sábado, Maio 11, 2013

Futebol e infantilismo

AUGUSTE RENOIR
Duas Irmãs
1882
A infantilização dos espectadores e dos olhares tornou-se uma regra brutal do espaço televisivo; no futebol, em particular, é um fenómeno quotidiano — esta crónica de televisão foi publicada no Diário de Notícias (10 Maio).

1. Momentos perturbantes na transmissão de um jogo de futebol: na segunda-feira, no final do Benfica-Estoril (SportTV), a realização deu-nos a ver uma série de planos aproximados de adeptos do clube da casa que permaneciam nas bancadas, mostrando uma evidente e dramática incredulidade pelo facto de a sua equipa... não ter ganho. Na sua indesmentível contundência simbólica, tais imagens envolvem um sintoma cruel: há pessoas (em todos os clubes, não tenho dúvidas) que vivem a relação com o futebol como se fosse a possibilidade de concretização de uma utopia infantil. Que utopia é essa? A de que o seu clube pode ganhar sempre! O assunto não é banal, sobretudo porque surge quotidianamente enquadrado por linguagens televisivas que promovem o clubismo mais cego. Ou seja: o clubismo que nunca é capaz de dar valor aos méritos do adversário, para mais enredado numa persistente desvalorização das equipas “pequenas”. Viu-se esta semana, outra vez, com os ecos do Paços de Ferreira-Sporting. A vitória da primeira equipa, que pode conseguir a extraordinária proeza de entrar na Liga dos Campeões, foi sempre secundarizada, dramatizando-se antes a possível ausência da segunda nas competições europeias... Tudo isto contaminado pela lamentável promoção do conflito pelo conflito. No final do jogo com o Benfica, o repórter perguntava mesmo ao treinador do Estoril se as palavras do treinador do Porto “espicaçaram” a sua equipa... Como??? Felizmente, Marco Silva fez o que importava fazer e, com serenidade, desvalorizou a provocação “jornalística”.

2. O infantilismo reinante começa, obviamente, na visão das crianças. Assim, regressam os exames para os alunos do 4º ano e uma vaga de pânico abala algumas reportagens televisivas: “coitadinhas” das crianças, não estarão a ser traumatizadas pelos papões da escola? Deste modo se propaga a noção de que uma criança é apenas um monstrinho caprichoso que importa afastar de qualquer noção de responsabilidade... Entretanto, para aconchegar as boas consciências, façam debates sobre a “crise” do ensino!