sábado, janeiro 25, 2020

Teledisco com... cães


Com berço em Athens (na Georgia, EUA) em finais de 90, a aventura indie criada por Kevin Barnes (e disversos companheiros de trabalho) sob o nome Of Montreal começou por cativar atenções por via da sua filiação entre a “família” do coletivo de bandas Elephant 6 (o mesmo que, entre outros, revelou nomes como os Neutral Milk Hotel, Olivia Tremor Control, Apples In Stereo ou Elf Power). Apesar da designação de “banda”, na verdade o nome Of Montreal – e reza a mitologia que a designação veio de uma relação falhada com uma rapariga de Montreal, no Canadá – traduz essencialmente a expressão da criatividade, angústias, sonhos e desejos de um só homem. Chama-se Kevin Barnes e, depois de quase dez anos afogado no que em tempos designou ser um gueto indie, viu a sua música ser reconhecida em meados da primeira década do século XXI quando lançou os álbuns. Satanic Panic In The Attic (de 2004) e Sunlandic Twins (2005). Coube todavia ao álbum de 2007 Hissing Fauna, Are You The Destroyer o momento de conquista de um relacionamento mais alargado (e não apenas aclamação crítica) através de um disco que, se por um lado confirmava o gosto pela criação de títulos extensos e intrigantes – como tinha ocorrido em 2001 com Coquelicot Asleep In The Poppies: A Variety Of Whimsical Verse – por outro abria uma frente de trabalho (e exposição) que determinaria rumos futuros na obra dos Of Montreal e, sobretudo, do vincar de uma relação prioritária entre a música e a exposição, quase diarística, de factos e reflexões da vida pessoal de Kevin Barnes e do mundo ao seu redor.

Uma terapia exposta, de certa forma, definida sobre horizontes de possibilidades estéticas que tanto passou já por uma pop retro (que não escondeu um encanto pelos Kinks) ou por texturas psicadélicas por vezes com sabor a paletas de referências dos anos 80 (e que por vezes lembraram uns Legendary Pink Dots), a música que Kevin Barnes tem apresentado como Of Montreal viveu, através desse álbum de 2007, a conquista do poder narrativo que um álbum pode conceder a um conjunto de canções. Nem todos os álbuns editados por Kevin Barnes depois deste disco de 2007 – sem dúvida a sua obra de referência – tiveram por base narrativas tão bem estruturadas ou desenharam episódios musicalmente tão empolgantes. Nunca a sua música foi desinteressante, é verdade. Mas salvo ocasionais novas descobertas ou assimilações, aqui e ali com belas canções, as rotas e destinos da música apresentada via Of Montreal foi vivendo progressivamente mais longe do gume das atenções.


Talvez essa quase indiferença possa ser o destino do novo UR FUN, álbum que surge num tempo em que as ementas indie estão, na generalidade, longe dos apetites de quem opina sobre música e das tendências dos furacões de partilhas nas redes sociais. A verdade é que, depois de breves indícios no álbum Innocence Reaches (de 2016) e, mais ainda, no EP White Is Relic / Irrealis Mood (de 2018), UR FUN é um disco que, retomando valores concetuais de um Hissing Fauna, Are You The Destroyer, revela a mais inspirada e cativante coleção de canções que Kevin Barnes nos apresenta desde então. O disco, apesar de assinado como Of Montreal, nasceu de um retiro solitário, com jornadas longas vividas no estúdio que tem em sua casa.

É um disco indie pop e teve na sua génese uma admiração pelo modo como discos como She’s So Unusual de Cyndi Lauper ou Control de Janet Jackson eram feitos de canções que podiam, todas elas, ser lançadas como singles. O som aponta a assimilações de ecos dos oitentas. E o próprio tom da capa vinca essa ideia. UR FUN traduz uma pulsão pop luminosa que, aqui se manifesta em canções que, sem largar a clara assinatura da música de Kevin Barnes, revelam uma outra luz e leveza, deixando às palavras o papel de conferir a cada uma a respetiva carga narrativa e reflexiva. Há muito que não me fixava, tantas vezes, e com tanta vontade de regressar, a um disco dos Of Montreal...