quinta-feira, outubro 01, 2026

O terror que vem dos ecrãs
[Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma]

Gillian Anderson e Hannah Eibinder (em fundo): ficção ou realidade?

Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma foi uma das revelações do último Festival de Cannes: com elementos do género de terror, a realizadora Jane Shoebrun propõe uma sofisticada reflexão sobre o poder dos ecrãs e das suas imagens — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 setembro).

Revelado na secção “Un Certain Regard” do último Festival de Cannes, Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma, escrito e realizado por Jane Schoenbrun (nascida em Nova Iorque, em 1987), tem um não sei quê de objecto de culto. Eis um filme de singulares relações com o género de terror que, na sua ousadia, corre o risco de afastar os espectadores viciados em maniqueísmos de “gosto”: os anti-terror limitar-se-ão a confirmar o seu pessimismo; os fanáticos poderão dizer que as regras não são estas...
Resta saber se conseguimos envolver-nos com o filme evitando tais maniqueísmos. Mesmo com imagens típicas do terror contemporâneo (incluindo algumas situações salpicadas de abundante tinta vermelha), talvez nem sequer faça muito sentido olharmos o filme apenas como uma variação sobre as regras, sobretudo os lugares-comuns, do actual género de terror. Para percorrermos a sua sedutora estranheza, valerá a pena pensá-lo para lá do próprio género.
Este é, afinal, um filme sobre um filme (de terror). Esquematizando, começamos por conhecer Kris Williams (Hannah Eibinder), cineasta de sensibilidade queer, obcecada por Camp Miasma, filme de terror que viu ainda criança e de que está empenhada em concretizar uma sequela. Ao visitar a actriz que, muito jovem, protagonizou o filme, de seu nome Billy Presley (Gillian Anderson, numa composição que transfigura a sua pose cerebral na série Ficheiros Secretos), Kris depara-se com memórias que, num certo sentido, “duplicam” a sua visão de Camp Miasma — até porque Billy vive nos cenários em que o filme foi rodado, cenários em que o assassino do próprio filme parece sobreviver...
Parece confuso. E é, de facto. Entenda-se: não pelas peripécias da história do filme (ou do filme dentro do filme), antes porque o que está em jogo é, em última instância, o efeito de Camp Miasma na visão e, mais do que isso, nas visões que assombram Billy e Kris — tais visões irão contaminar o seu diálogo, a sua aproximação intelectual e, por fim, os seus desejos sexuais. Aquilo que interessa a argumentista/realizadora é a relação das personagens com o que vêem no ecrã, a ponto de a vida ficcionada se transfigurar em vida vivida.
Nesta perspectiva, Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma assume-se como um verdadeiro ensaio, de uma só vez racional e paródico, sobre uma tragédia dos nossos dias. A saber: a dependência das imagens — e, mais especificamente, dos ecrãs — como entidades perversas, por vezes aterrorizantes, que determinam todas as relações humanas, das trocas quotidianas à entrega sexual, passando, claro, pelo estatuto social do cinema.

Um novo crepúsculo

Schoenburn não esconde que há uma genuína dimensão de tese no seu filme, integrando inequívocas citações visuais de filmes como Psico (Alfred Hitchcock, 1960) ou Videodrome (David Cronenberg, 1983) — são referências que, escusado será sublinhá-lo, também escapam às rotinas do cinema de terror. Sem esquecer que há um paralelo explícito entre o abandono de Billy naquele cenário soturno e a solidão da personagem de Gloria Swanson no clássico Sunset Boulevard/Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950), ela que surgia como símbolo terminal do classicismo de Hollywood.
Ainda segundo Schoenburn, convém acrescentar que Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma conclui uma trilogia sobre ecrãs (“Screen Trilogy”) iniciada com as suas duas primeiras longas-metragens: We're All Going to the World's Fair (2021, passou no MotelX desse ano) e I Saw the TV Glow (2024) — o primeiro retratando o pesadelo de uma adolescente que corresponde a um apelo funesto do seu computador: o segundo centrado num rapaz e uma rapariga, estudantes, que viverão para sempre assombrados por uma série televisiva descoberta na adolescência. Estamos perante contos morais sobre o poder maligno que pode habitar os ecrãs que consumimos — nas nossas sociedades “liberais”, o assunto é tabu, mas é aí que reside o verdadeiro terror.