sábado, dezembro 21, 2013

Em conversa: Marc Almond (2 / 3)

Continuamos a publicar uma entrevista com Marc Almond que serviu de base ao artigo 'Marc Almond estreia-se em Lisboa com Natal alternativo' publicado na edição de 19 de dezembro do DN. 

Foi-lhe dificil ultrapassar o momento de sucesso maior e grande exposição que viveu nos Soft Cell em inícios da década de 80?
Foi desafiante. Apercebi-me muito depressa de que os Soft Cell seriam algo muito limitativo para mim porque tinha muitas ideias musicais que queria explorar. Por isso fiz os Mambas, ainda os Soft Cell estavam ativos. Mas sabia que os Soft Cell não seriam suficientes para mim musicalmente. Mas não foi uma etapa difícil de vencer, até porque tive uma série de singles de êxito nos anos 80. Pensava que, quando me afastei dos Soft Cell, o volume de pessoas que me seguiam acabaria mais reduzido e que teria de batalhar de novo do começo. Inclusivamente porque decidi não tocar canções dos Soft Cell durante algum tempo, o que pode até ter sido uma decisão louca, não sei... Decidi, muito determinado, que não cantaria temas dos Soft Cell e que faria nome por mim mesmo como artista a solo. A dada altura revisitei o catálogo dos Soft Cell e reparei que podia voltar a amar aquelas canções. Tinha-me afastado por um tempo e tinha um ponto de vista que era necessariamente diferente do que antes conhecia quando fazia parte de um grupo do qual me queria desesperadamente afastar. Na verdade até houve uma revisitação maior mais recente, por volta de 2000 e 2001.

Para uma digressão e até um disco de originais...
Do qual fiquei com opiniões algo contraditórias. Os tempos dourados dos Soft Cell foram há 30 anos. Mas hoje sou uma pessoa diferente do que era então. Se quiser cantar canções dos Soft Cell prefiro antes pensar que é algo que tenho direito de fazer. Algo que ganhei o direito de poder fazer depois de trabalhar a solo tanto tempo.

Foi no histórico concerto no Royal Albert Hall, que depois gerou o álbum ao vivo 12 Years Of Tears que fez essas “pazes” com esse passado?
Foi talvez aí que, pela primeira vez, revisitei algumas dessas canções. Já não fazia o Tainted Love e o Say Hello Wave Goodbye há algum tempo. Eram canções com as quais me estava então a reconciliar. Foi voltar atrás 12 anos na minha carreira, sentido que entretanto tinha já construído todo um corpo de trabalho como artista a solo. Senti que tinha ganho o direito de revisitar esse material que também era meu, mas sem ter de depender dele. Tinha o poder para optar. Foi minha a decisão de não querer fazer as coisas de um modo fácil. Tinha de me recriar como um artista diferente.

O tempo fez de Mother Fist and Her Five Young Daughters, de 1987, um disco de culto e um “preferido” entre admiradores seus…
Recentemente, há pouco mais de um mês, tive a oportunidade de apresentar ao vivo todo esse álbum. Toquei-o todo pela primeira vez na íntegra, conseguindo inclusivamente reunir alguns dos músicos com quem o gravei. O público ficou até surpreendido quando, a meio do concerto, anunciei que ia tocar o disco todo... Foi até um teste... Um dia gostaria de fazer uma digressão baseada nesse disco, porque me apercebi que se transformou num favorito.

Tal como o é Torment & Toreros, que gravou como Marc & The Mambas em 1983?
Toquei o álbum dos Mambas na íntegra também não há muito tempo. Envolveu 15 músicos, e integrou o festival curado pelo Antony Hegarty, porque o Torment and Toreros é um dos álbuns preferidos dele. É uma das suas maiores influências. Esse foi um disco dificil de recriar. Fiz assim esse e o Mother Fist em menos de dois anos. São álbuns seminais que não fazia ideia que eram favoritos dos fãs. Não sei se poderei recriar novamente o Torment and Toreros da mesma maneira, porque é um projeto caro de concretizar. Mas o Mother Fist talvez um dia faça numa digressão.

(continua)