segunda-feira, janeiro 12, 2026

Avatar: o fim da utopia?

Oona Chaplin + CGI

A saga Avatar já tinha dois capítulos, lançados em 2009 e 2022. Agora estreado nas salas de todo mundo, o terceiro, Avatar: Fogo e Cinzas, parece esgotar as potencialidades temáticas e espectaculares deste universo que se queria utópico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 dezembro).

Tome note na sua agenda, caro leitor: no dia 19 de dezembro de 2031 será lançado nas salas de cinema de todo o mundo o quinto e derradeiro capítulo da saga Avatar, concebida, produzida e realizada por James Cameron. Estamos, por assim dizer, a meio do caminho. Isto porque está nas salas o terceiro título do projecto — Avatar: Fogo e Cinzas —, fazendo-nos sentir a necessidade de parar para perguntar: afinal, para onde vai tudo “isto”?
Aquando da estreia do filme inaugural, Avatar (2009), Cameron surgia como líder de um projecto grandioso. E por boas razões. Estava em jogo a possibilidade de conciliar uma verdadeira revolução tecnológica com a reinvenção de matrizes narrativas em que o apelo fantástico integrava a celebração de uma harmonia utópica dos humanos com os elementos e os valores do mundo natural — Pandora, o reino do povo Na’vi, humanóides de pele azul, representava a concretização cinematográfica de tal harmonia.

O mundo do CGI

Cameron apresentava-se como o mágico que, definitivamente, ia consagrar na paisagem do cinema uma sigla que, já há algum tempo, assombrava os filmes (e, claro, os respectivos orçamentos): CGI. As imagens geradas por poderosíssimos computadores (computer-generated imagery) estavam a criar um mundo alternativo em que o trabalho dos actores era filmado, não para ser reproduzido como tal, mas para servir de base à criação de figuras animadas de um renovado mundo de fábula — com o complemento “inevitável” dos óculos das três dimensões.
Devo confessar as minhas limitações na apreciação desse primeiro Avatar. Reconheci as proezas do 3D, mas também os seus desequilíbrios nas relações espaciais de personagens e objectos. De tal modo que, confesso o meu pecado, o filme me pareceu francamente mais interessante quando o vi no televisor caseiro sem o efeito tridimensional.
Com o segundo capítulo — Avatar: O Caminho da Água (2022) —, as limitações do primeiro surgiam contaminadas por retóricas visuais e narrativas algo estranhas ao espírito fundador da saga. Depois de mais de uma década, o efeito tridimensional tinha melhorado de forma significativa (mesmo se o 3D ia suscitando dúvidas, até mesmo de natureza médica, por causa do cansaço de que se queixavam alguns espectadores); em todo o caso, a proliferação de cenas de “acção” visualmente caóticas parecia resultar de uma bizarra aproximação dos lugares-comuns de muitas aventuras de super-heróis.
O que tinha mudado não seria apenas a aproximação de Avatar dos modelos de cinema da Marvel ou da DC Comics, mas também a sua base de produção. Assim, entre 2009 e 2002, mais precisamente em 2019, a 20th Century Fox, produtora do primeiro filme, foi adquirida pelos estúdios Disney (por 71,3 mil milhões de dólares, um dos maiores negócios da história de Hollywood) — Avatar: O Caminho da Água e, agora, Avatar: Fogo e Cinzas exibem a chancela da nova Fox, ou seja, 20th Century Studios.

Retórica visual

Poucos minutos bastam para percebermos que Cameron pôs de lado as prioridades do primeiro filme, a ponto de muitas cenas de Avatar: Fogo e Cinzas parecerem uma (má) imitação da vertigem visual com que o próprio Cameron encenou Aliens: O Recontro Final (1986), segunda etapa de outra “franchise” também lançada pela 20th Century Fox. Nem sequer falta o cliché do interminável tiroteio numa fábrica abandonada, com muitos depósitos metálicos e escadas de ferro...
A utopia transformou-se, assim, numa penosa retórica visual e sonora (“ensurdecedora” seria a palavra mais adequada). Perdeu-se até a sedução cromática dos elegantes animais alados, de tal modo a paleta deste novo filme está dominada por uma banalidade de castanhos em que chegamos a esperar que o Rambo de Sylvester Stallone possa aparecer para esmagar o inimigo...
Enfim, aquilo que seria também um curioso exercício de reconversão (técnica e visual) do trabalho dos actores já não tem o peso que teve no primeiro filme. Sam Worthington, Zoe Saldaña e Sigourney Weaver estão de novo presentes, e há mesmo a novidade de Oona Chaplin (39 anos, neta de Charlie Chaplin) no papel de Varang, uma líder Na’vi — resta saber se o factor humano ainda tem algum peso na concepção de Avatar. Esperemos por 2031 ou, pelo menos, 2029, ano em que será lançado o quarto filme desta “franchise” em aparente decomposição temática e espectacular.