quarta-feira, maio 24, 2017

CANNES: um filme maior

Chama-se L'Atelier e centra-se, precisamente, num atelier de leitura, no Verão, na zona de La Ciotat. Nas mãos de um cineasta banal, seria, talvez, uma crónica em que poderíamos reconhecer modelos correntes de caracterização "social" e "política". Esses modelos estão lá, sem dúvida — até porque o núcleo da intriga é a relação da professora de espírito liberal, parisiense, com um aluno que frequenta personagens ligadas à extrema-direita... O certo é que Laurent Cantet (Palma de Ouro em 2008, com A Turma) filma tudo isso com a precisão formal e a abertura de espírito de quem entende o cinema como um admirável instrumento de observação e interrogação do mundo à nossa volta. Fora dos prémios princípios (está na secção "Un Certain Regard"), L'Atelier é, muito simplesmente, um dos filmes maiores de Cannes/2017.

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segunda-feira, maio 22, 2017

CANNES: 70 festivais, 24 imagens

FOTO: JL
Grace Kelly, com o seu príncipe, em Cannes — a fotografia pode ser descrita como uma materialização exemplar do conceito de glamour, através e para além do tempo. Integra uma colecção de "24 imagens" escolhidas por Gilles Jacob, Pierre Lescure e Thierry Frémaux para evocar momentos emblemáticos de 70 anos de história do certame — estão expostas numa zona de passagem, algo escondida, no 4º andar do palácio, mas não deixam de testemunhar o fulgor de uma história tecida de momentos concretos e abstracções grandiosas.

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CANNES: Haneke, o europeu

Repare-se no extraordinário cartaz de Happy End, de Michael Haneke. Que nos dizem o cronómetro, em cima, e os símbolos circulares, em baixo? Que se trata de uma imagem de um telemóvel... Sim, mas importa sermos mais precisos: dizem-nos também que há um olhar por detrás desta imagem — e que esse olhar remete para um corpo e uma história. Esquematicamente, digamos que se trata de uma rede de personagens de uma burguesia de imagem cínica, clean e europeia, que vive cada vez mais assombrada pela degradação interior dos seus padrões de vida. Mais exactamente: pelo insidioso triunfo de uma cultura da morte, tecida de solidão e indiferença, capaz de contaminar novos e velhos. Aconteça o que acontecer, este é um dos momentos maiores da 70ª edição do Festival de Cannes — e pode valer a Haneke o recorde de uma terceira Palma de Ouro. 

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CANNES: Hazanavicius, o artista

Esperava-se o pior de Le Redoutable, retrato de Jean-Luc Godard, inspirado num livro de Anne Wiazemsky (que participou em La Chinoise, de 1967, e viveu um breve casamento com o cineasta). Pois bem, os resultados são ainda piores do que se esperava. Michel Hazanavicius, perito em maneirismo da moda "cultural" (foi ele que dirigiu O Artista), vê Godard como um boneco de desenho animado, a repetir incessantemente o mesmo gag (?). O resultado, além do desastre caricatural, consegue reduzir Maio 68 a uma colecção de "símbolos" mais ou menos anedóticos. Isto sem esquecer que Hazanavicius se dá ao luxo de imitar (?) alguns momentos godardianos, incluindo a cena de amor de Une Femme Mariée (1964) — aquilo que era um monumento de duas solidões passou a ser uma medíocre encenação de soft porn.

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sábado, maio 20, 2017

CANNES: Netflix, cinema & etc.

Quando este logotipo surgiu no início da projecção de Okja, do sul-coreano Bong Joon Ho, alguns dos jornalistas presentes no Grande Auditório Lumière manifestaram-se num misto de palmas, apupos e gargalhadas... Não seria exactamente um juízo de valor; antes o reconhecimento implícito de que o serviço de streaming Netflix ficará na história deste festival como um fundamental protagonista. A posição de protesto assumida pelos exibidores franceses — porquê passar filmes que não têm exibição prevista nas salas? — teve um eco indirecto nas palavras com que Pedro Almodóvar, presidente do júri oficial, lembrou que não fará muito sentido premiar obras que não vão surgir nos circuitos clássicos. Uma coisa é certa: através da sua própria produção (The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach, surgirá também na competição), a Netflix é uma das entidades que está a forçar o sistema global do cinema a repensar os seus modos de existência. Para o melhor ou para o pior.

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sexta-feira, maio 19, 2017

CANNES: directed by Robin Wright

Robin Wright está em Cannes para apresentar The Dark of Night, curta-metragem que marca a sua estreia cinematográfica na realização (já tinha dirigido vários episódios da série televisiva House of Cards). Trata-se de um exercício realmente curto (10 minutos, fotografados a preto e branco) que, no cenário de um típico diner, tenta recuperar um certo espírito nostálgico do filme noir — apesar da competência da execução, os resultados são algo esquemáticos e, no sentido mais limitativo, académicos. Na sua brevidade, o trabalho de Robin Wright ilustra um equivoco "modernista" cada vez mais frequente: o de que bastaria dominar os códigos técnicos de um modelo de narrativa para o actualizar e, por assim dizer, relançar. Not so easy...

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quinta-feira, maio 18, 2017

CANNES: paisagem urbana

Foto: JL
Actualmente, o horizonte de Cannes é definido pela figura dançante de Claudia Cardinale. Neste caso, trata-se da zona da entrada principal para o Grande Auditório Lumière, no Palácio — seja como for, a imagem radiosa do cartaz da edição nº 70 do certame está literalmente em todo o lado, desde os grandes espaços de exposição pública até à montra da mais modesta mercearia. Este é, de facto, um evento que transfigura toda a paisagem urbana, mobilizando milhares de jornalistas (ainda não se sabem números oficiais, mas este ano as acreditações devem ultrapassar os 4 milhares), produtores, distribuidores e exibidores de todo o mundo — 3450 é o número de títulos a serem exibidos nas sessões do Mercado do Filme. Daí a tradicional moral da história: Cannes é também o festival em que importa saber "escolher" o que não é possível ver...

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quarta-feira, maio 17, 2017

CANNES: memórias de 1946

O Festival de Cannes nasceu, em grande parte, como uma manifestação apostada em concorrer com a Mostra de Veneza, iniciada em 1938. Acontece que a primeira edição do certame da Côte d'Azur, prevista para Setembro de 1939, foi adiada devido à invasão da Polónia pelo exército de Adold Hitler, iniciada no dia 1 de Setembro (e, com ela, a Segunda Guerra Mundial). Tudo começou, então, em 1946 (20 Setembro / 5 Outubro) — estavam representados dezoito países na selecção oficial; este ano, são vinte e sete.
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