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| Scarlett Johansson durante a rodagem de A Grande Eleanor [The Hollywood Reporter] |
O trabalho da actriz americana Scarlett Johansson está longe de se esgotar na Viúva Negra que assume nos filmes da Marvel. A Grande Eleanor, a sua estreia na realização, é um belo exercício cinematográfico, entre humor e tragédia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 janeiro).
A vida artística de June Squibb dava um filme — literalmente, e também simbolicamente. Até porque começa muito antes de ela chegar ao cinema. Foi acumulando uma longa experiência de palco, primeiro num grupo teatral de Cleveland, Ohio, mais tarde em diversas produções da Broadway. O seu primeiro filme, Alice, de Woody Allen, surgiu em 1990 — o ano do seu 61º aniversário. Assumindo sempre personagens secundárias, vimo-la em títulos como A Idade da Inocência (1993), de Martin Scorsese, ou Nebraska (2013), de Alexander Payne, este valendo-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actriz secundária. Em A Grande Eleanor, revelado o ano passado em Cannes, ela é a figura central — aos 96 anos de idade será, por certo, para a maioria dos espectadores, uma maravilhosa descoberta.
Se acreditarmos que o cinema se faz de muitos cruzamentos profissionais que, por vezes, em momentos de eleição, são também fenómenos de delicada cumplicidade afectiva, seremos levados a sublinhar o paradoxo (mas não a contradição) que faz mover A Grande Eleanor. Assim, June Squibb é dirigida por uma realizadora estreante, que é também actriz: Scarlett Johansson (41 anos). E o menos que se pode dizer é que as singularidades de um novo olhar encontram o eco perfeito na personagem de Eleanor, velha senhora que vai descobrir como a história de cada um se faz, conscientemente ou não, das heranças de muitas histórias de outras pessoas.
Se acreditarmos também que a consistência de um filme, a par do seu poder de mobilizar os nossos pensamentos e emoções, começa nos elementos humanos que o respectivo argumento coloca em movimento, então teremos que citar outro nome: o da argumentista de A Grande Eleanor, Tory Kamen (33 anos), também uma estreia cinematográfica. Enfim, tudo se conjuga para destacarmos a singeleza desta revelação (ou revelações): estamos perante um filme sobre a passagem do tempo.
Que tempo é esse? No centro dos acontecimentos, estão Eleanor e a sua melhor amiga, Bessie (Rita Zohar), para sempre assombrada pelas memórias do Holocausto. Vivem juntas na Florida: Eleanor com o seu humor desconcertante; Bessie, sobrevivente dos campos de concentração, numa procura de paz interior que Eleanor tenta favorecer e, de alguma maneira, proteger. Quando Bessie morre, Eleanor muda-se para Nova Iorque, acabando por frequentar, mais por curiosidade do que por motivação, um grupo de apoio a pessoas idosas. Na verdade, os respectivos elementos sobreviveram às perseguições nazis — para Eleanor, tudo se passa como se estivesse a reviver os relatos trágicos de Bessie...
Passando ao lado do “segredo” que Eleanor transporta como uma existência alternativa, digamos que o seu dia a dia se vai transformar num exercício de resgate através da herança (factual e emocional) que recebeu de Bessie. E tanto mais quanto tudo acontece através do diálogo com alguém, Nina (Erin Kellyman), fascinada pelos meandros da verdade, estudante de jornalismo que descobre em Eleanor uma inesperada testemunha do que importa não esquecer nem esquematizar.
Uma lógica redentora
Scarlett Johansson encena tudo isso com o tempero de um humor sofisticado que nunca anula, antes sublinha, os horrores que as memórias de Bessie fixaram. Mais do que isso: subitamente, a herança histórica do extermínio dos judeus pelos nazis surge, não como um capítulo congelado na história colectiva, antes uma nuvem de memórias que persiste na consciência social, acabando por marcar todos os destinos individuais.
A Grande Eleanor apresenta-se com a aparência de uma clássica “comédia de costumes” para, a pouco e pouco, cena a cena, nos confrontar com a dor de uma herança incontornável. A protagonista tenta integrá-la numa lógica redentora, ao mesmo tempo descobrindo a dificuldade de partilhar as suas experiências com os outros. Estamos, enfim, perante uma subtil parábola filosófica: mesmo depois dos 90 anos, a nossa identidade será sempre um projecto em construção.

