyric video de Refuge, ambos dirigidos por Lasse Hoile, e ainda o teledisco de Permanating, realizado por Andrew Morgan, quase um hino pop.





Imagens do eclipse

Em menos de dois minutos, através de um video do New York Times, eis o eclipse do sol visto nos EUA — aventura no espaço, aventura no tempo.

Brian Aldiss (1925 - 2017)

Nome grande da literatura de ficção científica, o escritor inglês Brian Aldiss faleceu a 19 de Agosto, em Oxford, um dia depois de ter completado 92 anos.
A partir de The Brightfount Diaries (1955) e Space, Time and Nathaniel (1957), Aldiss foi consolidando uma visão muito própria que o afirmou no universo da ficção científica, mesmo quando as suas narrativas se distanciavam dos seus códigos mais comuns. Deixa uma obra de muitas dezenas de títulos, muitos de poesia e ensaio (por exemplo, The Shape of Further Things: Speculations on Change surgiu em 1970). Entre os seus livros mais célebres incluem-se Non-Stop (1958), editado entre nós como Nave-Mundo, na lendária colecção Argonauta, ou Greybeard (1964), lançado pela Europa-América como O Ano do Apocalipse. O seu conto Supertoys Last All Summer Long, sobre um mundo de máquinas inteligentes, começou a ser adaptado ao cinema por Stanley Kubrick, vindo este a ceder o projecto a Steven Spielberg que o concretizou como A. I. - Inteligência Artificial (2001) — a promoção do filme definia o seu pequeno herói deste modo: "O seu amor é real. Mas ele não é." [trailer]


Entre as muitas distinções recebidas por Aldiss incluem-se dois prémios Hugo e um Nebula (reconhecimentos de excepção no mundo da ficção científica), e ainda o grau de Grande Mestre atribuído pela Associação de Escritores de Ficção Científica da América.

>>> Obituário na BBC.
>>> Site oficial de Brian Aldiss.

segunda-feira, agosto 21, 2017

A guerra segundo Hollywood (1/8)

O sucesso de Dunkirk relançou muitas memórias cinematográficas da guerra e, mais especificamente, do segundo conflito mundial: esta breve antologia de memórias foi publicada no Diário de Notícias (20 Agosto), sob o título genérico 'Como Hollywood tem visto a Segunda Guerra Mundial'.

O impacto artístico e comercial de Dunkirk, o filme de Christopher Nolan (sobre a dramática retirada de mais de 300 mil soldados britânicos ameaçados pela aviação alemã, em Maio/Junho de 1940), veio relançar as memórias da Segunda Guerra Mundial segundo Hollywood. Claro que o “filme de guerra” tem capítulos fundamentais nas mais diversas cinematografias (a começar pela Itália do neo-realismo, França, Rússia, Japão, etc.). O certo é que, desde o romantismo de Casablanca (1942), de Michael Curtiz, à vertigem surreal de Sacanas sem Lei (2009), de Quentin Tarantino, passando pelo intimismo trágico de O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg, várias gerações de espectadores têm conhecido a vitória dos aliados sobre os nazis sobretudo através de produções provenientes dos estúdios americanos.
As variações são imensas, claro. Há mesmo o caso “teatral” de Lifeboat/Um Barco e Nove Destinos (1944), em que Alfred Hitchcock se concentra na odisseia de um grupo de sobreviventes à deriva numa pequena embarcação. E há até comédias delirantes, à maneira do burlesco do cinema mudo, como Onde Fica a Guerra? (1970), de e com o muito esquecido Jerry Lewis.
E convém não escamotear o paradoxo comercial de tudo isto. Assim, é verdade que as estatísticas registam grandes sucessos de títulos do género, a começar por O Resgate do Soldado Ryan. Mas importa relativizar: para nos ficarmos por outro exemplo da filmografia de Spielberg, lembremos que ele conseguiu quase o triplo de receitas com o seu Parque Jurássico (1993).
Uma coisa é certa: no imaginário cinéfilo, a Segunda Guerra Mundial é um tema revisitado por todas as gerações de cineastas, de alguma maneira criando novas narrativas. Nos últimos anos, Ponte de Espiões (2015) de Steven Spielberg, e O Herói de Hacksaw Ridge (2016), de Mel Gibson, conseguiram mesmo chegar à nomeação para o Oscar de melhor filme do ano (embora não triunfando nessa categoria). Podemos apostar que Dunkirk irá surgir, pelo menos, com a mesma evidência.

