segunda-feira, abril 24, 2017

A IMAGEM: Le Monde, 24 Abril 2017

MACRON-LE PEN: AS DUAS FRANÇAS
Le Monde
24 Abril 2017

Violência sem palavras

Uma verdadeira revelação (ainda que com três anos de atraso...): um filme da Ucrânia sobre uma escola para surdos-mudos — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (20 Abril).

Premiado na Semana da Crítica, na edição de 2014 do Festival de Cannes, A Tribo é um filme de origem ucraniana capaz de desafiar qualquer tentativa de descrição. Desde logo, pela carga de violência, da agressão física à prostituição, que marca todas as relações que descobrimos no interior de uma escola. Depois, pelo facto de tal escola ser destinada apenas a alunos surdos-mudos, numa perturbação dramática tanto mais envolvente quanto acontece, literalmente, sem palavras.
Podia ser uma narrativa encalhada numa fácil mensagem “simbólica”, mas é tão só a crónica realista de um mundo de muitos corredores, agressões e angústias em que são testados os próprios limites da natureza humana. Se ainda há filmes completamente exteriores aos padrões dominantes do mercado, este é, seguramente, um desses filmes.

Kraftwerk... ao vivo... em 3D...
e agora em nossas casas



A digressão 3-D que os Kraftwerk têm estado a apresentar pelo mundo fora, e que inclui tanto um espetáculo em regime best of (como o que apresentaram entre nós) ou a apresentação dos seus oito álbuns editados entre 1974 e 2003 em concertos individuais, está na origem de 3-D The Catalogue, uma nova edição que surgirá a 26 de maio em vários formatos e representa, depois de Minimum/Maximum, mais uma edição ao vivo na discografia do grupo alemão.

Um dos lançamentos é um Bly-ray com quatro discos que inclui a apresentação ao vivo dos oito álbuns – Autobahn (1974), Radio-Activity (1975), Trans Europe Express (1976), The Man-Machine (1978), Computer World (1981), Tecnho Pop (1986), The Mix (1991) e Tour de France: Soundtracks (2003) – em imagens de alta definição 3D (mas que é também compatível para visionamento em 2D). O Blu-ray junta ainda as projeções e filmes usados durante os concertos.

Há uma edição DeLuxe que acrescenta um livro de 228 páginas com fotografias tiradas durante a digressão. Em áudio há depois versões de 3-D Catalogue numa caixa com 9 LP em vinil e uma outra com 8 CD.

Novas edições:
The Gift, Altar


É mais frequente vermos momentos de grande entusiasmo e renovação nas obras veteranas de artistas a solo do que nas de bandas com já uns longos anos de vida. De resto, é mais habitual vermos até os melhores discos de bandas nascerem entre as suas primeiras criações, quando muito aparecendo no quadro de alguma maturidade alcançada, ou seja, dentro de uma década de trabalhos. Mas há exceções, uma das mais notáveis tendo sido assinada pelos U2 (com primeiro single editado em 1979) quando, depois de na reta final da digressão Love Town – que surgiu depois de Rattle & Hum – terem avisado que se iam afastar por um pouco para sonhar tudo novamente, surgiram animados por novas demandas que começaram a expor na sua contribuição para Red Hot + Blue (numa versão magnífica de Night & Day) e depois aprofundaram não apenas entre os álbuns Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993), como também no ainda mais exploratório Original Soundracks – Vol 1., disco assinado como Passengers, na verdade um coletivo que integrava não só os quatro elementos dos U2 mas também Brian Eno e que ali juntava ainda mais algumas contribuições, entre elas a de Howie B... Estes dois últimos nomes cruzaram-se já com a história de um outro quarteto. Chamam-se The Gift, e se em Howie B tiveram em 2001 (no álbum Film) o parceiro para levar a um outro patamar de definição a visão pop exuberante que antes tinham já materializado no hoje já mítico Vinyl (de 1998), em Brian Eno encontraram o parceiro para, tal como os U2 desejaram, poderem sonhar tudo uma outra vez.

