segunda-feira, abril 06, 2026

Paul McCartney
— como sobreviver aos Beatles?

Linda e Paul McCartney, ao som dos Wings

Como foi a vida de Paul McCartney depois dos Beatles? Realizado por Morgan Neville, Man on the Run revisita a criação de uma nova banda, os Wings, celebrando o seu singular trajecto criativo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 março).

Sem ter passado pelas salas (o que é uma pena...), o documentário Man on the Run, sobre Paul McCartney, está disponível na plataforma Prime Video. Esquematizando, trata-se de evocar a sobrevivência artística de McCartney depois dos Beatles, muito para lá dos clichés mediáticos que, a partir de 1970, se foram acumulando. Sim, é verdade que a relação de McCartney com John Lennon passou por tempos complicados, mas Lennon resumiu bem o problema: “Já não posso discutir com o meu melhor amigo?” Dito de outro modo: importa respeitar a complexidade das pessoas e relações retratadas — é o que faz o realizador americano Morgan Neville, “oscarizado” em 2014 pelo seu A Dois Passos do Estrelato, dedicado à existência quase sempre anónima das chamadas “backup singers” (cantoras de apoio de muitas formações musicais).
Como é que McCartney viveu o fim dos Beatles? Como é que, a partir do vazio artístico e existencial gerado pelo fim do quarteto de Liverpool, ele acabou por fundar uma nova banda, os Wings, protagonizando um singular capítulo musical? A cronologia é suficientemente bizarra para nos fazer perceber que nada foi linear, mesmo quando foi friamente burocrático — aliás, como o documentário recorda, passaram-se vários anos, incluindo algumas peripécias mais ou menos desagradáveis, até ser resolvido o imbróglio jurídico da distribuição dos direitos das canções dos Beatles por George Harrison, Ringo Starr, Lennon e Paul.
Assim, o derradeiro LP dos Beatles, Let it Be, foi posto à venda a 8 de maio de 1970. O primeiro álbum a solo de McCartney, intitulado apenas McCartney, surgira cerca de três semanas antes, a 17 de abril. A decomposição emocional da banda era cada vez mais nítida, de tal modo que todos já tinham projectos em nome próprio. Lennon era o mais activo, com três registos co-assinados com Yoko Ono, incluindo Wedding Album. Harrison já lançara dois, sendo Ringo o mais “atrasado”, com Sentimental Journey a surgir a 24 de abril, uma semana depois de McCartney, mas ainda antes do aparecimento de Let it Be... Isto sem esquecer que, a 9 de abril, o dossier de imprensa do álbum de McCartney incluía uma entrevista em que ele era questionado sobre a possibilidade de se refazer a dupla Lennon/McCartney. A sua resposta minimalista entrou para a história como símbolo de uma tragédia cultural: “Não.”
A agilidade narrativa do documentário leva-nos a ouvir (e sentir) as canções como algo mais, muito mais, do que meros artefactos musicais — o que, convenhamos, já não seria pouco. Especialmente eloquentes são os momentos de confluência de factos familiares, logísticos e, precisamente, musicais. Exemplo? O casamento de Paul com Linda Eastman (consagrada também pela sua obra fotográfica, como Linda McCartney); depois, a opção por um refúgio, “longe da civilização”, na Escócia; enfim, o aparecimento do segundo álbum, Ram (1971), co-assinado por Paul e Linda — uma obra-prima menosprezada por muitos críticos da época que, em boa verdade, ajudou toda uma juventude a reconhecer que, de facto, não haveria mais Beatles.

O som dos Wings

Podemos, enfim, conhecer e reconhecer os Wings (o primeiro álbum, Wild Life, foi editado em finais de 1971) como um projecto que transcende a procura de uma nova banda “à maneira” dos Beatles. McCartney sentia, sem dúvida, que precisava de um ambiente que lhe permitisse construir um espaço criativo em que persistisse a sensibilidade “familiar” do passado. O certo é que foi nesse ambiente que nasceu uma nova sonoridade. Mesmo com a instabilidade dos que foram entrando e saindo, os Wings viveram uma saga muito própria, afinal com uma afirmação exuberante nos palcos que os Beatles tinham abandonado a meio da sua década gloriosa — o álbum Band on the Run (1973) ficou como símbolo nuclear de tudo isso.
A realização de Neville possui a arte e o engenho de valorizar a habitual panóplia de materiais de arquivo (incluindo os filmes da família McCartney) sem nunca recorrer aos estereótipos da “fama” ou do “sucesso”, antes devolvendo-nos a alegria de uma invulgar viagem musical. Por alguma razão, os elementos de animação que Man on the Run utiliza contaminam o documentário com uma deliciosa ambiguidade: podia ser um conto de fadas, mas é um romance de gente viva, próxima de nós.