O eclipse em directo

É verdade: nos EUA também acontecem fenómenos que não decorrem, directa ou indirectamente, da administração Trump. Hoje, por exemplo, é dia de um eclipse solar que poderá ser observado ao longo de uma faixa transversal de todo o território do país.
Da comunidade científica aos meios de comunicação, vive-se uma entusiástica mobilização geral. Eis algumas pistas: na rádio pública, NPR, com participação musical do Kronos Quartet; nas páginas do New York Times; ou no site da NASA — aqui fica também o canal YouTube da NASA.

domingo, agosto 20, 2017

Jerry Lewis (1926 - 2017)

Actor, realizador, homem de televisão, filantropo, é um dos nomes centrais na história do moderno cinema americano e da cultura popular ao longo da segunda metade do século XX: Jerry Lewis faleceu de causas naturais, hoje, dia 20 de Agosto de 2017, na sua casa de Las Vegas — contava 91 anos.
Para muitos espectadores americanos, será "apenas" o homem que, com uma energia contagiante, organizou e apresentou ao longo de 46 anos (até 2014) uma maratona televisiva destinada a angariar fundos para ajudar as crianças que sofrem de distrofia muscular. Para quase todos os frequentadores de salas de cinema na Europa, sobretudo os mais jovens, não passará de uma referência distante, mais ou menos anedótica, sem espessura artística.
De facto, há muito que Jerry Lewis, desiludido com a evolução industrial e comercial de Hollywood ao longo da década de 70, se sentia como um outsider. E com razões para isso: deixou de encontrar condições para a produção regular dos seus filmes e, em boa verdade, quase ninguém o convidava, a não ser para papéis mais ou menos decorativos em que apenas se lhe pedia que interpretasse a sua própria imagem de marca. A grande excepção foi O Rei da Comédia (1982), de Martin Scorsese, um retrato implacável da degradação televisiva do conceito de entertainment em que contracenava com Robert De Niro.
O período de maior glória — e de trabalho continuado — de Jerry envolve, grosso modo, os dezassete filmes em que formou uma célebre dupla com Dean Martin, entre 1949 e 1956 (Pintores e Raparigas, de 1955, dirigido pelo seu mestre Frank Tashlin, poderá servir de símbolo modelar), e as suas realizações ao longo da década de 60, começando com Jerry no Grande Hotel (1960), continuando com títulos admiráveis como O Homem das Mulheres (1961), As Noites Loucas do Dr. Jerryll (1963), Jerry 8 3/4 (1964), Jerry e os Seis Tios (1965) ou Uma Poltrona para Três (1966), desembocando, já em 1970, em Onde Fica a Guerra?, genial variação burlesca sobre a Segunda Guerra Mundial e os valores militaristas. Em qualquer caso, registe-se que, ainda que com interrupções, The Jerry Lewis Show se manteve no pequeno ecrã entre 1963 e 1984.
A sua herança é das mais visceralmente ligadas à grande tradição burlesca, envolvendo Charlie Chaplin, Buster Keaton e o nem sempre muito lembrado Stan Laurel. Ao mesmo tempo, através de um sistema de mise en scène capaz de transfigurar os elementos cenográficos em base de novas e ousadas experimentações dos vectores espaço-temporais, Jerry surgiu na linha de frente das muitas convulsões conceptuais e narrativas que, durante os anos 60, abalaram o cinema da Europa e dos EUA. Em Outubro de 1967, numa entrevista aos Cahiers du Cinéma, a propósito do seu filme La Chinoise, Jean-Luc Godard considerava mesmo que, naquele momento, Jerry Lewis era o "mais corajoso" cineasta de Hollywood.
Da herança de Jerry fazem parte dois livros fundamentais: The Total Film-Maker (1971), sobre os seus métodos e técnicas de realização, e Dean & Me (A Love Story) (2005), evocação do período da sua carreira na companhia de Dean Martin, escrito com a colaboração de James Kaplan. Um dos seus derradeiros aparecimentos públicos foi em Cannes, no ano de 2013, quando o festival o homenageou, apresentado Max Rose, de Daniel Noah, o último filme em que assumiu uma personagem central (um pianista de jazz confrontado com memórias perturbantes, desencadeadas pela morte da mulher).
Com o desaparecimento de Jerry Lewis, fica por resolver o caso do seu filme The Day the Clown Cried (1972). Rodado na Suécia, nele interpreta a personagem de um palhaço, profissional do circo, que é preso pelos nazis e compelido, num campo de concentração, a acompanhar as crianças que vão ser mortas — rodeado de muitas polémicas, minado por diversos problemas de produção, o filme é conhecido através de algumas pouquíssimas imagens mas, quase meio século depois da rodagem, permanece inédito.