Convenhamos que não deixariam de procurar novos rumos depois dos contrastes do díptico Explode (2011) / Primavera (2012) caso não se tivesse cruzado pelo seu caminho o músico que tem no seu currículo parcerias maiores não apenas com os U2 mas também David Bowie, Talking Heads, David Byrne (em dois magníficos álbuns assinados a meias) ou John Cale (e Wrong Way Up é mesmo um dos melhores discos da história da canção pop). Toda a obra dos The Gift sempre se fez de uma saudável sensação de inquietude não satisfeita, pelo que a cada disco foram sempre procurando rotas e destinos diferentes, mantendo firme a personalidade da composição de Nuno Gonçalves, a muito particular assinatura vocal de Sónia Tavares e todo um modus operandi que, se em 1998 deu que falar quando o “faça-você-mesmo” se revelou política de trabalho possível entre nós num plano com claras ambições (nacionais e internacionais), ainda hoje garante nas mãos dos quatro elementos do grupo a condução dos seus destinos.

É claro que trabalhar com Brian Eno fez a diferença. E aqui vale a pena notar que este não é um episódio “do acaso”, já que ao longo da sua discografia o grupo sempre procurou entre os (seus) colaboradores de sonho aqueles com quem quis trabalhar. E tal como Howie B foi seu parceiro em 2001 ou Ken Nelson (que trabalhou com os Gomez, Kings of Convenience e Coldplay) a eles se juntou para o álbum de 2011, para Altar Brian Eno foi sonho concretizado através de uma série de sessões de trabalho nas quais a parceria ganhou fôlego e coesão, mais adiante entrando em cena Flood (que curiosamente trabalhou com os U2 em Pop, ou seja, logo após os discos acima referidos), que foi o responsável pelas misturas. Trabalhando em conjunto com os The Gift, integrando-se entre o coletivo alargado – o que apresentam em palco – Brian Eno começou por escutar, comentar e acabou a agir não apenas como produtor mas como um corpo criativo na composição, na escrita, tocando (ouvimo-lo num festivo solo para teclas em Clinic Hope) e cantando (não só em Love Without Violins, mas também nos coros, notando-se clara a sua assinatura em What If...). A sua presença ajudou a definir um caminho para o entendimento entre o coletivo, lançando desafios segundo o seu método habitual, logo aí propondo um cenário de trabalho que, mesmo sob uma matéria prima familiar (as canções) acabou por abrir novas possibilidades. E essas tanto se materializaram na condução desafiante para levar a canção a formas diferentes (como em Love Without Violins, naquele contaste entre um incrível arranque tenso e obsessivamente repetitivo e um final libertador e luminoso), a aceitar referências novas (como os ecos africanos em Malifest que evocam o festim de acontecimentos sob ecos da música africana partilhados com os Talking Heads) ou toda uma nova paleta de cores nos timbres, que vincam afinidades aqui e ali com Bowie (o que não é nada estranho a uma banda que já fez uma versão de Absolute Beginers) ou até mesmo com os discos (pop) a solo de Eno.

A produção é atenta e cuidada, assegurando a mistura a visibilidade aos detalhes, facto ao qual contribui também uma maior contenção nos acontecimentos cénicos face a algumas gravações anteriores. As melodias e a voz asseguram depois a continuidade num disco que não é de todo uma rutura, mas antes um modo de reencontrar viço e entusiasmo, o que é coisa rara em bandas com mais de vinte anos vividos. Esse fulgor reencontrado resultou naquele que é, claramente, o melhor conjunto de canções que os The Gift alguma vez levaram a disco. E se Love Without Violins, Clinic Hope ou o irresistível Big Fish serviram de perfeitos cartões de visita, há no alinhamento ainda uma mão-cheia de singles potenciais, do festivo Malifest aos mais melancólicos Vitral (que é talvez aquela em que é mais evidente a presença de Brian Eno) ou Hymn To Her. Agora é a vez de, como manda a letra da canção, ser “peixe grande”... E há mar por aí à espera não só destas canções mas das que virão a seguir. Porque quando se sonha tudo de novo não se esgotam logo ali as ideias.

