domingo, fevereiro 01, 2026

Scarlett Johansson, realizadora
— uma verdadeira revelação

Scarlett Johansson durante a rodagem de A Grande Eleanor
[The Hollywood Reporter]

O trabalho da actriz americana Scarlett Johansson está longe de se esgotar na Viúva Negra que assume nos filmes da Marvel. A Grande Eleanor, a sua estreia na realização, é um belo exercício cinematográfico, entre humor e tragédia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 janeiro).

A vida artística de June Squibb dava um filme — literalmente, e também simbolicamente. Até porque começa muito antes de ela chegar ao cinema. Foi acumulando uma longa experiência de palco, primeiro num grupo teatral de Cleveland, Ohio, mais tarde em diversas produções da Broadway. O seu primeiro filme, Alice, de Woody Allen, surgiu em 1990 — o ano do seu 61º aniversário. Assumindo sempre personagens secundárias, vimo-la em títulos como A Idade da Inocência (1993), de Martin Scorsese, ou Nebraska (2013), de Alexander Payne, este valendo-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actriz secundária. Em A Grande Eleanor, revelado o ano passado em Cannes, ela é a figura central — aos 96 anos de idade será, por certo, para a maioria dos espectadores, uma maravilhosa descoberta.
 

Se acreditarmos que o cinema se faz de muitos cruzamentos profissionais que, por vezes, em momentos de eleição, são também fenómenos de delicada cumplicidade afectiva, seremos levados a sublinhar o paradoxo (mas não a contradição) que faz mover A Grande Eleanor. Assim, June Squibb é dirigida por uma realizadora estreante, que é também actriz: Scarlett Johansson (41 anos). E o menos que se pode dizer é que as singularidades de um novo olhar encontram o eco perfeito na personagem de Eleanor, velha senhora que vai descobrir como a história de cada um se faz, conscientemente ou não, das heranças de muitas histórias de outras pessoas.
Se acreditarmos também que a consistência de um filme, a par do seu poder de mobilizar os nossos pensamentos e emoções, começa nos elementos humanos que o respectivo argumento coloca em movimento, então teremos que citar outro nome: o da argumentista de A Grande Eleanor, Tory Kamen (33 anos), também uma estreia cinematográfica. Enfim, tudo se conjuga para destacarmos a singeleza desta revelação (ou revelações): estamos perante um filme sobre a passagem do tempo.
Que tempo é esse? No centro dos acontecimentos, estão Eleanor e a sua melhor amiga, Bessie (Rita Zohar), para sempre assombrada pelas memórias do Holocausto. Vivem juntas na Florida: Eleanor com o seu humor desconcertante; Bessie, sobrevivente dos campos de concentração, numa procura de paz interior que Eleanor tenta favorecer e, de alguma maneira, proteger. Quando Bessie morre, Eleanor muda-se para Nova Iorque, acabando por frequentar, mais por curiosidade do que por motivação, um grupo de apoio a pessoas idosas. Na verdade, os respectivos elementos sobreviveram às perseguições nazis — para Eleanor, tudo se passa como se estivesse a reviver os relatos trágicos de Bessie...
Passando ao lado do “segredo” que Eleanor transporta como uma existência alternativa, digamos que o seu dia a dia se vai transformar num exercício de resgate através da herança (factual e emocional) que recebeu de Bessie. E tanto mais quanto tudo acontece através do diálogo com alguém, Nina (Erin Kellyman), fascinada pelos meandros da verdade, estudante de jornalismo que descobre em Eleanor uma inesperada testemunha do que importa não esquecer nem esquematizar.

Uma lógica redentora

Scarlett Johansson encena tudo isso com o tempero de um humor sofisticado que nunca anula, antes sublinha, os horrores que as memórias de Bessie fixaram. Mais do que isso: subitamente, a herança histórica do extermínio dos judeus pelos nazis surge, não como um capítulo congelado na história colectiva, antes uma nuvem de memórias que persiste na consciência social, acabando por marcar todos os destinos individuais.
A Grande Eleanor apresenta-se com a aparência de uma clássica “comédia de costumes” para, a pouco e pouco, cena a cena, nos confrontar com a dor de uma herança incontornável. A protagonista tenta integrá-la numa lógica redentora, ao mesmo tempo descobrindo a dificuldade de partilhar as suas experiências com os outros. Estamos, enfim, perante uma subtil parábola filosófica: mesmo depois dos 90 anos, a nossa identidade será sempre um projecto em construção.

Charlie Parker, Bird in Kansas City

A história continua através das memórias que se vão conquistando ou recuperando... Será a lógica quase banal dos destinos humanos, mas quando se trata do legado de Charlie Parker (1920-1955), convenhamos que o acontecimento supera qualquer forma de banalidade. Agora lançado pela etiqueta Verve, Bird In Kansas City contém 45 preciosos minutos do futuro do jazz que Parker estava a inventar e, por assim dizer, já a inventariar. São performances, algumas em ambiente mais ou menos privado de jam session (ouvem-se as vozes dos amigos...), registadas entre 1941 e 1951 — eis Honeysuckle Rose.