>>> Band on the Run, lyric video.


>>> Kreen-Akrore, tema que encerra o alinhamento do álbum McCartney (todos os instrumentos são tocados por Paul McCartney).
 

>>> Let it Be.
 

domingo, abril 05, 2026

Psycho Suite [Bernard Herrmann]

Hitchcock lembrando que é fundamental ver Psycho desde o começo
[cartaz da campanha de lançamento, em 1960]

No último SOUND + VISION Magazine, dedicado a Alfred Hitchcock, este terá sido um dos dos momentos mais singulares. Ou seja: a Suite de Psycho [Psico, 1960], de Bernard Herrmann, interpretada pela BBC Concert Orchestra, conduzida por Keith Lockhart — foi num concerto dos BBC Proms, no Royal Albert Hall, a 12 de agosto de 2011.

SOUND + VISION Magazine
Próxima edição: 'Os 50 anos de Einstein on the Beach, de Philip Glass'
FNAC Chiado: 2 maio (17h00).

sábado, abril 04, 2026

(Elizabeth) Taylor + Taylor (Swift)

Aí está o teledisco de Elizabeth Taylor, porventura a canção mais emblemática do álbum The Life of a Showgirl, de Taylor Swift. É uma genuína coleção de memórias — momentos emblemáticos da filmografia de Elizabeth Taylor —, reforçando o laço simbólico que liga a solidão de uma estrela como Taylort Swift ao tempo e ao imaginário de um universo edificado sobre o conceito irradiante de star.
 

>>> Eis os filmes citados no teledisco de Elizabeth Taylor.
>>> A imagem final do teledisco servia de abertura ao trailer original de Bruscamente no Verão Passado (1960).
 

Alfred Hitchcock
* SOUND + VISION Magazine (HOJE, 4 abril)

A estreia do derradeiro filme de Alfred Hitchcock, Intriga em Família, ocorreu há 50 anos. Eis um excelente pretexto para revisitarmos a obra do mestre do “suspense”, além do mais observando como, na sua obra, a música nunca teve uma função banalmente decorativa.

>>> FNAC Chiado — 4 de abril (17h00).

sexta-feira, abril 03, 2026

U2: um EP pascal

Depois do lançamento, a 18 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, do álbum Days of Ash, os U2 repetem o tom e confirmam a energia. Ou seja: sem aviso prévio, aí está o EP Easter Lily — o dia é Sexta-feira Santa e o título uma vénia a Patti Smith (recordando o álbum Easter, de 1978). Cartão de visita: Song for Hal, canção de homenagem ao produtor musical Hal Willner.
 

A justiça que o futebol inventou

Filip Dujic a falar para a multidão: onde está a lei?

O VAR nasceu para apaziguar o futebol. Na prática, a sua existência multiplica as formas de agitação mediática — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 março).

