sexta-feira, fevereiro 13, 2026

De James Stewart a Timothée Chalamet

Timothée Chalamet: o pingue-pongue é um estado de alma

Marty Supreme, de Josh Safdie, faz o retrato de um jogador de pingue-pongue para quem o desporto é uma questão fulcral de afirmação: no papel central, Timothée Chalamet é absolutamente brilhante — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 janeiro), com o título 'Saudades de James Stewart'.

Será que com a sua interpretação em Marty Supreme Timothée Chalamet vai ganhar, na cerimónia do dia 15 de março, o Oscar de melhor actor? A pergunta não se esgota na habitual agitação mediática destes tempos em que, dos órgãos de comunicação mais especializados (leia-se: a Variety) até ao mais anódino blog cinematográfico, quase todos parecem ter uma chave mágica para abrir os envelopes antes do tempo... Acontece que com esta personagem de Marty Mauser, um jogador de pingue-pongue apostado em ser um lendário campeão, Chalamet consegue a proeza de relançar toda uma mitologia que pertenceu a actores como Mickey Rooney, Henry Fonda e, sobretudo, James Stewart.
Tal hipótese pontua e, num certo sentido, assombra o filme dirigido por Josh Safdie, agora sem a companhia do irmão (recorde-se que, recentemente, também descobrimos The Smashing Machine: Coração de Lutador, realizado a solo por Benny Safdie). Em boa verdade, a história de Marty, livremente inspirada na vida de Marty Reisman, cinco vezes campeão do mundo nas décadas de 1940/50, transcende os limites técnicos do pingue-pongue. Aliás, colhe nesse desporto a energia que a transforma numa epopeia sobre os ziguezagues da identidade americana no contexto pós-Segunda Guerra Mundial.
A questão é tanto mais curiosa e envolvente quanto Safdie concebeu o seu filme como uma aventura trepidante (o adjectivo só peca por defeito) em que a precisão da época da acção vai sendo “contaminada” por uma sugestiva e, em última instância, poética ambiguidade temporal. Assim, é em 1952 que Marty, empregado de uma sapataria em Nova Iorque, começa a imaginar-se campeão do mundo cuja sagração poderá ter lugar em Tóquio, mas na banda sonora vamos escutando algumas canções emblemáticas dos anos 80, incluindo Everybody Wants to Rule the World, pelos Tears for Fears.
As infinitas confusões em que Marty se vai envolvendo — incluindo uma paixão volátil por Kay Stone, uma celebridade do mundo do cinema interpretada com irónico didactismo por Gwyneth Paltrow — definem, afinal, uma procura identitária que, no seu caso tão particular, não é estranha ao lugar que, logo após o fim da guerra, acolheu os judeus no interior do tecido social americano.
A herança do modelo de James Stewart (que, como sabemos, foi na década de 1950 um dos rostos principais do universo de Alfred Hitchcock) decorre de uma vontade de afirmação que, em particular nos bastidores do pingue-pongue, não cede às manobras que podem falsear a verdade humana do desporto. Na sua pureza moral, Chalamet encarna um modelo de heroísmo que integra a mais comovente humildade — talvez mereça mesmo uma estatueta dourada.