Como é que a temporada dos Oscars "interfere" na dinâmica económica de Hollywood (e não só...)? Eis uma questão que se renova todos os anos, por certo com dados novos a considerar — escrito antes da cerimónia dos Oscars, este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Fevereiro), com o título 'Quantos milhões pode valer um Oscar?'.
Na sua antecipação da 85ª cerimónia dos Oscars, The Hollywood Reporter, uma das mais conhecidas e também mais respeitadas publicações ligadas à indústria cinematográfica dos EUA, publicou duas galerias de imagens de moda: os melhores e os piores vestidos já usados na passadeira vermelha. Curiosamente, a liderar, surgiam duas actrizes vencedoras: na lista das melhores, a nº1, Charlize Theron, apresentava-se com um visual a fazer lembrar Jean Harlow, em 2004, ano em que, com o filme Monstro, venceu na categoria de melhor actriz; Angelina Jolie, usando um “vampiresco” vestido negro, comandava a lista das piores, em 2000, quando Vida Interrompida lhe valeu o Oscar de melhor secundária.
Semelhantes curiosidades não resultam do mero gosto jornalístico pelo fait divers. A noite de Oscars envolve estratégias de divulgação e promoção muito elaboradas, vitais para uma indústria que, mais do que nunca, num planeta minado pelos circuitos da pirataria audiovisual, está empenhadíssima na defesa dos seus interesses estratégicos e económicos.
Podemos, por isso mesmo, perguntar quanto vale uma nomeação para os Oscars? Escusado será lembrar que as categorias “nobres” (filme, realizador, actores e actrizes) envolvem sempre um apelo mais forte do que as tarefas especificamente técnicas (fotografia, cenários, efeitos visuais, etc.). De qualquer modo, é possível obter uma avaliação global do efeito das nomeações. Foi isso mesmo que fez o analista Ray Subers, num artigo publicado no site Box Office Mojo, deparando com um valor nada banal: os nove títulos este ano nomeados na categoria de melhor filme acumularam nas salas americanas, depois das nomeações, mais de 300 milhões de dólares de receitas.
É um número tanto mais significativo quanto supera claramente o recorde anterior, de 260 milhões de dólares, referente a 1997, ano de Titanic. E há dois casos absolutamente espectaculares a confirmar que as nomeações possuem um genuíno valor promocional: dos 90 milhões de dólares de receita de 00:30 A Hora Negra, 83,8 foram obtidos depois das nomeações, enquanto Guia para um Final Feliz, já com um total de 103 milhões, acumulou 65,1 após a divulgação dos candidatos da Academia de Hollywood.
Escusado será dizer que tudo isto agudiza ainda mais a questão das audiências televisivas. A escolha de Seth MacFarlane, depois do regresso de Billy Crystal em 2012 (para muitos observadores, uma repetição desnecessária), envolveu uma perversa aposta de Hollywood: em vez de optar por uma estrela do próprio meio cinematográfico, a Academia foi buscar uma figura muito conhecida, mas através da televisão. Mais do que isso: enquanto criador de séries de animação de sucesso no pequeno ecrã (com inevitável destaque para Family Guy), MacFarlane tem o seu prestígio consolidado, sobretudo, junto dos espectadores mais jovens. Daí o enigma sociológico: até que ponto esses espectadores, formados na idade da Internet e dos formatos digitais, se reconhecem na pompa tradicional de Hollywood? Por uma alguma razão, num dos spots promocionais da cerimónia, ele utilizava estas divertidas palavras: “Olá, eu sou Seth MacFarlane (perguntem aos vossos filhos). E vou apresentar os prémios da Academia (perguntem aos vossos pais).”