>>> Trailer de Pintores e Raparigas (1955), de Frank Tashlin, talvez o melhor filme da dupla Dean Martin/Jerry Lewis.


>>> Trailer de Jerry no Grande Hotel (1960), primeira realização de Jerry Lewis, uma paródia ao próprio sistema clássico de produção.


>>> Trailer de O Homem das Mulheres (1961), sublinhando as características monumentais do próprio cenário.


>>> Jerry Lewis recorda experiência de colaboração com Martin Scorsese e Robert De Niro em O Rei da Comédia (1982).


>>> Trailer de Max Rose (2013), de Daniel Noah, "filme-testamento".


>>> Obituário: New York Times + Vanity Fair + BBC.

Um "blockbuster" de rotina

Infelizmente, a continuada fabricação de "blockbusters" transformou-se, em muitos casos, na arte de destruir histórias com potencial — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Agosto), com o título 'Stephen King em "blockbuster" de rotina'.

Qual o mais inquietante fantasma de produção que tem marcado o mundo dos “blockbusters” mais ou menos fantásticos e fantasistas? Convenhamos que não será a limitação de recursos técnicos. Aliás, com resultados “bons” ou “maus”, os estúdios americanos continuam apostados em gastar rios de dinheiro neste tipo de produções, por vezes com patéticos resultados de bilheteira... Em qualquer caso, o maior fantasma é o dos constantes adiamentos — há histórias que vão sendo adaptadas, revistas e corrigidas ao longo de muitos anos, de tal modo que um projecto tematicamente interessante se vai transformando num imenso pesadelo de produção.
Assim foi A Torre Negra, adaptação da série homónima do escritor Stephen King cuja produção se arrastou desde 2007, envolvendo vários estúdios (começou com a Universal, surgindo, finalmente, com chancela da Columbia Pictures) e cineastas (J. J. Abrams e Ron Howard foram hipóteses). Claro que uma década de atribulações não “explica” as virtudes ou limitações de um filme. O certo é que, neste caso, a banalidade dos resultados mostra que, ao longo de todo este tempo, ninguém soube muito bem o que fazer com a saga do jovem Jake Chambers (Tom Taylor) e a sua capacidade de, através de sonhos e desenhos, vislumbrar as convulsões de um mundo alternativo em que se trava uma batalha decisiva entre o Bem e o Mal.
Idris Elba e Matthew McConaughey, respectivamente o último dos Pistoleiros e o inquietante “Homem de Negro”, bem se esforçam por dar consistência a personagens que, em boa verdade, não passam de esboços anedóticos. Depois, cumpre-se a regra tristemente dominante neste tipo de objectos: as muitas linhas de força da intriga são menosprezadas (ou não foram minimamente trabalhadas pelos quatro responsáveis pelo argumento...), surgindo os ultra-convencionais efeitos especiais como tentativa de “compensação” — quantas vezes já vimos uma porta com uma luz a brilhar a dar passagem para... o outro mundo?
Tendo em conta as competências envolvidas, é pena que tudo isto aconteça. O mais penalizado será o próprio realizador, o dinamarquês Nikolaj Arcel. Conhecíamo-lo através de Um Caso Real, curioso drama histórico com Alicia Vikander e Mads Mikkelsen, que obteve uma nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro de 2013. Fica por explicar porque é que alguém deduziu que a experiência de Arcel com as nuances históricas do século XVIII da Dinamarca o definia como uma boa escolha para tratar o mundo assombrado de Stephen King...