Filip Dujic é um árbitro de futebol canadiano, de ascendência croata, nascido em Toronto, em 1994. Com uma carreira de grande prestígio, começou a destacar-se em jogos da Primeira Liga do Canadá. A partir de 2022, passou a fazer parte da galeria de árbitros da Major League Soccer (MLS), um dos maiores campeonatos do continente americano, envolvendo um total de 30 clubes (27 dos EUA e 3 do Canadá). Em 2024, a FIFA integrou-o na lista de árbitros disponíveis para jogos internacionais.
Algumas imagens do seu trabalho num jogo da MLS são frequentemente citadas como exemplo eloquente da arbitragem com VAR. Aconteceu a 23 de junho de 2024 no Energizer Park, na cidade de St. Louis, Missouri. Jogavam St. Louis City SC e Atlanta United FC. Chamado pelo VAR para avaliar a legalidade de um lance de golo do St. Louis, Dujic utilizou o dispositivo sonoro que passou a fazer parte do equipamento dos árbitros para comunicar a sua decisão a todo o estádio. Começou por dizer: “Após revisão, não houve fora de jogo...”, sendo interrompido por um aplauso entusiástico da multidão. Mas, com a mão direita, Dujic fez sinal de que ainda não tinha acabado, acrescentando: “Todavia, antes do golo, houve uma falta do St. Louis. Decisão final: livre directo.” A intervenção foi recebida com uma vaia monumental vinda das bancadas.
O video do episódio pode ser visto no YouTube e em vários sites de órgãos de informação, constituindo um daqueles fenómenos que nos habituámos a classificar como virais. Na prática, produzem quase sempre o mesmo efeito sonâmbulo: “toda a gente” vê e partilha, e quanto mais se vê menos se pensa sobre o que estamos a partilhar. É uma perversão típica do nosso admirável mundo digital: o prazer do pensamento vai sendo anulado pela histeria que nos garante que estamos todos a ver o mesmo, ao mesmo tempo.



O episódio envolve uma cristalina verdade ideológica. Ou seja: do sistema ideológico que, da FIFA até ao mais anódino comentador, passou a dominar o espaço público do futebol. É um sistema que, em nome de uma idealização muito particular da “verdade desportiva”, vai promovendo uma noção de justiça cujos efeitos simbólicos importa discutir.
Não apenas a justiça dos resultados que assombra quase todas as discussões sobre futebol. Aí predomina a noção pueril segundo a qual cada ponto de vista subjectivo possui um inquestionável valor de lei. Quando o comentador considera que a equipa A jogou melhor que a equipa B, a eventual vitória da equipa A é “justa”. Fica por esclarecer qual é a lei (logo, a justiça) que impede que uma equipa jogue mal... e ganhe um jogo. Mensagem implícita: como disputa desportiva, o futebol deve obedecer a uma legalidade que, afinal, não está escrita em nenhum compêndio.
Embora decorrendo da mesma base ideológica, a cena vivida por Dujic possui uma dimensão diferente, quanto mais não seja porque ele é, de facto, o garante da aplicação de um sistema legal (as leis do jogo, bem entendido). Ora, a decisão da lei passou a ser assunto partilhado com as multidões, um pouco como os enforcamentos medievais, celebrados ou condenados pela assistência em volta do patíbulo.
Já não há enforcados. O certo é que, em nome das melhores intenções, o sistema legal do futebol foi “transferindo” uma parte da sua legitimação para o espaço colectivo do público. Dujic mostra-se impecável e rigoroso nas suas funções, mas não deixa de ser um joguete das pulsões da multidão — sendo a multidão concebida como um colectivo abstracto que, por princípio, existe para lá de qualquer valor legal.
Episódios deste teor são apenas uma variação da vulgaridade mediática que o VAR gerou. Criado em nome de uma transparência que iria apaziguar os diferendos interpretativos do futebol, o VAR apenas multiplicou tais diferendos: primeiro, através dos comentadores que gastam horas a especular sobre os centímetros de um fora de jogo ou a intensidade de um choque entre dois jogadores; depois, graças aos dirigentes que conseguem transformar qualquer resultado negativo do seu clube numa tragédia legal e, não poucas vezes, política. Nas transmissões televisivas, esses dirigentes aparecem nas tribunas dos estádios, silenciosos, de semblante fechado, talvez a pensar na sua reeleição ou apenas tristes com o estado das coisas — em qualquer caso, não parece que estejam a desfrutar o futebol.

segunda-feira, março 30, 2026

A solidão vivida perante um microfone

Will Arnett: o microfone liga-me a quem?

Para quem gosta de associar os Oscars a uma qualquer diatribe mais ou menos escandalosa, eis uma boa oportunidade: Ainda Funciona?, de Bradley Cooper, é uma verdadeira preciodidade, uma pérola da produção americana de 2025 e... ficou fora das nomeações (em boa verdade, entre todas as entidades que participam na temporada dos prémios, ninguém lhe deu a devida atenção).
Aqui encontramos o retrato inesperado e subtil de um homem que descobre o mundo do “stand-up”, com uma magnífica interpretação de Will Arnett — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 fevereiro).