>>> Crítica na DownBeat.
>>> Documentário sobre Charlie Parker [BBC4].

sábado, janeiro 31, 2026

Uma Série de Mentiras
ou a ficção faz parte da verdade

Rebekah Staton: Alice no país da televisão

A produção britânica Uma Série de Mentiras pertence à excelência artística que (também) existe em televisão — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 janeiro).

Eis um belo título: The Following Events Are Based on a Pack of Lies. Qualquer coisa como: “Os seguintes eventos são baseados numa série de mentiras”. Assim se chama uma magnífica série britânica escrita por Penelope Skinner e Ginny Skinner, com realização de Robbie McKillop e Nicole Charles. São cinco episódios de cerca de 55 minutos, estreados em 2023 na BBC — passou recentemente na RTP2, com o título Uma Série de Mentiras, estando agora disponível na RTP Play.


A estranheza de uma série (ou um filme) não basta para avaliarmos os seus resultados. Seja como for, há casos em que essa estranheza pode ser um sintoma da capacidade de desafiar os nossos hábitos de consumo. Assim acontece com Uma Série de Mentiras, algures entre o policial e o burlesco, mas difícil de definir em função de parâmetros e valores dos “géneros” tradicionais. Digamos que se trata do retrato de um mentiroso, o Dr. Robert Chance que, de facto, se chama Robbie Graham (Alistair Petrie), perito em enganar sucessivas namoradas e esposas, e da esforçada investigação da sua ex-mulher, Alice Newman (Rebekah Staton), apostada em reunir provas dos seus crimes, além do mais empenhada em salvar a escritora Cheryl Harker (Marianne Jean-Baptiste), à beira de se tornar uma nova vítima das trapalhadas de Robbie...
Um elemento particularmente sugestivo, que pode ajudar a caracterizar o misto de gravidade e irrisão que perpassa em todas as cenas de Uma Série de Mentiras, é a notável música original de Arthur Sharpe, aliás distinguida com o prémio Ivor Novello de melhor banda sonora para televisão. A sua espantosa organização, combinando contrastes melódicos e rupturas rítmicas, favorece uma ambiência quase surreal em que as evidências do quotidiano, mesmo as mais cruéis, tendem a adquirir a festiva exuberância de quadros de ópera — vale a pena recordar que Sharpe já ganhara um prémio Ivor Novello com a sua música para outra série igualmente invulgar, Landscapers (2021), que aliás também lhe valeu um BAFTA.
Aquilo que começa como uma paródia feminina, subtilmente feminista, sem demagogia política nem moralista, vai-se transfigurando numa aventura num país de maravilhas habitado por outros tantos pesadelos. Se quisermos ser metafóricos (e porque não?...), lembraremos que a protagonista se chama Alice. Sendo ela uma criadora de moda, a capa vermelha que concebeu para Cheryl acaba por emprestar-lhe também o porte de um Capuchinho Vermelho que não desiste de questionar as artimanhas de Robbie: “Porque dizes tantas mentiras?...”
Como todas as grandes comédias que não desistem de explorar a herança plural de Molière (Tartufo), Shakespeare (Muito Barulho por Nada), ou Chaplin (Monsieur Verdoux), Uma Série de Mentiras possui a energia contagiante de uma especulação sobre a formulação da verdade. Ou melhor, sobre o modo como a verdade não existe como dado imediato (só mesmo a mais pueril informação televisiva acredita nisso), circulando por todos os gestos humanos como um fantasma que gosta de atrair os seus contrários.
Num tempo em que se discutem as “fake news” como uma categoria absoluta (evitando pensar como são feitas, e como circulam, as “news”), Uma Série de Mentiras ajuda-nos a perceber a dinâmica — artística, social e simbólica — da ficção. A ficção integra o mundo em que vivemos, pertencendo à sua verdade existencial. Quando a ideologia “telenovelesca” define a ficção como algo que serve para passar um bocado “sem pensar noutras coisas”, isso significa apenas que nos querem afastar das alegrias do pensamento. E que há coisas sobre as quais vale a pena não desistir de pensar, incluindo, claro, a formatação dominante das ficções televisivas.

A IMAGEM: Joseph Prezioso, 2026

JOSEPH PREZIOSO / Time
Manifestação contra o ICE [U.S. Immigration and Customs Enforcement]
Boston, 20 janeiro 2026

Taxi Driver: 50 anos
* SOUND + VISION Magazine (14 jan.)

Taxi Driver, filme-culto de Martin Scorsese, está a fazer 50 anos. No nosso próximo Magazine, na FNAC, propomo-nos recordar Robert De Niro, a música de Bernard Herrmann e toda uma época gloriosa do cinema americano.

>>> FNAC Chiado, dia 14 fevereiro (17h00).