sábado, agosto 19, 2017

"Embraceable You" [canções]

Sarah Vaughan
Embraceable You
Sarah Vaughan with Clifford Brown (1954)


O cão de Todd Solondz

de Todd Solondz
[DN, 10-08-2017]

Símbolo veterano de um certo cinema independente americano (recorde-se o interessante Wellcome to the Dollhouse, de 1995), Todd Solondz tem evoluído através do reforço das componentes mais maniqueístas do seu universo: primeiro, um formalismo visual cada vez mais postiço e redundante; depois, a redução do seu cepticismo social a um banal menosprezo por todas as suas personagens.
Neste caso, a colagem de episódios ligados pela presença de um mesmo cão (Wiener-Dog é o título original) vai oscilando da caricatura do quotidiano até uma bizarra dimensão sobrenatural. Apesar de tudo, são os actores que sustentam os melhores momentos, em particular Danny DeVito, compondo um argumentista frustrado pela indiferença de Hollywood (acto falhado?...), e ainda, na história final, Ellen Burstyn e Zosia Mamet.

sexta-feira, agosto 18, 2017

A IMAGEM: Adam Zyglis, 2017

ADAM ZYGLIS
Steve Bannon
The Buffalo News, 06-02-2017

Racistas [citação]

Matthieu Bourel [ilustração NYT]
>>> Desde o começo da sua corrida presidencial, uma das mais sérias acusações contra o Sr. Trump foi a de que ele tolera os racistas. Muitos dos seus apoiantes, eu incluído, conseguimos convencer-nos que alguns dos seus comentários mais chocantes — como na controvérsia em torno do juiz Gonzalo Curiel [nomeado por Barack Obama] ou na sua hesitação inicial em repudiar o apoio de David Duke [negacionista do Holocausto, ex-líder do Ku Klux Klan] — não passavam de gaffes, à maneira de Biden, cometidas no calor da campanha.
Tornou-se agora claro que estávamos a iludir-nos. Ou o Sr. Trump sente uma genuína simpatia por pessoas como David Duke, ou é de tal maneira obtuso que se revela radicalmente incapaz de aprender com os seus próprios erros. De uma maneira ou de outra, continua a dar razão aos seus críticos mais severos.

The New York Times, 17-08-2017

Chet Baker — jazz & cinema

Ethan Hawke
Há quase um ano e meio, assinalava-se aqui a trajectória de um filme que suscitava muita curiosidade e expectativa: Born to Be Blue tinha Ethan Hawke a interpretar Chet Baker! Infelizmente, confirmaram-se as mais cépticas previsões. Ou seja: o filme nunca chegou às salas portuguesas. Agora, anda discretamente a circular pela televisão por cabo, para mais identificado por um título português, no mínimo, equívoco: O Homem dos Blues. Fica o essencial: importa descobrir tão frágil diamante — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Agosto), com o título 'Chet Baker contra Chet Baker'.

A canção Born to Be Blue, composta em 1946 pela dupla Mel Tormé/Robert Wells é um lendário standard do jazz, conhecido através de versões de Dexter Gordon, Ella Fitzgerald, Helen Merrill, Ray Charles ou Chet Baker. Born to Be Blue é também o título de um belo filme canadiano de 2015, sobre o trompetista Chet Baker, precisamente, agora disponível na televisão por cabo (TVCine).
Como qualquer outro filme, também este vale por si, independentemente das condições (ou, como agora se diz, das plataformas) da sua divulgação. Ainda assim, como não lamentar que tão delicado objecto de cinema surja no pequeno ecrã sem ter passado pelas salas escuras? A sua odisseia comercial surge também assombrada pelo infeliz título português, O Homem dos Blues. Mesmo tendo em conta as muitas contaminações entre jazz e blues (recorde-se o valor pedagógico da série televisiva The Blues, produzida por Martin Scorsese em 2003), a definição de Chet Baker como “homem de blues” carece de pertinência histórica e estética.
Será preciso acrescentar que o “blue” de Born to Be Blue não é uma classificação musical, antes remete para um misto de desencanto e melancolia? De facto, a existência de Chet Baker (1929-1988) foi uma tragédia suspensa entre o confronto com os grandes intérpretes negros do seu tempo (a começar por Miles Davis) e uma violenta dependência da heroína. Robert Budreau, argumentista e realizador de Born to Be Blue, encena-o nesse ziguezague entre uma cruel pulsão auto-destrutiva e a nunca vencida utopia da música.
Como intérprete de Chet Baker, Ethan Hawke encontra, aqui, um dos maiores desafios da sua carreira. Desde logo, pela aposta em “reproduzir” o olhar triste, a fragilidade da voz e a pose cansada da personagem. Mas sobretudo porque seria demasiado fácil apresentar Chet Baker através de algumas explicações “psicológicas” mais ou menos redentoras.
Daí o jogo de espelhos que Budreau propõe, arriscando para além das obrigações “factuais” de uma biografia. Born to Be Blue oscila entre a vida vivida e a vida imaginada (o filme dentro do filme em que Chet Baker teria interpretado o seu próprio papel), numa ambivalência em que a personagem se define contra a sua própria identidade. Nesse sentido, este é um filme eminentemente jazzístico, não pelos factos narrados, mas pela sua própria construção: trata-se de saber que variações dramáticas são possíveis a partir do tema “Chet Baker” — mesmo quando a melodia inicial parece perder-se pelo caminho, há uma emoção que persiste.