Sire Records, 50 anos

Apenas alguns nomes (por ordem alfabética): Depeche Mode, Dinosaur Jr, Lou Reed, Madonna, The Pretenders, Talking Heads, The Smiths... Qual o lugar em que se cruzam? Pois bem, chama-se Sire Records, foi fundada por Seymour Stein e Richard Gottehrer, e constitui uma referência fulcral na história da edição discográfica do último meio século, dando visibilidade aos criadores mais marginais e, ao mesmo tempo, marcando presença nas linhas da frente do mercado musical.
50 anos, justamente, é o número redondo que a Sire está a comemorar através de uma edição em vinyl, com o sugestivo título Just Say 50, lançada por ocasião do Record Store Day — são quatro LP com 46 registos de outros tantos artistas, lançados entre 1969 e 1995.

>>> Três temas incluídos em Just Say 50:
>>> Blitzkrieg Bop (1976), primeiro single dos Ramones, depois incluído no seu primeiro álbum, Ramones (1976);
>>> The Walk (1983), single de The Cure, depois incluído na colectânea Japanese Whispers (1983);
>>> Come Together (1990), single de Primal Scream, do álbum Screamadelica (1991).






>>> Notícia no site 'All about Madonna'.

domingo, abril 23, 2017

David Lynch — imagens e sons

Nos últimos anos, uma zona significativa do trabalho de David Lynch tem passado pela divulgação das técnicas de meditação transcendental. Mais especificamente, a sua fundação tem desenvolvido diversas actividades no sentido de ajudar grupos de risco, incluindo pessoas sem abrigo, refugiados de países africanos e veteranos do exército dos EUA. Recentemente, a fundação lançou uma campanha visando a reintegração desses veteranos — este pequeno video de divulgação constitui, além do mais, uma pequena grande lição sobre as relações entre imagens e sons.

sábado, abril 22, 2017

Jessica Chastain no Zoo (1/2)

Jessica Chastain protagoniza um drama da Segunda Guerra Mundial cujo cenário principal é o Jardim Zoológico de Varsóvia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Abril), com o título 'A guerra vista através de um Jardim Zoológico'.

Nos últimos anos, pelo menos desde a produção alemã Lore (2012), dirigida pela australiana Cate Shortland, temos assistido ao aparecimento de vários (e muito interessantes) filmes apostados em reencenar a Segunda Guerra Mundial e, em particular, as memórias do Holocausto muito para além das regras dramáticas e simbólicas do tradicional “filme de guerra”. Um desses filmes, O Filho de Saul (2015), do húngaro Lászlo Nemes, arrebatou mesmo o Oscar de melhor filme estrangeiro. Baseado no livro homónimo da americana Diane Ackerman (entre nós publicado pela Editorial Presença), O Jardim da Esperança é mais um significativo exemplo da mesma tendência.
Tal como o extraordinário Paraíso, do russo Andrei Konchalovsky (lançado há uma semana nas salas portuguesas), somos confrontados com episódios muito particulares da política de extermínio dos judeus pelos nazis. No caso de Paraíso, tratava-se de construir uma teia situações e testemunhos elaborada a partir de três personagens fictícias. Em O Jardim da Esperança, deparamos com a experiência dramática do casal Jan e Antonina Zabinski, tratadores do Jardim Zoológico de Varsóvia — a invasão das tropas de Hitler, iniciada a 1 de Setembro de 1939, iria confrontá-los com a necessidade de reconstrução do seu jardim e, mais do que isso, com a urgência de defender as vidas de muitos judeus (escondendo-os nas caves do jardim) que tentavam escapar aos comboios destinados aos campos de concentração.
Estamos, neste caso, perante personagens verídicas. Aliás, o trabalho de Ackerman baseia-se, em grande parte, nas memórias da mulher do tratador do Jardim Zoológico (facto reflectido no título original do livro e do filme: The Zookeeper’s Wife). Interpretada pela brilhante Jessica Chastain, Antonina emerge como símbolo da decomposição brutal de todo um sistema de valores. Para ela, o seu jardim existia como a materialização prática, quase romântica, de um ideal de convivência com a pluralidade fascinante do mundo animal. Mais do que isso: através da relação íntima com os animais (veja-se, logo no começo, a cena em torno do pequeno elefante que acaba de nascer), o Zoo define-se como um espaço de genuína afirmação dos valores clássicos do humanismo.
Niki Caro, a realizadora neozelandesa de O Jardim da Esperança, não é estranha a este tipo de universos. Na sua filmografia, destaca-se A Domadora de Baleias (2002), um drama em tom de fábula marcado pelo património lendário do povo Maori, da Polinésia. Distinguido com vários prémios internacionais, chegou mesmo aos Oscars, tendo valido à jovem australiana Keisha Castle-Hughes (na altura com 12 anos) uma nomeação na categoria de melhor actriz.
Coproduzido pelo Reino Unido e EUA (com distribuição internacional da Focus Features americana), O Jardim da Esperança foi rodado na República Checa e constitui um típico exemplo daquilo que, hoje em dia, é um modelo corrente de produção independente. O seu orçamento de 20 milhões de dólares (18,7 milhões de euros), ainda que elevado para os padrões europeus, é francamente baixo quando comparado com os valores médios de Hollywood. Actualmente a estrear em vários países europeus, as suas receitas de 10 milhões de dólares no mercado americano (EUA e Canadá) dão-lhe o primeiro lugar na lista dos mais rentáveis filmes independentes de 2017.

