sexta-feira, dezembro 20, 2013

Em conversa: Marc Almond (1 / 3)

Começamos hoje a publicar uma entrevista com Marc Almond que serviu de base ao artigo 'Marc Almond estreia-se em Lisboa com Natal alternativo' publicado na edição de 19 de dezembro do DN. O cantor atua esta noite no Teatro Maria Matos (Lisboa), pelas 22.00.

Como surgiu a ideia de um concerto de Natal em Lisboa? 
Fui convidado pelo teatro para fazer algo especial tendo em vista o Natal. Surgiu assim uma oportunidade para poder fazer assim qualquer coisa diferente. Vou fazer algumas das minhas canções e também algumas canções de Natal, que me pediram no teatro. Vai ser um natal acústico e alternativo.

Tem canções de Natal que recorde entre as suas memórias de juventude?
Há algumas canções... Vou fazer umas mais tradicionais e também outras mais do universo do rock. Quando era um adolescente, nos anos 70, havia todos os anos um ou outro grupo que, por esta altura, surgia com um disco de canções de Natal. É de certa forma uma tradição. Muitos dos grupos de que gostava editavam assim um ou outro single de Natal, era algo pelo qual se esperava nesta altura do ano. Tenho algumas boas memórias dessas canções. Também farei algumas das minhas canções, que os fãs gostarão de ouvir. Vai ser um espetáculo acústico, com piano e guitarra, mas também com alguns samples. Haverá por isso também algumas eletrónicas.

Não é invulgar em alguns concertos seus vermos as suas canções em versões para voz e piano. Essa redução à essência entusiasma-o?
Gosto de despir as canções a esse patamar de maior simplicidade. Por vezes quando se está na estrada, durante uma digressão, há muitos músicos ao nosso redor e tudo acaba muito cheio. Por isso por vezes uma maneira de avaliar uma canção é a forma como se comporta quando a reduzimos ao essencial, retirando a instrumentação e vendo o que fica dessa canção. Gosto de pensar que, ao longo da minha carreira, fiz canções com uma melodia forte, com uma base forte, e que não dependem de uma batida de dança. É bom despir tudo isso e fazer uma abordagem mais minimal. Que, de resto, puxa também mais por mim como cantor.

Há quem o identifique ou como a voz dos Soft Cell ou como um torch singer. Não serão visões algo redutoras?
Estou com quase 30 anos de carreira a solo, e já passei por muitos estilos musicais, mas tento sempre estampar a minha identidade musical em cada canção que faço. Creio que seria uma loucura se, ao fim de 30 anos, estivesse a usar sempre o mesmo tipo de instrumentação. Por isso já fiz trabalhos com eletrónicas, canções mais orquestrais, mais rock, umas canções mais folk e outras mais esotéricas, tenho um catálogo muito diverso do qual posso escolher. Mas há outras, que não estão entre as favoritas de todos, que gosto sempre de cantar. Como por exemplo as canções de Jacques Brel. Cresci a ouvir as canções delem e gosto de as revisitar. Até mesmo as canções dos Soft Cell, em versões mais despidas porque, na essência, são canções melodicamente muito simples. Por isso posso fazer uma ou outra dessas canções preferidas.

Já gravou vários discos de versões. Porque gosta tanto de o fazer? 
É uma forma de prestar um tributo às minhas raízes e aqueles com quem cresci. Tornei-me um apaixonado da música muito cedo. Tinha ainda uns seis ou sete anos e já via os programas de música da televisão. A música marcou-me e causou impressões em mim desde muito novo. E quando cheguei à idade de comprar discos, aí com uns 13 ou 14 anos, entre os primeiros que adquiri estavam discos de David Bowie. Foi ele que me levou a ouvir Jacques Brel e versões de Brel por outros cantores, como o Scott Walker ou o Alex Harvey. E isso acendeu o meu interesse por outros cantores e canções francesas. Na verdade devo muito a David Bowie por muito do que fiz e faço. Foi ele quem me lançou nessa viagem musical. E gosto sempre de prestar esse tributo a essas raízes, ao que escutava e de onde vim. De certa maneira não é difícil ver de onde venho.

(continua)