domingo, janeiro 11, 2026

Top(s) 10 / 2025

LES AMANDIERS, Valeria Bruni Tedeschi

Tops? Porque não? Afinal, o calendário avisa-nos da viragem que se consumou e, nem que seja por ironia, vale a pena acreditar que um novo capítulo ocupa o lugar de outro que os números, teimosamente, encerraram.
Não são os “bons” contra os “maus”, não são os "melhores" contra os "piores". Apenas uma escolha de uma dezena de títulos, duas dezenas de títulos, na certeza que, em cada lista, há pelo menos mais dez, também brilhantes, que ficam de fora — como ilustração esclarecedora, aqui ficam (apenas) duas imagens de obras não citadas nestes balanços de filmes e discos.
Em qualquer caso, em notas anteriores estes 10 filmes e 10 discos de 2025 foram evocados de forma breve, na certeza de que aquilo que nos deram — a ver e a escutar — não fica esquecido.

FILMES

01_NOUVELLE VAGUE, Jean-Luc Godard

02_VERDADES DIFÍCEIS, Mike Leigh

03_FOI SÓ UM ACIDENTE, Jafar Panahi

04_BATALHA ATRÁS DE BATALHA, Paul Thomas Anderson

05_HIGHEST 2 LOWEST, Spike Lee

06_JOVENS MÃES, Jean-Pierre e Luc Dardenne

07_JUVENTUDE, Wang Bing

08_A HOUSE OF DYNAMITE, Kathryn Bigelow

09_DEPOIS DA CAÇADA, Luca Gudagnino

10_SORRY, BABY, Eva Victor
 
* * * * *
SHARON VAN ETTEN AND THE ATTACHMENT THEORY, Sharon van Etten

DISCOS

01_NEW VIENNA, Keith Jarrett

02_JOHN FIELD - COMPLETE NOCTURNES, Alice Sara Ott

03_TRACKS II: THE LOST ALBUMS, Bruce Springsteen

04_ONE BATTLE AFTER ANOTHER, Jonny Greenwood

05_I QUIT, Haim

06_HONEY FROM A WINTER STONE, Ambrose Akinmusire

07_FOREVER AND A FEELING, Lucy Dacus

08_SELF PORTRAIT, Ryan Adams

09_THE LIFE OF A SHOWGIRL, Taylor Swift

10_HORSES, Patti Smith

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>>> 10 filmes de 2025, também disponível nesta conta de Instagram.
>>> 10 discos de 2025, também disponível nesta conta de Instagram.

10 filmes de 2025 [10]

* NOUVELLE VAGUE, Richard Linklater
 
Em tempos de metódica decomposição dos valores cinéfilos (as plataformas pedem, ou fabricam, consumidores sem memória), havia qualquer coisa de inusitado, porventura insensato, no projecto de Richard Linklater: evocar (?) a rodagem da primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard — À Bout de Souffle/O Acossado (1960) — e revisitar as raízes da Nova Vaga francesa. Os resultados revelaram-se tanto mais surpreendentes quanto não estamos perante um qualquer revisionismo nostálgico. Há em Nouvelle Vague uma genuína paixão pelo cinema como trabalho e, nessa medida, pelo filme como objecto que nasce, ou pode nascer, de um desejo de surpreender o próprio real, fazendo-o parecer-se com as imagens em movimento, desejo cruzado com o culto da memória, quer dizer, com a obstinação criativa e moral que recusa esquecer-se da história do cinema, ou do cinema como história, num gesto que implica fidelidade emocional, a par do gosto pelo risco de superar as lições aprendidas com os mestres clássicos. Em momento de reorganização do nosso tempo de espectadores, se é necessário haver um título a que, pela sua ambiguidade temporal (o passado como presente do acto de filmar), reconhecemos o peso, a dignidade e também a alegria de merecer a classificação de "filme do ano", então será este.


[ Sorry, Baby ] [ Depois da Caçada ] [ A House of Dynamite ] [ Juventude ] [ Jovens Mães ] [ Highest 2 Lowest ]
[ Batalha Atrás de Batalha ] [ Foi Só um Acidente ] [ Verdades Difíceis ]

A IMAGEM: André Kertész, 1930

ANDRÉ KERTÉSZ
Carrefour, Blois
1930

Slavoj Zizek
e os pássaros que não sobreviveram

Michael Caine, O Terceiro Passo (2006) — citado por Zizek

Para falar de ciência, política e progresso, o filósofo esloveno Slavoj Zizek gosta de citar cenas de filmes. Assim volta a acontecer num novo livro de ensaios com um título que se quer dialético: Contra o Progresso — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 dezembro).