sexta-feira, abril 21, 2017

Novo filme de Errol Morris

Autor de títulos centrais na história moderna do documentarismo como The Thin Blue Line (1988) ou The Fog of War (2003), o americano Errol Morris tem um novo filme. Chama-se The B-Side e tem como temas a personalidade de Elsa Dorfman e os seus célebres retratos em formatos gigantes Polaroid — com estreia americana agendada para 2 de Junho, eis o respectivo trailer.

Iggy Pop, 70 anos

Iggy Pop nasceu a 21 de Abril de 1947 em Muskegon, Michigan — faz hoje 70 anos.
Para assinalar a data, a Rolling Stone entrevistou-o por telefone, emergindo como tema fulcral da conversa o recente envolvimento de Iggy Pop com o trio de jazz de Jamie Saft, interpretando três canções do seu novo álbum, Loneliness Road. Vale a pena ler a entrevista e aí escutar o tema título e Everyday.

quinta-feira, abril 20, 2017

O cinema visto de Cannes

OKJA
Como é que o maior festival de cinema do mundo lida com as novas formas de difusão dos filmes, nomeadamente o "streaming"? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Abril).

Uma tradição perversa faz com que, ciclicamente, sejamos confrontados com um dilema que seria inerente a qualquer problematização política do cinema: devem fazer-se filmes “populares” ou filmes “intelectuais”? Enredados nos jogos florais de tal formulação, esquecemo-nos do essencial: o modo como a vida pública dos filmes está sempre marcada pelo poder que condiciona todos os outros. A saber: o poder de os difundir.
Que o diga Francis Ford Coppola, ele que, em 1981, sonhou refazer o ideal clássico de um grande estúdio de Hollywood, produzindo e realizando a obra-prima Do Fundo do Coração. Foi um monumental falhanço. Porquê? Por ser uma tentativa “popular” de refazer o decadente género musical? Ou por resultar de uma visão “intelectual” do respectivo património? Nada disso. Coppola falhou uma dimensão que, em boa verdade, nunca chegou a controlar. A saber: a distribuição/exibição do filme.
O Festival de Cannes surge, agora, como um dos protagonistas de um novo e interessantíssimo episódio, sintomático da complexidade desses problemas (naturalmente diversos, de contexto para contexto). Assim, a federação que agrega os exibidores de cinema franceses (FNFC) reagiu ao facto de a selecção oficial da 70ª edição do certame (17-28 Maio) incluir dois filmes produzidos pela plataforma de “streaming” Netflix — são eles Okja, uma aventura fantástica com Tilda Swinton, assinada pelo sul-coreano Bong Joon-ho, e The Meyerowitz Stories, uma comédia de Adam Sandler dirigida por Noah Baumbach.
Que está em jogo? A avaliação “artística” dos filmes? Nada disso. Antes o facto de os exibidores recearem que a lógica da Netflix — difundir pela Internet os produtos audiovisuais — acabe por contaminar todos os parâmetros da vida pública do cinema, fazendo com que, pelo menos em casos como os citados, os filmes não cheguem a passar pelas salas.
Será que a organização de Cannes não quis lidar com as consequências simbólicas das suas escolhas? Bem pelo contrário, creio (o festival tem estado mesmo na vanguarda deste debate). A crescente importância do cinema produzido em ligação directa com as empresas de “streaming” passou a ser um dado incontornável da vida actual do cinema — para nos ficarmos por um dos mais comentados exemplos, lembremos que os direitos de distribuição de Manchester by the Sea (que valeu um Oscar a Casey Affleck) são da Amazon. O que está em jogo envolve a defesa dos circuitos clássicos das salas, tanto quanto a abertura à máxima diversidade de produção dos filmes.

