sábado, janeiro 22, 2011

No regresso de Gustavo Dudamel (parte 1)


N.G.: É entre os músicos, diluído assim entre a orquestra, sistematicamente agradecendo a um ou outro, possivelmente comentando ou trocando opiniões, que Gustavo Dudamel aceita os aplausos que, uma vez mais, levantaram de pé o Grande Auditório da Gulbenkian. Assim tinha sido com a Orquestra Juvenil Ibero Americana, na recta final de 2009. Mas desta vez o maestro assinalava a sua primeira visita a Lisboa acompanhado por uma orquestra não juvenil. E com a quase centenária Los Angeles Philharmonic mostrou, uma vez mais, porque é um dos grandes maestros do nosso tempo. Sem as “traquinices” em cumplicidade com as orquestras juvenis que já tínhamos visto em concertos anteriores, mas com um mesmo sentido de fôlego no gesto, uma capacidade em partilhar com a orquestra um claro entusiasmo (nela captando o melhor da energia de cada músico), projectando na sala essa forma muito sua de respirar música.

Foi interessante vê-lo a dirigir Bernstein. Dudamel herdou do grande maestro e compositor, que muito contribuiu para a construção de uma identidade americana na música do século XX, uma comunicabilidade e afabilidade que conquistam admiradores. E como ele tem também um modo muito físico de expressar o viver da música que dirige. Quase dança frente à orquestra. Gestos que acentuam os contrastes que caminham através da belíssima Sinfonia Nº 1 – Jeremiah (que fechou a primeira parte do concerto), em caminhos pelos quais escutamos as genéticas de um Mahler, mas também as que definiram primeiros traços de uma música americana e, depois, o buliço do jazz, dos palcos da Broadway, das luzes da cidade e, no fim, a lamentação do arrepiante andamento final durante o qual Dudamel garantiu à voz de Kelly O’Connor (meio-soprano) um digno espaço de projecção.

De um outro americano, mais próximo do tempo presente, viveu a abertura do concerto. Slominsky’s Earbox (peça de 1996 que homenageia o musicólogo, pianista, compositor e maestro russo Nicolas Slominsky), de John Adams, explora uma vez mais os jogos de contrastes que Dudamel tão bem gere com a LA Philharmonic. A obra, que expressa uma série de marcas de identidade da música de Adams (quer convocando elementos do minimalismo que o cativou num período inicial quer vincando um tempo de libertação rumo a outros espaços, citando o próprio compositor um interesse por Stravinsky na sua génese) acentua a boa relação que o maestro tem mantido com o compositor (que de resto compôs City Noir para o concerto inaugural de Dudamel com esta orquestra, em 2009).

Na segunda parte do concerto uma leitura com luz e viço da Sinfonia Nº 7 de Beethoven mostrou como Dudamel sabe igualmente vincar a sua personalidade numa música mais distante das formas mais marcadas pelo ritmo que muitas vezes são associadas a si (afinal o álbum Fiesta, de 2008, com a Simón Bolívar, acaba por ser ainda a sua obra discográfica de referência). Note-se aqui que esta mesma obra de Beethoven foi uma das que gravou em 2005 no seu primeiro disco com a orquestra juvenil venezuelana, da interpretação com a LA Philharmonic ficando clara uma forma semelhante de expressar a força melódica da escrita bem como um saber na condução dos acontecimentos, como se do desenrolar de uma narrativa se tratasse (o que se viu com particularmente brilho na interpretação do segundo andamento).

Ambas as obras que constituíram a primeira parte do concerto (ou sejam as de Adams e Bernstein) acabam de ter edição em disco integrada na série digital (um exclusivo para o iTunes) da Deutsche Grammophon. O alinhamento do disco inclui precisamente um recente registo ao vivo de Slominsky’s Earbox de John Adams e da Sinfonia Nº 1 – Jeremiah, de Leonard Bernstein, juntando, tal como vimos no concerto no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, a voz de Kelley O’Connor à Los Angeles Philharmonic. A capa do disco, como tem acontecido com outros lançamentos de concertos desta orquestra nesta série digital da Deutsche Grammophon, exibe um detalhe de um olhar sobre o edifício do Walt Disney Concert Hall em Los Angeles, a casa-sede desta orquestra que agora nos visita.

J.L.: De que falamos quando falamos de um maestro? Falamos sempre de... uma orquestra. Tantas vezes menorizado por alguns "especialistas", que o acusam de excessiva teatralidade (como se a música fosse a mera transcrição "técnica" do que está numa pauta), Gustavo Dudamel é, muito simplesmente, alguém que sabe valorizar até ao limite as qualidades dos músicos com que trabalha, oferecendo-lhes o rigor e a obstinação de uma verdadeira mise en scène.
O núcleo simbólico do primeiro concerto na Gulbenkian talvez possa ser designado, afinal, por um nome muito claro: Beethoven [retrato: Joseph Karl Stieler, 1820]. Aliás, chamemos-lhe antes: linha de fuga. Não apenas porque o concerto foi recuando no tempo — Adams + Bernstein na primeira parte, Beethoven na segunda —, mas também porque essa arquitectura (teatral, precisamente) nos permitiu estabelecer linhas de cumplicidade entre a sétima sinfonia, composta em 1811-12, e os fascinantes desafios rítmicos e atribulações melódicas dos dois compositores americanos. Em boa verdade, Dudamel avançou, assim, implicitamente, com uma subtil sugestão germânica para a compreensão do trabalho de alguns compositores made in USA. Em tempos em que tanto se exaltam os "cruzamentos" estéticos para disfarçar a ausência de qualquer ponto de vista minimamente consistente, Dudamel voltou a propor-nos uma digressão sonora em que a reconfiguração da escuta, longe de ser um banal estratagema formalista, tende a revalorizar as especificidades e o tempo de cada peça escutada.