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Os Beatles no telhado da Apple

No dia 30 de janeiro de 1969 (faz hoje 57 anos), os Beatles subiram ao telhado da sua companhia, Apple Corps (no nº 3 da Savile Row, no centro de Londres), para darem um concerto... Durou 42 minutos (a inexcedível simpatia dos polícias não deu para mais).
Do seu registo, três canções — I've Got a Feeling, One After 909 e Dig a Pony — viriam a integrar o alinhamento do álbum Let it Be (lançado a 8 de maio de 1970). O "rooftop concert" de John Paul, George e Ringo parecia corresponder a uma celebração de um futuro que acabaria por não se cumprir — isto porque Let it Be, depois escutado infinitas vezes como um ritual sem sacerdotes, seria, de facto, um adeus.
A música sem redes sociais, plataformas digitais e tiktoks era apenas isso: música. E uma avalanche de emoções que não sabíamos dizer. Porventura continuamos sem saber.

>>> Get Back (take 1).


>>> The Beatles' rooftop concert [Wikipedia].

João Canijo (1957 - 2026)

[ Wikipedia ]

Autor de títulos emblemáticos como Sangue do Meu Sangue ou o díptico Viver Mal/Mal Viver, o realizador João Canijo faleceu no dia 29 de janeiro, perto de Vila Viçosa, distrito de Évora, onde repartia residência com Lisboa — contava 68 anos.
Canijo deixa uma obra plural que nunca foi estranha à sedução do teatro e também ao gosto documental, conciliando uma metódica exigência de realismo com um especial empenho no trabalho de composição dos seus intérpretes e, em particular, das actrizes — faz sentido dizer, aliás, que o feminino ocupa um lugar central nas dinâmicas narrativas e no apelo simbólico do seu trabalho. Em 2023, com o filme Mal Viver, obtivera a distinção mais importante de toda a sua carreira: um Urso de Prata (Prémio do Júri) no Festival de Berlim.

>>> As linhas que seguem fazem parte de um texto publicado no Diário de Notícias (30 janeiro).

Mantendo uma relação constante com os valores da representação, bem expresso no cuidado investimento no trabalho dos seus intérpretes, Canijo foi também, por isso mesmo, um autor sensível às relações do cinema com elementos de natureza teatral. Tinha, aliás, concluído um filme intitulado Encenação, que se anuncia, precisamente, como o retrato de um encenador de teatro, interpretado por Miguel Guilherme — segundo uma nota de imprensa divulgada na altura da rodagem, em agosto de 2025, pela Midas Filmes, produtora do filme, a personagem central “prepara uma nova peça, confrontado com a idade e o relacionamento com as suas atrizes”.
Sangue do Meu Sangue (2011), um drama familiar dominado pelas personagens femininas — também um fresco social sobre os modos de vida numa zona suburbana da grande Lisboa —, poderá ser tomado como símbolo exemplar das lógicas criativas da obra de Canijo. Desde logo porque nele encontramos, nos papéis principais, algumas das actrizes que pontuam toda a sua filmografia: Rita Blanco, Anabela Moreira e Cleia Almeida; depois, porque se trata de um projecto que, em paralelo, gerou Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor, uma “variação” documental focada na relação de trabalho entre os intérpretes de Sangue do Meu Sangue e o realizador.
(...)

>>> Trailer de Sangue do Meu Sangue.
 

>>> Entrevista com João Canijo sobre Viver Mal/Mal Viver [Coffeepaste].
 

>>> Página de João Canijo na plataforma Filmin.

quinta-feira, janeiro 29, 2026

A IMAGEM: Cass Bird, 2024

CASS BIRD
Linda Evangelista
2024

Lucinda Williams, Opus 16

Para transformar a canção World's Gone Wrong em teledisco, Lucinda Williams convocou imagens de Donald Trump e Vladimir Putin — são as personagens certas para explicitar a mensagem: de facto, as coisas do mundo estão a correr mal. World's Gone Wrong é também o título do seu 16º álbum de estúdio, uma coleção de composições eminentemente políticas, não num sentido banalmente panfletário, antes fixando-se nas atribulações e sofrimentos de figuras anónimas do povo que, afinal, espelham o mal-estar de toda uma nação — sempre, claro, com essa agilidade criativa, algures entre country e rock, que a mantém, aos 73 anos, como um ícone da sensibilidade que a tradição consagra através da palavra "Americana".
 

terça-feira, janeiro 27, 2026

A morte de Alex Pretti
[video do New York Times]

Tempos terríveis estes em que o poder das imagens tende a baralhar todos os dados de todas as formas de percepção, por vezes diluindo o real num perverso sonambulismo informativo. Eis um exemplo bem diferente, do New York Times, analisando as terríveis circunstâncias em que Alex Pretti foi morto, em Minneapolis, por elementos da United States Border Patrol — bem diferente da automática acumulação de imagens, eis um jornalismo que se faz, realmente, a partir da metódica análise das imagens e dos elementos informativos que nelas se podem colher.