Ver + ouvir:
Planetarium, Saturn



O Projeto Planetarium promete dar-nos um dos discos do ano... O álbum nasce de um projeto conjunto de Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner e James McAlister que já andou pelos palcos... O álbum, com o título Planetarium, chega às lojas a 9 de junho. Um single centrado no planeta Saturno - e com o simples título Saturn - já por aí anda. E agora com um teledisco...

Novas edições:
Arca, de Arca


Poucos têm a sorte de, a meio de uma viagem de carro, e estando a cantarolar sem nenhum programa em vista, ter a islandesa Björk como passageira ao lado. Foi mais ou menos assim que surgiu um desafio para que, desta vez, Alejandro Ghersi usasse a sua voz. E, com ela, acabasse por criar um disco mais íntimo, talvez aparentemente mais frágil, mas absolutamente arrebatador. E, assim, aos 26 anos, o músico venezuelano que assina como Arca não só vinca (pela dimensão da ideia) o seu papel entre o panorama atual da música eletrónica como abre uma nova frente de trabalho que lhe poderá dar muitos e suculentos frutos pela frente.

Através de trabalhos ao lado não só de Björk, mas também de FKA Twigs ou Kanye West, Arca ganhou nos últimos tempos um estatuto de referência na vanguarda da criação eletrónica ao serviço da música popular, ao mesmo tempo alimentando a admiração por um culto em construção através dos seus dois primeiros álbuns, Xen (2014) e Mutant (2015). O terceiro disco, o primeiro que edita na XL Recordings e ao qual dá o seu nome, revela-o contudo mais dentro do que nunca das suas paisagens e canções. E a opção por usar a língua que aprendeu em primeiro lugar – mesmo tendo feito depois a sua formação nos EUA – confere a toda a construção uma verdade mais profunda e carnal.

Há aqui – como de resto se sentia já nas suas intervenções ao lado de Björk em Vulnicura – uma noção de corpo habitado mesmo sendo esta música essencialmente criada por máquinas. Os temas das canções, a envolvência que o canto tão magnificamente teatraliza, são como tecidos de um mesmo ser. Que vive quando o escutamos. Que reduz a intensidade dos ruídos e angulosidades de outrora sem contudo perder a noção de desafio e de exploração que a sua música até aqui desenhava sobretudo pelas formas e as sonoridades. A dimensão mais humana (que parece escutar ecos de memórias mais assombradas e traduzir desejos que a pele deixa exalar) acrescenta um outro patamar aos acontecimentos. E cria em Arca um contraste curioso com a ideia do homem-máquina de que os Kraftwerk já nos falavam em 1978. É que se o "mensch maschine" dos quatro de Dusseldorf era coisa robótica e firme, o homem que Arca mostra aqui, também musicalmente desenhado por máquinas, é vulnerável, melancólico, feito de carne e emoções. E absolutamente sedutor.