Quando alguém chama a atenção para erros que se vão cometendo na escolha de títulos portugueses para alguns filmes, não se trata de pôr em causa a dedicação profissional seja de quem for, mas de perguntar se um determinado título serve, realmente, o respectivo filme. Daí o reparo para o título dado a Is This Thing On?, a nova realização de Bradley Cooper. Ou seja: Ainda Funciona?. Como se algo estivesse à beira de uma avaria... Será que ninguém se deu conta de que, actuando a personagem central em sessões de “stand-up”, esta é uma frase comum nos bastidores de muitos espectáculos? Perante o microfone, alguém pergunta, não se “ainda” está a “funcionar”, mas sim (aplicando a dicotomia (“on/off”): “Isto está ligado?”
Na sua aparente ligeireza, estamos perante um dos filmes mais perfeitos que Hollywood produziu ao longo de 2025, ainda que secundarizado pelos profissionais da indústria (ficou a zero nas nomeações para os Oscars). Para lá das suas qualidades como actor, aqui numa personagem secundária, Bradley Cooper confirma-se como um dos realizadores mais subtis da recente produção dos EUA: depois do drama musical (Assim Nasce uma Estrela, 2018) e de um retrato de Leonardo Bernstein (Maestro, 2023), com este Is This Thing On? consegue relançar a vitalidade de um registo devedor da tradição da “comédia de costumes”, mas de facto embrenhado no valor específico dos actores (observe-se o tratamento dos grandes planos) como elemento nuclear de qualquer narrativa cinematográfica — para lá das diferenças, a herança de John Cassavetes está bem viva.
O “stand-up” entra de forma acidental na vida de Alex Novak, personagem que Will Arnett (também co-argumentista) compõe com uma vulnerabilidade emocional rara no cinema dos nossos dias. Divorciou-se de Tess (Laura Dern, por certo numa das melhores composições de toda a sua carreira), mas não sabe como viver as novas formas de solidão que está a descobrir... Até que, de modo imprevisto, entra no Comedy Cellar, um clube de Manhattan, e acaba por se inscrever na lista dos que tentam ali a sua sorte no mundo do “stand-up”.
O fluxo das palavras transforma Alex de forma inesperada, no limite levando-o a duvidar da existência de uma fronteira estanque entre “felicidade” e “infelicidade”. A sua saga, com a mulher e os filhos, envolve o enigma primordial da fala como aquilo que tanto nos liga como nos separa. Este é, por isso, um filme sobre a fragilidade de qualquer laço humano, como se Alex perguntasse: “Estou ou não estou ligado a alguém?”

domingo, março 29, 2026

Wolf Alice, Leaning Against the Wall

A banda londrina Wolf Alice merece o rótulo clássico de alternativa, ainda que a sua energia resulte também da capacidade de integrar elementos díspares de inspirações tão diversas como o shoegaze ou o grunge. O seu quarto álbum de estúdio, The Clearing, é mais uma ilustração feliz dessa pluralidade, além do mais reforçando o peso decisivo da voz e da pose de Ellie Roswell — foi ela, aliás, que, em 2010, fundou os Wolf Alice com o guitarrista Joff Oddie; dois anos mais tarde chegaram o baixista Theo Ellis e o baterista Joel Amey.
Ei-los, no SNL, interpretando Leaning Against the Wall, um dos temas do novo álbum.
 

sábado, março 28, 2026

Clovis Nicolas, fiel ao blues

2019 © Chris Drukker

O contrabaixista franco-americano Clovis Nicolas mantém-se fiel à herança plural do blues. Aí está o seu álbum mais recente, Blues in Blueprint, a confirmar a coerência, e também a consistência, do seu estilo, na boa companhia de Larry Goldings (piano) e Carl Allen (bateria). Ou seja: uma bela reinvenção do formato mais clássico do trio jazzístico, aqui apresentado com o tema tradicional que abre o novo registo: Old Stack O'Lee Blues.