quinta-feira, agosto 17, 2017

Jacques Demy, aqui e agora (2/2)

A reposição de dois filmes de Jacques Demy é o grande evento cinéfilo deste Verão do nosso descontentamento — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Agosto), com o título 'Quando a música é uma forma de erotismo'.

[ 1 ]

Em boa verdade, já havia música em Lola, incluindo a célebre canção-tema interpretada por Anouk Aimée. O seu compositor, Michel Legrand, acabaria por ser uma personalidade decisiva na consolidação do cinema de Demy, compondo, justamente, as bandas sonoras de Os Chapéus de Chuva de Cherburgo e As Donzelas de Rochefort.
O que distingue o primeiro filme das matrizes tradicionais do musical é a sua estrutura recitativa. Não encontramos as habituais “interrupções” da acção para que, através do canto, eventualmente da dança, os actores interpretem um “número” autónomo. Um pouco à maneira da ópera, todos os diálogos são cantados, transformando a acção num fascinante “coral” que está longe de ser historicamente abstracto: o romance do par central, interpretado por Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo, está mesmo dramaticamente marcado pelo facto de ele ser mobilizado para combater na guerra da Argélia.
MICHEL LEGRAND
No Festival de Cannes de 1964, Os Chapéus de Chuva de Cherburgo arrebatou a Palma de Ouro (com o alemão Fritz Lang a presidir ao júri) e, de um momento para o outro, deu a Catherine Deneuve o estatuto de estrela. Demy voltou a convidá-la para o filme seguinte, precisamente As Donzelas de Rochefort, alargando o convite a sua irmã, Françoise Dorléac. Com apenas um ano e meio de diferença de idade (Françoise nasceu em 1942, Catherine em 1943), Demy sugeriu-lhes que representassem um par de gémeas, o que, aliás, se reflectiria numa das mais célebres canções (“Nous sommes deux soeurs jumelles...”) compostas por Legrand.
Os amores e desamores das personagens centrais são de novo encenados através de uma narrativa exuberante em que a música (incluindo a dança) desempenha um papel nuclear. Explicitando as suas raízes criativas, Demy convidou dois americanos a integrar o elenco: o mestre Gene Kelly e George Chakiris (que, em 1961, contracenara com Natalie Wood em West Side Story). Com grande parte das sequências rodadas nas ruas e praças da cidade de Rochefort, o filme persiste como um dos mais perfeitos objectos de toda a história do musical. A sua contagiante felicidade teria como contraponto um acontecimento trágico: no Verão de 1967, cerca de três meses depois da estreia, Françoise Dorléac faleceu num acidente de automóvel.

LCD Soundsystem, tonite

A pose mais ou menos retro (microfone incluído) fica bem a James Murphy. É assim que ele aparece no teledisco de tonite (nem a minúscula nem a grafia são erros), com direcção de Joel Kefali — é mais um aperitivo para o novo álbum dos LCD Soundsystem, American Dream, agendado para 1 de Setembro.