The Gift depois de The Gift

* THE GIFT - Altar

J.L. - "The Gift já não soam a The Gift".
Só o escrevo. Não fui eu que o disse, mas sim Brian Eno, produtor do magnífico Altar da banda de Alcobaça — e quem citou a frase foi Nuno Gonçalves no apurado e depurado concerto do CCB.
Que está em jogo, então? Uma espécie de tábua rasa, apenas porque a banda trabalhou com um génio da criação e produção musical? Será dessa maneira, por certo, que esta nova etapa de The Gift tenderá a ser descrita pelos preconceitos dos que os consideram demasiado in para fazer pose de out (ou talvez o contrário... já que nunca se sabe que novas revoluções musicais serão propaladas semana sim, semana sim).
O concerto pode servir de guia daquilo que está a acontecer — e insisto no tempo em aberto, evitando dizer apenas que "aconteceu". Da pureza pop de Big Fish ao assombramento expressionista (!) de Love Without Violins, Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, Miguel Ribeiro e John Gonçalves movimentam-se no oceano das suas próprias tensões criativas. Por alguma razão o concerto se apresentou encenado por um jogo de luzes tão sofisticado quanto austero — tratava-se de ouvir as novas canções e compreender, afinal, que elas refazem um património de 20 anos, abrindo para um território em que The Gift vai cada vez mais soar a um ensemble tão singular na alegria da sua pesquisa como soou em meados da década de 90. Lição filosófica: voltar a tentar fazer o mesmo para se conseguir ser outro.
Aquilo que algumas almas mais apressadas talvez descartem como apenas "ligeiro" — ou, escândalo supremo, apenas pop — está enraizado numa arquitectura de sons e emoções que arrisca continuar à procura de um lugar de apaziguamento. E que Mr. Eno seja o arquitecto-mor, eis o saboroso escândalo — ou apenas a ordem natural das coisas.
Também por tudo isso, Mário Barreiros (bateria), Paulo Praça (guitarra, baixo e voz) e Israel Costa Pereira (guitarra e voz) não são "acompanhantes", mas cúmplices hiper-talentosos de uma celebração musical que, não receemos a contundência dos símbolos, chegou ao seu altar. Faz medo, claro. Mas é por isso que admiramos a cruzada de The Gift.

N.G. - Vitrais e uma luz pouco intrusiva serviram de cenário aos primeiros momentos daquela que estava ainda a ser para muitos a descoberta das canções de Altar, o novo álbum dos The Gift. E foi assim que começou a noite (bem) vivida no Grande Auditório do CCB, escutando os temas mais melancólicos do novo disco, sublinhando não só a capacidade da banda em levar ao palco uma cuidada transposição dos acontecimentos criados em estúdio, como sublinhando na vida em palco para You Will Be Queen, mais do que no encadeamento do alinhamento do disco, a força potencial de mais um single. Não foi por acaso que, ao escutá-la (e esta, como contou Nuno Gonçalves, estava já na carteira dos temas compostos desde os tempos de Explode), Brian Eno lhes terá dito que, naquele tema em concreto, “já lá estava tudo” e que só faltava fazer com que, daqui a 20 anos, ele fosse cantado num karaoke no Japão...

Depois de alguns anos a viver o díptico Explode/Primavera e um alinhamento de memórias que assinalou os 20 anos de carreira da banda era chegada a altura de injetar um novo repertório em palco. E as dez canções de Altar fazem o prato principal desejado, mostrando-se Malifest um momento de puro festim dançável, confirmando Big Fish como um clássico bem nascido (e com pernas para correr ao longo deste verão) e em Love Without Violins o momento central desta nova aventura.

