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| Mudar de Vida [Midas] |
A rotina das efemérides faz-nos pensar nas efemérides que não entram na rotina. Subitamente, Mudar de Vida, de Paulo Rocha, reaparece de forma mais ou menos inesperada, lançando uma pergunta insólita: que dizer, 60 anos depois?
Com Os Verdes Anos, lançado três anos antes, Rocha tinha aberto os caminhos de uma poética citadina (lisboeta, antes do mais, embora universal no seu desencanto trágico), de algum modo completada pelo "documentário-em-forma-de-ficção" proposto por Fernando Lopes, em 1964, com o seu Belarmino. Com o conflito passional que emerge em Mudar de Vida, tendo por cenário a praia do Furadouro, próximo de Ovar, não é apenas o cenário "social" que muda. É também o lirismo de Os Verdes Anos que se transfigura numa demanda de realismo cuja energia ecoa, de modo ambíguo, na história subsequente do cinema português.
Dito (ou perguntado) de outro modo: como construir um realismo que não atraiçoe as convulsões da nossa história colectiva e os engimas individuais das suas ficções? Passadas seis décadas, talvez possamos dizer isto: Mudar de Vida nasce de um impulso realista que possui a energia da tragédia — provavelmente, de Paulo Rocha a Pedro Costa, passando por Alberto Seixas Santos, está por fazer a releitura, e também a reavalição, dessa tão frágil tradição.
>>> Tema de Mudar de Vida (Carlos Paredes).
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