quinta-feira, junho 04, 2026

Redescobrindo Richard Avedon [Cannes]

Richard Avedon (1923 - 2004)

Os documentários voltaram a ocupar um lugar importante no Festival de Cannes (12/23 maio). Exemplo excepcional é o novo filme de Ron Howard, Avedon, uma viagem fascinante pelo mundo fotográfico de Richard Avedon — este trexto foi publicado no Diário de Notícias (21 maio).

A longa história do Festival de Cannes ensina-nos que os documentários não existem como um “resto” dos outros filmes, pertencendo, afinal, a uma paisagem multifacetada em que nenhum género cinematográfico é “superior” a outro. O exemplo de Le Monde du Silence, de Jacques Cousteau e Louis Malle, Palma de Ouro em 1956, bastaria para ilustrar tal dinâmica. Mais recentemente, em 2004, o triunfo de Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, sobre a Guerra do Iraque, acabou por ser também o centro de uma polémica cinematográfica e política. Além disso, desde 2015, com o patrocínio da SCAM (Société Civile des Auteurs Multimédia), é atribuído no âmbito do festival o prémio L’Oeil d’or, distinguindo o melhor documentário de todas as secções (seleção oficial, Quinzena dos Cineastas, Semana da Crítica e Cannes Classics).
Este ano, há mesmo um caso paradoxal de relação com o espaço documental, graças à nova série de Mark Cousins, The Story of Documentary Film (não apenas documental, mas, como diz o título, sobre a história dos documentários). Outro exemplo excepcional será Avedon, de Ron Howard, uma fascinante revisitação da vida e obra desse gigante da história da fotografia que é Richard Avedon (1923-2004).
Avedon está longe de ser um criador mal conhecido. E também não será um sujeito documental que suscite uma coleção de revelações mais ou menos surpreendentes, porventura chocantes. Dito de outro modo: estamos perante um filme que segue um modelo corrente de abordagem, com muitos testemunhos (Isabella Rossellini, Calvin Klein, Tina Brown, etc.), uma impressionante coleção de materiais de arquivo (incluindo registos das sessões fotográficas) e, claro, uma infinidade de fotografias, das mais emblemáticas do mundo da moda ( “Dovima e os Elefantes”, em 1955) até às mais íntimas e menos divulgadas (os retratos do pai de Avedon, em 1973, poucos dias antes da sua morte). Na sua eficácia informativa, o modo como Ron Howard se aproxima do “tema” não se esgota na acumulação de informações elogiosas dos entrevistados. O motor de Avedon são as próprias fotografias e a tentativa de compreensão daquilo que nos dão a ver — em muitos casos, incluindo as peculiares condições em que foram obtidas.
A célebre sessão de Marilyn Monroe com Avedon, em 1957, pode servir de exemplo cristalino. Como um registo do próprio Avedon recorda, a actriz e o fotógrafo estabeleceram uma imediata relação de cumplicidade, de tal modo que as primeiras imagens da sessão surgem como “quadros vivos” de uma mulher que sorri e salta (Avedon gostava de fazer saltar os seus modelos...) em poses de contagiante alegria. O certo é que, como Avedon diz, “aquilo” era Marilyn a confirmar a sua própria condição de símbolo exuberante de Hollywood. Não que as imagens fossem “falsas”, mas Avedon não queria repetir as regras dessa iconografia. Até que, depois de muitas horas, e mútuo cansaço, o fotógrafo pede à actriz que se sente e descanse um pouco: Marilyn ainda sorri, mas há uma sombra de tristeza que começa a invadir o rosto, reflectindo-se no tronco arqueado e no cansaço dos ombros. Parece começar a chorar, ausente, tragicamente verdadeira — Avedon faz “click” e nasceu a fotografia para sempre citada como “Marilyn triste”.
Que aconteceu? Não um exercício de “voyeurismo”, muito longe disso, mas alguns momentos de radical cumplicidade. Contemplamos a passagem da pose “obrigatória” para um tempo de abandono em que a fotografia resgata uma verdade que nenhumas palavras podem descrever ou conceptualizar. Ironia a reter: o próprio Avedon é o primeiro a reconhecer que o seu interesse pela fotografia nasceu também da sua incapacidade para escrever.

Para lá da moda

O legado de Avedon envolve múltiplos desafios às regras correntes de produção de fotografias nos mais diversos territórios artísticos e comerciais. A começar pela moda, sobretudo ao longo das décadas de 1950/60: nas páginas da Harper’s Bazaar e Vogue, a “deslocação” dos modelos para fora do estúdio, com diferentes poses e movimentos, foi decisiva na reconfiguração cultural dos corpos e dos olhares. Sem esquecer a reconversão das imagens da classe trabalhadora dos EUA, condensada num dos seus livros mais célebres (In the American West, 1985), em grande parte “transferindo” também as suas personagens dos cenários de trabalho para a solidão de uma pose hierática em frente a um telão branco.
Por certo mais conhecido através de filmes bem diferentes (Apollo 13, O Código Da Vinci, Rush – Duelo de Rivais, etc.), Ron Howard consegue a proeza de refrescar os nossos olhares face ao mundo da fotografia, hoje em dia tantas vezes reduzido a uma aceleração grosseira das imagens. Conseguira algo semelhante com o imaginário dos Beatles em The Beatles: Eight Days a Week (2016). Agora, o seu Avedon é uma belíssima homenagem do movimento do cinema à fixidez da fotografia.