Na hora de revisitar memórias as escolhas reincidiram mais por recordações recentes do que por evocações dos primeiros tempos. De Explode ouviu-se quer a versão completa de The Singles quer (o bem eficaz em palco) RGB. De AM/FM ouviu-se Music. Em português cantou-se Primavera e Clássico. E, para mergulhar por um momento em escolhas menos esperadas, um (belíssimo) The Difference Between Us, dos tempos de Film, que foi na verdade o mais saboroso de todos estes episódios. Bom alinhamento! E com banda que não esconde os quilómetros de estrada que já correu.

quarta-feira, abril 19, 2017

Celibato [citação]

[FOTO: António Pedro Ferreira]
>>> O que será mais fácil: ordenar mulheres ou homens casados?
Homens casados porque a Igreja é misógina! É a última instituição, verdadeiramente global, que é machista. É também a última monarquia absoluta. Acredito que ainda veremos o Papa Francisco ordenar homens casados, mas também terá de resolver o problema da participação dos leigos e o problema das mulheres. O celibato é uma questão de bom senso, temos de ser pragmáticos. Não há padres suficientes e há leigos, casados, que, ordenados, exerceriam um excelente papel como coordenadores das comunidades cristãs. No primeiro milénio da Igreja não havia celibato. Aquilo que hoje constitui escândalo não o é, se olharmos a origem.

ANSELMO BORGES
in “É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”
Entrevista a Christiana Martins [Expresso, 16 Abril 2017]

Konchalovsky face ao paraíso (2/2)

O veterano russo Andrei Konchalovsky está de volta com um filme admirável sobre as memórias do Holocausto — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Abril), com o título 'Konchalovsky convoca-nos para os factos e fantasmas da guerra'.

[ 1 ]

O desafio de Paraíso tem tanto de invulgar como de fascinante. Desde logo porque as três personagens que definem as linhas de força da narrativa são complexas, perturbantes e infinitamente humanas, mesmo quando exibem as facetas mais ignóbeis do género humano.
Tudo começa por um colaboracionista francês de nome Jules (Philippe Duquesne) que, à sombra do governo de Vichy, vai administrando as vidas (e as mortes) de muitos judeus com o cinismo de quem cumpre uma “aborrecida” tarefa burocrática. Konchalovsky introduz uma derivação narrativa que, antes de tudo o mais, nos faz sentir que estamos longe dos dispositivos tradicionais do “filme de guerra”: Jules vai surgindo num cenário austero e uniforme, dissertando para a câmara sobre a sua própria experiência de guerra.
Que testemunho é esse? De “onde” nos fala Jules? Responder a tais perguntas seria, no mínimo, não respeitar o direito do espectador a descobrir por si próprio o génio interior da “mise en scène” de Konchalovsky. Digamos apenas que o dispositivo, intensificado pelo belíssimo preto e branco das imagens, se repete com as personagens de Olga (Yuliya Vysotskaya), uma aristocrata russa que ajuda a Resistência francesa a salvar crianças judias, e Helmut (Christian Clauss), um oficial das SS alemães que vai ascendendo na hierarquia num misto de fascínio pela “ideia” nazi e repulsa pelos inequívocos sinais de extermínio dos judeus.
Um dos últimos títulos de Konchalovsky lançado no mercado português, ainda que dos menos brilhantes da sua filmografia, apostava no mesmo tipo de “desvios” em relação às formas correntes de percepção da dinâmica histórica: chamava-se O Círculo do Poder (1991) e centrava-se na insólita personagem do oficial do KGB que se transformou em projeccionista oficial do Kremlin nos anos finais de Estaline. Paraíso prolonga essa vontade, de uma só vez estética e política, de reencontrar os fantasmas da história através da crueza dos factos.

Marcelo em Tires
— a crise do simbólico

1. Vista em vários canais televisivos e, depois, amplamente documentada nos mais diversos locais da Internet, esta situação condensa a pobreza estrutural do nosso tecido político.

2. A questão não está, entenda-se, nas "justificações" mais ou menos elaboradas para o facto de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa, ter surgido com surpreendente celeridade em Tires, na zona onde, como todos sabemos, ocorreu um acidente com uma avioneta. Não se trata de fazer juízos de valor sobre a "maior" ou "menor" gravidade do acidente, daí entrando em extrapolações mais ou menos infantis sobre se o Presidente "devia" ou "não devia" ter estado onde esteve — nem se discute, muito menos, a boa vontade afectiva que o terá motivado.