Provavelmente, Slavoj Zizek está tão confuso como cada um de nós, cidadãos comuns, vogando nestes dias turbulentos. Talvez que a sua auto-designação de “comunista conservador” seja apenas uma piada de “stand-up” para confundir ainda mais as nossas frágeis certezas. Ou então uma brincadeira secreta para reforçar o gosto narcisista que o filósofo esloveno cultiva com uma gargalhada silenciosa. Enfim, entre portas e travessas, como diria o povo, tudo isso ecoa numa nova antologia de ensaios, Contra o Progresso (ed. Objetiva/Penguin, tradução de Gonçalo Neves), livro tão transparente quanto intrigante, numa palavra, fascinante.
Zizek é um bom cinéfilo. Gosta de percorrer os filmes como objectos que, ao contrário das ilusões fabricadas pela estupidez televisiva, não reproduzem o mundo, antes nos alertam para a dificuldade de o compreender — recorde-se, a propósito, a coleção de análises e especulações que propõe no filme O Guia de Cinema do Depravado (2006), realizado por Sophie Fiennes. Não admira, por isso, que o primeiro ensaio (“O progresso e as suas vicissitudes”) abra com uma citação de um filme — nada mais nada menos que The Prestige/O Terceiro Passo (2006), de Christopher Nolan, recordando o truque de magia que Michael Caine ensina a Hugh Jackman.
Que acontece, então? Num espectáculo de ilusionismo, vemos “um passarinho que desaparece numa gaiola”. Não desaparece apenas: o mágico “achata” a gaiola sobre a mesa, suscitando o choro de um gaiato, “perturbado por o pássaro ter sido morto”. Mas o número não terminou, já que, “delicadamente”, o mágico faz aparecer “um pássaro vivo na mão”. O certo é que “o rapaz não fica convencido, insistindo que deve ser outro pássaro”. A primeira conclusão é cruel: “Terminado o espectáculo, vemos o mágico sozinho a deitar um pássaro esmagado no lixo, onde se encontram outras aves mortas.” A segunda conclusão, diz Zizek, envolve “a premissa básica de uma noção dialética de progresso.” Como? “Quando surge um novo grau superior, tem de haver um pássaro esmagado algures.”
Correndo o risco de um resumo algo precipitado, convém dizer que, algumas páginas mais à frente, o autor confronta-nos com a tragédia a que vamos assistindo cada vez com menos ironia. A saber: “O pássaro morto esmagado é a própria política.” De acordo com a sua relação com o mundo das aves, o leitor dirá se, ao enunciar tão drástico axioma, Zizek está a ser perversamente “comunista” ou delirantemente “conservador”...
Resumindo ainda mais, poderemos acrescentar que estar “contra o progresso” não é uma palavra de ordem unívoca ou abstracta. Trata-se de contrariar “o pior que pode acontecer”. Que é como quem diz: evitar que “opositores da autêntica melhoria definam o que se considera progresso.” Zizek refere, a propósito, o pensamento do filósofo japonês Kohei Saito e a “sua contribuição inovadora para o ecomarxismo”. Através deste programa: “A única maneira de, actualmente, se alcançar o verdadeiro progresso é problematizar a própria noção de progresso que domina não apenas a nossa ideologia, mas a nossa vida real.”

Ciência & política


Pelo caminho, Zizek vai expondo os equívocos de alguns clichés políticos. Em rigor, não para propor o maniqueísmo dos seus contrários (o que apenas serviria para gerar mais clichés), antes alertando-nos para o que poderemos, justamente, chamar dialética. As alterações climatéricas, por exemplo: “Mesmo que culpemos a civilização científico-tecnológica pelo aquecimento global, precisamos da mesma ciência não só para definir a extensão da ameaça, como, antes do mais, para percebê-la.”
Citando outro filme que, aliás, lhe suscita diversas resistências — Guerra Civil (2024), de Alex Garland —, Zizek é levado a considerar “a perspectiva de uma guerra civil que assombra a vida pública norte-americana na última década.” Não apenas pelos sinais mais óbvios da cena política, antes em nome do angustiado reconhecimento da decomposição dos laços comunitários. Em causa está, afinal, a “crescente desintegração de uma substância social partilhada.”
Que substância é essa? A que nos devolve sempre à complexidade partilhada da “vida material” (para aplicarmos uma expressão cara a Marguerite Duras). Aliás, ao convocar a frondosa herança de Freud e Lacan, Zizek recorda-nos que as lições dos Mestres, mesmo quando erram, enriquecem os discípulos. Assim saibamos cuidar dos nossos pássaros.