>>> Entrevista de Ron Howard, em Cannes [France24].

sábado, maio 30, 2026

Paul McCartney, Opus 20

The Boys of Dungeon Lane é o 20º álbum de Paul McCartney em nome próprio, revisitando memórias de Liverpool e dos seus companheiros de adolescência — com um belo cartão de visita: Days We left Behind.

quinta-feira, maio 28, 2026

Patti Smith, feeling

What we may be feeling by Patti Smith

The world's troubles are ours

Read on Substack

Sonny Rollins, Saxophone Colossus

Celebremos Sonny Rollins, escutando o monumental Saxophone Colossus. São memórias de há 70 anos — 1956, exactamente, ano de muitas fulgurâncias, incluindo os cinco-álbuns-cinco gravados por Miles Davis ((Cookin' , Relaxin' , Workin', Steamin' e Round about Midnight). Sem esquecer mais três de Sonny — Sonny Rollins Plus 4, Tenor Madness e Work Time — e This Is How I Feel About Jazz, de Quincy Jones.

quarta-feira, maio 27, 2026

Sonny Rollins (1930 - 2026)

Colosso do saxofone. Assim o dizia o título do seu álbum gravado em 1956, Saxophone Colossus, e o mínimo que se pode dizer de Sonny Rollins é que os seus sons, em nome próprio ou apoiando outros notáveis (Miles Davis, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, etc.), pertencem, de facto, a uma história monumental em que persiste um sopro de invenção e modernidade capaz de transcender a linearidade de qualquer calendário.
Por uma ironia difícil de ignorar, a notícia da morte de Rollins foi conhecida a 26 de maio (ocorrera na véspera, em Woodstock), o dia em que Miles completaria 100 anos de vida.
Recriando em palco o tema do filme Alfie (1966), eis uma performance de Rollins na Noruega, no Festival de Jazz de Kongsberg, a 30 de junho de 1974 — acompanham-no Rufus Harley (saxofone), Yoshiaki Masuo (guitarra), Bob Cranshaw (baixo) e David Lee (bateria).
 

As histórias paralelas de Asghar Farhadi

Asghar Farhadi — rodagem de Histoires Parallèles

Embora ausente do palmarés de Cannes, o novo filme de Asghar Farhadi merece a devida atenção, propondo algo como uma metódica "comédia humana" — estes parágrafos pertencem a um texto publicado no Diário de Notícias (15 maio) O novo filme do iraniano Asghar Farhadi, Histoires Parallèles, ficará, por certo, como um dos momentos altos da 79ª edição do Festival de Cannes. E não apenas porque o cineasta iraniano se “transfere” para cenários franceses — para mais com um elenco que inclui Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel e Catherine Deneuve —, mas também porque o seu título nos leva a considerar uma sugestiva moral narrativa. A saber: contar uma história nunca é organizar uma banal acumulação de “acontecimentos”, mas sim observar o estilo, ora ligeiro, ora perverso, como essa história nos conduz a outras histórias enredadas em paralelismos mais ou menos explícitos.
O primeiro paralelismo decorre do facto de o filme de Farhadi se inspirar no Capítulo Seis do Decálogo (1989), do polaco Krzysztof Kieslowski, obra monumental que tinha como ponto de partida os enunciados dos Dez Mandamentos — neste caso, o sexto mandamento: “Não cometerás adultério”.
É verdade que, tal como Kieslowski, Farhadi parte de uma personagem que, de uma janela de sua casa, espia alguém que vive do outro lado da rua. As coincidências “factuais” ficam por aí, uma vez que aquilo que mais conta é o modo como semelhante comportamento desencadeia um turbilhão de acontecimentos capaz de por à prova a transparência dos laços humanos, a ambivalência do desejo e a verdade do amor.
Farhadi encena tudo isso como um labirinto de fragmentos da vida quotidiana, num registo em que o realismo imediato (o olhar sobre as ruas de Paris tem tanto de reportagem como de contida teatralidade) não exclui, por vezes parece mesmo atrair, uma sensação onírica. Isto porque a personagem central, Sylvie (Huppert, em controle absoluto de todas as nuances emocionais), começa a escrever uma ficção que tem como ponto de partida uma mulher desconhecida (Efira) que lhe evoca a imagem de sua mãe. Ao descobrir que ela habita na sua rua, começa a espiá-la, transformando (ou melhor, transfigurando) as suas rotinas, e também as pessoas com quem se relaciona, em inspirações para a sua ficção. Simplificando, digamos que a inesperada circulação da sua escrita vai afectar tudo e todos, primeiro de modo irónico, a pouco e pouco instalando um dramatismo que se vai aproximando de formas de violência física e moral...

terça-feira, maio 26, 2026

Miles Davis, So What

IRVING PENN
A mão de Miles Davis
1986
O trompetista Miles Davis nasceu na cidade de Alton, Illinois, no dia 26 de maio de 1926 — faz hoje 100 anos. Escutemos, em silenciosa atenção, o tema So What, do álbum Kind of Blue (1959). Digamos, para simplificar, que estamos perante um dos muitos momentos em que Miles refez a lógica, a linearidade e o destino da história do jazz — entenda-se: da música.
 