3. Acontece que um Presidente da República é também um administrador de um património simbólico, função em que, por definição, não tem substituto. Mesmo reconhecendo que a disponibilidade de Marcelo para o diálogo tem contribuído para atenuar algumas formas de crispação na sociedade portuguesa, a sua ânsia de mostrar, precisamente, disponibilidade e compaixão não pode ser reduzida à condição de figurante das notícias.

4. Bem sabemos que, muitas vezes, o dispositivo televisivo — e, mais especificamente, o seu equívoco liberalismo iconográfico — contribui para rasurar as diferenças sociais através de uma homogeneização das suas personagens. Conscientemente ou não, as linguagens televisivas favorecem a ideia simplista de que somos todos iguais perante uma câmara — mais de um século de cinema, de Welles a Godard, ensina-nos que a história das imagens é, muito pelo contrário, um palco de permanentes tensões e contradições em que ninguém se confunde com uma imagem definitiva.

5. A proliferação pública de Marcelo como imagem (bem diferente do que seria uma política elaborada de imagens públicas) só pode ter dois efeitos: diluir qualquer noção de hierarquia figurativa e, nessa medida, banalizar o poder que ele próprio representa. Como esse poder, formalmente, emana de todos nós, corremos o risco de confundir a nossa identidade social com a ubiquidade simbólica do Presidente — essa é, em última instância, uma maneira de desvalorizar todas as imagens, esvaziando o seu papel cognitivo.

terça-feira, abril 18, 2017

CANNES - Elogio do virtual

A 70ª edição do Festival de Cannes propõe, uma vez mais, uma diluição de "barreiras" entre cinema e televisão, real e virtual — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Abril), com o título 'Foi você que disse "virtual"?'.

A simples lista dos autores a marcar presença na edição nº 70 de Cannes configura uma verdadeira apoteose. Além dos nomes da primeiríssima linha — o austríaco Michael Haneke, o russo Andrei Zvyagintsev, o ucraniano Sergei Loznitsa ou o francês Jacques Doillon —, vai ser possível reencontrar criadores que, com filmes “melhores” ou “piores”, são, de facto, referências incontornáveis nas dinâmicas temáticas e estéticas do cinema contemporâneo. Lembro apenas, entre esses outros, os irmãos americanos Benny e Josh Safdie e o francês Robin Campillo, este argumentista habitual dos filmes de Laurent Cantet (incluindo A Turma, Palma de Ouro de 2008).
Cannes continua a ter esse poder invulgar de encher o espaço mediático do planeta Terra com as imagens da sua passadeira vermelha, sem deixar de conservar um salutar impulso vanguardista (a palavra caiu em desuso, mas não a devemos recear). Por isso mesmo, não será arriscado antecipar que um dos acontecimentos fulcrais do festival deste ano será a apresentação do projecto de realidade virtual de Alejandro G. Iñárritu. Chama-se Carne y Arena e, muito justamente, está a ser promovido como a “primeira instalação de realidade virtual” acolhida pela selecção oficial de Cannes.
Concebida para a Fundação Prada, em Milão, onde estará patente de Junho a Dezembro, Carne y Arena resultou da colaboração de Iñárritu com Emmanuel Lubezki (director de fotografia de vários dos seus filmes, incluindo The Revenant), definindo-se como uma experiência singular de seis minutos e meio, propondo uma visão dos dramas dos refugiados em que se baralham as condições de “sujeito e observador”. Já não será um filme? Provavelmente, não. Mas o século XXI tem-nos ensinado que a história do cinema continua para além dos filmes.

Vinyl na FNAC, com John Gonçalves
— magazine SOUND + VISION [hoje]

É o momento de voltarmos a celebrar os discos de vinyl! Em mais uma edição do magazine SOUND + VISION, vamos estar na FNAC evocando factos e memórias da história do vinyl, contando com a presença de John Gonçalves, de The Gift — a banda de Alcobaça acaba de lançar Altar, com produção de Brian Eno, e, além disso, tem um álbum chamado... Vinyl

* SOUND + VISION magazine
FNAC (Chiado), hoje, 18 Abril, 18h30