segunda-feira, dezembro 01, 2014

Zizek, perversidade e cinema

A colaboração entre a cineasta Sophie Fiennes e Slavoj Zizek gerou, agora, uma reflexão sobre o funcionamento da(s) ideologia(s) — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Novembro), com o título 'As aventuras do perverso Zizek no país do cinema'.

De acordo com os padrões correntes de comunicação em frente a uma câmara, o filósofo esloveno Slavoj Zizek é, por certo, a antítese da sedução. Desde logo, porque o seu inglês, embora correcto é ágil, se apresenta marcado por um sotaque ansioso e agreste; depois, porque a assumida ligeireza da sua imagem convoca tanto o estereótipo do psicanalista delirante como a caricatura do professor distraído... E, no entanto, vê-lo (e ouvi-lo!) a falar durante cerca de duas horas no filme de Sophie Fiennes, O Guia de Ideologia do Depravado (estreia 27 Nov.; DVD nas lojas a 5 Dez.), é uma experiência de invulgar perplexidade e fascínio.
Dizer que estamos perante um documentário sobre o pensamento cinematográfico de Zizek, sendo correcto, é também francamente insuficiente. Isto porque os muitos filmes que ele cita — incluindo Breve Encontro (David Lean, 1945), Música no Coração (Robert Wise, 1965), Zabriskie Point (Michelangelo Antonioni, 1970), Nascido para Matar (Stanley Kubrick, 1987) ou Eles Vivem (John Carpenter, 1988) — não surgem como momentos de um qualquer padrão histórico, mas sim como sistemas de ideias que, por assim dizer, Zizek observa, decompõe e recompõe para sustentar o seu discurso sobre a ideologia.
Porque é esse, de facto, o tema nuclear de O Guia de Ideologia do Depravado: o modo como nos descobrimos a viver e pensar no interior de sistemas ideológicos, sistemas tanto mais fortes quanto criam uma ilusão de naturalidade (das imagens, por exemplo) e transparência (das histórias contadas através de imagens).
Nesta perspectiva, importa referir que o título português “desvia” a lógica do original (falhando mesmo a sua dimensão paródica). Não é um “depravado” que se coloca em cena, mas um “perverso” — ele ousa pensar que é possível resistir à normalização da ideologia mesmo quando se pensa a partir dela (ironia a sublinhar: Zizek vai falando em cenários que imitam os ambientes dos próprios filmes citados). Assim, sendo o original The Pervert’s Guide to Ideology, o título correcto seria “O Guia do Perverso para a Ideologia”.
Estamos perante um filme que prolonga a colaboração de Fiennes e Zizek, iniciada em 2006 com O Guia de Cinema do Depravado (The Pervert’s Guide to Cinema). Mesmo quando as associações ou implicações propostas por Zizek nos suscitam dúvidas, somos enredados num pensamento de infinita (e festiva!) agilidade que nos convoca para o prazer do cinema como linguagem que nos aproxima do Absoluto, mas mantendo-nos paradoxalmente ligados à crueza da matéria. Podemos, a esse propósito, citar o próprio Zizek, no seu recente livrinho Event – Philosophy in Transit (Penguin, 2014): “O Absoluto rapidamente se decompõe, desliza facilmente pelos nossos dedos, tem de ser tratado com o mesmo cuidado com que tratamos uma borboleta”.