sábado, março 23, 2013

Wolfswinkel sai, entra Mozart?...

WOLFGANG AMADEUS MOZART
> retrato póstumo por Barbara Krafft, 1819
De acordo com uma lógica bélica de (des)informação, o país televisivo tem vivido sob a ocupação das eleições do Sporting — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Março), com o título 'Mozart vem para o Sporting?'.

Devo confessar que, já há algum tempo, a maioria dos debates televisivos sobre futebol me parece ser uma razão muito justa para, em nome do mais básico gosto pela serenidade mental, não simpatizar com nenhum clube. De facto, quando chegamos a essa triste rotina em que um penalty contra o “meu” clube só pode ser produto de uma conspiração oculta, não creio que haja espaço, disponibilidade ou afecto para sentir prazer com um jogo de futebol.
Como se isso não bastasse, nas últimas semanas temos assistido a uma avalancha informativa (?) sobre as eleições do Sporting que desafia toda e qualquer forma de bom senso. Escusado será dizer que o facto de ser um clube chamado “Sporting” é totalmente irrelevante para o problema de linguagens e valores informativos que aqui se analisa. Acontece que nos querem condenar à impossibilidade de fruição do próprio desporto: um acto eleitoral num clube surge, assim, promovido à condição de tragédia nacional compulsiva.
Ricky van Wolfswinkel
O caso é tanto mais grave quanto ilustra, de forma perversa e ditatorial, uma máxima que o semiólogo Christian Metz (1931-1993) nos ensinou nos seus estudos sobre a narrativa (cinematográfica). Assim, ao reflectir sobre os arranjos específicos de imagens e sons, Metz lembrou-nos que “o real não conta histórias”. Que é como quem diz: nada, em nenhum acontecimento, transporta qualquer obrigação narrativa. Somos nós que, escolhendo os acontecimentos e a forma de os relatar, somos responsáveis por todas as narrativas.
Que tem acontecido, então, neste país? Por exemplo, passou por Lisboa, na Fundação Gulbenkian, uma das maiores pianistas de toda a história da música: Mitsuko Uchida. Resultado? Qualquer candidato à presidência do Sporting desfruta de um obsceno tempo de antena, por certo algumas centenas de vezes superior ao que é concedido a Uchida (isto nos casos em que ela chegou a ser notícia). Há uma maneira mais simples de dizer isto: a televisão é o mais poderoso instrumento cultural dos nossos dias e, para os seus valores dominantes, Mozart não conta. A não ser que seja contratado para treinador adjunto...