Festival de Santarém— cinema & natureza

O Festival de Cinema de Santarém continua a viver a sua história de resistência e reinvenção. Iniciado em 1971, foi nos seus primeiros anos um dos dois principais eventos cinematográficos do país (a par do Festival da Figueira da Foz). A sua primeira etapa terminou em 1989, ressurgindo em 2023 graças à acção do Cineclube de Santarém, em parceria com a Câmara Municipal da cidade.
A 19ª edição começou com uma produção checa — Better Go Mad in the Wild, de Miro Remo —, crónica semi-documental que, ao celebrar uma existência intimimamente ligada às convulsões da natureza, envolve componentes descritivas e mitológicas que podem simbolizar as principais linhas temáticas do próprio festival.
Até dia 31, será posível descobrir mais de quatro dezenas de títulos, repartidos por secções que vão das produções para um público infantil até aos dois segmentos da competição (nacional e internacional). Para a sessão de encerramento está programada uma nova cópia, resultante de um restauro feito pela Cinemateca Portuguesa, de um clássico — A Dança dos Paroxismos (1929), de Jorge Brum do Canto —, com música ao vivo pelo Conservatório de Música de Santarém — será no Teatro Sá da Bandeira, dia 31, às 17h00.

segunda-feira, maio 25, 2026

Stephen Colbert, Hello, Goodbye

São 11 anos e 1801 episódios — o último foi emitido a 21 de maio de 2026. Como encerrar uma história tão especial da televisão made in USA, e também da televisão realmente sem fronteiras? O derradeiro episódio de The Late Show, com Stephen Colbert, poderia ir roubar o seu subtítulo a uma canção dos Beatles — porque não?
 












sábado, maio 23, 2026

A televisão contra o cinema

RENÉ MAGRITTE
A Condição Humana (1935)

Onde está uma política cinematográfica que saiba ter em conta (e lidar com) a presença da televisão no tecido social do país? Não existe, nunca existiu — ete texto foi publicado na revista Metropolis (nº 129, abril).

* Desafetação. A palavra entrou, ou reentrou, no domínio cinematográfico português, mais concretamente a expressão desafetação de salas de cinema. De que se trata? Pois bem, dos pedidos para que os espaços dessas salas deixem de exibir cinema. São (ou eram) 44 a 10 de abril, dia em que um comunicado do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto deu a conhecer novas regras para a avaliação de tais processos. A desafetação de salas de cinema passará a envolver, não apenas os municípios em que se localizam, mas também o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), a Direção-Geral das Artes (DGARTES) e a Cinemateca Portuguesa.

* Segundo a ministra Margarida Balseiro Lopes, tornou-se urgente tomar decisões neste domínio, não desligando os factores económicos de todo um contexto social mais geral. São dela estas palavras: “O destino das salas de cinema não pode ser decidido sem a ponderação do seu impacto cultural nos territórios. O modelo que agora introduzimos assegura decisões mais informadas e abre espaço à identificação de alternativas, num diálogo institucional que também se estende aos autarcas”.

* O estudo agora divulgado reconhece também que importa combater os impasses burocráticos e "simplificar processos, evitar duplicações e, sobretudo, oferecer aos promotores e gestores de espaços culturais uma interlocução mais clara e eficiente com o Estado, tornando a rede mais robusta e mais capaz de cumprir a sua missão de democratização cultural". Sem esquecer que a ministra solicitou ao ICA um estudo aprofundado dos públicos, com o objetivo de "analisar as motivações, expectativas e constrangimentos associados à experiência cinematográfica e garantir informação estratégica ao desenho das políticas públicas para o setor".

* A boa vontade de tais propósitos suscita uma dúvida metódica que não decorre da acção do actual governo — em boa verdade, tem que ver com uma demissão (política e estrutural) que, de uma maneira ou de outra, foi contaminando as políticas culturais propostas por todas as forças políticas ao longo de décadas de democracia. A saber: não é possível conhecer e pensar o estado das coisas sem ter em conta as várias matrizes televisivas que, de modo perverso e continuado, têm ajudado a decompor os públicos de cinema.

* E não me refiro apenas à secundarização dos filmes nas programações dominantes de televisão e ao apagamento do cinema (e das actividades artísticas) de quase toda a informação jornalística do pequeno ecrã — em proveito, como bem sabemos, de uma obscena avalanche de futebol. Penso, em particular, no triunfo de modelos estereotipados e medíocres — telenovelas e Reality TV — cujos efeitos práticos não se confundem, com toda a certeza, com a formação de públicos de cinema. É aí que está a caixa negra do cinema em Portugal, aqui e agora.