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| Renate Reinsve: a actriz e as suas máscaras |
Premiado no Festival de Cannes, com nove nomeações para os Oscars, Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, propõe um retrato familiar que é também uma visão dos bastidores do cinema. Com uma coleção de notáveis intérpretes (este texto foi publicado no Diário de Notícias (29 janeiro).
Distinguido em Cannes com o Grande Prémio (segundo na hierarquia do palmarés do festival), agora lançado nas salas portuguesas, Valor Sentimental surge na corrida para os Oscars numa posição invejável. Com nove nomeações, a realização do norueguês Joachim Trier integra os candidatos a melhor filme e melhor filme internacional — não é uma situação inédita, mas não deixa de ser uma proeza a registar. Talvez ainda mais surpreendente, e também pouco frequente, são as suas quatro nomeações para prémios de interpretação: Renate Reinsve, para melhor actriz, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleas, ambas na categoria de melhor actriz secundária, e Stellan Skarsgård, para melhor actor secundário.
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| Joachim Trier |
Claro que um actor não se resume a um rosto “expressivo”. Mesmo quando um filme aposta nos grandes planos como figura nuclear da sua narrativa — veja-se a admirável primeira longa-metragem de Kristen Stewart, A Cronologia da Água, estreada a semana passada —, os movimentos dos corpos e as singularidades dos cenários estão longe de ser indiferentes para os resultados finais. Dito isto, importa sublinhar algo de mais complexo e envolvente: se a questão da performance dos actores é tão decisiva na dramaturgia de Valor Sentimental, isso decorre também do facto de estarmos perante um filme sobre... actores. Ou mais exactamente: sobre a procura de uma actriz.
Quem procura uma actriz é um cineasta, precisamente, chamado Gustav Borg (Skarsgård). O filme que está a preparar, para lá dos problemas de financiamento, reflecte histórias familiares traumáticas, enraizadas em memórias da Segunda Guerra Mundial. Borg tem duas filhas, Nora (Reinsve) e Agnes (Lilleas). Nora é actriz e seria a escolha “natural” para o papel central, mas as tensões entre pai e filha levarão Borg a convidar uma actriz americana, Rachel Kemp (Fanning), de algum modo fazendo reaparecer aquelas memórias que todos parecem querer contornar...
Por vezes, Trier não resiste a fazer uma cena “simbólica” mais ou menos dispensável para expor uma determinada mudança no curso da acção; outras vezes, acrescenta canções na banda sonora cujo efeito tem algo de redundante — eram, aliás, problemas que marcavam o seu filme anterior, A Pior Pessoa do Mundo (2021), também protagonizado por Renate Reinsve, ainda que Valor Sentimental me pareça francamente mais consistente. O seu tema fulcral será, afinal, a pertença de cada ser humano a um determinado lugar.
O lugar decisivo de Valor Sentimental é, assim, a casa de família que funciona como um refúgio ambíguo, uma espécie de gruta secreta, ainda que exposta à luz do mundo exterior, recheada de tudo aquilo que as personagens partilham, mesmo (ou sobretudo) quando resistem a dizê-lo. Aliás, essa casa mobiliza tanto mais a curiosidade do espectador quanto, nas suas formas insólitas (tropicais?), parece existir como uma entidade que recusa diluir-se na paisagem urbana.
Fundamental é, por isso, o modo como todas as acções do filme estão pontuadas por uma teatralidade que nasce do modo como cada personagem tenta, muitas vezes, mascarar-se perante a personagem que tem à sua frente. Fará mesmo sentido dizer que o confronto de Borg e Nora se decidirá (ou não) quando pai e filha arriscarem retirar as suas máscaras... Com uma nuance que a realização de Trier sabe explorar com assinalável pudor: cada uma dessas máscaras já contém uma dimensão vital da própria verdade.