Blue Moon,
ou a arte nunca desiste da beleza

Ethan Hawke: celebrando a herança de Lorenz Hart

Richard Linklater é um realizador que gosta de revisitar a história do cinema. Com Blue Moon, propõe-nos uma maravilhosa redescoberta de Lorenz Hart, autor dos versos de centenas de canções lendárias — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 fevereiro).

Lorenzo Hart
Há muito que o género musical deixou de ser uma presença regular nas salas de cinema. Dir-se-ia que os espectadores que aprenderam a “ver” a música através de telediscos e telemóveis não têm disponibilidade para as gloriosas performances de Fred Astaire, Judy Garland ou Gene Kelly. Face ao filme Blue Moon, de Richard Linklater, digamos, para simplificar, que a sua maravilhosa evocação de um dos grandes letristas da história do musical, Lorenz Hart (1895-1943) pode servir para que não continuemos a alienar memórias preciosas.
Convém esclarecer que Blue Moon não é um musical — nem sequer é um filme em que haja qualquer momento coreográfico típico do género. Nada disso: este é um retrato de Hart numa única noite e praticamente num único cenário, o lendário restaurante Sardi’s em Manhattan, Nova Iorque.
Tudo acontece a 31 de março de 1943, quando Hart assiste à estreia do musical Oklahoma! (“com um ponto de exclamação”, como não se cansa de sublinhar), com música de Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II. Agastado com o espectáculo, abandona o seu camarote e refugia-se no Sardi’s que, um pouco mais tarde, será palco de uma recepção à dupla de autores. A sua prostração resulta menos do musical e mais do facto de Rodgers — com quem escrevera 28 musicais e mais de 500 canções, incluindo Blue Moon, Manhattan e Little Girl Blue — ter posto fim à sua colaboração, optando por trabalhar com Hammerstein. Na verdade, a vida de Hart, marcada pela solidão e o alcoolismo, estava já no capítulo final. Viria a falecer cerca de oito meses mais tarde, a 22 de novembro — a informação da sua morte constitui mesmo o prólogo do filme de Linklater.
Dito isto, não será fácil adivinhar o misto de alegria, sarcasmo e infinito amor pelo trabalho artístico que contamina todo o filme de Linklater. Claro que a composição de Hart por Ethan Hawke, num registo tão exuberante quanto carregado de subtis emoções, não será estranha à excelência dos resultados — foi, aliás, nomeado para o Oscar de melhor actor (é a sua quinta nomeação, sem esquecer que duas delas, em 2005 e 2014, foram na categoria de argumento adaptado em dois filmes também de Linklater, Antes do Anoitecer e Antes da Meia-Noite). Seja como for, importa não secundarizar o prodigioso argumento original assinado por Robert Kaplow (também nomeado na respectiva categoria), transformando o Sardi’s num palco de muitos contrastes em que Hart vai enunciado, ora em tom dramático, ora através de um humor contagiante, o seu fundamental princípio artístico e, mais do que isso, existencial. A saber: nunca desistir da beleza.
O que é, então, a beleza? A expressão mais visível é a personagem (fictícia) de Elizabeth Weiland, interpretada pela sempre impecável Margaret Qualley. Tal como confessa ao “barman” Eddie (Bobby Canavale), Hart tem por ela uma paixão intensa que, em qualquer caso, transcende a sexualidade — Hart confessa-se também como homossexual. Para ele, na relação com cada ser humano, tal como em cada verso das suas canções, a beleza é essa vibração sem nome que nos liberta das rotinas do quotidiano, da desumanização social e também da hipocrisia das relações humanas.

Welles, Godard & etc.

Como se prova, Linklater é um autor apostado em devolver o cinema à cinefilia, quer dizer, à consciência militante de que os filmes são (ou podem ser) uma arte que não abdica da celebração da beleza das histórias que se contam — e também daqueles que as vivem.
Afinal, com Me and Orson Welles (2008), ele já tinha trabalhado a partir de um romance do seu argumentista, Kaplow, evocando o trabalho de Welles no Mercury Theatre, em 1937 (quatro anos antes de realizar O Mundo a Seus Pés); entretanto, o ano passado, Linklater ofereceu-nos Nouvelle Vague, belíssima evocação da rodagem da primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard, em 1959. Como Hart escreveu em Blue Moon, a lua pode “transformar-se em ouro” — não receemos a beleza da metáfora.