10 discos de 2025 [10]

* NEW VIENNA, Keith Jarrett

Porquê New Vienna? Porque já existia um Vienna Concert, gravado em 1991 e editado, também pela ECM, em 1992. Foi gravado em 2016, na Musikverein, e ilustra o génio de um pianista que, partindo das liberdades do improviso jazzístico (lembremos o emblemático Facing You, 1971), foi protagonizando uma trajectória em que a atração do chamado domínio clássico aconteceu, não exactamente como um salto qualitativo, antes como a abertura de uma fronteira em que as formas de comunicação musical vão diluindo as matrizes tradicionais de indexação cultural (ouça-se Carl Philipp Emanuel Bach’s Württemberg Sonatas, gravação de 1994 editada em 2023). O aparecimento de New Vienna corresponde também a uma forma de resistência, já que Jarrett não desistiu de organizar e dar a ouvir os seus registos, apesar dos efeitos dos dois AVC que sofreu em 2018, obrigando-o a caminhar com uma bengala e impossibilitando o uso da mão esquerda. Depois do Bordeaux Concert (2022), também da digressão de 2016, o lançamento de New Vienna serviu para comemorar o 80º aniversário de Jarrett (nascido a 8 de maio de 1945 em Allentown, Pensilvânia), levando-nos a redescobrir a amplitude dos seus dotes e a magia da relação solitária com o piano — se é necessário haver um álbum a que damos a designação de "disco do ano", será este.
 

[ Patti Smith ] [ Taylor Swift ] [ Ryan Adams ] [ Lucy Dacus ] [ Ambrose Akinmusire ] [ Haim ]
[ Jonny Greenwood ] [ Bruce Springsteen ] [ Alice Sara Ott ]

sábado, janeiro 10, 2026

Desire, 50 anos

Passaram-se 50 anos sobre o lançamento de Desire, 17º álbum de estúdio de Bob Dylan. Trata-se, no fundo, de uma derivação da lendária digressão Rolling Thunder Revue, cujas memórias filmadas deram origem a um magnífico documentário de Martin Scorsese, lançado pela Netflix em 2019 — é daí que provém esta performance de One More Cup of Coffee (Valley Below).

David Bowie: 10 anos depois
* SOUND + VISION Magazine [ 10 jan. ]

David Bowie faleceu no dia 10 de janeiro de 2016. Passada uma década, através de memórias feitas de imagens e sons, recordamos o criador de “Heroes” e “Blackstar”.

>>> FNAC Chiado: 10 janeiro (17h00).

sexta-feira, janeiro 09, 2026

10 filmes de 2025 [9]

* VERDADES DIFÍCEIS, Mike Leigh
 
Admirável Marianne Jean-Baptiste! A sua personagem de Pansy está contra o mundo e, em boa verdade, o mundo não lhe responde de forma pacífica. Há a sua irmã Chantelle (Michele Austin, também brilhante) que procura que as linhas de contacto não se decomponham, mas Pansy resiste, resiste sempre à ideia de que há uma "naturalidade" imanente que nos pode reconciliar com o mundo — e, de alguma maneira, pacificá-lo. Dito de outro modo: Mike Leigh continua a ser um baluarte da tradição realista britânica, assinando filmes como este que, em última instância, se definem como tragédias ("shakespeareanas", sem dúvida) centradas na nossa incapacidade de devolver ao mundo o enquadramento de uma lei que aceite o confronto, repelindo o conflito. É um filme educativo, no sentido mais simples, também mais radical, de uma lição de olhar para o carácter irredutível de cada indivíduo e cada experiência individual — está aqui, abençoado seja, o anti-naturalismo televisivo.


[ Sorry, Baby ] [ Depois da Caçada ] [ A House of Dynamite ] [ Juventude ] [ Jovens Mães ] [ Highest 2 Lowest ]
[ Batalha Atrás de Batalha ] [ Foi Só um Acidente ]

Alice Sara Ott / Beethoven


Para conhecermos e reconhecermos a abrangência, a versatilidade e as nuances do talento de Alice Ara Ott, eis a sua interpretação do Concerto para Piano, Nº 3, de Ludwig van Beethoven, com a Orquestra Filarmónica da Radio France, sob a direção do maestro Mikko Franck. Sem esquecer a impecável realização televisiva, a cargo de Colin Laurent — aconteceu a 27 de janeiro de 2018, no Auditório da Radio France.

10 discos de 2025 [9]

* JOHN FIELD - COMPLETE NOCTURNES, Alice Sara Ott

Eis um laço artístico e simbólico que importava redescobrir e, mais do que isso, dar a ouvir: na sua depurada beleza, os 18 Nocturnos compostos pelo irlandês John Field (1782-1837) foram uma inspiração e, por assim dizer, uma premonição essencial para os 21 Nocturnos de Frédéric Chopin (1810-1849). Revisitadas por Alice Sara Ott, por certo uma das mais sofsticadas pianistas da actualidade (entenda-se: de uma sofisticação de absoluta sobriedade), as 18 peças conseguem a proeza de nos colocar num tempo de fascinantes ambivalência artísticas, até porque a Deutsche Grammophon encenou algumas delas em telediscos de inequívoco gosto pop — eis o Nº 14.
 

[ Patti Smith ] [ Taylor Swift ] [ Ryan Adams ] [ Lucy Dacus ] [ Ambrose Akinmusire ] [ Haim ]
[ Jonny Greenwood ] [ Bruce Springsteen ]